persistencia-de-la-memoria-salvador-dali

1. É já clássica a classificação do historiador Maurice Halbwachs que, opondo memória individual e memória colectiva, define esta última como uma memória normativa, simbólica e fora do tempo.
Em primeiro lugar porque o comum mecanismo de lembrar/esquecer se constitui neste caso como eixo vital de permissão discursiva, de verdade social e de controlo informativo. Ela conta uma história-ficção censurada de acordo com determinados pressupostos ideológicos e políticos, e visa essencialmente preservar a tradição e a estabilidade, cimentar a coesão das sociedades e, no limite, promover a legitimação do poder político.
Neutralizando as contradições históricas e os conflitos sociais, a memória colectiva selecciona no passado o que é considerado importante para o indivíduo ou para a colectividade e organiza e orienta esse material segundo um sistema de valores inquestionáveis.
Daí a segunda característica: simbólica, porque os acontecimentos escolhidos são idealizados, quando não mesmo sacralizados, e os valores e referências sobrepõem-se à procura da verdade do acontecido. Ligando directamente o passado e o presente aponta-se uma visão de futuro… que neutraliza e pulveriza os tempos históricos, confiscando o seu potencial.
Daí a terceira característica: fora do tempo. A memória institucionalizada aprisiona as especificidades emocionais e reduz a complexidade das experiências pessoais, estabelecendo um deslocamento temporal no vivido, como se fosse recoberta por uma dimensão vazia de tempo. Há, pois, um fenómeno de desnaturalização que fixa e reduz o sentido da memória como algo retido ou suspenso no tempo. 

Pelo contrário, a memória individual, na sua assumida subjectividade, alheia às grandes linhas interpretativas e integradoras da memória colectiva, obedece sobretudo à necessidade vital de preservar e transmitir experiências plurais e únicas, projectando luz sobre a diversidade e a complexidade daquilo que tantas vezes nos é mostrado como uma sucessão de factos de um sentido interpretativo único e inquestionável.
Neste caso o comum mecanismo de lembrar/esquecer alimenta uma corrente subterrânea necessária à sobrevivência de diferentes grupos e indivíduos e à reestruturação de identidades, de intencionalidades e valores que não sendo dominantes, são contudo indispensáveis para o que Walter Benjamin pede à história: que «ofereça uma fisionomia às datas».
Assim, mais do que um relato objectivo e factual, a memória individual é um poderoso filão simbólico e compreensivo para diferentes grupos e indivíduos, configurando-se como um reservatório de práticas sociais e políticas mobilizadoras e marca identitária de uma sociedade em busca constante de referências e de projectos. 

2. Aplicando este quadro teórico, necessariamente breve e esquemático, à nossa realidade actual, não parece haver dúvidas de que se tem vindo a construir uma memória colectiva institucional pobre e redutora, porque silencia o valioso contributo do registo testemunhal e das múltiplas e contraditórias narrativas que comprometem a sua tendência hegemónica, quando não manipulativa.
É justamente entre a hegemonia e a manipulação, que podemos situar os dois domínios da memória colectiva mais responsáveis pelo grau de conhecimento (ou desconhecimento) no presente de qualquer acontecimento passado: o domínio da História e o domínio da Comemoração.
Na verdade, se no primeiro podemos falar de leitura hegemónica da memória, no segundo essa tendência acentua-se fortemente configurando o grau de manipulação política.
Nestes 35 anos, tanto ao nível da divulgação histórica, como nos domínios da produção científica, dos centros de investigação, dos programas escolares, ou dos meios de comunicação social, dominam essas leituras «tão pouco ingénuas quanto inevitável e potencialmente excludentes», como escreve Rui Bebiano que, assinalando a diferença entre esquecimento (acidental) e desmemória (deliberada), acrescenta: «desmemoriados, reconhecemos então como passado apenas o que nos é transmitido por intermédio de uma informação criteriosamente seleccionada, já não tanto aquilo que nos contam, ou o que, sozinhos ou em companhia, somos capazes de recuperar».
Portanto, se o esquecimento sugere obscurecimento casual do passado, ou mesmo condição sine qua non da memória (é preciso esquecer para recordar), a desmemória implica um apagamento voluntário da lembrança, um desconhecimento, um desinteresse programado por determinadas áreas do vivido, compensados paradoxalmente por uma verdadeira obsessão pelo passado.
A moda das comemorações, da busca das raízes e das tradições, o enorme sucesso das biografias, dos filmes e romances de temática histórica, dos velhos ícons reproduzidos em t-shirts ou em campanhas publicitárias, ao mesmo tempo que parecem procurar uma identidade (recuperada ou fabricada) promovem gigantescas operações de desmemória.
Desmemória quanto ao passado remoto, em que o inesgotável leit-motiv dos Descobrimentos Portugueses nos é oferecido através de temas como o Encontro de Culturas, Portugal, pioneiro da globalização, ou o Achamento do Brasil, grandes metáforas para nomear a epopeia imperialista e colonialista, mera actualização semântica a esconder velhos conteúdos.
Desmemória quanto ao passado mais recente, em que o PREC, esse breve e conturbado período de «desnorte», se foi tornando um trauma reprimido e silenciado, povoado de fantasmas que convém não acordar, sendo mais aconselhável apresentar o 25 de Abril como uma narrativa quase milagrosa: uma madrugada libertadora, um povo que da noite para o dia se descobre anti-fascista, uma revolução sem sangue por acção de um só homem, Salgueiro Maia, o herói post-mortem (porque em vida sabemos como foi…) retocado por sucessivas manipulações de memória, que o desvinculam do enorme colectivo injusta e escandalosamente silenciado.
De uma forma sucinta, podemos dizer que a nossa memória colectiva continua a produzir (e a consumir) de Portugal uma imagem dominante, que sob a gigantesca mistificação da identidade nacional, veicula fórmulas em que se casa o branqueamento histórico com o conservadorismo mais retrógrado, e que resulta na síntese irónica de Tiago Matos Silva: «este é o pais dos brandos costumes, o país que teve uma ditadura diferente, com uma polícia politica que não era tão má como as outras, um colonialismo de bons patrões, uma guerra colonial de brincadeira, e até um ditador (M. Caetano) que queria acabar com a ditadura».
3. Em conclusão: Por detrás de uma visão de consenso (histórico) ou mesmo de unanimismo (comemorativista) a memória colectiva esconde, segundo Michael Pollak, uma dimensão de violência. Antes de mais sobre uma multiplicidade de memórias concorrentes, as mais das vezes anatemizadas com o rótulo da subjectividade (sinónimo para muitos historiadores de falsidade e de pura invenção) ou então arrumadas com condescendência numa zona promíscua, entre a história e a ficção. O testemunho pessoal, especialmente o recolhido pela História Oral, é ainda olhado com desconfiança pela história institucional e, na melhor das hipóteses, preenche o espaço afectivo da memória nostálgica, feita de resignação e desencanto e alimentada por pequenas histórias, peripécias, curiosidades mais ou menos saborosas, pelo seu ineditismo, bizarria e excentricidade, tão ao gosto da devoradora galáxia mediática.
Mas, não esqueçamos, a memória é uma batalha. A batalha de sempre entre os que não querem lembrar e os que não podem esquecer.
A conquista da legitimidade historiográfica das memórias dos que não podem esquecer só pode fazer-se em luta contra a omissão Estatal, a adulteração histórica, a amnésia da sociedade civil. Ela traduz todo um programa de defesa de um enriquecimento da memória que, mais do que colectiva, deve ser social, porque, por um lado integra o conflito e a competição, e por outro, tenta reverter o fluxo incontido da memória no sentido de preencher o vazio temporal que se instala sempre que esta é reduzida a simples lembrança a que se não volta mais.
Por isso, o desafio que se coloca a qualquer sociedade verdadeiramente democrática é que aprenda a lutar pelo alargamento desta memória social, pela preservação do seu significado, e pela sua transmissão intacta dentro do espaço público, prevenindo a construção de um quadro de referências que não faça sentido para os seus actores e da qual se sintam violentamente excluídos.
A noção proposta de Memória Social pretende, assim, reduzir a distância entre memória individual e memória colectiva, reconhecendo por um lado a responsabilidade da sociedade civil, em resgatar memórias silenciadas ou reprimidas, mas não esquecendo, por outro, o papel do historiador. Procurando adequar os relatos das memórias individuais à veracidade histórica, ele cumpre a dupla tarefa de vigilância crítica e de fidelidade ao passado.
Objecto de manipulações frequentes (de ordem política e ideológica) a memória individual e colectiva passa assim a integrar o território do historiador, através dos temas do recalque, do luto, do silêncio, do esquecimento. Enfim, da própria temporalidade, ou seja: da relação do presente da memória de um acontecimento com o passado histórico desse acontecimento. É esse afinal o desafio que Paul Ricoeur lança à historiografia do presente: «a defesa de uma memória esclarecida pela historiografia, e a de uma história erudita, passível de reanimar uma memória declinante, ou seja, a busca de uma política da justa memória».
O que implica o imperativo de um «dever da memória» para citar Derrida, ou uma «ética da recordação» para citar Duvignaud. Dito de outra forma: de uma dívida para com as vítimas da história.
E se tal é verdade para cenários de dor e sofrimento indescritíveis, como foram os casos-limite abundantemente estudados do estalinismo ou do nazismo, ou, para nos situarmos em contextos mais próximos ou mesmo íntimos, como a guerra civil espanhola, ou a ditadura portuguesa, é também verdade para acontecimentos de sinal oposto, de exaltação individual e colectiva, como foi a revolução do 25 de Abril. Marca genética da democracia portuguesa, ela é seguramente mais que uma nostalgia. Mais até do que uma memória. Um património, a defender, repensar e reinventar, procurando no passado o potencial libertador que o futuro parece negar. Porque, como afirma Edgar Morin «o futuro caminha para o passado».

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