Testemunhos


Um texto de José Augusto Rocha (*)

Com a partida de Saldanha Sanches para as longínquas paragens do além, desaparece um cidadão que foi um grande exemplo de coragem, de dignidade e de lucidez e que soube libertar, desde a juventude, o coração de toda a inércia da indiferença. Desaparece alguém que soube dizer sim à fraternidade e ao amor e que na memória dos amigos nasce todos os dias, manhã cedo.

Foi vasta, dura e persistente a luta política de Saldanha Sanches e quando chegou a alvorada do 25 de Abril, estava preso e ia ser julgado no Tribunal Plenário, no seguimento de um despacho de pronúncia, de 1 de Fevereiro de 1974, subscrito pelo Juiz, Serafim das Neves. Militava então no MRPP, organização que o despacho de pronúncia descrevia como “uma organização embrionária do futuro Partido Revolucionário do Proletariado Português e rege-se, quer na sua linha política, quer nos seus métodos organizativos, pelas doutrinas e teorias do marxismo leninismo, adaptando na sua actuação prática os princípios básicos dos processos revolucionários de Lenine e Mao-Tsé-Tung.”

A acusação, para fazer o enquadramento dos crimes contra a segurança do Estado, prosseguia, dizendo: “ sendo portanto uma organização de índole comunista do tipo marxista-leninista-maoista e que preconiza a luta armada, adaptando ainda métodos anarquistas na prossecução da sua actividade e visa como seu principal objectivo, conseguir por meios violentos, quer pela insurreição armada, quer por táctica de guerrilha, o derrube do regime vigente com a consequente alteração da Constituição Política.

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O Zé Luís foi um dos primeiros heróis que conheci. Meses antes de eu chegar à Faculdade, fora apanhado pela polícia durante uma distribuição de comunicados, resistira à prisão e fora baleado. Foi aos gritos de “Liberdade para o Saldanha Sanches” que pela primeira vez participei numa manifestação, no dia do seu julgamento.

Condenado à prisão já sofrida de dez meses, saíu imediatamente. Algum tempo depois, voltaria a ser preso, por poucos dias, na Cantina da Cidade Universitária, e expulso da Universidade por quatro anos.

Passou então à clandestinidade e voltou a ser preso e condenado a três anos de prisão e aplicação de medidas de segurança. Reencontrei-o durante as minhas visitas ao Alexandre Oliveira, em Peniche. Por vezes ouvia, do outro lado do vidro, as suas gargalhadas inconfundíveis.

Depois do 25 de Abril, durante as perseguições ao MRPP, passou alguns dias em minha casa. Era um clandestino exemplar: ajudava na cozinha, lavava a louça e, embora tivesse uma arma, deixava-a fora do quarto que partilhava com a minha filha de poucos meses.

No início dos anos 90, entrevistei-o para a série “Geração de 60”. Tinha mudado bastante, mas afirmava a sua alegria ao olhar para trás e saber que tinha participado na luta para mudar o país: “Acho isso uma alegria permanente na vida de uma pessoa.” Mesmo se o impediu de outro passado: “Namorar, sair à noite, beber um copo de vez em quando.” “Mas”, terminou, “a vida é sempre uma coisa finita, há sempre um número infinito de formas de a usar bem e só se pode usar de algumas formas, não é?”

Um texto de Justino Pinto de Andrade

(UM DIA ALGUÉM ESCREVEU NOS MUROS DE LISBOA:
“O POVO LIBERTARÁ SALDANHA SANCHES”)

Dedicatória:
Aos meus amigos, Diana Andringa e Fernando Rosas, seus amigos e companheiros de longa data. À Doutora Maria José Morgado, esposa de tantos anos e de tantas caminhadas.

1. A morte do Professor Saldanha Sanches é mais um momento de dor. É mais uma vela que se apaga dos tempos da minha juventude. Ele em Portugal, e nós aqui, em Angola, lutámos todos contra o regime injusto e anacrónico que nos oprimia. Somos, pois, contemporâneos das mesmas causas: a luta contra o colonialismo e contra o fascismo que alimentava e se alimentava do colonialismo.

2. Poucos dos que me ouvem (ou lêem) sabem quem foi Saldanha Sanches, já porque ele não era angolano e porque também, nos últimos anos, limitou a sua intervenção pública quase apenas à análise política e económico, em alguns dos órgãos de comunicação social de Portugal.

3. Saldanha Sanches era um brilhante professor de Direito Fiscal e de Finanças Públicas na Universidade Clássica de Lisboa, também na Universidade Católica Portuguesa. Desligado do activismo político directo, continuou, ainda assim, a ser um referencial da democracia e da luta pela democracia portuguesa. Sempre que estivessem em jogo grandes decisões como, por exemplo, actos eleitorais, lá ele surgia a público, dando opinião sobre os actores em concorrência, sobre as propostas políticas, sobre as razões que estavam por detrás das propostas. Comunicava, também, a sua opção de escolha. Ele não era, pois, um absentista da política. Estava sempre atento.

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A vida habitua-nos sem nos habituar a estas notícias, sobretudo quando a velhice nos disputa o viço não perdendo oportunidade de nos corroer as bengalas com que nos apoiamos mais no chão falso da memória que na esperança do projectar, fazer e transformar. A razia de companhias, afectos e admirações já me tocou funda na família (com os adeus dolorosos dos meus pais e de dois irmãos), no meu escritor de culto (José Cardoso Pires), no meu cantor de toda a vida (José Afonso), no amigo que continua na palma da minha mão (o Zé), no único militar profissional de quem fui amigo e tombou em combate de uma forma vil (o major Passos Ramos), no líder político que mais admirei e mais detestei, no meu contraditor político mais estimado e com quem trocava vivas picardias blogosféricas sem o saber ferido por doença implacável (o Jorge Ferreira). Sei que esta lista, nas suas várias qualidades, vai aumentar nos dias que me restarem. Até que uns poucos me digam adeus em saudade rápida porque mais não mereço e assim ficarei aliviado de chorar mais perdas de companhias e referências.

Foi-se o Saldanha Sanches. Não tenho competência para avaliar a dimensão da perda do professor e do fiscalista. E há muito que, politicamente, ele não me impressionava. Respeitava-lhe e admirava a sua frontalidade truculenta e era tudo, o que, nos tempos que correm e segundo as minhas medidas, não era pouco. Mas a perda de Saldanha Sanches acrescenta um novo capítulo no meu índice de baixas. Curtido nas perdas de familiares, amigos, pessoas de culto, faltava-me o género desta perda, o de um companheiro de cela em Caxias. Numa vaga repressiva sobre a contestação estudantil em 1965, um leque seleccionado pela PIDE entre os estudantes contestatários foi encaminhado para a Prisão de Caxias. Eu e a maior parte éramos novatos mas, na minha cela, Saldanha Sanches auto-emergiu como o mais experimentado (já tinha sido preso e baleado) e assumiu-se logo ali como responsável pela cela prisional, distribuindo tarefas e organizando uma lista de reivindicações. Foi breve essa passagem pelos calabouços da PIDE, tanto que nem consta do largo currículo prisional de Saldanha Sanches. Enquanto Saldanha Sanches me “chefiava” em Caxias pela minha insignificância de “preso político de base”, cá fora, no desassossego das famílias dos encarcerados pela PIDE amontoadas às portas da António Maria Cardoso, Esmeralda, a minha irmã mais velha e minha mãe substituta, uma camponesa urbanizada que sempre me reprovava “meter-me em política”, acartando um farnel, impetuava desabridamente, com o seu espírito transmontano, contra os pides de serviço, exigindo a devolução imediata do seu “maninho” e garantindo-lhes que dali não saía enquanto a devolução exigida não se concretizasse. Foram os pais de Saldanha Sanches, já batidos nas anteriores reclusões do filho, usando a sabedoria da experiência, que acalmaram e enquadraram a impaciência dorida da minha irmã. E até eu ver a luz do sol na saída da António Maria Cardoso, os pais de Saldanha Sanches não faltaram um momento no acompanhamento da minha irmã que sofria aquela prisão com a surpresa revoltada de quem nada entendia da necessidade e utilidade de haver quem combatesse a ditadura que ela entendia como uma fatalidade eterna, quase um sortilégio da natureza. Ou seja, enquanto eu em Caxias me subordinava ao “posto por experiência” de Saldanha Sanches, o mesmo género de hierarquia estabelecia-se, cá fora e na cadeia das dores afectivas, entre os nossos familiares. São coisas que a amnésia não corrói.

Até sempre, Saldanha Sanches.

(Publicado também em Água Lisa)

Seguíamos num Volkswagen: eu acompanhava-os, até ver. O Alfredo Noales era jornalista do jornal República e tinha recebido do chefe de redacção a incumbência de fazer a reportagem. Para a censura cortar, inevitavelmente, de alto a baixo, claro. Ao seu lado, um amigo nosso, um camarada. No banco de trás seguia eu, impaciente, receosa.

Nas vésperas, tinham sido lançados panfletos por toda a cidade, chamando o povo a comemorar o 1º de Maio, a manifestar-se. Se a ditadura proibia toda e qualquer manifestação, “o primeiro de Maio” era assunto subversivo, cuja referência em lugar público, só por si, podia valer prisão. Nos últimos meses, reuniões e mais reuniões, lá em casa, tudo muito discutido, muito preparado, à porta fechada, mas nada passara por mim. Eu apenas sabia que algumas dezenas de brigadas clandestinas, furtivamente e durante noites e noites, iriam cobrir de propaganda a cidade de Lisboa e os arredores. Papéis, aos milhares, por todos os sítios: apelos à manifestação contra o regime e informação acerca das greves que, nos últimos meses, despontavam, umas a seguir às outras, nas empresas dos arredores.

Chegámos à Praça do Comércio uns dez minutos antes das 6 horas. Primeiro de Maio de 1962. Uma data histórica – que persiste em sobrar-me, em ficar-me para trás, sempre que quero escrever sobre a resistência ou sobre a repressão fascista. Talvez por ter sido a única vez que, em idênticas circunstâncias, passei mesmo ao lado da morte. “A-ssa-ssinos! A-ssa-ssinos! – Não se tratava de um grito demagógico, eles eram realmente assassinos.

O nosso carro ia devagar. As ruas estavam praticamente desertas e, olhando para as lojas e para os cafés, a óbvia normalidade assustou-nos. Estaríamos à beira de um fracasso? Era aquele o resultado de tanto trabalho de organização, tantos meses a fio? “Tem calma, Lena, ainda não são 6 horas!” Tanta reunião, tanta agitação, e um ambiente explosivo, no crescendo das greves, iria dar, assim, em nada? Seria que o povo não tinha coragem de assumir nas ruas o descontentamento que vinha manifestando à boca calada, e que já revelara, de forma tão convicta, tão expressiva, nas eleições do Delgado? Afinal, onde estaria esse povo? “Tem calma, Lena, ele vai aparecer!”Amedrontara-se? Não se atreveria a enfrentar as forças policiais que os estudantes haviam já defrontado, por mais do que uma vez, durante esse ano?

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O Tenente Aviador Aparício, lenço azul ao pescoço e ar de quem está meio cá meio lá, entre a terra e o céu, aterrou a Dornier na pista de terra batida de Catió. Quando o primeiro militar que o foi receber o saúda, dispara, rindo-se, “Então, aqui bebe-se?”. Claro que sim. Quem ia deixar o Tenente Aparício morrer de sede? O aviador é levado, de jipe, ao bar de oficiais e são-lhe servidas as melhores iguarias disponíveis, acompanhadas de cervejas bem geladas. Sabia-se deste voo que era, aliás, aguardado ansiosamente há vários dias. Os aviadores eram sempre recebidos como VIPs na messe de oficiais do batalhão de Catió, quartel que, na maior parte do ano, só tinha ligações com o exterior pelo ar. Na época das chuvas, o aterrar de um avião ou de um heli era sempre motivo especial e comportava a emoção de confirmar que Catió existia no mapa. Entre todos os aviadores militares em serviço na Guiné, o marado do Tenente Aparício era o mais festejado e o mais bem-vindo. Não por ser marado mas por ser o mais marado de todos, tanto que era o único que se dispunha a aterrar de Dornier em Guileje. E este quartel era a posição mais martirizada e mais isolada da área de intervenção do batalhão e em toda a Guiné. Por causa disso, a tropa de Catió encaixava bem as risadas sem motivo deste aviador e uma ou outra frase desconexa que ia largando, pelo valor único que ele representava para o batalhão e para o pessoal de Guileje. Após menos de meia hora a descansar, a comer e a beber, o Tenente Aparício ajeitou o lenço azul e levantou-se. “Vamos a isto!”, disse com os olhos a brilharem. Se era o único que aterrava de avioneta em Guileje, aquele era o sítio onde ele mais gostava de ir. Cada viagem era uma aventura. E o Aparício adorava aventuras.

Carregado o correio, medicamentos, algumas peças e acessórios, tudo em quantidade limitada por causa do pouco peso que a aeronave podia transportar, o Tenente Aparício despediu-se. E mandou-me subir. Naquele dia eu ia ser seu companheiro de viagem até Guileje. “Vamos a isto!”, repetiu, replicando mais uma versão das suas risadas. Eu ia para passar uma semana em Guileje, como fazia quase todos os meses, para tratar de problemas com as transmissões e trocar os códigos das cifras da criptografia. E, por isso, seria companheiro de viagem do Tenente Aparício. E uma ida a Guileje era sempre uma emoção, pelo risco e por rever os camaradas martirizados e isolados bem junto da fronteira com a Guiné-Conacri. Para mais, conduzido pelo aviador mais marado da Guiné. O aviador conduziu a aeronave com os jeitos e o ar de condutor habituado a uma estrada de todos os dias. E ia sempre a rir-se, na maior parte das vezes sem se entenderem os motivos. De repente, a janela da Dornier do meu lado salta e desaparece no céu. O ar entra em turbilhão e faz esvoaçar toda a papelada solta. O aviador riu-se ainda mais. Como tendo achado que aquele incidente só ia tornar mais insólita e mais típica aquela viagem e ainda dava para gozar com a cara azulada da preocupação do seu companheiro inquieto e que duvidava que, sem janela, aquela geringonça se pudesse aguentar no ar. O aviador comentou, sem conter o riso: “Eu bem disse na Base que essa merda estava mal apertada, mas não faz mal, o avião não cai, ficamos é com as ideias mais frescas.”. A viagem decorreu, num regalo de vista sobre as matas luxuriantes de verde intenso como era típico do sul da Guiné, permanentemente atravessadas por enormes e serpenteantes cursos de água. Debaixo de nós, o fabuloso Cantanhez expunha a sua beleza única. Sempre a sobrevoar uma zona controlada pelo PAIGC. É que, no sul, tirando os quartéis isolados e sitiados de Catió, Guileje, Gadamael e Cacine, mais uns tantos destacamentos, todos sob o comando militar de Catió, a zona era inteiramente controlada pelos guerrilheiros. Estes, só eram contrariados no seu domínio pelo exército português através de bombardeamentos aéreos, fogo de artilharia e surtidas temporárias das forças especiais. E isto durou até o PAIGC receber os mísseis terra-ar soviéticos, porque, a partir daí, quase todos os aviadores se recusaram a voar no sul. Mas isso foi mais tarde, já o Aparício de lá tinha saído. Voar, naquela zona, era um desafio permanente às antiaéreas da praxe e, quanto a isso, havia que confiar na divina providência ou coisa do género. Naquela viagem, o risco era o costume, a beleza da paisagem idem, só a ventania dentro da cabine estava fora da rotina.
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Em 1964, com o fascismo no seu pleno, eu tinha 25 anos, ia a caminho de me tornar uma marxista-leninista convicta e já lutava fervorosamente nas fileiras do PCP. Para mim, era sagrada a frase “um terço dos países do mundo e dois terços da humanidade vivem em regimes socialistas” e lembro-me que sonhava com a oportunidade de, no futuro, poder conhecer de perto o mais avançado desses países, a “pátria-mãe” das sociedades sem classes – não havia de morrer sem ver o socialismo com os meus próprios olhos.

O dia em que me comunicaram que iria integrar a delegação portuguesa ao Fórum da Juventude, em Moscovo, foi um dos dias mais felizes da minha vida. À partida, éramos 10 – apenas duas raparigas – e nem todos militantes do partido. Saímos de Portugal, a conta-gotas, para Paris. Foi aí que se planeou cuidadosamente essa viagem à União Soviética e foi também aí que ficou um dos companheiros, desistente – o risco de se ser preso no regresso a Portugal era grande.

A 13 de Setembro, ainda Verão na Europa, voei sozinha para Moscovo, trajada tão primaveril quanto me pedia a minha alma. (Hoje, quer-me parecer que, de facto, não tinha ninguém assisado por perto…)

Quando desci a escada do avião, nevava, e não exagero se disser que a temperatura rondava os 15 graus negativos. Atravessei a pista em sandálias e casaquinho de malha, debaixo de uma aba de um opulento casaco de pele de raposa, pertencente à camarada russa destacada para me ir receber. Poucos minutos depois, essa simpática acompanhante recusava, em tom firme do poder, a entrega do meu passaporte à polícia, facultando-lhe uma folha à parte, dobrada em quatro, destinada a ser carimbada conforme o que fora combinado com a Embaixada Soviética, em Paris. (Carimbo de entrada num país socialista dava prisão pela PIDE, seguramente).

Os enormes prédios e a ampla avenida que percorremos após a saída do aeroporto (dezenas e dezenas de quilómetros) deixavam-nos embasbacados: porque, provincianos, nunca viramos nada assim, mas também porque o nosso olhar estava particularmente desperto para admirar as glórias do socialismo.

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(Marcelo Caetano, na varanda da Reitoria)

A propósito da recente comemoração de mais um Dia do Estudante de 1962, venho aqui trazer alguns aspectos menos conhecidos. A história deste dia é, de uma maneira geral, conhecida: a invasão da cidade universitária, as cargas policiais, os plenários, a atitude do reitor, etc. Embora, aqui e acolá, com alguns pormenores menos correctos, mas que não tiram a verdade aos factos. O que é menos conhecido, às vezes mesmo completamente desconhecido, é o seu relato humorado feito em verso. É o caso do aproveitamento dos Lusíadas para relatar uma parte do sucedido.

I
As moças e os rapazes espancados
Que da Universidade Lusitana
Por transes nunca dantes passados
Quasi que perderam a tramomtana (1)
Por ministros e policias escorraçados
Mais do que permitia a estupidez humana
Cantando espalharei esta toada
Enquanto não vier a coronhada

II
Calem-se de Wengoróvias e de Eurico
A fama dos discursos que botaram
Não se fala mais do ilustre génio
Que capitão da polícia nomearam
Que eu canto o espólio vasto e rico
De castanha que as gentes apanharam
E tudo o que a musa antiga trama
Que muita malta ainda está de cama

(1)   No exemplar em meu poder está transmontana, mas é evidente que é um lapso cometido, talvez, por um arreigado regionalista.

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Um texto de Isidoro de Machede (*)

O Bairro do Poço Entre as Vinhas era um lugar de habitações clandestinas construídas, tijolo a tijolo, por aqueles que demandavam a cidade grande em busca de uma vida de pão mais assegurado. A grande maioria, desterrados do campo pela mecanização da agricultura que, paulatinamente, os foi empurrando da sua terra pela ausência de jorna. Vivi neste meu Bairro dos momentos mais felizes da minha vida. Foi para mim a academia da sociabilidade solidária entre a infância e a adolescência. A seguir a Nossa Senhora de Machede era, na prática, a minha segunda aldeia, só que colada à cidade grande.

Por si só o nome do Bairro era um livro aberto sobre o local. Um poço entre vinhedos cuja água teria servido para dessedentar os trabalhadores da dita cultura agrícola. Por volta da década de sessenta um qualquer sacripanta, contumaz da beatitude, resolveu renomear o Bairro de Senhora da Saúde. O velhíssimo poço, com a boca em granito trabalhado, ainda lá mora completamente abandonado e ostracizado da história do local.

Tinha o Bairro a particularidade de ter as fronteiras de nascente e poente demarcadas por duas linhas ferroviárias. A nascente, a linha Évora-Estremoz. A poente, a linha Évora-Mora. A Sul do Bairro, na estrada que conduzia a Beja e Reguengos, junto da passagem de nível, bifurcava-se da linha para Estremoz o ramal de Évora-Reguendos de Monsaraz, distanciando-se em direcção a Este.

Daí sempre ter tratado os comboios tu cá tu lá. Ainda as locomotivas eram movidas a vapor. Só depois vieram as modernaças a diesel.
Ver passar aquelas enormes composições com carruagens de passageiros e uma infinidade de vagões de mercadorias, era o rotineiro filme diário. Parávamos as futeboladas e ficávamos ali de dedo espetado a contar o tamanho da serpente com cabeça de ferro.

O êxtase absoluto era viajar nos ditos com toda a gente a balançar certinho, de um lado para o outro, como se fossemos o pêndulo do relógio da avó. E a paisagem a correr vertiginosamente cortada regularmente pelos postes do telefone ferroviário.

Quando recordo o facto do Bairro do Poço Entre Vinhas ser quase uma península rodeada por todos os lados menos por um de linhas ferroviárias, há três coisas que ainda me deixam a remoer inquietudes e aprendizagens da infância. Ter aprendido de que lado estava o vento pela nitidez do apito da locomotiva. O comboio ter um lado fatal, dado ser o principal instrumento de suicídio das gentes das redondezas. E outra coisa que me produzia uma impressão que nunca consegui descortinar. Ainda hoje me aflige a sua nebulosidade. O facto das composições que exclusivamente transportavam militares, fardados de caqui amarelado, do quartel de Estremoz directamente para os barcos atracados em Alcântara e daí para a guerra colonial. A estranheza de os ver passar, com meio corpo fora das janelas, a acenar e a gritar uma alegria que não o era certamente.

O ramal de Mora, é hoje a ecopista da cidade. Faleceu vai para um ror de tempo. O ramal de Reguengos de Monsaraz foi pelo mesmo caminho. O ramal de Estremoz ainda existe, mas o seu uso é quase nulo. Daí que a estação de Évora é, a bem dizer, o final da linha. Entre as poucas composições que lhe dão uso, há seis ligações diárias de e para Lisboa realizadas pelo Intercidades. É uma composição rápida, confortável e a um preço módico. Mais barato que as dos autocarros expresso. Ultimamente tem surgido o rumor que a CP se prepara para encerrar a linha.
Decididamente não entendo a política de transportes deste país. Se é que há alguma coisa para entender?

(Publicado no blogue Alentejanando)

(*) Biografia de Isidoro de Machede

Em Abril de 61 tinha 13 anos.

Nascida em Angola, seguia com inquietação as notícias que dali chegavam, acompanhadas de fotografias de cadáveres decepados, mulheres fugindo com crianças nos braços. Uma ideia terrível: podia ter sido eu, podia ter sido a minha mãe ou o meu pai, a minha irmã, uma das minhas maiores amigas. Outra ainda: não tenho direito à terra em que nasci. E a tentativa de encontrar explicações, de compreender uma violência à partida incompreensível. Recordações de outras violências, comentários, exemplos. E a evidente perturbação dos adultos a aumentar a minha, a tornar difícil qualquer pergunta, qualquer resposta.

Angola, os acontecimentos no Congo, a prisão e depois a morte de Lumumba, a violência, a dúvida, a insinuarem-se entre as aulas, os livros escolares, as conversas à mesa, as próprias brincadeiras no quintal.

E, de repente, Gagarine. O primeiro homem no espaço.

“Um rosto extraordinariamente jovem e simpático, sob o capacete de couro maleável dos aviadores soviéticos”, assim o descrevia a notícia do Diário de Lisboa, e continuava: “Tem olhar vivo e inteligente, nariz direito, ligeiramente grosso, junto à testa, como o dos pugilistas, lábios carnudos e bem desenhados. Gagarine tem uma covazinha quase imperceptível no queixo.”

Essa covazinha no queixo aproximava-nos, tornava-mo quase familiar. E o primeiro homem a viajar no espaço, o filho de um carpinteiro, a quem a invasão alemã interrompera os primeiros estudos, devolvia a alegria e o sentido a um mundo perturbado. Já não olhava para a terra lembrando-me da minha, manchada de sangue, mas o céu, esse céu onde Gagarine dera a volta à Terra em “exactamente 108 minutos” (volto a citar o DL). A minha cadela, cúmplice de todos os minutos, já há algum tempo era, de quando em vez, rebaptizada de Laika. E eu, eu, por esses dias, adoptei um nome especial, que me permitia recriar com ela, no quintal, fantásticos passeios pelo espaço: Yuri Gagarine, pois claro.

Então eu era o herói e a minha cadela só falava russo…

Primavera, nos anos 70.
Percebi muito bem o recado que o camarada funcionário do Partido me mandou. Na quinta-feira da semana seguinte, iria ao Jardim da Estrela encontrar-me com um amigo, também militante a viver na legalidade, e levava-o para a casa de apoio onde, ultimamente, reuníamos. Não me foi dito de quem se tratava. Que quando o visse logo o reconheceria. Eu ia usar um casaco de malha preto e ele levava uma pasta na mão. Não era preciso combinar mais nenhum sinal, pois também ele me conhecia bem e fora avisado de que a pessoa que o aguardava seria eu. Que às 7.30 em ponto, eu já tinha de estar à porta da entrada do Jardim, no lado norte, isto é, junto à Avenida Pedro Álvares Cabral, e que esperasse que ele se me dirigisse. Senha e contra-senha, tudo combinado. Que, se o amigo não aparecesse ou se, indesculpavelmente, eu me atrasasse, voltávamos lá uma meia hora mais tarde; que devia certificar-me de que o campo estava “limpo”, sem indivíduos ou carros de aspecto suspeito, por perto, blá, blá, blá: os cuidados do costume.

A pergunta que ele iria fazer-me revestia-se de uma grande naturalidade: “O que fazes tão cedo por aqui?”. Porém, a resposta que me cabia dar-lhe era algo absurda para um dia de semana, ainda longe do Verão: “Estou à espera de uma boleia para o Algarve!”. Depois, uma vez cumprido tudo – estas duas frases ditas com absoluto rigor, sem falhas – apanharíamos um táxi para uma transversal à Avenida de Berna, ficando próximos da casa em que nos juntávamos com o camarada funcionário.

Saí da Penha de França muito cedo, para ter tempo de fazer um “corte” na viagem – era obrigatório… – isto é, tomei um autocarro até à Avenida Duque de Ávila, desci, e apanhei um táxi para a Basílica da Estrela. Depois, percorri a pé o passeio que ladeia o jardim, até à entrada norte. Sempre vigilante, olhando de vez em quando pelo canto do olho para trás, a verificar, como habitualmente, se não “ia seguida”.

Às 7. 25, ou por aí, postei-me à porta, observando quem se aproximava. Não tardaram 3 minutos, vejo-o surgir, de pasta na mão, e pensei: “Ai que engraçado! Este gajo é do Partido? Que bom!”. De facto, conhecia-o – era um democrata, um activista associativo que eu muito admirava, um amigo, até – mas tinha-o perdido de vista, havia anos.

Deu-me um beijo.
– O que fazes por aqui tão cedo? (As palavras da frase estavam ditas por uma ordem ligeiramente diferente, mas não seria por isso que não lhe responderia o combinado, pensei.)
– Estou à espera de uma boleia para o Algarve!
– Então boa viagem! Vou andando que estou cheio de pressa. – Disse, dando-me um outro beijo e largando em frente, pela Avenida, em passo acelerado.

“O tipo é parvo! O que lhe deu? Por que não reagiu à senha? Cheguei antes das 7.30, o “terreno está limpo”, tenho um casaco preto vestido, e respondi-lhe exactamente o que estava combinado.”

Ia começar a andar, de regresso a minha casa, chateada, interrogando-me acerca do mistério, quando vi aproximar-se, em passo acelerado, um outro amigo. Vinha de pasta na mão e, mal chegou, nem beijo, nem outro cumprimento:
– O que fazes tão cedo por aqui?
– Estou à espera de uma boleia para o Algarve!
– Vamos lá? – disse o camarada, agarrando-me pelo braço, enquanto nos preparávamos para atravessar a rua, em direcção à Pedro Álvares Cabral.
– Uf! Ó pá, não podes imaginar o que me aconteceu! Dois minutos antes de tu chegares, apareceu-me, não sei de onde, de pasta na mão, o João Cravinho. Deu-me um beijo, e não é que me fez exactamente a pergunta combinada!
– E então?
– Então, respondi-lhe esta coisa do Algarve. Ele fez um sorriso, não sei se achou natural ou não, e desandou. Felizmente estava com pressa… ou terá suposto que eu tinha um qualquer encontro de amor. Olha se tinha ficado à conversa, lá se ia a nossa reunião de hoje!

 
Um Texto de Jorge Pires da Conceição (*)

 
Refiro-me à Avenida António Augusto de Aguiar, “roubada” em projecto de Ressano Garcia a terrenos que haviam sido agrícolas e materializada já sob a égide de Duarte Pacheco e também ao período de quase um ano em que um troço dessa Avenida voltou a ser terreno agrícola, no decurso das obras de ampliação da Estação do Metro de São Sebastião.

Permitam-me, no entanto, que tente fazer um pequeno enquadramento desta obra que tive a possibilidade de acompanhar diariamente chefiando a equipa responsável pela sua fiscalização.

A rede inicial do Metropolitano de Lisboa construída entre 1955 e 1966, isto é, ainda durante o período de governação de Salazar, ficou constituída por 15 estações, todas elas com cais com capacidade para receberem comboios apenas com duas carruagens. Eram orientações políticas superiores, que resultavam da conciliação de duas vontades: a de “mostrar ao mundo” que a Capital de Portugal também tinha metro e a de continuar com uma gestão caseira da economia. E o resultado foi o que muitos previram e para o qual alertaram, ou seja, a incapacidade de tal infra-estrutura dar resposta às necessidades de mobilidade da sua população urbana!

Na gíria popular, então, o tal metro era mesmo apelidado de centímetro.

Com a governação marcelista a mentalidade de fachada e de contenção modificou-se um pouco, pelo que as 5 novas estações construídas já possuíam cais comportando comboios com quatro carruagens, situação ainda insuficiente, mas sobretudo condicionada pelo facto das estações anteriormente construídas continuarem a apenas permitir o serviço de comboios com duas carruagens.

Foi assim que, ainda no período de governação da responsabilidade de Marcelo Caetano, foi decidido proceder-se às obras de ampliação das estações iniciais, primeiramente de duas para quatro carruagens, mas efectivamente de duas para seis carruagens, como veio a acontecer já após o 25 de Abril de 1974.

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Um texto de Cecília Cunha (*)

Apresentam-se aqui uma série de testemunhos que a memória deixou intactos – são sobrevivências no sedimentar dos anos, já que é do início da década de oitenta que faremos extracções. Em mil novecentos e oitenta e dois, um pequeno grupo de estudantes finalistas de letras, Lisboa, decidiu desafiar o destino certo e começar a leccionar muito longe de casa. A proposta rodou e pegou. E numa primeira quinzena de Setembro, ainda sem o certificado de habilitações, o grupo partiu num avião para a Guiné-Bissau.

Hoje e aqui recorda-se o dia em que os cooperantes assinaram contrato válido para um ano lectivo: celebravam de alguma forma o fim da guerra colonial e de todos os sobressaltos que a geração enfrentara; havia também o sabor da experiência e o apelo do desconhecido.

Questionemos, como quem introduz: poderão meros episódios soltos ter um fio condutor? O que podem experiências singulares absorver no terreno dos factos? Lançamos os dados e sugerimos combinações possíveis. Seja o que os leitores quiserem.

Acreditamos que as vivências conduzem à possibilidade de reflectirmos sobre um tempo e a partir de um espaço pouco conhecidos entre nós: partilharemos incomodidades, que advêm de acontecimentos cruéis. E acrescentamos: que dizer das revelações duma cultura ancestral e de um novo regime, se o que sempre elegemos saber foi sobre a luta de um povo africano, vigorosa, justa e cheia de futuro?

Sabemos que pareciam esponjas, os(as) cooperantes, gente sedenta de um outro tipo de conhecimento, porém mal informada à hora dos preparativos e do embarque: em Lisboa, um representante do ministério da educação guineense tinha oferecido alojamento e um conjunto de bens essenciais disponíveis. Esse género de informação não correspondia à exacta realidade, coisa que os(as) cooperantes descobriram poucas horas depois da largada do aeroporto de Lisboa e à chegada a Bissau.

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Um texto de Isidoro de Machede (*)

Quando gaiato, entre as diversas brincadeiras que praticávamos, havia um clímax de inesperado arroubo que era despoletado por um grito: cu à parede! A loucura era nem mais nem menos que uma desregrada peleja de todos contra todos a pontapear o parceiro mais a jeito nas nádegas. Daí o famigerado berro que um dos moços subitamente bradava, avisando assim do modo de acautelar ser chutado no traseiro. Tal como bruscamente começava a desordem total, igualmente parava de uma forma súbita, com a rapaziada completamente embezerrada por mou da caótica e violenta peleja. Os aleijões nunca eram de monta e desapareciam por encanto com uma forte risota geral.
Hoje, um arrebatamento semelhante, seria certamente apelidado de bullying grupal. Coisa que deixaria os circunspectos psicólogos a debitar teses da treta sobre comportamentos desviantes devido ao indevido blá, blá, blá, blá…
Actualmente nada disto acontece, apenas porque os putos já não brincam na rua. Nem sozinhos nem em grupo. Esta salutar fogosidade infantil foi, aos poucos e poucos, substituída por uma violência realmente maligna na formação do carácter, subtilmente transmitida solitariamente pelos écrans dos computadores e televisores superlotados de Rambos virtuais.

Agora, sarcasticamente, o berro de «cu à parede» entre a criançada, apenas continuaria a fazer sentido com o avizinhar dos pastores terrenos do Divino Mestre!

(Publicado no blogue Alentejanando)

(*) Biografia de Isidoro de Machede

Muito trabalho nos requereu trazer o Duarte “ao partido”. Ele alinhava, comprava os materiais, votava “connosco” nos plenários e nas listas, mas de cada vez que se abeirava a concretização da filiação, o Duarte invocava a sua forte razão de resistência: “não quero ter chatices com a minha mulher” e, aí chegados, suspendia-se a sedução partidária porque não se pretendia escarafunchar os mistérios domésticos de cada um. Mas, após o 11 de Março (1975) e com a nacionalização da empresa, foi o próprio Duarte que tomou a decisão de pedir “a ficha”, fazendo questão de a requerer à sua chefia, um dos militantes mais antigos e activos na célula. Mas foi uma mera resolução formal pois não contassem com ele para qualquer participação cívico-revolucionária pós-laboral. Só acrescentou à sua rotina anterior de participação política o pagamento pontual das quotas. Era a forma, respeitável como qualquer outra, como ele geria as suas inclinações, entre os incêndios do PREC, mas sem “ter chatices com a mulher”.

No fim de tarde de 24 de Novembro (1975), a orientação veio rápida e sem dar margem para hesitações: “Chegou a Hora”. Tudo ia estar em jogo para se ganhar ou se perder. Não havia lugar para meias tintas. Ou se ia para o socialismo a sério ou se regredia para a longa noite. A sentença dilemática estava traçada. Portugal tinha a sina do tudo ou nada, fascismo ou socialismo real, democracia parlamentar burguesa é que não tinha cá cabidela (uma “impossibilidade” fartamente teorizada por Cunhal). Aquecida a luta de classes, a solução estaria agora nas espingardas. Pois, 1917 em Petrogrado, 1948 em Praga, etc e tal, lembram-se? Ou nós ou eles. Trazida pela controleira da zona, a instrução era para se saber rapidamente quem tinha feito a tropa mais a guerra colonial e em que especialidade. Levantamento feito, pelotão constituído em duas penadas. Tudo analisado e decidido de trinta e um de boca mas era o que se podia arranjar. É esta noite. Mais vale improvisar e atamancar que perder o comboio expresso da história. Vamos a isso. É esta noite. Ou nós ou eles. Antigo alferes miliciano, com os galões suplementares de ter andado na Guiné, calhou-me o comando do pelotão improvisado na minha fábrica. Que incluía o Duarte que tinha feito a guerra em Moçambique onde lidou com as chamadas armas pesadas de infantaria, ao qual, em termos de tarefas milicianas e revolucionárias, foi confiada a missão de lidar com a bazuca.

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Um recorte de um velho Diário Popular fez-me recuar mais de quarenta anos, até 1969. Nele se lê que, nesse ano, as lojas passaram a vender um número absolutamente inusitado de calças a mulheres de todas as idades (Para ler, clicar na imagem.) Nesse fim de década, os costumes não eram o que até aí sempre tinham sido, Salazar já tinha caído da cadeira e, apesar das notícias filtradas, Paris e as barricadas do Maio de 68 não tinham estado tão longe como a Nova Zelândia.

Mas o que é mesmo curioso é a fotografia e respectiva legenda: «As alunas da Faculdade de Letras já ganharam a sua batalha». Não é dito qual era a batalha nem qual foi a vitória, talvez porque um lápis azul da censura tenha cortado a explicação ou porque esta foi evitada para escapar ao dito lápis. Mas eu explico.

Dava então aulas em Filosofia e a prática corrente quanto a indumentária feminina era a seguinte: só às estrangeiras, que frequentavam cursos de língua portuguesa, era permitido usar calças e a triagem era feita pela Sr.ª Clotilde. Várias gerações se lembrarão desta zelosa empregada, sempre presente pelos corredores, movendo-se lentamente dentro de uma bata preta acetinada. Quando avistava pernas femininas revestidas, aproximava- se e perguntava em voz muito baixa: «A menina é estrangeira?». Ausência de compreensão, e portanto de resposta, era interpretada como afirmativa e a autorização era tácita, mas tinha ordens para pedir às portuguesas que abandonassem as instalações da Faculdade.

Uma parte desse ano de 69 foi animadíssima na Cidade Universitária – como o foi (e de que maneira…) em Coimbra e nalgumas outras faculdades de Lisboa. Uma lista encabeçada por Arnaldo Matos ganhou a presidência da Associação de Direito (contra Alberto Costa, o ex-ministro da Justiça, então do PCP) e aqueles que viriam a fundar pouco depois o MRPP mantinham em agitação permanente, directa ou indirectamente, o conjunto das três faculdades vizinhas: Direito, Letras e Medicina. Multiplicavam-se os plenários e recordo-me especialmente de um que teve lugar no Hospital de Santa Maria, com milhares de estudantes e alguns (poucos) professores – tão poucos que, de Letras, apenas Lindley Cintra e eu nos pusemos a caminho, debaixo de um mesmo chapéu-de-chuva, insuficiente para impedir que chegássemos ao destino encharcados dos pés à cabeça. Aí foi decretada uma greve e, enquanto ela durou, é óbvio que a Srª Clotilde se recolheu atrás de uma secretária, num corredor longe do átrio, e que toda a gente fez assembleias por todos os cantos, com calças, saias e mini-saias. Não sei se os objectivos pela qual a greve foi convocada terão sido minimamente atingidos (para ser sincera, nem me lembro exactamente o que poderão ter sido…), mas ela teve, garantidamente, um benefício colateral: as calças entraram em Letras para sempre e ficaram como direito feminino adquirido. Ou seja, foi ganha a tal batalha que a fotografia refere sem explicar.

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Publicada em CARTAS SOBRE A REVOLUÇÃO PORTUGUESA, Seara Nova, 1976 (*).

 
Gordes, 17 de Agosto de 1975

Caro amigo:

(…) Recordo-me da conversa que tivemos em Sagres, por altura da Páscoa, e não foi sem emoção que li agora as suas declarações, tão profundamente de acordo com o homem que então me falava me pareceram elas. Ouvi-o discorrer sobre a situação social e política do seu país e fiquei impressionado pela sua liberdade, pela sua franqueza e a inteligência das suas análises políticas. Você era socialista e eu comunista: nada de essencial nos separava. Lembro-me das suas reflexões: “a situação portuguesa é deveras original”, dizia-me, “e não há possibilidade de a comparar a qualquer outra; desencadeou-se um verdadeiro processo revolucionário; há lugar para esperança se todas as forças da esquerda se unirem com o MFA; mas é preciso estarmos vigilantes porque ainda não se atingiu o ponto de irreversibilidade do fascismo”.

Depois de nos termos separado, os acontecimentos precipitaram-se e as suas opiniões nunca deixaram de estar presentes no meu espírito.

Sou apenas um intelectual, precariamente informado quanto aos pormenores da vossa actual situação. Para mais, teria escrúpulos em “intervir” na política do vosso país. Contudo ao observar, aqui de França, a forma como todas as forças reaccionárias da Europa, da extrema-direita à social-democracia, desencadeiam contra a revolução portuguesa a mais gigantesca campanha de pressão, chantagem e calúnia a que se assistiu desde a guerra de Espanha, considero que um comunista pode, mesmo não sendo português, dar a conhecer a sua opinião.

É óbvio que o imperialismo mundial (americano e europeu) foi literalmente apanhado de surpresa pelo 25 de Abril e pela queda do fascismo.

Pensa-se com excessiva complacência, em determinadas camadas da burguesia e entre certos intelectuais, que o fascismo (em Espanha, em Portugal, na Grécia) se havia tornado, do ponto de vista do imperialismo, dos seus monopólios e Estados, um processo “arcaico”, “caduco”, “incómodo” e “dispendioso” que deixara de corresponder aos interesses de um “neo-capitalismo” activo e esclarecido. Por detrás deste juízo depara-se facilmente a ideia de que existiria em si, quer dizer, em todas as circunstâncias, uma forma “normal” do capitalismo “moderno” (isto é, do capitalismo monopolista ou imperialismo): a forma da democracia parlamentar burguesa, garantindo um certo número de liberdades individuais e políticas.

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Para além dos dois testemunhos já publicados, divulga-se hoje mais um (*).

 

Rui d’Espiney
Dirigente da Comissão Pró-Associação dos Liceus

 
(*) A Crise Académica de 62, Fundação Mário Soares, 2007 (dvd)

Um texto de Helena Cabeçadas (*)

As greves e o movimento estudantil de 1962 despertaram-me para a política e para a luta anti-fascista. Nessa altura eu tinha 14 anos e estava no Liceu D. Filipa de Lencastre, em Lisboa, mas a minha irmã mais velha já estava no 1º ano do Técnico e participava com entusiasmo no movimento estudantil de contestação ao regime. Eu e algumas das minhas amigas, da mesma idade, fugíamos do Liceu para ir assistir aos plenários, na Cidade Universitária. Não estávamos integradas no movimento associativo liceal e tínhamos imensa pena de não estar ainda na Universidade. Tentávamos disfarçar que vínhamos do Liceu, as batas enroladas dentro das pastas, com receio que os universitários nos mandassem embora. E ficávamos quase em êxtase a ouvir os dirigentes associativos de então, os seus discursos inflamados, tanto mais apreciados quanto mais radicais.

Foi, pois, com grande entusiasmo que, no ano lectivo seguinte (1962/63), já no Liceu Rainha D. Leonor, aderi à Comissão Pró-Associação dos Liceus. Vivia-se, nessa altura, uma certa euforia, apesar das expulsões decorrentes das greves estudantis de 62. Abriam-se brechas fundas no regime – com a guerra colonial nas suas diferentes frentes de luta, o movimento estudantil cada vez mais radicalizado, a grande jornada de luta que fora o 1º de Maio de 1962… tudo isto nos dava a esperança de um fim próximo da ditadura.

Pouco depois, com 15 anos, aderi ao Partido Comunista, a única força política antifascista organizada na altura. Tenho a noção, hoje, de que teria aderido a qualquer outro partido ou grupo organizado antifascista que me tivesse surgido, fosse socialista, comunista ou anarquista, tal era o meu desejo de me empenhar na luta pela liberdade e pela democracia. Claro que, para nós, adolescentes, era uma aventura excitante estar numa organização clandestina, ter um pseudónimo e actividades secretas tendo, ainda por cima, um objectivo último exaltante: a construção de uma sociedade mais justa, mais livre e mais fraterna. Sentíamo-nos heroínas de filme ou de romance (falo no feminino porque a minha experiência directa se passava, de facto, num universo adolescente feminino). O anticomunismo violento do regime salazarista ainda mais exacerbava a atracção que a actividade clandestina do PCP exercia sobre nós.

Claro que ler Marx era uma tarefa difícil e maçadora e Lenine ainda pior, mas também não nos eram exigidas tais leituras que, aliás, não estavam disponíveis porque eram proibidas. Recebíamos o jornal do partido, o “Avante” e tínhamos que o distribuir, às escondidas, nas caixas do correio ou em locais que não dessem muito nas vistas. Era uma tarefa divertida porque tinha os seus riscos, fazíamo-la aos pares e, quando surgia alguém nas escadas do prédio, fingíamos, para disfarçar, que estávamos a namorar.

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Um texto de Jorge Pires da Conceição (*)

 
Acabadas as seis semanas do IAO em Santa Margarida e depois do curto período de férias de “despedida desta vida”, última oportunidade também para alguns “darem o salto” (recordo um camarada que nesses 10 dias teve tempo para dar o salto, telefonar para casa já para lá dos Pirenéus, conversar com uma familiar chorosa e regressar a Tomar, aguardando o embarque no Hotel Templários), na madrugada de 17 de Julho de 1971, entre a uma e as duas da manhã, embarcámos num longo comboio estacionado no apeadeiro de Santa Margarida.

Éramos perto de mil homens os que compunham os dois batalhões de caçadores formados no RI15 de Tomar e considerados prontos, como “carne para canhão”, para o “teatro de guerra” de Moçambique.

Essa primeira etapa da nossa viagem, que decorreu até às seis ou sete horas da manhã e que terminou junto ao cais da Estação Marítima de Alcântara-Mar foi uma das mais angustiantes de que me recordo em toda a minha vida e, julgo, não só para mim, mas para muitos de nós todos, pois era a primeira prova concreta, a certeza última, de ser verdade aquilo que nos esperava: a guerra!

Dentro do comboio ainda estacionado recebemos os nossos novos galões de alferes e as divisas de furriéis. Depois, sem paragens do comboio (não fosse alguém arrepender-se), em silêncio durante toda a madrugada, enquanto nos campos e nas povoações que ladeavam a linha férrea todos dormiam indiferentes à nossa passagem, vinha-me constantemente à lembrança aquela arrepiante viagem de comboio tão bem descrita por Gabriel García Marquez, suponho que no livro “Cem Anos de Solidão”, na qual um comboio carregado de cadáveres de revoltosos atravessava de noite silenciosamente as povoações adormecidas, fazendo de conta que nada de importante se passara…

Na Gare Marítima de Alcântara a animação voltou com a presença de centenas ou de milhares de civis que traziam um último quinhão de calor aos que tinham a sorte de ali terem familiares ou amigos. Muitos vagueavam atónitos e solitários. Um destes abeirou-se da minha mãe e, perguntando-lhe se era de Lisboa, logo inquiriu se conhecia a Maria, uma rapariga de Viana do Castelo que servia em Lisboa e que, embora ele pessoalmente não a conhecesse, lhe traria recados ou uma encomenda de seus pais que viviam no Minho…

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Esta é uma não-historinha, Rogério!

 
Fico em dívida contigo, mas ainda não consigo escrever com ligeireza, saltitando nas teclas do computador, atrás de um qualquer episódio do nosso passado comum. Creio que esta “branca” se deverá apenas ao facto de, hoje, pela primeira vez, eu não poder enviar-te o email que era da praxe, na véspera de seguir um escrito meu para os Caminhos da Memória. Custa-me saber que, amanhã, não receberei o teu comentário, na volta do correio, incentivando-me a mandá-lo, a escrever memórias, a escrever, escrever enquanto por cá andasse. Por isso, historinha, adio-a para daqui a uns tempos, prometo! Há pouco, quase me saía aquela do teu gato que fez um abundante “xi-xi” em cima do processo movido pelo Ministério da Educação a cinco conselhos directivos da Escola Nuno Gonçalves, de 74 a 77. Tu, na minha frente, muito comprometido: tinhas-te apercebido da situação, olhavas o original da “acusação” que me tinha sido oficialmente dirigida, sem saberes como te desculpares. E eu, para desanuviar: “Não te incomodes, Rogério! Só mostra que é um gato com espírito crítico. Haveria resposta para isto mais merecida do que uma boa mijadela de gato?” – Contava-la, divertido, (quando eu referia a tua preciosa ajuda na minha “defesa”) a quem ainda não conhecia o acontecimento, mais o caso, mais a ocorrência. Não, esta não interessa: comove-me, mas é ridícula. Depois, qualquer dia, conto outra.

Afogamo-nos na biografia dele como resistente anti-fascista, como pedagogo, investigador, jornalista, escritor, sindicalista e político. E Pai, sim – como esquecer? – Pai. Foi tal a sua vida, que mal conseguimos compreender onde foi buscar tanta competência e tempo para tanto. O tempo dá e mata. Será talvez por isso que, na hora da morte, houve quem se esquecesse de Rogério Fernandes (ou lhe trocasse, ou lhe omitisse traços importantes do perfil). Coisa de nada para quem tinha a inteligência e a argúcia que fazia dele uma das pessoas com mais humor que conheci. Imagino-o a reagir a tais factos, de sorriso aberto, com comentários bem-humorados, entre o cândido e o levemente mordaz. Sem sobranceria nem falsa humildade, mas realmente modesto e coerente. Seguro do seu percurso de amor à Educação e ao Ensino. E, muito possivelmente, também, convicto de que tinha valido a pena dedicar uma vida a ideais trazidos da juventude. Tenho como certo que olharia até com tolerância e bonomia o silêncio de alguma memória que, na hora da partida, se fazia sentir, pesava. O Reitor da Universidade de Lisboa, o secretário-geral da Fenprof, os colegas e os amigos, esses estavam presentes. Foram muitos os jornais, muitos os blogues que falaram dele, e é tocante a notícia da sua morte, escrita por Vítor Dias no seu Tempo das Cerejas. Em Outubro passado, já fragilizado, foi candidato na sua freguesia, pela CDU – como se, simbolicamente, quisesse dizer que, até ao fim, estaria ao serviço da política com modéstia.

Pessoalmente, perdi o amigo e companheiro de décadas de combates, que conheci há cinquenta anos, a abrir-nos a porta da Seara Nova, na Rua Luciano Cordeiro, numa fase em que por lá havia reuniões regulares da Oposição. Nos últimos anos, os anos da maturidade, foi um ponderado e fraterno interlocutor para discussões e discórdias – que são o sangue arterial das famílias. Um companheiro para o riso, para a troca de ideias, para o “agora conto eu” (historinhas do passado e sobre nós). Sempre, ou quase sempre, à volta de uma mesa com sabores e afecto. Sempre, ou quase sempre, com a Graça – os dois a lembrarem, discretamente, quem com eles convivia, que pode existir um amor para toda a vida.

Que mais razões haverá para amizade e admiração?


   Carta a Mário Pinto de Andrade – Clicar para ler
   (Arquivos da Fundação Mário Soares)

 
Conheci-a em S. Tomé, no início dos anos 90, quando a entrevistei para a série “Geração de 60” – mas já há muito conhecia o seu nome e alguns dos seus poemas.

Filha de uma professora primária e de um funcionário dos Correios, Alda do Espírito Santo vem, em meados da década de 40, estudar para Lisboa, onde priva de perto com alguns dos futuros dirigentes dos movimentos de libertação das colónias portuguesas de Áfica, como Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade e Agostinho Neto.

A casa onde vive em Lisboa, no nº 37 da R. Actor Vale, é, aliás, um dos centros de reunião dos jovens patriotas africanos em Portugal. Aí se passa grande parte da actividade do Centro de Estudos Africanos, idealizado por Francisco Tenreiro e Mário Pinto de Andrade, aí decorrem as regularmente palestras que, sobre temas tão diversos como a Linguística, a Geografia ou a História, visavam uma consciencialização cultural e política em torno das questões coloniais, do assimilacionismo e da defesa do colonizado.

Mário Pinto de Andrade explicava com ironia as vantagens que a casa da família Espírito Santo oferecia aos activistas anti-coloniais:

“As actividades no 37 da rua Actor Vale tinham um ar de família. Primeiro, porque se passava numa família conhecida, a família Espírito Santo. E todos os pretos eram família, não é? E era ao Domingo, ao Domingo à tarde. Estava camuflado por reuniões de pretos em família. Na família Espírito Santo. Não levantou, durante algum tempo, nenhuma suspeita da parte dos informadores que pululavam certamente por essas ruas da Praça do Chile. Mas, quando em 1953 se operou a resistência dos santomenses às medidas do governador Carlos Gorgulho, sobre o trabalho obrigatório dos nativos, aí sim. Houve evidentemente uma revolta, conhecida, que se materializou no massacre de 3 de Fevereiro, dos primeiros dias de Fevereiro de 1953, e os elementos da família Espírito Santo foram presos e houve aí uma pausa nas nossas actividades. Foi então que, retrospectivamente, a polícia fez a relação entre as reuniões de Domingo, culturais e a resistência dos santomenses em Fevereiro de 1953.”

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Um texto de José Augusto Rocha (*)

Passam, nos dias 9 a 11 de Março, quarenta e oito anos sobre a realização do I Encontro Nacional de Estudantes, (1) que abriu as portas à chamada “Crise Académica de 62” e inicia uma brutal repressão sobre o movimento estudantil e particularmente sobre os estudantes universitários de Coimbra e a Associação Académica, em cuja sede se realizou.

Muito embora sejam várias as abordagens escritas destes acontecimentos, a verdade é que elas se baseiam em testemunhos indirectos ou em documentos, em especial comunicados da época, mas nunca, no que a Coimbra se refere, a quem os viveu por dentro e deles foi, em certa medida, seu actor.

Enquanto dirigente da A.A.C., vivi intensamente estes acontecimentos e deles venho, hoje, dar curta memória.

Nos dias 3 e 4 de Fevereiro de 1962, realizou-se na Associação de Económicas de Lisboa, uma reunião dos dirigentes das associações de estudantes do Porto, Lisboa e Coimbra, para discutir e tomar importantes deliberações sobre o movimento associativo a nível nacional: a criação do Secretariado Nacional dos Estudantes Portugueses – embrião da União Nacional dos Estudantes Portugueses – e o I Encontro Nacional de Estudantes. Nessa reunião, a Associação Académica de Coimbra esteve representada pelos seus dirigentes, António Taborda, Eduardo Soeiro e por mim próprio. Foram muito polémicas e longamente discutidas qualquer uma dessas iniciativas, estando sobre a mesa a questão de saber se o movimento estudantil aguentaria a repressão política que se previa viesse a acontecer. Foi particularmente intenso o debate sobre a criação do Secretariado Nacional e a questão daí decorrente sobre se essa deliberação se deveria tornar, desde logo, pública. Após várias voltas à mesa da reunião, a A.A.C. defendeu e votou, integralmente e sem restrições, todas as propostas, sendo acompanhada, após uma primeira hesitação sobre a publicidade do Secretariado Nacional, pela Associação de Estudantes de Medicina, representada por Eurico Figueiredo, dirigente arguto e com apurada sensibilidade estratégica do movimento associativo, com quem, aliás, viria a ter conversas importantes, em momentos decisivos para o seu futuro, e, em particular, nos momentos mais altos da repressão.

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A revolução ainda acordava para vigílias sem sono e tarefas sem fim, havendo tudo para fazer sem que nada parecesse impossível de mover e mudar. O “Avante” passar a ser legal e circular de mão em mão, vendido em papelarias e quiosques, difundido às escâncaras, com orgulho e alegria, em fábricas, escolas e escritórios, era o sinal maior do tamanho enorme do tanto que tinha mudado. Mas se, em energias descarregadas, parecia que o vento da história movia os moinhos da utopia, a causa sentia-se como só podendo ter a forma de um monolito. Relativamente ao património e à mitologia épica associada à gesta da imprensa clandestina, era difícil aceitar que outros, para mais rivais, chegada a revolução, a quisessem ultrapassar em ressonância no reconhecimento popular dos alvarás da resistência antifascista e da capacidade de andar para a frente. Assim, a forma atrevida e altissonante como a rapaziada fanatizada do MRPP anunciava e difundia o “Luta Popular”, só podia ser entendida, além de uma provocação, como um atrevimento concorrencial de decoro e pergaminhos, uma ofensa aos heróis que, contra ventos e perseguições, tinham mantido as tipografias artesanais e disfarçadas que alimentaram a voz dos reprimidos. Aquela revolução, como as outras, só permitiam aceitar-se um ser e um estar que se confundissem com os méritos do passado que a tinham tornado possível.

Entretanto, o futebol continuava, inamovível, ao lado da revolução, disputando paixões e multidões. E, à beira de casa, muitas vezes emitindo sons estridentes que me entravam pelas janelas, condensando a ânsia e o festejo do golo, em orgasmos colectivos, multidões juntavam-se às tardes de domingo em grandes missas de histeria colectiva no Estádio da Luz. Daí ao desafio foi um pequeno passo. Organizado um grupo de vizinhos camaradas, requisitado um bom molho de avantes, montaram-se bancas improvisadas no caminho de maior tráfego apeado da multidão rumo ao estádio, na Segunda Circular, uns poucos metros antes do perímetro de feira onde se vendiam couratos, bonés e bandeiras. Jornal estendido e mostrando o cabeçalho, ali nos esforçámos, domingos a fio, enfrentando o fluxo contrário e apressado apostado na conquista de um lugar nas bancadas, gritando-lhes até enrouquecer “Olha o Avante, órgão central do Partido Comunista Português!”. Os resultados foram sempre escassos, o jornal saía à quinta e os da romaria (vermelha!) de passo apressado segurando bandeiras ou só paixão ansiosa ou já o tinham comprado ou estavam concentrados em preocupações que metiam outras balizas. Mas ganhámos sempre no campeonato do ritual do insólito genuíno, com uma sensação de desforra perante outros atrevidos da concorrência, pois reposta tinha sido a honra dos pergaminhos. Fechadas as portas do estádio, comportando multidões alienadas em disputa de paixões periféricas, uma heresia em tempo de revolução, recolhidas as sobras, contados e registados os magros tostões recolhidos, gargantas gastas, achávamos que a honra revolucionária tinha marcado golo. Para nós, então, era mesmo assim.

 
Um texto de Helena Cabeçadas (*)

A carta escrita pela Helena Pato, quando criança, e publicada aqui recentemente, fez-me recordar, de forma viva e crua, imagens das escolas primárias que eu frequentei, entre 1953 e 1957, em contextos geográficos e culturais diferentes. São recordações duras, desprovidas da alegria infantil que seria de esperar em escolas de e para crianças.

1-A minha primeira escola, num bairro periférico de Lisboa, que frequentei entre os seis e os oito anos,  funcionava num palacete meio podre, em que as escadas e as paredes se esboroavam, o vento e o frio penetravam por todos os lados. Havia as “meninas do Bairro” (da Madre de Deus), limpinhas e de bata branca, entre as quais me incluía, e as “miúdas das latas”, sujas e esfarrapadas, que vinham dos bairros de lata que o circundavam. Embora estivéssemos lado a lado, inclusive na mesma carteira, não nos dávamos entre nós. Havia uma tensão latente entre os dois grupos e que, por vezes, explodia em lutas verbais, muitas vezes cruéis. As casas de banho eram lá fora, imundas. Não havia recreio coberto. Se chovia, paciência, ou ficávamos na sala de aula ou íamos apanhar chuva. Recordo que um dos nossos principais divertimentos quando chovia, e esse era comum aos dois grupos, era ver quem matava mais piolhos dos que saltitavam nas carteiras…

Eu tinha sorte, a minha professora, a D. Cândida, uma senhora elegante e meiga, era “boazinha”; nunca a vi bater em nenhuma criança. Em contrapartida, na sala ao lado, reinava o terror. A Directora, a D. Alzira, era uma verdadeira megera: as bofetadas, as reguadas, os castigos violentos, eram o pão nosso de cada dia. Nós ouvíamos os gritos e os choros das nossas infelizes coleguinhas e chorávamos com pena. Uma das garotas morreu, segundo constou, na sequência do lançamento de um apagador atirado com fúria assassina. Como a vítima pertencia ao grupo das “miúdas das latas” não houve problema, o caso foi abafado. Aluna que fosse levada ao exame de admissão ao liceu pela Sr.ª Directora tinha sempre a classificação máxima; daí a sua reputação como “excelente professora”. Só que poucas eram as eleitas e claro que as suas alunas dos bairros de lata desistiam logo na 1ª ou na 2ª classe…

Nunca, nesta escola, houve uma festinha, por pequena que fosse, ou um passeio. Era um local triste, um espaço duro, de violência manifesta e latente.
Quando, na 3ª classe, aos oito anos, fui para Moçambique, o ambiente da escola mudou radicalmente. Em Lourenço Marques (actual Maputo) a Escola era ampla, moderna, luminosa, com recreios interiores e exteriores, onde podíamos correr e brincar à vontade. Eram só meninas brancas, todas do mesmo estrato social, filhas da burguesia colonial. Não me lembro de ver uma única menina negra ou mesmo mulata. Na altura não me questionava sobre isso, achava normal.

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O drama maior, sempre seguido de uma angústia seca que ia do estômago até ao pensamento e ao sentimento, de quem tinha a militância anticolonial já metida no corpo, era, para os que não optavam pela deserção e pelo exílio, como fazer “aquela guerra”. O “logo se vê” era uma forma de tentar adiar o inadiável, confiando na gestão corrente e possível da ilusão de manter as mãos limpas entre convicções entranhadas e a responsabilidade por homens carne para canhão arrancados à juventude para serem fardados, metralhando e sendo metralhados, entregues à nossa guarda e comando. O salazarismo-marcelismo jogava nesta ambiguidade dos oficiais milicianos numa guerra que sabia que muitos odiavam. E o que lhes equilibrava o balanço de análise estratégica, arriscando inclusive mandarem para as frentes de combate, comandando tropas, dirigentes e activistas veteranos e experimentados das lutas bravas estudantis contra o fascismo e o colonialismo, era saberem que pesaria, nos comportamentos e portes dos jovens oficiais milicianos, estes terem sob suas responsabilidades, em cenário de guerra, não só a sua própria vida como a de uns tantos outros – furriéis, cabos e soldados -, arrancados ao Portugal profundo e adormecido. E que a realidade da guerra, nua e crua, construiria o resto que lhes convinha: perante ideias e convicções optadas mas só espelhadas ali em fogo vindo do escuro anónimo da mata, a fraternidade de corpo da família tuga, construída em equipa desterrada e feita em cumplicidades de desfortuna partilhada, venceria a pulsão de mata antes que morras e morram os que comandas. O regime e os oficiais milicianos de consciência anticolonial jogaram, durante toda a guerra colonial, um jogo perverso, como gatos e ratos vestidos de camuflados, entre convicções e condições. Nos treze anos de guerras coloniais em África, o regime ganhou primeiro e só se rendeu, baqueando depois, quando os oficiais milicianos conseguiram partilhar a corrosão das angústias das suas ambiguidades não resolvidas não “para baixo” (para os furriéis, cabos e soldados, a maioria vinda do povo “feito para obedecer”) mas sim “para cima” (para os oficiais profissionais de baixa e média patente, quando a estes chegou o desgaste da guerra infinda e inglória).

Feito o intróito, está na hora de passar ao Major Pinheiro, um típico oficial “tarimbeiro”. Ele era do tipo de oficial pançudo que abanava o rabo a acompanhar movimentos enérgicos dos braços, no esforço inglório de tentar imitar um porte marcial. Vindo de sargento, tinha andado pela GNR, fizera uma comissão em Luanda, outras em Lourenço Marques e agora era segundo comandante no batalhão do Pelundo. Ali, era a máxima autoridade a seguir ao Tenente-Coronel Romeira. De guerras, pouco tinha aprendido. Restava-lhe a prosápia da ordem unida, dos regulamentos e do semi-bigode apensado em cima de um lábio superior vermelhusco e sempre húmido. Mas adorava os tratos de couves e demais hortaliças, num esforço fanático para conseguir a auto-suficiência no alimento das nossas tropas e eventuais proveitos nos débitos para a conta do rancho. Chegado ao Pelundo, o Major Pinheiro tomou a peito o pelouro dos melhoramentos (com a construção de uma igreja na frente das prioridades) e, como não podia deixar de ser, a implantação e conservação de uma enorme horta que vitaminasse o pessoal. Quem queria encontrar o Major Hortelão, não tinha que hesitar, ele havia de estar, pela certa, a peito descoberto no meio do batatal, ou camuflado entre os feijoeiros ou então, em última hipótese, emaranhado no meio dos ramos dos tomateiros. O Major Pinheiro era um subserviente relativamente ao Comandante e à ordem estabelecida. Fazia contas e mais contas ao pé-de-meia amealhado com os ganhos e poupanças dos soldos das comissões em África e que o levava a sonhar alto com compras de mais courelas na sua santa terrinha, lá para os lados de Águeda. Ninguém tinha em grande conta o Major Pinheiro, excepto ele próprio. Não dava duas para a caixa a conversar e não percebia nada da poda dos assuntos da guerra, quanto mais todos os outros que não metessem contas de investimentos de poupanças ou artes para rentabilizar a horta. Resumindo, era um chato, a caminho do labrego típico. Sem que isso colidisse com os seus galões de major. E, na calmaria ronceira de então no quartel do Pelundo, a tropa habituava-se à boa rotina, esperando que o tempo da comissão tivesse termo. Entretanto, iam crescendo as hortaliças do Major Pinheiro.

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Decorria o primeiro ano da Revolução de Abril e as ruas enchiam-se de cartazes, de murais e de inscrições nas paredes – listagens de reivindicações veementes e cheias de pressa de um País oprimido durante décadas, à mistura com frases dos “anarcas” e dos fascistas.
A variedade era grande e colorida. Exigências para o logo logo, o imediato, o já já, tais como “Reforma agrária já!”, “Os directores fora das escolas já!”, “Independência das colónias, já!”, etc. Ou proclamações imbuídas de um espírito de salvação nacional com carácter de exclusividade – umas, acusatórias (mais ou menos ofensivas, mais ou menos liquidatárias de algumas personalidades políticas), outras contendo promessas (mais ou menos honestas, mais ou menos idealistas). O certo é que todas garantiam um futuro inigualável aos portugueses. Viviam-se os primeiros arrebatados tempos da Democracia. (Uma mudança menos agitada e com menos cravos poderia, provavelmente, ter-se traduzido em maiores avanços para a democracia económica e social – digo eu, que gostei demais desses anos de luta em constante frémito e festa – mas o estilo das revoluções não se encomenda a fornecedores ou se decide por votação de vontades, a nossa foi o que foi e, a meu ver, apesar de tudo deixou bons frutos).
A poluição propagandítistica e ideológica casava bem com o temperamento da generalidade do povo: as discussões de futebol ou nas famílias (por causa dos filhos, de dois palmos de terra arável ou de heranças) haviam dado lugar aos argumentos e contra argumentos sobre questões como o direito à habitação, o sexo antes do casamento, ou as últimas do Conselho da Revolução. No fundo, continuávamos iguais a nós próprios: românticos, generosos, gostando de festa e, sobretudo, opinativos e fervendo em pouca água. O desejo de convencermos cada português a ser um dos nossos tornava-nos, quase todos, intolerantes. A vontade de vencermos dava-nos persistência e levava-nos para a rua, em vagas de contínuas palavras de ordem, clamadas hora a hora. Ou escritas, de acesso fácil para todos. Assim sendo, o espaço público urbano tinha de ser disputado pelos diferentes partidos (umas dezenas). Em Lisboa parecia não restar a descoberto nem um milímetro quadrado e, como seria de esperar, a disputa acontecia corpo a corpo, em muitas ocasiões. Mesmo os mais calmos militantes defendiam por todos os meios a sua “dama”, isto é, a sua causa.
Naquela noite (outonal, suponho), assim que iniciei o turno de vigilância da sede do meu partido, cerca das 23 horas, reparei que estava prestes a sair um piquete de colagem de cartazes: os baldes, as trinchas e os rolos bloqueavam a ampla entrada do edifício. Eram uma meia dúzia de camaradas da cintura industrial: activistas abnegados, robustos, gente do melhor, mas que carecia de uma voz de contraponto à sua impetuosidade, uma presença calma e fria nas decisões. Surpresa? – Uma mulher.
– Lena Pato: estás destacada com o camarada X, que segue no carro com os materiais, para acompanhares esta equipa! Vão colar a partir do Marquês de Pombal, pela Avenida abaixo, e temos informação que há um grupo do MRPP que vem a subir dos Restauradores, colando do mesmo lado da Avenida. Prevêem-se provocações e queremos que ajudes a evitar confrontos. Vai a pé com eles, amiga, mantém-te sempre por perto, e modera os nossos, os mais exaltados.
Partimos. Começou a afixação. Tudo em ordem, tudo ok, o pessoal bem disposto e eu atenta à aproximação do grupo dos adversários.
Ei-los!

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Um texto de José Augusto Rocha (*)

 
Na edição dos “Caminhos da Memória”, de 27 de Janeiro, num exercício literário de luminosa simplicidade, Diana Andringa, deu-nos conta da sua prisão, no âmbito do processo que ficou conhecido por “julgamento MPLA”. É um texto sinfónico, onde se podem surpreender quatro andamentos: a espera da chegada da polícia, a despedida da liberdade, a prisão, o tempo do cárcere. Narrativa rítmica que flui e respira com uma naturalidade que nos inspira a sensação perigosa de almejar uma repetição…

Mas é um texto incompleto, onde falta uma segunda parte: o julgamento. Porque fui seu advogado no processo, aqui vai uma breve memória do acontecido no Tribunal Plenário.

Naquele assustado dia 27 de Janeiro de 1971, era ainda manhã cedo, o telefone tocou e, do outro lado, suou a voz, ao mesmo tempo serena e aflita, de Diana Andringa, a solicitar os termos de uma procuração forense, dado que a PIDE já farejava as instalações de sua casa e outros amigos tinham acabado de ser presos. Se a prisão de alguém é sempre indesejada, a de um amigo causa um ranger de dentes que angustia o coração.

O julgamento começou a 11 de Fevereiro de 1971 e viria a terminar em 30 de Março do mesmo ano. Trata-se de um julgamento onde ocorre a particularidade de se discutir um crime contra a segurança exterior do Estado – o “crime de Traição à Pátria” – quando, o que era normal e corrente no Tribunal Plenário, era serem julgados crimes contra a segurança interior do Estado, imputados aos membros das chamadas organizações subversivas, que muitas foram as que passaram por aquele tribunal.

Nos termos do art.º141º, nº1, do Código Penal da época, esse crime, concretamente imputado, consistia em “intentar, por qualquer meio violento ou fraudulento ou com o auxílio do estrangeiro, separar da mãe Pátria ou entregar a país estrangeiro todo ou parte do território português, ou por qualquer desses meios ofender ou puser em perigo a independência do País”. Para além dos concretos incidentes que viriam a verificar-se, ao longo do julgamento, travou-se um forte debate sobre o sentido da incriminação da traição à Pátria e sobre a própria guerra colonial, pela primeira vez d vez dveeslocada para o palco de um tribunal.

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Recebi este texto de Marinela Coelho, viúva de Manuel Serra, com pedido de publicação neste blogue e no Entre as brumas da memória. Não esquecerei a força e o sorriso que nunca a largaram, nem depois do fim. Joana Lopes

 
Obrigada, em meu nome e do Manel Serra, a todos os amigos, companheiros, camaradas e também às pessoas anónimas que o admiravam, que nos acompanharam nesta hora triste que é a da partida.

Prestou-se tributo a um lutador que em toda a sua vida nunca abdicou, nem nas horas mais perversas de antes e depois do 25 de Abril, dos seus princípios políticos, ideológicos, morais e cristãos.

Que seja lembrado, enquanto houver memória!
Marinela

Este texto foi escrito a partir do rascunho da minha primeira carta dirigida ao Ministério da Educação (1947)! Protestativa, dorida, mas cordata. Na Europa ainda havia cheiro a mortos do holocausto, Portugal reclamava ter tido uma posição neutral na guerra, nas escolas fazia-se a saudação nazi, os meus pais viviam num clima de medo por serem ambos funcionários públicos. Pertencíamos a uma família de ideias e de tradições democráticas –  o meu avô tinha sabido do fim da guerra fechado no Forte de Caxias, pelos gritos de “vitória!”.
A “heroína” desta história é a minha Mãe. Tem 94 anos, chama-se Maria Augusta, conversa sobre política como sobre tudo o que faz parte do presente. Acha que foi a melhor professora primária do mundo (e se calhar foi…) e comove-se sempre que recorda este episódio. H.P.

 
Senhor Inspector:

Eu tenho oito anos e ando na terceira classe e isto aconteceu na primeira semana de aulas. Eu vim para esta escola agora pela primeira vez e ela é a escola do bairro onde eu vivo em Lisboa. Eu andava muito contente porque a minha professora tinha-me sentado na mesma carteira com uma menina que é minha amiga e se chama Nina, e que mora ao pé de mim ali logo abaixo da minha casa. É que eu não conhecia ninguém aqui nesta escola porque eu andava na segunda classe na Promotora de Alcântara, que a minha Mãe era lá professora e eu ia com ela todos os dias de camioneta e num eléctrico. Mas então foi que a meio do ano passado ela ficou doente e eu pensava que era pouco doente, só assim com uma doença sem febre que ia passar, e então eu continuei a ir para aquela escola mas sozinha. Por isso e por ainda ter poucos anos mudei para aqui agora na terceira classe para esta escola do Bairro. Senhor inspector eu ainda estava cá há poucos dias mas gostava muito da minha professora e um dia entrou pela nossa sala adentro uma senhora muito alta e muito forte cá da escola que eu nunca tinha visto e as meninas levantaram-se e a minha professora disse que era para ficarmos de pé até essa senhora nos dizer podem-se sentar, porque ela era a senhora directora. Então a senhora directora disse zangada que também era para estendermos assim o braço quando nos púnhamos de pé e era para dizermos Bom dia senhora directora e eu nunca tinha aprendido isso do braço na minha escola de Alcântara mas fiz como as minhas colegas. Quando aquilo acabou sentámo-nos e a senhora directora perguntou Quem é uma menina que tem a mãe tuberculosa?

As minhas colegas ficaram todas caladas e eu também porque eu não sabia o que era isso e só depois nesse dia é que eu soube porque era que a minha mãe não ia dar aulas ao alunos dela que o disse a senhora directora e pensei logo que se calhar ela ia morrer. Então a senhora directora falou muito alto É aquela menina não é? E virou-se para mim com o dedo apontado e estava com uma cara muito má e eu já estava quase a chorar e vai ela foi ao pé de mim agarrou-me no braço com toda a força levou-me e sentou-me sozinha no fundo da sala longe das minha colegas e disse que era para eu não lhes pegar e avisou a minha professora que também era para eu não ir ao recreio e eu sempre a pensar que eu não sabia que eu estava doente, e então se a minha mãe fosse morrer?

E depois quando se ia embora a minha professora disse assim Vamos meninas levantem-se outra vez e digam Bom dia senhora directora e façam o que a senhora directora vos ensinou a sauda…a saudassão. Fizemos todas e depois eu esperei pela hora do recreio e fugi para casa e ia a correr muito e a chorar, só queria que me dissessem se era verdade se a minha mãe ia morrer que parecia que a directora tinha dito isso.

Ao outro dia ao intervalo eu estava aqui na sala a comer o meu lanche cheia de pena por não ir lá para fora com as outras meninas mas era para não lhes pegar e eu vi a minha mãe vir cá falar com a minha professora com um papel que acho que dizia que o que ela tinha não se pegava, mas ela estava era muito furiosa com a senhora directora por causa disso da saudass…da saudação. E então depois das meninas virem do recreio a minha professora Dona Lurdes voltou a pôr-me ao pé da minha amiga que se chama Nina e no dia a seguir eu já fui ao recreio e nós as duas e mais umas minhas colegas nunca mais fizemos essa palavra que eu não sei dizer, quando alguém entrava. Porque a professora disse que isso só faziam as que queriam porque acho que ela gostou do que a minha mãe disse. Foi assim e depois na outra semana a minha professora já não veio e agora eu estou a escrever esta carta porque andam a dizer que a Dona Lurdes está de castigo por causa de mim e eu queria dizer ao senhor inspector que as meninas daqui nós todas gostamos muito dela e que temos muitas saudades dela e que ela ensinava muito bem. E também quero dizer que ninguém me mandou escrever esta carta eu é que pedi à senhora professora nova Dona Luísa que nos veio dar as aulas se ela me deixava e ela é muito boazinha.

Obrigada senhora professora Dona Luísa
Adeus senhor inspector

Lisboa, 30 de Outubro de 1947
Maria Helena Pato

 
Adaptação de um texto publicado in Saudações, Flausinas, Moedas e Simones, Campo das Letras, 2006


O mito da ditadura «branda» do Estado Novo – desmentido em inúmeros episódios de assassinato e tortura aos opositores – torna-se verdadeiramente anacrónimo se nos confrontarmos com algumas descrições do que foi a brutalidade da actuação policial em África. Tortura na Colónia de Moçambique. 1963-1974, publicado pela editora Afrontamento em 1977, traz-nos o relato dessa realidade pela voz das vítimas. Segundo é informado no prefácio, a sua recolha deriva de um inquérito «promovido pelos juristas que, logo após o 25 de Abril, se integravam no grupo conhecido pelo nome de Democratas de Moçambique e que se propunha, dentro da então ainda colónia, divulgar os princípios da Frelimo.» Detive-me na história de Beatriz Jorge Cossa, de 23 anos, que transcrevo tal qual vem no livro. Não é fácil, mas vale a pena ler.

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O que se segue é a narrativa de uma prisão atípica, a de uma das redactoras deste blogue, há exactamente quarenta anos. Diana Andringa entrava cedo num emprego distante de casa. Quando a PIDE a procurou, já tinha saído. Teve pois tempo de se preparar para a prisão. Foi uma primeira vantagem, mas não a única: histórias de amigos presos, visitas a Caxias, ajudavam a evitar-lhe o choque do desconhecido; a sua ligação, mais afectiva do que efectiva, a uma organização, encaixava mal no quadro mental dos inquiridores; mas, sobretudo, confiava em que – tendo o director da PIDE a filha em Cuba – as suas ligações familiares travariam eventuais excessos policiais. Não tendo que enfrentar as torturas bárbaras que tantos outros suportaram, pôde verificar algo que a tortura impedia de observar: que, privada dessa arma, a polícia política se tornava ineficaz e até, por vezes, caricata. O que, a seus olhos, torna ainda mais sórdida a utilização da tortura e mais dignos de respeito aqueles que a sofreram. Joana Lopes

   
O carro, um Wolkswagen, passou do outro lado do largo onde esperava o autocarro. Contornou-o na direcção da rua onde morava. Pareceu-me reconhecer um dos homens no interior: o chefe de brigada Inácio Afonso. Avistara-o durante uma ida à PIDE, na António Maria Cardoso, requerer o direito de visitar o então meu namorado.

O autocarro que chegava ocultou-me da vista dos passageiros. Entrei, o coração a bater mais rápido que o habitual: há muito tempo que era notória a vigilância à nossa casa, dez dias antes fôra preso o Álvaro. Teria chegado a minha vez?

O trajecto até à agência de publicidade onde trabalhava levava cerca de uma hora. Fui passando em revista as possibilidades: ir trabalhar, como se nada se passasse, e aguardar o desenrolar dos acontecimentos? Apear-me a meio do percurso, ocultar-me durante algum tempo, deixar o país? Mas esconder-me onde, se aqueles que mais facilmente me acolheriam poderiam estar também vigiados e ser postos em perigo pelo meu aparecimento? E se a vigilância sobre nós durava há tanto tempo e era tão ostensiva, seria possível que os meus dados não estivessem já em todas as fronteiras? Talvez, no entanto, a PIDE fosse menos eficiente do que pensávamos… Mas se abandonasse o país e não pudesse mais voltar, seria isso mais útil do que arriscar a prisão, uma vez que não fazia parte de nenhuma organização e não tinha qualquer importância, nem informações que pudessem fazer perigar a segurança de outros? E se o carro tivesse passado ali por simples coincidência, ou reforço de vigilância, ou intimidação, fugir não iria piorar a situação dos que ficassem?

Ao fim de uma hora a pesar prós e contras, acabei por me apear na paragem do costume. Olhei em volta: não vi nada de inabitual. Entrei na agência. Estava há poucos minutos no gabinete quando o telefone tocou. Era a Nita: “A Zé foi presa. A mãe dela foi a tua casa avisar-te e a PIDE estava lá, prenderam também o Zé.”

As dúvidas voltavam: que fazer? Sabia que vários dos meus colegas, se não todos, estariam dispostos a ajudar-me, mas tinha o direito de os pôr em risco? Valeria a pena? Certamente a PIDE estaria já a vigiar o edifício…

Telefonei ao José Augusto Rocha: “A PIDE está em minha casa. Devo estar a ser presa. Posso deixar-te uma procuração?” Surpreendido, talvez ainda ensonado, o Zé Augusto explicou-me o que fazer. Escrevi a procuração e deixei-a à Maria, com o Bilhete de Identidade necessário ao reconhecimento da assinatura. Expliquei-lhe tudo e pedi-lhe que a entregasse depois à minha mãe, a quem deveria também confirmar a minha prisão. O Plínio, que dividia o gabinete comigo e era familiar de um dirigente da PIDE, abriu as suas gavetas aos papéis que, mesmo inócuos, a polícia poderia querer apreender-me. Desci as escadas e pedi à recepcionista que me avisasse quando os agentes entrassem à minha procura. Telefonei então à minha mãe, pedindo-lhe que aguardasse o telefonema de confirmação da Maria para me levar à sede da PIDE, na António Maria Cardoso, um pijama e uma escova de dentes. Liguei para o emprego do meu pai e pedi à secretária que lhe desse a notícia com cuidado, para evitar um possível problema cardíaco. Sem saber que mais fazer, arrumei a secretária. O telefone tocou e ouvi a voz soluçada da recepcionista: “Já entraram. Foram à Secção de Pessoal.”

Fui à casa de banho. Quando regressava, vi-os chegar: o homem do carro e uma mulher, a também chefe de brigada Madalena Oliveira. Traziam um mandado e tinham avisado a Secção de Pessoal. Ninguém meu conhecido fora preso com tamanha legalidade.

Pedindo desculpa pelo incómodo ao Plínio, passaram rapidamente busca à minha secretária, detendo-se a observar alguns exemplares do Le Monde diplomatique. A seguir pediram-me que os acompanhasse.

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