cax1a

Um texto de José Hipólito dos Santos (*):

 
Transferidos do Reduto Norte para o Reduto Sul do Forte de Caxias 

De repente fomos avisados, na formatura do meio-dia, de que a prisão ia entrar em obras durante uns meses e que, durante esse tempo, seríamos instalados no forte do Reduto Sul, situado a 200m de distância. Aí funcionara uma prisão de «presos comuns», abandonada por não assegurar um mínimo de condições humanas para os presos.

A PIDE aproveitou essa transferência forçada para fazer grandes mudanças na distribuição dos presos, o que acontecia com frequência, para evitar que se consolidasse uma estrutura organizativa, com eventuais ideias «aventureiras». Foi assim que me fui encontrar com o meu irmão, numa sala com quarenta presos! Sala grande, no primeiro andar, desconfortável, bastante fria, mas de onde se via o estuário do Tejo e a estrada ao longe. Também se via passar as famílias, quando desciam (ou subiam) a estrada exterior, para cada turno de visitas – tanto elas como nós estávamos ameaçados de castigo, se houvesse qualquer tentativa de falar ou fazer sinais. Apesar de tudo, eram duas vantagens que bastante nos reconfortavam. 

Na parte da frente da prisão, mas ainda dentro do recinto prisional, havia um campo de jogos utilizado anteriormente pelos «presos comuns», o que nos fez pensar que iríamos ter o nosso recreio ali… Mas logo verificámos que estávamos a «sonhar»… Não, não era assim! Cheios de expectativa quando nos vieram chamar para o «recreiiiooo», rapidamente vimos que éramos levados para um pátio interior, pequeno, rodeado de muros muito altos e cheios de musgo, onde o Sol não chegava! De imediato, recusámos exigindo o espaço de jogos! Algumas salas tomaram a mesma posição, mas aquelas onde a maioria dos presos eram militantes do PCP aceitaram aquele «recreio», com um protesto formal por carta, fórmula aceite pela prisão.  

A discussão desta situação gerou o primeiro problema de organização… Na sala anterior éramos uma dúzia e a porta era de madeira, apenas com um sistema de «olho de Judas», orifício na porta, para os guardas verem o que se passava dentro da sala. Com alguns cuidados, era possível discutir, em colectivo, as questões sobre as quais entendíamos ser necessária a participação de todos, ou fazer discussões políticas. Agora, numa sala com 40 pessoas, as portas substituídas por portões de ferro gradeados, por onde o frio entrava em permanência, os plenários não eram possíveis, porque tal era proibido e porque teríamos de falar alto. Rapidamente nos pusemos de acordo para nos organizarmos em grupos de oito, cada grupo designando um coordenador. Depois, estes reuniam-se para conhecer a posição geral e tomar uma decisão final, o que poderia exigir novas reuniões de base. Eu fui eleito coordenador de um grupo. 

Entretanto, estávamos em Dezembro, o frio entrava por todos os lados, as novas condições de «habitat» eram más, havia muitos presos que não se conheciam entre si, e aparecia sempre alguém desconhecido de todos, o que suscitava alguma desconfiança; e muitas tensões. Havia naturalmente uma grande diversidade de temperamentos, de formas de estar face às condições prisionais e à existência de situações familiares difíceis. E, claro, a força do desejo sexual agia sem encontrar resposta, sem ter como se sublimar, atacando todos, uns mais que outros, e provocando sempre perturbações que se manifestavam das mais diversas maneiras. E perdêramos o recreio, que assegurava alguma acalmia, um intervalo em que andávamos num espaço aberto e podíamos ver o sol sem ser aos «quadradinhos»!

 
O peso da quadra natalícia que se aproximava

O peso da época das festividades de Natal e de fim de ano, ditas festas tradicionais da família, provocava uma grande angústia em todos os presos. Do meu terceiro piso do beliche, num canto, ouvia, por entre a escuridão e o silêncio da noite, as lamúrias e choros contidos, ou não, o falar sofrido, no meio de pesadelos. Uma boa parte dos presos – a maior parte do «Caso de Beja» – eram pessoas mais dadas à acção, tinham pouca preparação política e suportavam mal a situação em que se encontravam. Além disso, estavam presas havia quase um ano e nada se sabia sobre a hipótese dum julgamento.

Tudo isto me trabalhava na cabeça e provocava um grande mal estar físico e emocional. Temia que as manifestações de angústia se generalizassem, gerando situações de tensão e de conflito aberto, tanto mais que a continuação da recusa do recreio fazia aumentar o desespero dos companheiros. Comecei a falar destas minhas preocupações e a discutir o assunto com outros. Foi assim que acabámos por nos pôr de acordo que era preciso fazer alguma coisa pelo que preparámos uma «proposta» para ser discutida nos grupos de base: organizar um conjunto de actividades «natalícias» dentro da sala!

Os presos mais «politizados» achavam que não, que um «revolucionário» não deve alinhar nessas coisas «alienantes», que estávamos numa prisão política e que o regime até agradeceria… As críticas e oposições ajudaram a construir uma «proposta festiva», que se enriquecia continuamente e que eu defendia convictamente, ainda que não tivesse o hábito, «lá fora», de «nataliar».

Depois de muita discussão, essa proposta acabou por ser aprovada, fazendo-se uma carta ao director da prisão pedindo autorização para a sua concretização! A carta foi preparada, aprovada pelos grupos e entregue ao chefe dos guardas no decurso da formatura do meio-dia. O que pedíamos? A entrada de uma «árvore de natal, um pinheiro», folhas de cartolina de diversas cores, papel branco, cartão grosso, lápis de cores, cola, tesouras e outras coisas do género. Pedia-se ainda autorização para preparar algumas canções[1], para a noite de consoada, fazendo ensaios todos os dias, antes ou depois do jantar.

Este pedido provocou uma grande expectativa dentro da sala, com a maioria a dizer que não conseguiríamos, mas também nos presos das outras salas, a quem enviáramos uma mensagem explicando o que queríamos fazer. Surpresa, igualmente, na direcção da cadeia, pouco habituada a manifestações cujo sentido ela não compreendia. Assim, naturalmente teve de consultar a direcção da PIDE, apanhada também ela nessa incompreensão! Durante alguns dias, todos os companheiros discutiam e divertiam-se com a situação criada, pois os guardas diziam que a direcção estava a «estudar o assunto», alguns insinuando mesmo que estávamos malucos… A resposta chegou: «sim, estávamos autorizados! Mas tudo – árvore de natal, coros – devia ser apresentado na prisão, numa grande sala a preparar, com a presença de todos os presos, e os directores da PIDE e da cadeia»… (e, certamente, também, da rádio e da TV, o que não era dito!) Não foi necessário discutirmos muito para responder que não aceitávamos tais condições. Eventualmente, estávamos dispostos a apresentar o nosso trabalho, numa sessão com a presença exclusiva dos outros companheiros de cativeiro, e dos guardas que na altura estivessem de serviço. Mas só isso!

Entretanto, não parávamos de receber recados, alguns insultuosos, das outras salas!… Começavam a insinuar que éramos «rachados»[2], insulto extremamente grave!… E as nossas famílias, que colaboravam na nossa iniciativa, eram severamente criticadas e acusadas de hábitos reaccionários e burgueses.

Finalmente, a PIDE autorizou o nosso pedido! Não haveria qualquer tipo de espectáculo, tão pouco uma Exposição dos nossos trabalhos, ficava tudo circunscrito à nossa sala. Certamente pensavam conseguir, mesmo assim, tirar algum partido duma iniciativa insólita entre presos políticos!

Tínhamos mais de duas semanas até ao Natal e o trabalho a fazer era muito… Constituíram-se rapidamente grupos de trabalho para definir, discutir e aprovar o que se ia fazer. Em seguida, elaborou-se um plano de trabalho para cada uma das actividades que se iam lançar – «árvore de natal com presépio», iniciativa de um pequeno grupo que assim decidiu, uma árvore de natal «revolucionária» que juntava a maioria, um grupo de canto coral com canções do Sul – alentejanas – e outro grupo de canções do folclore nacional; um outro grupo para escrever letras politizadas anti-fascistas, em substituição ou em complemento das letras das canções escolhidas. Algumas das «Heróicas» do Lopes Graça e algumas revolucionárias; entre elas, uma, em preparação, o «hino da revolta de Beja». Toda a gente estava contente e integrada numa dada actividade! Além disso, e como o ambiente da sala estava nitidamente melhor, as tensões tinham diminuído e organizavam-se actividades de estudo e de jogos. Vários de nós dávamos aulas sobre matérias escolhidas: eu ensinava economia e também cooperativismo; havia aulas de alfabetização, de história, além de se promoverem debates sobre a política internacional e nacional, de forma estruturada. O Alípio Rocha e eu próprio preparávamos, para o 1º de Janeiro, data do Assalto ao Quartel de Beja, um jornal – Nova Aurora.

Estávamos entusiasmados, em pleno trabalho, discutíamos e ríamos muito com tudo o que se estava a fazer; e o gozo aumentava quando, ao fim do dia, ensaiávamos as várias canções, em voz relativamente baixa (como aceitáramos, para obter a autorização) e se experimentava, com muito cuidado, a transformação «revolucionária» das letras, para que os guardas não se apercebessem.

Uns dias antes da noite de consoada, o chefe dos guardas veio perguntar qual o prato que queríamos nessa noite – ficámos admirados com a consulta, quando a resposta era óbvia: bacalhau com todos! Que sim, anuiu ele. Teríamos também uma garrafa de vinho para cada grupo de 5!

 
Os acontecimentos da noite de consoada

Chegou a noite de 24. Tínhamos tudo preparado. Num canto, uma pequena «árvore de natal» com um presépio em que as várias figuras tinham sido desenhadas e recortadas em cartolina, assim como o menino, as palhinhas, a manjedoura, etc. Eram 6 ou 7 presos que estavam envolvidos nisso, além de o estarem igualmente nos coros. Outra «árvore», uma árvore grande, enfeitada com estrelas vermelhas, com figuras de trabalhadores – carpinteiros, ferreiros, mineiros, camponeses – e os seus instrumentos de trabalho, muitas foices e martelos, bigornas e tornos, algumas armas e dísticos revolucionários…

Ainda antes da hora do jantar, vieram trazer-nos oito garrafas de vinho tinto. Mas não havia saca-rolhas, como não havia facas ou navalhas… Era uma provocação! Que fazer? Eventualmente partir o gargalo e filtrar com papel higiénico, para evitar os bocaditos de vidro… Finalmente, uma ideia luminosa – o vinho sendo alcoólico, seria possível com cuidado provocar a expansão do seu «gás», tendo em conta que a garrafa nunca está cheia completamente. Iniciou-se então a operação de bater o fundo da garrafa, devidamente «acolchoado», contra a parede – operação que durou cerca de uma hora, mas finalmente tínhamos as garrafas abertas. Só uma se partiu! A qualidade do vinho já não era a melhor, e com a sua «agitação gasosa», não melhorou nada… Mas encheu-nos de alegria o termos conseguido ludibriar a humilhação que nos tinham preparado! De resto, o bater das garrafas nas paredes comunicou-se a todas as salas! Era o «concerto das garrafas»…

Chegou o jantar! Seria bacalhau, tinha dito o chefe dos guardas… Mas não. Era um peixe cozido, faneca, a desfazer-se, com batatas e alguma hortaliça, acompanhadas, como de costume, por pequenas larvas de couve, bastante repugnantes. A reacção dos companheiros foi a melhor! Isso era a natureza do regime contra o qual lutávamos! Queriam humilhar-nos? Ninguém comeu, mas tínhamos guardados alguns bons bocados de «pitéus» trazidos pelas visitas e que púnhamos no nosso sistema de «comuna»[3].

E é já nessa euforia crescente que se começa a cantar – no meio dum grande silêncio de toda a prisão e já com as luzes apagadas, isto é, depois da hora regulamentar. As canções sucediam-se, por vezes, com acompanhamento de outras salas. Tínhamos decidido que não sairíamos do quadro apresentado, isto é, de uma série de canções em coro, com uma duração de cerca de uma hora, e foi isso que fizemos. A última canção foi o «Baleizão, Baleizão» que esperávamos provocaria a adesão de outras salas. Assim aconteceu. Esta canção do folclore alentejano cantava-se por todo o Sul do país, nas situações mais diversificadas. E as quadras também se adaptavam a todas as situações, nomeadamente sob formas de protesto. Fora na aldeia de Baleizão que, em 1954, uma camponesa, Catarina Eufémia, foi morta pela GNR, na frente de um grupo de mulheres que se recusava a trabalhar, pedindo aumento de salário.

Foi com esta evocação que terminámos as nossas cantorias – «Ó Baleizão, Baleizão / Ó terra da Catarina / Onde nasceu e morreu / Com uma bala assassina!»

Quando nos calámos, rodeados pela escuridão, fez-se um profundo silêncio em toda a prisão e, alguns segundos depois, da sala do lado, onde se encontravam vários dirigentes do PCP (Octávio Pato, Pires Jorge, Dias Lourenço e outros), ecoou «Amiga Catarina Eufémia / Jovem de Baleizão / Morreu a pedir a Paz/ Com a Paz no coração»“… Parecia que tinha sido combinado e se passara de maneira inesperadamente bem sincronizada! Foi um momento extraordinário de confraternização! Todos estávamos profundamente emocionados, ficámos silenciosos a desfrutar esse momento inigualável! É um momento que ainda hoje recordo com grande emoção.

Não houve «desbordamentos» graves em relação ao que fora acordado – os guardas, a partir de certa altura, dada a adesão das outras salas, devem ter chegado a temer algo mais grave do ponto de vista disciplinar. Mas a situação rapidamente voltou à «normalidade»: dormir sossegados tanto quanto se podia.

 
E a luta continua…

Dois ou três dias depois, o director acompanhado de um inspector da PIDE entrou na sala para ver o que fizéramos – limitaram-se a olhar, sem fazer comentários, e mandando os guardas desfazer a árvore «revolucionária».

Mas havia no ar algo de estranho nas relações com os guardas… Sentíamos que se estava a preparar uma ofensiva qualquer… Dias mais tarde, alguns de nós foram castigados com corte de visitas por um mês, por termos protestado contra as condições do novo parlatório. No meu caso, fui também punido com transferência para uma outra sala, com 54 presos e, de novo, uma semana depois, fiz parte do grupo que foi reabrir uma sala, até aí vazia, por demasiado insalubre. O director decidiu utilizá-la para castigar os presos mais envolvidos nos acontecimentos recentes.

Voltei assim a encontrar alguns dos companheiros que tinham tido posições mais firmes, vindos da sala da «festa de natal»; mas também companheiros que já conhecia de outras salas, como o Edmundo Pedro, o Augusto Ribeiro, o Alípio Rocha e alguns outros presos desconhecidos, ou quase, para a maioria. Posteriormente, viemos a descobrir que dois ou três dos novos companheiros estavam a fornecer informações ao director da cadeia do que se passava dentro da sala!… Em consequência, decorridas algumas semanas, fui novamente castigado com 10 dias numa casamata subterrânea do Reduto Norte!

 
[1] Era proibido cantar ou utilizar qualquer instrumento musical, ou mesmo assobiar. Enquanto estive nos «curros», fui castigado com corte de uma visita semanal (eram 15 minutos, na presença de um agente policial), por ter cantado no corredor!

[2] Era a designação atribuída a presos que se declaravam arrependidos, que colaboravam com a PIDE e que tinham um estatuto especial de «regalias» dentro da prisão – eram colocados juntos numa mesma sala – a «sala dos rachados».
[3] Apesar da sua proibição, a comida e bolos trazidos pelas famílias eram postos na «comuna» que os companheiros «cantineiros» arranjavam para que todos pudessem ter uma pequena parte. Havia claramente famílias que tinham mais posses e que viviam em Lisboa, enquanto a maior parte dos presos eram de famílias pobres e que não podiam vir à visita com frequência. Isto levantava muitos problemas nas salas com muitos presos.
 
(*) Biografia de José Hipólito dos Santos
 

 
 

 

 

 

 

Transferidos  do Reduto Norte para o Reduto Sul do Forte de Caxias

De repente fomos avisados, na formatura do meio-dia, de que a prisão ia entrar em obras durante uns meses e que, durante esse tempo, seríamos instalados no forte do Reduto Sul, situado a 200m de distância. Aí funcionara uma prisão de «presos comuns», abandonada por não assegurar um mínimo de condições humanas para os presos.

A PIDE aproveitou essa transferência forçada para fazer grandes mudanças na distribuição dos presos, o que acontecia com frequência, para evitar que se consolidasse uma estrutura organizativa, com eventuais ideias «aventureiras». Foi assim que me fui encontrar com o meu irmão, numa sala com quarenta presos! Sala grande, no primeiro andar, desconfortável, bastante fria, mas de onde se via o estuário do Tejo e a estrada ao longe. Também se via passar as famílias, quando desciam (ou subiam) a estrada exterior, para cada turno de visitas – tanto elas como nós estávamos ameaçados de castigo, se houvesse qualquer tentativa de falar ou fazer sinais. Apesar de tudo, eram duas vantagens que bastante nos reconfortavam.

Na parte da frente da prisão, mas ainda dentro do recinto prisional, havia um campo de jogos utilizado anteriormente pelos presos comuns», o que nos fez pensar que iríamos ter o nosso recreio ali… Mas logo verificámos que estávamos a «sonhar»… Não, não era assim! Cheios de expectativa quando nos vieram chamar para o «recreiiiooo», rapidamente vimos que éramos levados para um pátio interior, pequeno, rodeado de muros muito altos e cheios de musgo, onde o Sol não chegava! De imediato, recusámos exigindo o espaço de jogos! Algumas salas tomaram a mesma posição, mas aquelas onde a maioria dos presos eram militantes do PCP, aceitaram aquele «recreio», com um protesto formal por carta, fórmula aceite pela prisão. 

A discussão desta situação gerou o primeiro problema de organização… Na sala anterior éramos uma dúzia e a porta era de madeira, apenas com um sistema de «olho de Judas», orifício na porta, para os guardas verem o que se passava dentro da sala. Com alguns cuidados, era possível discutir, em colectivo, as questões sobre as quais entendíamos ser necessária a participação de todos, ou fazer discussões políticas. Agora, numa sala com 40 pessoas, as portas substituídas por portões de ferro gradeados, por onde o frio entrava em permanência, os plenários não eram possíveis, porque tal era proibido e porque teríamos de falar alto. Rapidamente nos pusemos de acordo para nos organizarmos em grupos de oito, cada grupo designando um coordenador. Depois, estes reuniam-se para conhecer a posição geral e tomar uma decisão final, o que poderia exigir novas reuniões de base. Eu fui eleito coordenador de um grupo.

Entretanto, estávamos em Dezembro, o frio entrava por todos os lados, as novas condições de «habita»” eram más, havia muitos presos que não se conheciam entre si, e aparecia sempre alguém desconhecido de todos, o que suscitava alguma desconfiança; e muitas tensões. Havia naturalmente uma grande diversidade de temperamentos, de formas de estar face às condições prisionais e à existência de situações familiares difíceis. E, claro, a força do desejo sexual agia sem encontrar resposta, sem ter como se sublimar, atacando todos, uns mais que outros, e provocando sempre perturbações que se manifestavam das mais diversas maneiras. E perdêramos o recreio, que assegurava alguma acalmia, um intervalo em que andávamos num espaço aberto e podíamos ver o sol sem ser aos «quadradinhos»!

 

O peso da quadra natalícia que se aproximava

O peso da época das festividades de Natal e de fim de ano, ditas festas tradicionais da família, provocava uma grande angústia em todos os presos. Do meu terceiro piso do beliche, num canto, ouvia, por entre a escuridão e o silêncio da noite, as lamúrias e choros contidos, ou não, o falar sofrido, no meio de pesadelos. Uma boa parte dos presos – a maior parte do «Caso de Beja» – eram pessoas mais dadas à acção, tinham pouca preparação política e suportavam mal a situação em que se encontravam. Além disso, estavam presas havia quase um ano e nada se sabia sobre a hipótese dum julgamento.

Tudo isto me trabalhava na cabeça e provocava um grande mal estar físico e emocional. Temia que as manifestações de angústia se generalizassem, gerando situações de tensão e de conflito aberto, tanto mais que a continuação da recusa do recreio fazia aumentar o desespero dos companheiros. Comecei a falar destas minhas preocupações e a discutir o assunto com outros. Foi assim que acabámos por nos pôr de acordo que era preciso fazer alguma coisa pelo que preparámos uma «proposta» para ser discutida nos grupos de base: organizar um conjunto de actividades «natalícias» dentro da sala! 

Os presos mais «politizados» achavam que não, que um «revolucionário» não deve alinhar nessas coisas «alienantes», que estávamos numa prisão política e que o regime até agradeceria… As críticas e oposições ajudaram a construir uma «proposta festiva», que se enriquecia continuamente e que eu defendia convictamente, ainda que não tivesse o hábito, «lá fora», de «nataliar».

Depois de muita discussão, essa proposta acabou por ser aprovada, fazendo-se uma carta ao director da prisão pedindo autorização para a sua concretização! A carta foi preparada, aprovada pelos grupos e entregue ao chefe dos guardas no decurso da formatura do meio-dia. O que pedíamos? A entrada de uma «árvore de natal, um pinheiro», folhas de cartolina de diversas cores, papel branco, cartão grosso, lápis de cores, cola, tesouras e outras coisas do género. Pedia-se ainda autorização para preparar algumas canções[1], para a noite de consoada, fazendo ensaios todos os dias, antes ou depois do jantar.

Este pedido provocou uma grande expectativa dentro da sala, com a maioria a dizer que não conseguiríamos, mas também nos presos das outras salas, a quem enviáramos uma mensagem explicando o que queríamos fazer. Surpresa, igualmente, na direcção da cadeia, pouco habituada a manifestações cujo sentido ela não compreendia. Assim, naturalmente teve de consultar a direcção da PIDE, apanhada também ela nessa incompreensão! Durante alguns dias, todos os companheiros discutiam e divertiam-se com a situação criada, pois os guardas diziam que a direcção estava a «estudar o assunto», alguns insinuando mesmo que estávamos malucos… A resposta chegou: «sim, estávamos autorizados! Mas tudo – árvore de natal, coros – devia ser apresentado na prisão, numa grande sala a preparar, com a presença de todos os presos, e os directores da PIDE e da cadeia»… (e, certamente, também, da rádio e da TV, o que não era dito!) Não foi necessário discutirmos muito para responder que não aceitávamos tais condições. Eventualmente, estávamos dispostos a apresentar o nosso trabalho, numa sessão com a presença exclusiva dos outros companheiros de cativeiro, e dos guardas que na altura estivessem de serviço. Mas só isso!

Entretanto, não parávamos de receber recados, alguns insultuosos, das outras salas!… Começavam a insinuar que éramos «rachados»[2], insulto extremamente grave!… E as nossas famílias, que colaboravam na nossa iniciativa, eram severamente criticadas e acusadas de hábitos reaccionários e burgueses.

Finalmente, a PIDE autorizou o nosso pedido! Não haveria qualquer tipo de espectáculo, tão pouco uma Exposição dos nossos trabalhos, ficava tudo circunscrito à nossa sala. Certamente pensavam conseguir, mesmo assim, tirar algum partido duma iniciativa insólita entre presos políticos!

Tínhamos mais de duas semanas até ao Natal e o trabalho a fazer era muito… Constituíram-se rapidamente grupos de trabalho para definir, discutir e aprovar o que se ia fazer. Em seguida, elaborou-se um plano de trabalho para cada uma das actividades que se iam lançar – «árvore de natal com presépio», iniciativa de um pequeno grupo que assim decidiu, uma árvore de natal «revolucionária» que juntava a maioria, um grupo de canto coral com canções do Sul – alentejanas – e outro grupo de canções do folclore nacional; um outro grupo para escrever letras politizadas anti-fascistas, em substituição ou em complemento das letras das canções escolhidas. Algumas das «Heróicas» do Lopes Graça e algumas revolucionárias; entre elas, uma, em preparação, o «hino da revolta de Beja». Toda a gente estava contente e integrada numa dada actividade! Além disso, e como o ambiente da sala estava nitidamente melhor, as tensões tinham diminuído e organizavam-se actividades de estudo e de jogos. Vários de nós dávamos aulas sobre matérias escolhidas: eu ensinava economia e também cooperativismo; havia aulas de alfabetização, de história, além de se promoverem debates sobre a política internacional e nacional, de forma estruturada. O Alípio Rocha e eu próprio preparávamos, para o 1º de Janeiro, data do Assalto ao Quartel de Beja, um jornal –  Nova Aurora.

Estávamos entusiasmados, em pleno trabalho, discutíamos e ríamos muito com tudo o que se estava a fazer; e o gozo aumentava quando, ao fim do dia, ensaiávamos as várias canções, em voz relativamente baixa (como aceitáramos, para obter a autorização) e se experimentava, com muito cuidado, a transformação «revolucionária» das letras, para que os guardas não se apercebessem.

Uns dias antes da noite de consoada, o chefe dos guardas veio perguntar qual o prato que queríamos nessa noite – ficámos admirados com a consulta, quando a resposta era óbvia: bacalhau com todos! Que sim, anuiu ele. Teríamos também uma garrafa de vinho para cada grupo de 5!

Os acontecimentos da noite de consoada

Chegou a noite de 24. Tínhamos tudo preparado. Num canto, uma pequena «árvore de natal» com um presépio em que as várias figuras tinham sido desenhadas e recortadas em cartolina, assim como o menino, as palhinhas, a manjedoura, etc. Eram 6 ou 7 presos que estavam envolvidos nisso, além de o estarem igualmente nos coros. Outra «árvore», uma árvore grande, enfeitada com estrelas vermelhas, com figuras de trabalhadores – carpinteiros, ferreiros, mineiros, camponeses – e os seus instrumentos de trabalho, muitas foices e martelos, bigornas e tornos, algumas armas e dísticos revolucionários…

Ainda antes da hora do jantar, vieram trazer-nos oito garrafas de vinho tinto. Mas não havia saca-rolhas, como não havia facas ou navalhas… Era uma provocação! Que fazer? Eventualmente partir o gargalo e filtrar com papel higiénico, para evitar os bocaditos de vidro… Finalmente, uma ideia luminosa –  o vinho sendo alcoólico, seria possível com cuidado provocar a expansão do seu «gás», tendo em conta que a garrafa nunca está cheia completamente. Iniciou-se então a operação de bater o fundo da garrafa, devidamente «acolchoado», contra a parede – operação que durou cerca de uma hora, mas finalmente tínhamos as garrafas abertas. Só uma se partiu! A qualidade do vinho já não era a melhor, e com a sua «agitação gasosa», não melhorou nada… Mas encheu-nos de alegria o termos conseguido ludibriar a humilhação que nos tinham preparado! De resto, o bater das garrafas nas paredes comunicou-se a todas as salas! Era o «concerto das garrafas»…

Chegou o jantar! Seria bacalhau, tinha dito o chefe dos guardas… Mas não. Era um peixe cozido, faneca, a desfazer-se, com batatas e alguma hortaliça, acompanhadas, como de costume, por pequenas larvas de couve, bastante repugnantes. A reacção dos companheiros foi a melhor! Isso era a natureza do regime contra o qual lutávamos! Queriam humilhar-nos? Ninguém comeu, mas tínhamos guardados alguns bons bocados de «pitéus» trazidos pelas visitas e que púnhamos no nosso sistema de «comuna»[3].

E é já nessa euforia crescente que se começa a cantar –  no meio dum grande silêncio de toda a prisão e já com as luzes apagadas, isto é, depois da hora regulamentar. As canções sucediam-se, por vezes, com acompanhamento de outras salas. Tínhamos decidido que não sairíamos do quadro apresentado, isto é, de uma série de canções em coro, com uma duração de cerca de uma  hora, e foi isso que fizemos. A última canção foi o «Baleizão, Baleizão» que esperávamos provocaria a adesão de outras salas. Assim aconteceu. Esta canção do folclore alentejano cantava-se por todo o Sul do país, nas situações mais diversificadas. E as quadras também se adaptavam a todas as situações, nomeadamente sob formas de protesto. Fora na aldeia de Baleizão que, em 1954, uma camponesa, Catarina Eufémia, foi morta pela GNR, na frente de um grupo de mulheres que se recusava a trabalhar, pedindo aumento de salário. 

Foi com esta evocação que terminámos as nossas cantorias – «Ó Baleizão, Baleizão / Ó terra da Catarina / Onde nasceu e morreu / Com uma bala assassina!»

Quando nos calámos, rodeados pela escuridão, fez-se um profundo silêncio em toda a prisão e, alguns segundos depois, da sala do lado, onde se encontravam vários dirigentes do PCP (Octávio Pato, Pires Jorge, Dias Lourenço e outros), ecoou «Amiga Catarina Eufémia / Jovem de Baleizão / Morreu a pedir a Paz/ Com a Paz no coração»“… Parecia que tinha sido combinado e se passara de maneira inesperadamente bem sincronizada! Foi um momento extraordinário de confraternização! Todos estávamos profundamente emocionados, ficámos silenciosos a desfrutar esse momento inigualável! É um momento que ainda hoje recordo com grande emoção.

Não houve «desbordamentos» graves em relação ao que fora acordado – os guardas, a partir de certa altura, dada a adesão das outras salas, devem ter chegado a temer algo mais grave do ponto de vista disciplinar. Mas a situação rapidamente voltou à «normalidade»: dormir sossegados tanto quanto se podia.

E a luta continua…

Dois ou três dias depois, o director acompanhado de um inspector da PIDE entrou na sala para ver o que fizéramos – limitaram-se a olhar, sem fazer comentários, e mandando os guardas desfazer a árvore «revolucionária».

Mas havia no ar algo de estranho nas relações com os guardas… Sentíamos que se estava a preparar uma ofensiva qualquer… Dias mais tarde, alguns de nós foram castigados com corte de visitas por um mês, por termos protestado contra as condições do novo parlatório. No meu caso, fui também punido com transferência para uma outra sala, com 54 presos e, de novo, uma semana depois, fiz parte do grupo que foi reabrir uma sala, até aí vazia, por demasiado insalubre. O director decidiu utilizá-la para castigar os presos mais envolvidos nos acontecimentos recentes.

Voltei assim a encontrar alguns dos companheiros que tinham tido posições mais firmes, vindos da sala da «festa de natal»; mas também companheiros que já conhecia de outras salas, como o Edmundo Pedro, o Augusto Ribeiro, o Alípio Rocha e alguns outros presos desconhecidos, ou quase, para a maioria. Posteriormente, viemos a descobrir que dois ou três dos novos companheiros estavam a fornecer informações ao director da cadeia do que se passava dentro da sala!… Em consequência, decorridas algumas semanas, fui novamente castigado com 10 dias numa casamata subterrânea do Reduto Norte!

 

 


 

[1] Era proibido cantar ou utilizar qualquer instrumento musical, ou mesmo assobiar. Enquanto estive nos «curros», fui castigado com corte de uma visita semanal (eram 15 minutos, na presença de um agente policial), por ter cantado no corredor!

[2] Era a designação atribuída a presos que se declaravam arrependidos, que colaboravam com a PIDE e que tinham um estatuto especial de «regalias» dentro da prisão – eram colocados juntos numa mesma sala – a «sala dos rachados».

 

[3] Apesar da sua proibição, a comida e bolos trazidos pelas famílias eram postos na «comuna» que os companheiros «cantineiros» arranjavam para que todos pudessem ter uma pequena parte.  Havia claramente famílias que tinham mais posses e que viviam em Lisboa, enquanto a maior parte dos presos eram de famílias pobres e que não podiam vir à visita com frequência. Isto levantava muitos problemas nas salas com muitos presos.

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