Testemunhos


Um texto de José Augusto Rocha (*)

Com a partida de Saldanha Sanches para as longínquas paragens do além, desaparece um cidadão que foi um grande exemplo de coragem, de dignidade e de lucidez e que soube libertar, desde a juventude, o coração de toda a inércia da indiferença. Desaparece alguém que soube dizer sim à fraternidade e ao amor e que na memória dos amigos nasce todos os dias, manhã cedo.

Foi vasta, dura e persistente a luta política de Saldanha Sanches e quando chegou a alvorada do 25 de Abril, estava preso e ia ser julgado no Tribunal Plenário, no seguimento de um despacho de pronúncia, de 1 de Fevereiro de 1974, subscrito pelo Juiz, Serafim das Neves. Militava então no MRPP, organização que o despacho de pronúncia descrevia como “uma organização embrionária do futuro Partido Revolucionário do Proletariado Português e rege-se, quer na sua linha política, quer nos seus métodos organizativos, pelas doutrinas e teorias do marxismo leninismo, adaptando na sua actuação prática os princípios básicos dos processos revolucionários de Lenine e Mao-Tsé-Tung.”

A acusação, para fazer o enquadramento dos crimes contra a segurança do Estado, prosseguia, dizendo: “ sendo portanto uma organização de índole comunista do tipo marxista-leninista-maoista e que preconiza a luta armada, adaptando ainda métodos anarquistas na prossecução da sua actividade e visa como seu principal objectivo, conseguir por meios violentos, quer pela insurreição armada, quer por táctica de guerrilha, o derrube do regime vigente com a consequente alteração da Constituição Política.

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O Zé Luís foi um dos primeiros heróis que conheci. Meses antes de eu chegar à Faculdade, fora apanhado pela polícia durante uma distribuição de comunicados, resistira à prisão e fora baleado. Foi aos gritos de “Liberdade para o Saldanha Sanches” que pela primeira vez participei numa manifestação, no dia do seu julgamento.

Condenado à prisão já sofrida de dez meses, saíu imediatamente. Algum tempo depois, voltaria a ser preso, por poucos dias, na Cantina da Cidade Universitária, e expulso da Universidade por quatro anos.

Passou então à clandestinidade e voltou a ser preso e condenado a três anos de prisão e aplicação de medidas de segurança. Reencontrei-o durante as minhas visitas ao Alexandre Oliveira, em Peniche. Por vezes ouvia, do outro lado do vidro, as suas gargalhadas inconfundíveis.

Depois do 25 de Abril, durante as perseguições ao MRPP, passou alguns dias em minha casa. Era um clandestino exemplar: ajudava na cozinha, lavava a louça e, embora tivesse uma arma, deixava-a fora do quarto que partilhava com a minha filha de poucos meses.

No início dos anos 90, entrevistei-o para a série “Geração de 60”. Tinha mudado bastante, mas afirmava a sua alegria ao olhar para trás e saber que tinha participado na luta para mudar o país: “Acho isso uma alegria permanente na vida de uma pessoa.” Mesmo se o impediu de outro passado: “Namorar, sair à noite, beber um copo de vez em quando.” “Mas”, terminou, “a vida é sempre uma coisa finita, há sempre um número infinito de formas de a usar bem e só se pode usar de algumas formas, não é?”

Um texto de Justino Pinto de Andrade

(UM DIA ALGUÉM ESCREVEU NOS MUROS DE LISBOA:
“O POVO LIBERTARÁ SALDANHA SANCHES”)

Dedicatória:
Aos meus amigos, Diana Andringa e Fernando Rosas, seus amigos e companheiros de longa data. À Doutora Maria José Morgado, esposa de tantos anos e de tantas caminhadas.

1. A morte do Professor Saldanha Sanches é mais um momento de dor. É mais uma vela que se apaga dos tempos da minha juventude. Ele em Portugal, e nós aqui, em Angola, lutámos todos contra o regime injusto e anacrónico que nos oprimia. Somos, pois, contemporâneos das mesmas causas: a luta contra o colonialismo e contra o fascismo que alimentava e se alimentava do colonialismo.

2. Poucos dos que me ouvem (ou lêem) sabem quem foi Saldanha Sanches, já porque ele não era angolano e porque também, nos últimos anos, limitou a sua intervenção pública quase apenas à análise política e económico, em alguns dos órgãos de comunicação social de Portugal.

3. Saldanha Sanches era um brilhante professor de Direito Fiscal e de Finanças Públicas na Universidade Clássica de Lisboa, também na Universidade Católica Portuguesa. Desligado do activismo político directo, continuou, ainda assim, a ser um referencial da democracia e da luta pela democracia portuguesa. Sempre que estivessem em jogo grandes decisões como, por exemplo, actos eleitorais, lá ele surgia a público, dando opinião sobre os actores em concorrência, sobre as propostas políticas, sobre as razões que estavam por detrás das propostas. Comunicava, também, a sua opção de escolha. Ele não era, pois, um absentista da política. Estava sempre atento.

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A vida habitua-nos sem nos habituar a estas notícias, sobretudo quando a velhice nos disputa o viço não perdendo oportunidade de nos corroer as bengalas com que nos apoiamos mais no chão falso da memória que na esperança do projectar, fazer e transformar. A razia de companhias, afectos e admirações já me tocou funda na família (com os adeus dolorosos dos meus pais e de dois irmãos), no meu escritor de culto (José Cardoso Pires), no meu cantor de toda a vida (José Afonso), no amigo que continua na palma da minha mão (o Zé), no único militar profissional de quem fui amigo e tombou em combate de uma forma vil (o major Passos Ramos), no líder político que mais admirei e mais detestei, no meu contraditor político mais estimado e com quem trocava vivas picardias blogosféricas sem o saber ferido por doença implacável (o Jorge Ferreira). Sei que esta lista, nas suas várias qualidades, vai aumentar nos dias que me restarem. Até que uns poucos me digam adeus em saudade rápida porque mais não mereço e assim ficarei aliviado de chorar mais perdas de companhias e referências.

Foi-se o Saldanha Sanches. Não tenho competência para avaliar a dimensão da perda do professor e do fiscalista. E há muito que, politicamente, ele não me impressionava. Respeitava-lhe e admirava a sua frontalidade truculenta e era tudo, o que, nos tempos que correm e segundo as minhas medidas, não era pouco. Mas a perda de Saldanha Sanches acrescenta um novo capítulo no meu índice de baixas. Curtido nas perdas de familiares, amigos, pessoas de culto, faltava-me o género desta perda, o de um companheiro de cela em Caxias. Numa vaga repressiva sobre a contestação estudantil em 1965, um leque seleccionado pela PIDE entre os estudantes contestatários foi encaminhado para a Prisão de Caxias. Eu e a maior parte éramos novatos mas, na minha cela, Saldanha Sanches auto-emergiu como o mais experimentado (já tinha sido preso e baleado) e assumiu-se logo ali como responsável pela cela prisional, distribuindo tarefas e organizando uma lista de reivindicações. Foi breve essa passagem pelos calabouços da PIDE, tanto que nem consta do largo currículo prisional de Saldanha Sanches. Enquanto Saldanha Sanches me “chefiava” em Caxias pela minha insignificância de “preso político de base”, cá fora, no desassossego das famílias dos encarcerados pela PIDE amontoadas às portas da António Maria Cardoso, Esmeralda, a minha irmã mais velha e minha mãe substituta, uma camponesa urbanizada que sempre me reprovava “meter-me em política”, acartando um farnel, impetuava desabridamente, com o seu espírito transmontano, contra os pides de serviço, exigindo a devolução imediata do seu “maninho” e garantindo-lhes que dali não saía enquanto a devolução exigida não se concretizasse. Foram os pais de Saldanha Sanches, já batidos nas anteriores reclusões do filho, usando a sabedoria da experiência, que acalmaram e enquadraram a impaciência dorida da minha irmã. E até eu ver a luz do sol na saída da António Maria Cardoso, os pais de Saldanha Sanches não faltaram um momento no acompanhamento da minha irmã que sofria aquela prisão com a surpresa revoltada de quem nada entendia da necessidade e utilidade de haver quem combatesse a ditadura que ela entendia como uma fatalidade eterna, quase um sortilégio da natureza. Ou seja, enquanto eu em Caxias me subordinava ao “posto por experiência” de Saldanha Sanches, o mesmo género de hierarquia estabelecia-se, cá fora e na cadeia das dores afectivas, entre os nossos familiares. São coisas que a amnésia não corrói.

Até sempre, Saldanha Sanches.

(Publicado também em Água Lisa)

Seguíamos num Volkswagen: eu acompanhava-os, até ver. O Alfredo Noales era jornalista do jornal República e tinha recebido do chefe de redacção a incumbência de fazer a reportagem. Para a censura cortar, inevitavelmente, de alto a baixo, claro. Ao seu lado, um amigo nosso, um camarada. No banco de trás seguia eu, impaciente, receosa.

Nas vésperas, tinham sido lançados panfletos por toda a cidade, chamando o povo a comemorar o 1º de Maio, a manifestar-se. Se a ditadura proibia toda e qualquer manifestação, “o primeiro de Maio” era assunto subversivo, cuja referência em lugar público, só por si, podia valer prisão. Nos últimos meses, reuniões e mais reuniões, lá em casa, tudo muito discutido, muito preparado, à porta fechada, mas nada passara por mim. Eu apenas sabia que algumas dezenas de brigadas clandestinas, furtivamente e durante noites e noites, iriam cobrir de propaganda a cidade de Lisboa e os arredores. Papéis, aos milhares, por todos os sítios: apelos à manifestação contra o regime e informação acerca das greves que, nos últimos meses, despontavam, umas a seguir às outras, nas empresas dos arredores.

Chegámos à Praça do Comércio uns dez minutos antes das 6 horas. Primeiro de Maio de 1962. Uma data histórica – que persiste em sobrar-me, em ficar-me para trás, sempre que quero escrever sobre a resistência ou sobre a repressão fascista. Talvez por ter sido a única vez que, em idênticas circunstâncias, passei mesmo ao lado da morte. “A-ssa-ssinos! A-ssa-ssinos! – Não se tratava de um grito demagógico, eles eram realmente assassinos.

O nosso carro ia devagar. As ruas estavam praticamente desertas e, olhando para as lojas e para os cafés, a óbvia normalidade assustou-nos. Estaríamos à beira de um fracasso? Era aquele o resultado de tanto trabalho de organização, tantos meses a fio? “Tem calma, Lena, ainda não são 6 horas!” Tanta reunião, tanta agitação, e um ambiente explosivo, no crescendo das greves, iria dar, assim, em nada? Seria que o povo não tinha coragem de assumir nas ruas o descontentamento que vinha manifestando à boca calada, e que já revelara, de forma tão convicta, tão expressiva, nas eleições do Delgado? Afinal, onde estaria esse povo? “Tem calma, Lena, ele vai aparecer!”Amedrontara-se? Não se atreveria a enfrentar as forças policiais que os estudantes haviam já defrontado, por mais do que uma vez, durante esse ano?

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O Tenente Aviador Aparício, lenço azul ao pescoço e ar de quem está meio cá meio lá, entre a terra e o céu, aterrou a Dornier na pista de terra batida de Catió. Quando o primeiro militar que o foi receber o saúda, dispara, rindo-se, “Então, aqui bebe-se?”. Claro que sim. Quem ia deixar o Tenente Aparício morrer de sede? O aviador é levado, de jipe, ao bar de oficiais e são-lhe servidas as melhores iguarias disponíveis, acompanhadas de cervejas bem geladas. Sabia-se deste voo que era, aliás, aguardado ansiosamente há vários dias. Os aviadores eram sempre recebidos como VIPs na messe de oficiais do batalhão de Catió, quartel que, na maior parte do ano, só tinha ligações com o exterior pelo ar. Na época das chuvas, o aterrar de um avião ou de um heli era sempre motivo especial e comportava a emoção de confirmar que Catió existia no mapa. Entre todos os aviadores militares em serviço na Guiné, o marado do Tenente Aparício era o mais festejado e o mais bem-vindo. Não por ser marado mas por ser o mais marado de todos, tanto que era o único que se dispunha a aterrar de Dornier em Guileje. E este quartel era a posição mais martirizada e mais isolada da área de intervenção do batalhão e em toda a Guiné. Por causa disso, a tropa de Catió encaixava bem as risadas sem motivo deste aviador e uma ou outra frase desconexa que ia largando, pelo valor único que ele representava para o batalhão e para o pessoal de Guileje. Após menos de meia hora a descansar, a comer e a beber, o Tenente Aparício ajeitou o lenço azul e levantou-se. “Vamos a isto!”, disse com os olhos a brilharem. Se era o único que aterrava de avioneta em Guileje, aquele era o sítio onde ele mais gostava de ir. Cada viagem era uma aventura. E o Aparício adorava aventuras.

Carregado o correio, medicamentos, algumas peças e acessórios, tudo em quantidade limitada por causa do pouco peso que a aeronave podia transportar, o Tenente Aparício despediu-se. E mandou-me subir. Naquele dia eu ia ser seu companheiro de viagem até Guileje. “Vamos a isto!”, repetiu, replicando mais uma versão das suas risadas. Eu ia para passar uma semana em Guileje, como fazia quase todos os meses, para tratar de problemas com as transmissões e trocar os códigos das cifras da criptografia. E, por isso, seria companheiro de viagem do Tenente Aparício. E uma ida a Guileje era sempre uma emoção, pelo risco e por rever os camaradas martirizados e isolados bem junto da fronteira com a Guiné-Conacri. Para mais, conduzido pelo aviador mais marado da Guiné. O aviador conduziu a aeronave com os jeitos e o ar de condutor habituado a uma estrada de todos os dias. E ia sempre a rir-se, na maior parte das vezes sem se entenderem os motivos. De repente, a janela da Dornier do meu lado salta e desaparece no céu. O ar entra em turbilhão e faz esvoaçar toda a papelada solta. O aviador riu-se ainda mais. Como tendo achado que aquele incidente só ia tornar mais insólita e mais típica aquela viagem e ainda dava para gozar com a cara azulada da preocupação do seu companheiro inquieto e que duvidava que, sem janela, aquela geringonça se pudesse aguentar no ar. O aviador comentou, sem conter o riso: “Eu bem disse na Base que essa merda estava mal apertada, mas não faz mal, o avião não cai, ficamos é com as ideias mais frescas.”. A viagem decorreu, num regalo de vista sobre as matas luxuriantes de verde intenso como era típico do sul da Guiné, permanentemente atravessadas por enormes e serpenteantes cursos de água. Debaixo de nós, o fabuloso Cantanhez expunha a sua beleza única. Sempre a sobrevoar uma zona controlada pelo PAIGC. É que, no sul, tirando os quartéis isolados e sitiados de Catió, Guileje, Gadamael e Cacine, mais uns tantos destacamentos, todos sob o comando militar de Catió, a zona era inteiramente controlada pelos guerrilheiros. Estes, só eram contrariados no seu domínio pelo exército português através de bombardeamentos aéreos, fogo de artilharia e surtidas temporárias das forças especiais. E isto durou até o PAIGC receber os mísseis terra-ar soviéticos, porque, a partir daí, quase todos os aviadores se recusaram a voar no sul. Mas isso foi mais tarde, já o Aparício de lá tinha saído. Voar, naquela zona, era um desafio permanente às antiaéreas da praxe e, quanto a isso, havia que confiar na divina providência ou coisa do género. Naquela viagem, o risco era o costume, a beleza da paisagem idem, só a ventania dentro da cabine estava fora da rotina.
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Em 1964, com o fascismo no seu pleno, eu tinha 25 anos, ia a caminho de me tornar uma marxista-leninista convicta e já lutava fervorosamente nas fileiras do PCP. Para mim, era sagrada a frase “um terço dos países do mundo e dois terços da humanidade vivem em regimes socialistas” e lembro-me que sonhava com a oportunidade de, no futuro, poder conhecer de perto o mais avançado desses países, a “pátria-mãe” das sociedades sem classes – não havia de morrer sem ver o socialismo com os meus próprios olhos.

O dia em que me comunicaram que iria integrar a delegação portuguesa ao Fórum da Juventude, em Moscovo, foi um dos dias mais felizes da minha vida. À partida, éramos 10 – apenas duas raparigas – e nem todos militantes do partido. Saímos de Portugal, a conta-gotas, para Paris. Foi aí que se planeou cuidadosamente essa viagem à União Soviética e foi também aí que ficou um dos companheiros, desistente – o risco de se ser preso no regresso a Portugal era grande.

A 13 de Setembro, ainda Verão na Europa, voei sozinha para Moscovo, trajada tão primaveril quanto me pedia a minha alma. (Hoje, quer-me parecer que, de facto, não tinha ninguém assisado por perto…)

Quando desci a escada do avião, nevava, e não exagero se disser que a temperatura rondava os 15 graus negativos. Atravessei a pista em sandálias e casaquinho de malha, debaixo de uma aba de um opulento casaco de pele de raposa, pertencente à camarada russa destacada para me ir receber. Poucos minutos depois, essa simpática acompanhante recusava, em tom firme do poder, a entrega do meu passaporte à polícia, facultando-lhe uma folha à parte, dobrada em quatro, destinada a ser carimbada conforme o que fora combinado com a Embaixada Soviética, em Paris. (Carimbo de entrada num país socialista dava prisão pela PIDE, seguramente).

Os enormes prédios e a ampla avenida que percorremos após a saída do aeroporto (dezenas e dezenas de quilómetros) deixavam-nos embasbacados: porque, provincianos, nunca viramos nada assim, mas também porque o nosso olhar estava particularmente desperto para admirar as glórias do socialismo.

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