A ler, no Público.es: Argentina recobra la memoria para juzgar la dictadura.

Alguns posts que encontrei na blogosfera e que estão relacionados com os objectivos deste blogue. Notícias ou textos mais descomprometidos (ou não…) do que os habituais e que talvez ajudem alguns a navegar por outras paragens.

 

A.TeixeiraFotografias de guerra

 

Guilherme d’Oliveira Martins, A vida dos livros

 

Um homem na cidade O meu bairro

 

José M. Martins – Campo de concentração de Miranda de Ebro

Dia-D

Depois dos aclamados Estalinegrado (1998) e A Queda de Berlim (2002), neste Dia D – A Batalha da Normandia, lançado já em 2009, Antony Beevor ocupa-se da frente ocidental da Segunda Guerra Mundial. Não se refere, porém, apenas ao desembarque aliado previsto pela Operação Overlord, pois acompanha também o rápido avanço das forças aliadas pelo interior da Normandia, as vicissitudes experimentadas na retaguarda pelo regime nazi – que passaram pelo atentado contra Hitler e pelas pesadas consequências que este teve na capacidade de resposta ao avanço aliado –, e depois o progresso rápido, pontuado por duros combates e um volume impressionante de vítimas, até Paris. Beevor retoma aqui, no seu estilo próprio, sempre atento à intervenção dinâmica do episódico e do comportamento individual no evoluir dos acontecimentos, a tradição da historiografia militar britânica, quase perdida no continente durante boa parte da segunda metade do século XX, que se apoia numa narrativa capaz de combinar o depoimento dos sobreviventes – sempre emotivo ou nostálgico – com a sequência dos factos e das decisões comprováveis, obtidos através de um trabalho minucioso de pesquisa dos arquivos. Neste caso, o Eisenhower Center de Nova Orleães, o Imperial War Museum de Londres, e ainda os centros de documentação de Leeds e de Caen, na própria Normandia, asseguraram material inédito de grande interesse documental.

Raramente a descrição surge neutra, vendo-se o leitor permanentemente impelido para situações nas quais o humor, a ironia, a raiva ou a cobardia, combinados de modo cinematográfico, mantêm a sua carga de autenticidade graças ao relato testemunhal. Nesta direcção, surge como particularmente notável o acesso a um retrato vívido de uma «barbarização da guerra» – que inclui uma certa visualização do sofrimento e da morte dos militares de ambos os lados e das populações apanhadas entre dois fogos – mostrando de que modo, ao contrário daquilo que outras obras sobre a Segunda Grande Guerra fizeram crer, os horrores vividos em território francês não ficaram muito atrás daqueles que tiveram lugar na Frente Leste.

Particularmente interessante também, sendo este de certa forma um factor de inovação trazido pelo historiador, é o papel atribuído à personalidade e às pequenas peculiaridades dos principais chefes militares – de Eisenhower e Patton a Montgomery, de Rommel a Von Rundstedt – e aos permanentes conflitos estratégicos e políticos que protagonizaram, como parte integrante na definição do caminho que as operações militares vieram a tomar e das vicissitudes pelas quais passaram. Na última parte do livro, é a libertação da capital que se configura no horizonte dos militares em movimento, e agora do leitor que o acompanha, emergindo num relato cuja intensidade, aqui associada a uma série de pequenos episódios invocados a partir da experiência individual, amplia as conhecidas imagens da euforia colectiva, da vingança e da apoteose vividas no dia da entrada triunfal em Paris.

Publicado na revista LER de Fevereiro

Antony Beevor, Dia D – A Batalha da Normandia. Trad. de Fernanda Oliveira. Bertrand Editora, 688 págs.

 
O Quintino já tinha o cabelo branco antes de chegar a Revolução. Mas não era tão velho quanto parecia. O cabelo é que tinha embranquecido precocemente. Era um ónus hereditário, segundo ele, explicando que o mesmo tinha acontecido ao seu pai e seu avô. Além de branca, a cabeleira também era escassa. Todas as manhãs, num ritual que ia repetindo ao longo do dia, Quintino dedicava uns minutos vagarosos a acamar, pacientemente, os poucos cabelos brancos de um lado para o outro do crânio, de forma a melhorar, assim pensava ele, o seu visual capilar. Também não descurava outras vertentes quanto ao seu aspecto. Modesto escriturário, sonhando com uma carreira que lhe melhorasse o futuro, ele sabia que, para atingir os seus fins, a apresentação exterior era importante. Nunca chegaria a chefe de secção ou de departamento se causasse má impressão à observação atenta dos seus superiores. Assim, Quintino andava, por regra, vestido com fatos completos e claros e usava, sempre, um lenço de seda (oferta de Natal) a compor-lhe o pescoço. Achava que aquele adereço era preferível à banal gravata como sinal de aptidão para ser uma chefia potencial antes de chegar às vias de facto. A empresa onde trabalhava estava fortemente conotada com o antigo regime e os seus usos e costumes. Tanto, que guaritas da Legião vigiavam o perímetro das instalações industriais. Quintino não queria destoar e para o tornar evidente aos olhos dos chefes, tinha sempre exposto um enorme terço terminado num grosso crucifixo em plástico duro pendurado no vaso pintado (oferta de Natal) onde guardava as esferográficas e que se destacava na arrumação impecável da sua secretária.

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O discurso sobre a identidade nacional acompanha-nos como uma sombra fiel, às vezes (tantas!) como uma assombração.

O tema sempre apaixonou o português mas em momentos de celebração, como este dos 100 anos da República, ganha inevitavelmente outra importância tomando de assalto a agenda política e mediática, normalmente saturadas de clichés e lugares comuns que em vez de conhecimento promovem um reiterado auto-desconhecimento.

Segundo esses lugares comuns sofremos de uma excessiva e patológica centragem sobre nós mesmos, mitificamos em excesso o passado e, consequentemente, desprezamos o presente, vivemos mais para os devaneios poéticos do que para a acção concreta, o que faz de nós um povo passivo e expectante, narcísico, megalómano, irrealista, pouco crente nas reais capacidades e muito mais confiante nos insondáveis desígnios da sorte, nos golpes imprevistos do destino.

Todos conhecemos esta vulgata sebastianista, divulgada por especialistas da ‘coisa vária’ de que encontramos ecos constantes numa cultura de massas cada vez mais ao serviço de um senso comum de que ela é, simultaneamente produtora e produto. Ou mesmo na dispersa conversa de café ou das ondas internéticas: doce e amarga, terna e corrosiva, arrogante e humilde, generosa e mesquinha. Generalista o suficiente para nele caber sempre mais uma nota de originalidade, sem que contudo se comprometa a possibilidade de o mesmo se poder dizer a respeito de qualquer outro povo ou grupo social. Suficientemente ambíguo a ponto de as maiores virtudes se transmutarem nos maiores defeitos (e vice-versa) em função do seu potencial mobilizador na conjuntura social ou política do momento.

Sabemos como as comemorações – todas elas, e estas não serão excepção – se prestam a esses aproveitamentos, e o sucesso garantido dessas versões identitárias muitas vezes de gosto popular, mas outras tantas com o selo de qualidade cultural servido por pensadores da ‘alma nacional’, da ‘essência da Nação’, da originalidade da maneira de ser português, no limite do milagre da nossa sobrevivência como povo… para lá dos acidentes de percurso.

Mas elas podem também ser oportunidades únicas para questionar essas extrapolações idealistas que nos amarram a modelos intemporais, começando por fazer as perguntas certas: Mas afinal de que falamos quando falamos de identidade nacional? Não será certamente a mesma coisa para as maiorias sociológicas ou para as minorias intelectuais, nas suas variantes mais ou menos activas, e num espectro tão amplo que vai do vanguardismo ao conservadorismo mais retrógrado. E afinal onde se encontra o ‘ser português’? nos jornais? nos compêndios de história? no cinema? na música? na literatura?

As perspectivas abertas por um lado pela nova sociologia (não a dos inquéritos do Eurobarómetro que produzem resultados para todos os gostos…) e por outro, por um renovado interesse pelos estudos culturais constituem dois grandes filões desenvolvidos a seguir à Revolução de Abril os quais, salvaguardando todas as diferenças, se reconhecem num persistente esforço de avançar num auto-conhecimento ‘menos mistificador mas mais proporcionado, menos celebratório mas mais eficaz, menos glorioso mas mais emancipador’, nas palavras de Boaventura de Sousa Santos.

Se é verdade que só comemoramos o presente, ou o que do passado interessa ao presente, o que de mais radicalmente actual encerra o ideário republicano é esse programa integral de emancipação só possível através do conhecimento. Ou da instrução, como então se dizia. Cem anos passados ele aí está como memória e projecto de uma sociedade que ainda não converteu o povoléu ou a populaça em Povo, o Zé Povinho em cidadão, as razões de estado em bem comum, a República em res pública, ou seja, de todos e (isto não é uma concessão ao politicamente correcto…) de todas. De uma sociedade que tarda em contrariar a sentença de Miguel Torga: ‘em Portugal o comum não é de nenhum!’

Por notícia difundida pela Lusa esta manhã, soubemos que a Placa «ia mudar de sítio» devido aos protestos do movimento «Não Apaguem a Memória!».

Entretanto, foi de facto recolocada mas em local igualmente pouco visível e sem as letras pintadas, como tinha sido exigido, o que a torna praticamente ilegível.

 
Um texto de Luísa Tiago de Oliveira (*)

A propósito de um artigo de El País: Querido abuelo, vamos a enterrarte con la abuela, tu esposa”

Em 2010, um ancião alto e magro entrega as urnas com o que ficou dos corpos dos companheiros, mortos de fome, nos cárceres franquistas. Recebem estes despojos, recuperados, os familiares, procurando uns conter as lágrimas enquanto outros as abrem. Abraçam-se. Nas fotografias, distinguem-se bem os netos, que são também aqueles que erguem os punhos quando vão receber os restos dos avós. Em 2010, com este gesto de outrora, reactiva-se a simbólica dos anos 1930 em que à saudação fascista se opuseram os punhos cerrados.

Ao ver o artigo de El Pais e as fotografias anexas, percorremos também décadas de silêncio e emoções abafadas, gestos lacónicos para sentimentos de força calada.

Perguntamo-nos de onde terão vindo aquelas bandeiras tricolores da República, que não são a actual bandeira de Espanha. Interrogamo-nos se serão antigas, se terão estado escondidas, o que sentiram e como viveram os derrotados que as tiveram, o que lhes foi necessário calar, disfarçar, negar. Porém, fixamos mais atentamente as bandeiras, que de início nos tinham feito sonhar, e vemos que afinal parecem novas e podem ter sido feitas nas oficinas e ateliers que trabalham para qualquer loja, para qualquer mercado.

Mas, ao envolverem e embalarem pequenas urnas, estas bandeiras novas duma República passada falam. De quem as empunha, de quem as manuseia, de quem nem delas se abeira, de quem delas não gosta, das convicções de todos esses homens e mulheres.

E eu já ouvi uma enorme bandeira da República a falar.

Foi, em 2007, numa ceia comemorativa da implantação da República de 1931, em Ourense, organizada pela Associação dos Amigos da República. Naquela noite, corria dum lado ao outro do palco, onde se sucederam os oradores e as canções entoadas. Em longos anos anteriores, tinha estado enterrada num quintal, de onde fora resgatada há pouco, por um filho, já de certa idade. E, do seu novo lugar, a bandeira, comovida, ouviu o nosso Grândola e o Hino de Riego.

Aquilo que a terra escondeu, como terá ido lá parar? Terá sido a vontade de que não caísse nas mãos do inimigo? Terá sido a urgência de esconder algo que podia incriminar quem o tinha? Porque foi o seu local ensinado? O terror e o medo impostos, de sangue ou pedra fria, não teriam abrandado para permitir destruí-la sem levantar suspeitas, em 70 anos, incluindo 30 de pós-franquismo? Já não terá sido a força bruta mas, sim, o medo entranhado a obrigá-la a permanecer soterrada. Contudo, ao salvá-la, aqueles que deste modo agiram tiveram decerto, e também, a esperança de que um dia a bandeira pudesse ser desenterrada, utilizada, libertada. E, significativamente, só o foi muitos anos após o fim da ditadura franquista. E desde aí, num tempo em que as Associações dos Amigos da República e as Associações de Memória Histórica batalham, a bandeira surge, novamente.

Por trás de cada gesto épico, há muitos outros que o possibilitam, bem mais anónimos e invisíveis, de resistência continuada. A radical vontade de mudança está também na determinação quotidiana de, com os pés na terra, assegurar a vida das ideias. Através de palavras e silêncios, de gestos, de objectos simbolicamente investidos.

Que sucessivas histórias contarão estas bandeiras?

Que histórias contarão estes punhos erguidos, por netos, que não conheceram os avós?

 
(*) Biografia de Luísa Tiago de Oliveira

Esta é uma não-historinha, Rogério!

 
Fico em dívida contigo, mas ainda não consigo escrever com ligeireza, saltitando nas teclas do computador, atrás de um qualquer episódio do nosso passado comum. Creio que esta “branca” se deverá apenas ao facto de, hoje, pela primeira vez, eu não poder enviar-te o email que era da praxe, na véspera de seguir um escrito meu para os Caminhos da Memória. Custa-me saber que, amanhã, não receberei o teu comentário, na volta do correio, incentivando-me a mandá-lo, a escrever memórias, a escrever, escrever enquanto por cá andasse. Por isso, historinha, adio-a para daqui a uns tempos, prometo! Há pouco, quase me saía aquela do teu gato que fez um abundante “xi-xi” em cima do processo movido pelo Ministério da Educação a cinco conselhos directivos da Escola Nuno Gonçalves, de 74 a 77. Tu, na minha frente, muito comprometido: tinhas-te apercebido da situação, olhavas o original da “acusação” que me tinha sido oficialmente dirigida, sem saberes como te desculpares. E eu, para desanuviar: “Não te incomodes, Rogério! Só mostra que é um gato com espírito crítico. Haveria resposta para isto mais merecida do que uma boa mijadela de gato?” – Contava-la, divertido, (quando eu referia a tua preciosa ajuda na minha “defesa”) a quem ainda não conhecia o acontecimento, mais o caso, mais a ocorrência. Não, esta não interessa: comove-me, mas é ridícula. Depois, qualquer dia, conto outra.

Afogamo-nos na biografia dele como resistente anti-fascista, como pedagogo, investigador, jornalista, escritor, sindicalista e político. E Pai, sim – como esquecer? – Pai. Foi tal a sua vida, que mal conseguimos compreender onde foi buscar tanta competência e tempo para tanto. O tempo dá e mata. Será talvez por isso que, na hora da morte, houve quem se esquecesse de Rogério Fernandes (ou lhe trocasse, ou lhe omitisse traços importantes do perfil). Coisa de nada para quem tinha a inteligência e a argúcia que fazia dele uma das pessoas com mais humor que conheci. Imagino-o a reagir a tais factos, de sorriso aberto, com comentários bem-humorados, entre o cândido e o levemente mordaz. Sem sobranceria nem falsa humildade, mas realmente modesto e coerente. Seguro do seu percurso de amor à Educação e ao Ensino. E, muito possivelmente, também, convicto de que tinha valido a pena dedicar uma vida a ideais trazidos da juventude. Tenho como certo que olharia até com tolerância e bonomia o silêncio de alguma memória que, na hora da partida, se fazia sentir, pesava. O Reitor da Universidade de Lisboa, o secretário-geral da Fenprof, os colegas e os amigos, esses estavam presentes. Foram muitos os jornais, muitos os blogues que falaram dele, e é tocante a notícia da sua morte, escrita por Vítor Dias no seu Tempo das Cerejas. Em Outubro passado, já fragilizado, foi candidato na sua freguesia, pela CDU – como se, simbolicamente, quisesse dizer que, até ao fim, estaria ao serviço da política com modéstia.

Pessoalmente, perdi o amigo e companheiro de décadas de combates, que conheci há cinquenta anos, a abrir-nos a porta da Seara Nova, na Rua Luciano Cordeiro, numa fase em que por lá havia reuniões regulares da Oposição. Nos últimos anos, os anos da maturidade, foi um ponderado e fraterno interlocutor para discussões e discórdias – que são o sangue arterial das famílias. Um companheiro para o riso, para a troca de ideias, para o “agora conto eu” (historinhas do passado e sobre nós). Sempre, ou quase sempre, à volta de uma mesa com sabores e afecto. Sempre, ou quase sempre, com a Graça – os dois a lembrarem, discretamente, quem com eles convivia, que pode existir um amor para toda a vida.

Que mais razões haverá para amizade e admiração?

 
Um poema de Alda Espírito Santo

 
As palavras do nosso dia

são palavras simples

claras como a água do regato,

jorrando das encostas ferruginosas

na manhã clara do dia-a-dia.

 
É assim que eu te falo,

meu irmão contratado numa roça de café

meu irmão que deixas teu sangue numa ponte

ou navegas no mar, num pedaço de ti mesmo em luta

[com o gandu

 
Minha irmã, lavando, lavando

p’lo pão dos seus filhos,

minha irmã vendendo caroço

na loja mais próxima

p’lo luto dos seus mortos,

minha irmã conformada

vendendo-se por uma vida mais serena,

aumentando afinal as suas penas…

É para vós, irmãos, companheiros da estrada

o meu grito de esperança

convosco eu me sinto dançando

nas noites de tuna

em qualquer fundão, onde a gente se junta,

convosco, irmãos, na safra do cacau,

convosco ainda na feira,

onde o izaquente e a galinha vão render dinheiro.

Convosco, impelindo a canoa p’la praia

juntando-me convosco

em redor do voador panhá

juntando-me na gamela

vadô tlebessá

a dez tostões.

 
Mas as nossas mãos milenárias

separam-se na areia imensa

desta praia de S. João

porque eu sei, irmão meu, tisnado como eu p’la vida,

tu pensas irmão da canoa

que nós os dois, carne da mesma carne

batidos p’los vendavais do tornado

não estamos do mesmo lado da canoa.

 
Escureceu de repente.

Lá longe no outro lado da Praia

na ponta de S. Marçal

há luzes, muitas luzes

nos quixipás5 sombrios…

O pito dóxi6 arrepiante, em sinais misteriosos

convida à unção desta noite feiticeira…

Aqui só os iniciados

no ritmo frenético dum batuque de encomendação

aqui os irmão do Santu

requebrando loucamente suas cadeiras

soltando gritos desgarrados,

palavras, gestos,

na loucura dum rito secular.

 
Neste lado da canoa, eu também estou irmão,

na tua voz agonizante, encomendando preces, juras,

[ Maldições.

 
Estou aqui, sim, irmão

nos nozados7 sem tréguas

onde a gente joga

a vida dos nossos filhos.

Estou aqui, sim, meu irmão

no mesmo lado da canoa.

 
Mas nós queremos ainda uma coisa mais bela.

Queremos unir as nossas mãos milenárias,

das docas dos guindastes

das roças, das praias

numa liga grande, comprida

dum pólo a outro da terra

p’los sonhos dos nossos filhos

para nos situarmos todos do mesmo lado da canoa.

 
E a tarde desce…

A canoa desliza serena,

rumo à Praia Maravilhosa

onde se juntam os nossos braços

e nos sentamos todos, lado a lado,

na canoa das nossas praias.

 
(in «É nosso o solo sagrado da terra»)

 
Desenho e poema tirados daqui.

 
Foram raríssimas as alusões que hoje encontrei ao 35º aniversário (número redondo…) de um dia que foi decisivo para este país.

Não vou regressar a relatos dos acontecimentos, bem conhecidos (ou talvez totalmente ignorados pelos mais novos…), nem pretendo abrir aqui uma caixa de Pandora, embora ainda não tenha perdido a esperança de ver um dia, quem sabe se neste blogue, uma discussão séria e certamente muito polémica sobre o PREC – o que foi, e talvez sobretudo, o que poderia ter sido e acabou por não ser.

Questão incómoda, varrida para baixo de muitos tapetes, uns tecidos de saudosismos irredutíveis, outros de condenação sem reservas como se a nossa democracia pudesse ser o que é, para o mal mas também muitíssimo para o bem, caso tivesse sido possível «saltar» do 25 de Abril de 74 para o 25 de Novembro de 75 ou, pelo menos, apagar o 11 de Março e os oito meses e meio que se seguiram.

Quem tem idade para recordar lembrar-se-á dos ambientes absolutamente alucinantes em que tudo acontecia, sobretudo a partir de 14 de Março, quando foi criado o Conselho da Revolução e se deu a nacionalização da Banca e dos Seguros. Mas talvez tenha esquecido algumas reacções, bem significativas e provavelmente úteis quando revisitadas a trinta e cinco anos de distância:

«As nacionalizações são saudadas à esquerda e não são contrariadas à direita. O PPD apoio-as, aliás, embora previna que “substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de Estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa”.
Mário Soares mostra-se mais expansivo. Eufórico mesmo, considerando aquele “um dia histórico, em que o capitalismo se afundou”. Dirá, a propósito o líder socialista, num comício: “A nacionalização da banca, que por sua vez detém (…) a maior parte das acções das empresas portuguesas e, ao mesmo tempo, a fuga e prisão dos chefes das nove grandes famílias que dominavam Portugal, indicam de uma maneira muito clara que se está a caminho de se criar uma sociedade nova em Portugal”.» (Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, Os dias loucos do PREC, p. 28).

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Centenas de novos documentos evocam a vida dos presos nos campos de concentração da ditadura.

A ler em El País.


   Carta a Mário Pinto de Andrade – Clicar para ler
   (Arquivos da Fundação Mário Soares)

 
Conheci-a em S. Tomé, no início dos anos 90, quando a entrevistei para a série “Geração de 60” – mas já há muito conhecia o seu nome e alguns dos seus poemas.

Filha de uma professora primária e de um funcionário dos Correios, Alda do Espírito Santo vem, em meados da década de 40, estudar para Lisboa, onde priva de perto com alguns dos futuros dirigentes dos movimentos de libertação das colónias portuguesas de Áfica, como Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade e Agostinho Neto.

A casa onde vive em Lisboa, no nº 37 da R. Actor Vale, é, aliás, um dos centros de reunião dos jovens patriotas africanos em Portugal. Aí se passa grande parte da actividade do Centro de Estudos Africanos, idealizado por Francisco Tenreiro e Mário Pinto de Andrade, aí decorrem as regularmente palestras que, sobre temas tão diversos como a Linguística, a Geografia ou a História, visavam uma consciencialização cultural e política em torno das questões coloniais, do assimilacionismo e da defesa do colonizado.

Mário Pinto de Andrade explicava com ironia as vantagens que a casa da família Espírito Santo oferecia aos activistas anti-coloniais:

“As actividades no 37 da rua Actor Vale tinham um ar de família. Primeiro, porque se passava numa família conhecida, a família Espírito Santo. E todos os pretos eram família, não é? E era ao Domingo, ao Domingo à tarde. Estava camuflado por reuniões de pretos em família. Na família Espírito Santo. Não levantou, durante algum tempo, nenhuma suspeita da parte dos informadores que pululavam certamente por essas ruas da Praça do Chile. Mas, quando em 1953 se operou a resistência dos santomenses às medidas do governador Carlos Gorgulho, sobre o trabalho obrigatório dos nativos, aí sim. Houve evidentemente uma revolta, conhecida, que se materializou no massacre de 3 de Fevereiro, dos primeiros dias de Fevereiro de 1953, e os elementos da família Espírito Santo foram presos e houve aí uma pausa nas nossas actividades. Foi então que, retrospectivamente, a polícia fez a relação entre as reuniões de Domingo, culturais e a resistência dos santomenses em Fevereiro de 1953.”

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Notícia no Diário de Lisboa, 10/3/1933, que pode ser lida aqui em formato pdf.

(Arquivo da Fundação Mário Soares)

Melhor documentário Festival do Rio 2007 pelo júri popular e do pelo júri da ABDec. Direção: Beth Formaggini Produção 4Ventos / GTNM-RJ
Exibido e apresentado pela realizadora, em Lisboa, no passado dia 6 de Março, durante o seminário «Que fazer com estas memórias?»

 
Um texto de Edu Passos, membro do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ

 
É preciso dizer da alegria de assistirmos o filme Memória para uso diário. O GTNM tem agora um filme que documenta a sua luta, que dá a imagem de seu movimento. O cine documentário talvez seja mesmo o meio apropriado para acompanhar e expressar a militância de um movimento social. Por quê? Porque o cinema é imagem-movimento – um estranho movimento, é verdade, já que é produzido por fotogramas, por uma série de quadros que postos lado a lado em um certo ritmo dão a sensação do movimento: um falso movimento? Do ponto de vista da experiência subjetiva não há diferença entre movimento real e falso movimento. O que assistimos na tela experimentamos como movimento. Vivemos como um movimento.

Por isso o cinema pode ser tão diferente da fotografia: a foto muito frequentemente quer registrar, quer dar testemunho de uma realidade vivida no passado, deixada no passado. Dessa realidade passada, a foto pode ser como um monumento que aponta para trás, que indica o que já era (um álbum de fotografia tem sempre um aspecto nostálgico, triste, até mesmo melancólico). O cinema, por outro lado, mesmo quando é documentário, porque é imagem-movimento editada, cria aquilo de que trata, sendo menos um retrato do que uma versão do passado. É o caso do documentário Memória para uso diário que vai ao passado sem olhar para trás (tal como Orfeu), recuperando imagens de uma história só vivida e não narrada (grande mérito do trabalho de pesquisa das imagens de arquivo). O filme faz o gesto da abertura dos arquivos, nos indicando que não basta abri-los, sendo ainda preciso completar a tarefa contando uma outra história. O filme faz o gesto e registra o gesto como este movimento tão delicado das mãos de Lola e Cléa ao folhear o passado. Só o cinema pode ter a realidade do gesto, acompanhando-o ao mesmo tempo em que o reinventando. Neste sentido, o cine documentário não está no tempo passado, não tem a nostalgia do vivido. Ele está neste tempo da invenção que é o tempo do porvir, do que poderá ser, não do que já era, mas do que já é. Do que já é como potencialidade, como abertura para outras realidades possíveis. No documentário filmamos o futuro, ou melhor, filmamos no horizonte do futuro.

Como pode ser um filme sobre a memória? O que este filme quer nos dizer quando afirma ser um documentário sobre a memória? O seu título nos dá uma pista: Memória para uso diário. Fala-se de memória enquanto uso. Está se indicando que há um sentido pragmático da memória. Daí as perguntas: para quê serve a memória? Para quem serve esta memória? O GTNM desde 1985 tem feito estas perguntas, indicando que há uma luta a ser travada no campo da memória. Há uma história oficial contada, há uma versão hegemônica acerca das lutas, sejam as lutas de resistência ao terrorismo de Estado durante os 20 anos da ditadura militar no Brasil, sejam as lutas atuais, tão cotidianas, que transferem a tecnologia da violência daqueles tempos para as periferias pobres da cidade. Dar uma outra versão para os eventos vividos é não só buscar reparação aos atingidos pela violência do Estado, é não só denunciar e levar ao julgamento os responsáveis pela violação dos direitos humanos, é, sobretudo, poder ser protagonista na narrativa da história, é poder também dar a sua versão, é poder dar um outro sentido para o passado, apostando em outros mundos possíveis, apostando no futuro. Uma memória que aponta para o futuro.

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Um texto de José Augusto Rocha (*)

Passam, nos dias 9 a 11 de Março, quarenta e oito anos sobre a realização do I Encontro Nacional de Estudantes, (1) que abriu as portas à chamada “Crise Académica de 62” e inicia uma brutal repressão sobre o movimento estudantil e particularmente sobre os estudantes universitários de Coimbra e a Associação Académica, em cuja sede se realizou.

Muito embora sejam várias as abordagens escritas destes acontecimentos, a verdade é que elas se baseiam em testemunhos indirectos ou em documentos, em especial comunicados da época, mas nunca, no que a Coimbra se refere, a quem os viveu por dentro e deles foi, em certa medida, seu actor.

Enquanto dirigente da A.A.C., vivi intensamente estes acontecimentos e deles venho, hoje, dar curta memória.

Nos dias 3 e 4 de Fevereiro de 1962, realizou-se na Associação de Económicas de Lisboa, uma reunião dos dirigentes das associações de estudantes do Porto, Lisboa e Coimbra, para discutir e tomar importantes deliberações sobre o movimento associativo a nível nacional: a criação do Secretariado Nacional dos Estudantes Portugueses – embrião da União Nacional dos Estudantes Portugueses – e o I Encontro Nacional de Estudantes. Nessa reunião, a Associação Académica de Coimbra esteve representada pelos seus dirigentes, António Taborda, Eduardo Soeiro e por mim próprio. Foram muito polémicas e longamente discutidas qualquer uma dessas iniciativas, estando sobre a mesa a questão de saber se o movimento estudantil aguentaria a repressão política que se previa viesse a acontecer. Foi particularmente intenso o debate sobre a criação do Secretariado Nacional e a questão daí decorrente sobre se essa deliberação se deveria tornar, desde logo, pública. Após várias voltas à mesa da reunião, a A.A.C. defendeu e votou, integralmente e sem restrições, todas as propostas, sendo acompanhada, após uma primeira hesitação sobre a publicidade do Secretariado Nacional, pela Associação de Estudantes de Medicina, representada por Eurico Figueiredo, dirigente arguto e com apurada sensibilidade estratégica do movimento associativo, com quem, aliás, viria a ter conversas importantes, em momentos decisivos para o seu futuro, e, em particular, nos momentos mais altos da repressão.

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Faleceu este sábado, vítima de um acidente aéreo, José Inácio da Costa Martins, militar de Abril e ministro do Trabalho nos governos de Vasco Gonçalves. Oiça aqui o comentário de José Pedro Castanheira sobre  o papel de Costa Martins na vida política desses anos.

Albertina Lemos, uma das fundadoras do NAM!, morreu ontem (dia 26), no Porto, vítima de câncer. Há já alguns meses que sabíamos que o estado dela era grave, mas a força anímica que possuía levava-nos a acreditar, infantilmente, que ia resistir pelo menos até à Primavera e, depois, tudo seria possível.

Não foi, como humanamente sabemos.

A Albertina tornou-se uma personagem conhecida no NAM! porque era ela que fazia a ligação entre Lisboa e o núcleo do Porto. Sofria de poliomielite, que contraiu muito jovem, no Brasil, para onde emigraram os pais, mas a discrição e a tenacidade com que se apresentava depressa faziam esquecer essa «particularidade», como a designava a Maria Rodrigues, uma amiga de longa data.

A Albertina, na sua simplicidade, era um cérebro. Foi uma das alunas mais distintas do curso de Farmácia na Universidade do Porto. Pertenceu à pró-associação de estudantes e, recorda Luísa Oliveira, caloira da promoção de 1968/69, quando a Albertina chegava a finalista, ela fazia a «diferença» no ambiente «conservador e situacionista» da escola.

Foi para Paris como bolseira e aí vincou-se a sua adesão antifascista, militando nas organizações maoístas da esquerda radical. Depois da revolução de Abril foi activista da OCMLP – Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa e participou no seu órgão de imprensa, O Grito do Povo!

Viveu as vicissitudes do processo revolucionário em curso e não soçobrou ao desânimo. Manteve-se atenta aos movimentos sociais e foi sem surpresa que os amigos a viram a intervir no Tolerância, na luta pela interrupção voluntária da gravidez, assim como no NAM! quando ele surgiu, no seguimento da manifestação que se realizou frente à antiga sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, protestando contra o apagamento da memória na resistência à ditadura.

A Albertina Lemos já não está entre nós, mas permanece dentro da nossa fraterna amizade. Adeus companheira!

António Melo

Um texto de Jorge Martins (*)

OS ANOS DAS PRISÕES INQUISITORIAIS – Os judeus sabugalenses desde cedo começaram a ser atormentados pela Inquisição. O primeiro processo data de 1544, oito anos após a introdução do Santo Ofício em Portugal e o último de 1795, numa altura em que aqueles tribunais religiosos já estavam em declínio.

Com efeito, se a Inquisição foi autorizada pelo Papa em 1536, o primeiro auto-de-fé realizou-se em Lisboa em 1540, para apenas quatro anos depois serem suspensos (1544-1548) pela Santa Sé, assim como o confisco de bens seria suspenso entre 1546 e 1558. Compreende-se assim a não existência de prisões no Sabugal durante 16 anos (1544-1560), pois, para a Inquisição, o mais importante era a fonte de rendimento que esses confiscos constituíam. Também se percebem os 21 anos sem prisões (1675-1696), pois a própria Inquisição foi suspensa pelo Papa entre 1674 e 1681.
Provavelmente, o maior período sem prisões (1634-1660) prender-se-á com a União Ibérica (1580-1640), período em que a Inquisição portuguesa terá sofrido a influência da Inquisição espanhola em decadência, aligeirando a sua acção em Portugal e muitos cristãos-novos se instalaram em terras do império espanhol e com mais facilidade no Brasil, designadamente em consequência da invasão e administração de territórios brasileiros pela Holanda entre 1624 e 1654, facultando aos judeus o livre culto.
A última prisão de um réu do Sabugal acusado de judaísmo ocorreu em 1773, justamente o ano da lei do Marquês de Pombal que pôs fim à distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos. Outro fenómeno curioso foi o da constatação de que nos primeiros cem anos de actividade da Inquisição as prisões terem ocorrido à baixa média de uma em cada três anos, mas nos cem anos seguintes terem triplicado para a média de um processo por ano.

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Integrada numa série de actividades previstas para este ano, está disponível para recolha de assinaturas, num site criado para o efeito, uma petição com o seguinte objectivo:

«Na passagem dos 40 anos sobre a data da sua constituição impõe-se o reconhecimento público e oficial do Estado democrático, pela Assembleia da República, da relevante intervenção cívica que protagonizou, na defesa de todos aqueles que pagaram com a sua própria liberdade a insubmissão aos ditames arbitrários do regime fascista a que a Revolução de Abril de 1974 pôs termo.»

Alguns posts que encontrei na blogosfera e que estão relacionados com os objectivos deste blogue. Notícias ou textos mais descomprometidos (ou não…) do que os habituais e que talvez ajudem alguns a navegar por outras paragens.

 

*** Pedro Coelho – Memória de um Amigo

*** J. M. Martins – António Xavier Correia Barreto – Nota breve

*** Hugo Guerra – Como morreu o meu prisioneiro

*** Renegade – Portugal nas tricheiras

 
«O sol da tarde resplandece no Castelo impassível, cor de oca e de ferrugem, onde flutua sempre uma bandeira preguiçosa. Olhando de fora esta multidão coloidal que adere às esquinas e às fachadas, num calmo exterior de alameda provinciana, ninguém diria que por baixo disto corre um tumulto de lava que pode arrastar-nos e subverter-nos a todos. Uma tropa de ingleses carregados de sacos de golfe passa a caminho do Palace, e olha com espanto esta gente morena e apoquentada que parece tomar a vida a sério ou esperar sempre um milagre que a salve, outras Índias, Brasis, um novo Dom Sebastião ou um terramoto.

A atmosfera, com efeito, não é a dos bons tempos. Não há os gritos, os vivas e morras, a esperança, os pugilatos de há poucos anos. Não há? Isso é o que nós veremos. Há porém expectativa, ansiedade. Não se fala de bombas, afinal o operariado está quieto. Chega a ser suspeito um silêncio assim. ‘Agora, a Campo de Ourique houve coisa!’ Crescem de novo orelhas a escutar: ‘Um grupo de populares manifestou à porta do Batalhão Ferroviário!’ Mas quem são eles, que querem eles?

No terraço dum café-bilhar sujeitos pacatos esforçam-se por consumir em paz a primeira limonada, respirar as brisas da Primavera incipiente, olhando de cima da enxurrada. Outros passam cá em baixo, magistrais, livros debaixo do braço, acenando a cabeça, discutindo o seu vient-de-paraître: são letrados, intelectuais, sábios da letra de forma, alheios ao século, interessados no umbigo do Universo intemporal. O seu reino não é deste mundo.

(…) Há na imensa praça um perpétuo vaivém, os grupos fazem-se e desfazem-se, reconstituem-se mais longe, numa agitação de folhas secas ao vento, incompreensíveis para o leigo e o forasteiro. ‘Mas esperava-se que o governo caísse!’ (Não caiu.) ‘Isto só vai com um milagre!’ murmurou um descrente. Como se nada mais houvesse neste mundo, aquém ou além-fronteiras, só se fala de crise, dissolução, défice, poder, recomposição. E a pergunta elástica lá vai saltando de boca em boca: ‘Ukèkiá? Kèkiá?’»

 
José Rodrigues Miguéis, O Milagre segundo Salomé, Vol.I, ed. Estampa, 1984

Entre os países da CPLP, para lá da Língua e da História comuns, há um traço de união que, embora muito próximo de nós em anos, é normalmente esquecido: a tortura sofrida pelos seus povos sob regimes de ditadura, fossem estes nacionais, como nos casos de Portugal e do Brasil, colonizadores, como nos casos dos países que atingiram a independência em 1974/75, ou invasores, como no caso de Timor-Leste.

E, no entanto, essa é uma memória traumática que urge enfrentar, não apenas pelo que representa para os que a sofreram, quer pelo que dela se prolonga, muitas vezes, numa desatenção aos Direitos Humanos indigna de povos que por eles se bateram em condições de extrema dificuldade.

É no sentido de pensar essa memória, não apenas enquanto passado, mas enquanto sombra pesando sobre o presente, que a Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória (NAM) e o Centro de Estudos Sociais (CES-Lisboa) entenderam levar a cabo, em Lisboa, um Seminário subordinado ao tema “Que fazer com estas memórias?”, a ter lugar nos próximos dias 5 e 6 de Março de 2010, no CES-Lisboa (Picoas Plaza, R. Viriato, perto a Maternidade Alfredo da Costa, do jornal Público e do hotel Sheraton; no 1º andar, sobre o pátio com restaurantes, pintado de vermelho e com grandes letras a dizer CES.).

Queremos ouvir testemunhos de quem sofreu a tortura, comentários de médicos que trataram os torturados e de cineastas que recolheram a sua memória.

Queremos que a memória não se perca, para que o futuro seja melhor.

Programa detalhado e definitivo, e mais informação, aqui.

 
A revolução ainda acordava para vigílias sem sono e tarefas sem fim, havendo tudo para fazer sem que nada parecesse impossível de mover e mudar. O “Avante” passar a ser legal e circular de mão em mão, vendido em papelarias e quiosques, difundido às escâncaras, com orgulho e alegria, em fábricas, escolas e escritórios, era o sinal maior do tamanho enorme do tanto que tinha mudado. Mas se, em energias descarregadas, parecia que o vento da história movia os moinhos da utopia, a causa sentia-se como só podendo ter a forma de um monolito. Relativamente ao património e à mitologia épica associada à gesta da imprensa clandestina, era difícil aceitar que outros, para mais rivais, chegada a revolução, a quisessem ultrapassar em ressonância no reconhecimento popular dos alvarás da resistência antifascista e da capacidade de andar para a frente. Assim, a forma atrevida e altissonante como a rapaziada fanatizada do MRPP anunciava e difundia o “Luta Popular”, só podia ser entendida, além de uma provocação, como um atrevimento concorrencial de decoro e pergaminhos, uma ofensa aos heróis que, contra ventos e perseguições, tinham mantido as tipografias artesanais e disfarçadas que alimentaram a voz dos reprimidos. Aquela revolução, como as outras, só permitiam aceitar-se um ser e um estar que se confundissem com os méritos do passado que a tinham tornado possível.

Entretanto, o futebol continuava, inamovível, ao lado da revolução, disputando paixões e multidões. E, à beira de casa, muitas vezes emitindo sons estridentes que me entravam pelas janelas, condensando a ânsia e o festejo do golo, em orgasmos colectivos, multidões juntavam-se às tardes de domingo em grandes missas de histeria colectiva no Estádio da Luz. Daí ao desafio foi um pequeno passo. Organizado um grupo de vizinhos camaradas, requisitado um bom molho de avantes, montaram-se bancas improvisadas no caminho de maior tráfego apeado da multidão rumo ao estádio, na Segunda Circular, uns poucos metros antes do perímetro de feira onde se vendiam couratos, bonés e bandeiras. Jornal estendido e mostrando o cabeçalho, ali nos esforçámos, domingos a fio, enfrentando o fluxo contrário e apressado apostado na conquista de um lugar nas bancadas, gritando-lhes até enrouquecer “Olha o Avante, órgão central do Partido Comunista Português!”. Os resultados foram sempre escassos, o jornal saía à quinta e os da romaria (vermelha!) de passo apressado segurando bandeiras ou só paixão ansiosa ou já o tinham comprado ou estavam concentrados em preocupações que metiam outras balizas. Mas ganhámos sempre no campeonato do ritual do insólito genuíno, com uma sensação de desforra perante outros atrevidos da concorrência, pois reposta tinha sido a honra dos pergaminhos. Fechadas as portas do estádio, comportando multidões alienadas em disputa de paixões periféricas, uma heresia em tempo de revolução, recolhidas as sobras, contados e registados os magros tostões recolhidos, gargantas gastas, achávamos que a honra revolucionária tinha marcado golo. Para nós, então, era mesmo assim.

Bulgakov e Zamiatine

Acaba de sair em Espanha uma colectânea de cartas dirigidas a Estaline pelos escritores Mikhail Bulgakov (1891-1940) e Evgueni Zamiatine (1884-1937). Resultando de investigações feitas nos arquivos da Lubianka, a sede moscovita do KGB, após o fim da URSS, elas trazem de volta o terror puro de quem vivia diariamente entre o silêncio imposto e a possibilidade da prisão ou do fuzilamento, o destino definitivo de tantos outros. Falam pois da morte em vida. As vítimas omitem aqui a pobreza, o frio, as privações que lhe foram destinadas pelo facto de não serem autores alinhados com a política e a estética do regime, e apelam tão-somente a que lhes seja concedida a possibilidade de sobreviverem como autores e como pessoas. Zamiatine conseguiria ir morrer em Paris. O autor de Margarida e o Mestre viveu até ao fim silenciado e na miséria.

Nós, a mais conhecida obra de Zamiatine, precursora do Admirável Mundo Novo (1930) de Huxley e de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1948) de Orwell – concluída em 1921 mas cuja primeira edição em russo só pôde sair perto de sessenta anos mais tarde –, abre assim:

«Limito-me a transcrever textualmente o que hoje mesmo veio publicado na Gazeta do Estado:

Dentro de cento e vinte dias ficará completo o Integral. Aproxima­-se a hora insigne, histórica, em que o primeiro Integral se levantará no espaço cósmico. Há mil anos, os nossos heróicos antepassados submeteram todo o globo terrestre ao domínio do Estado Único. Hoje assistiremos a um feito ainda mais glorioso: a integração, por meio do Integral, feito de vidro, eléctrico, ígneo, da eterna igualização de tu­do o que existe. Ficarão sujeitos ao benéfico jugo da razão todos os seres desconhecidos, os habitantes doutros planetas que porventura vivam ainda no estado selvagem de liberdade. Se acaso não percebem que nós lhes levamos a felicidade matemática e exacta. É nosso dever forçá-los a serem felizes. Mas, antes de puxarmos das armas, tenta­remos recorrer à palavra.

Em nome do Benfeitor, todos os números do Estado Único ficam notificados do seguinte:

Todos os que se sentirem capacitados deverão compor tratados, poemas, odes e outras composições sobre a beleza e a grandeza do Estado Único.

Eles constituirão o primeiro carregamento do Integral.

E viva o Estado Único. Vivam os números. Viva o Benfeitor!

Escrevo estas coisas e sinto o meu rosto a arder. Sim… há que levar a cabo a integração, proceder à grandiosa e infinita igualização de tudo o que existe. Sim, há que distender a curva selvagem, redu­zi-la a uma tangente… a uma assímptota… a uma linha recta! E isso porque a linha do Estado Único é uma linha recta. A grande, a divinal. A exacta, a sábia linha recta – a mais sábia de todas as linhas!»

Trad. a partir do inglês por Manuel João Gomes (Edições Antígona, 1990)

«A mis hijos les gustaba escuchar el cuento de Gloria Fuertes El mundo al revés. Varios años después me vuelve a la memoria al observar la situación de nuestro país.

Hace ahora 73 años, Augusto Lao García fue arrancado de su vivienda y de su familia y fusilado cuando contaba con 32 años de edad. Su delito era haber trabajado desde que tenía uso de razón y tener un espíritu comprometido, cofundando un partido político. Jamás empuñó un arma. Ellos formaron parte de los cientos de miles de víctimas de un plan criminal para acabar con la República y con sus valores. Más de 70 años después, el juez Baltasar Garzón vive un calvario y podría sentarse en el banquillo por haber promovido la justicia que las víctimas del franquismo reclaman y que, durante tanto tiempo, nadie se atrevió a instruir. La acusación parte, ni más ni menos, que de la Falange Española y otros grupos nostálgicos del franquismo.

Tras 32 años de democracia, las calles de nuestros municipios siguen homenajeando, con su denominación, a miles de falangistas y militares rebeldes. En las cunetas de nuestros campos se amontonan miles de restos que no tienen derecho ni a una digna sepultura.

La sombra del franquismo está resultando demasiado larga y su propaganda aún produce efectos. Algo en este país no va bien y no es sólo su economía. Esta España nuestra sigue al revés.»

 
Um texto de Helena Cabeçadas (*)

A carta escrita pela Helena Pato, quando criança, e publicada aqui recentemente, fez-me recordar, de forma viva e crua, imagens das escolas primárias que eu frequentei, entre 1953 e 1957, em contextos geográficos e culturais diferentes. São recordações duras, desprovidas da alegria infantil que seria de esperar em escolas de e para crianças.

1-A minha primeira escola, num bairro periférico de Lisboa, que frequentei entre os seis e os oito anos,  funcionava num palacete meio podre, em que as escadas e as paredes se esboroavam, o vento e o frio penetravam por todos os lados. Havia as “meninas do Bairro” (da Madre de Deus), limpinhas e de bata branca, entre as quais me incluía, e as “miúdas das latas”, sujas e esfarrapadas, que vinham dos bairros de lata que o circundavam. Embora estivéssemos lado a lado, inclusive na mesma carteira, não nos dávamos entre nós. Havia uma tensão latente entre os dois grupos e que, por vezes, explodia em lutas verbais, muitas vezes cruéis. As casas de banho eram lá fora, imundas. Não havia recreio coberto. Se chovia, paciência, ou ficávamos na sala de aula ou íamos apanhar chuva. Recordo que um dos nossos principais divertimentos quando chovia, e esse era comum aos dois grupos, era ver quem matava mais piolhos dos que saltitavam nas carteiras…

Eu tinha sorte, a minha professora, a D. Cândida, uma senhora elegante e meiga, era “boazinha”; nunca a vi bater em nenhuma criança. Em contrapartida, na sala ao lado, reinava o terror. A Directora, a D. Alzira, era uma verdadeira megera: as bofetadas, as reguadas, os castigos violentos, eram o pão nosso de cada dia. Nós ouvíamos os gritos e os choros das nossas infelizes coleguinhas e chorávamos com pena. Uma das garotas morreu, segundo constou, na sequência do lançamento de um apagador atirado com fúria assassina. Como a vítima pertencia ao grupo das “miúdas das latas” não houve problema, o caso foi abafado. Aluna que fosse levada ao exame de admissão ao liceu pela Sr.ª Directora tinha sempre a classificação máxima; daí a sua reputação como “excelente professora”. Só que poucas eram as eleitas e claro que as suas alunas dos bairros de lata desistiam logo na 1ª ou na 2ª classe…

Nunca, nesta escola, houve uma festinha, por pequena que fosse, ou um passeio. Era um local triste, um espaço duro, de violência manifesta e latente.
Quando, na 3ª classe, aos oito anos, fui para Moçambique, o ambiente da escola mudou radicalmente. Em Lourenço Marques (actual Maputo) a Escola era ampla, moderna, luminosa, com recreios interiores e exteriores, onde podíamos correr e brincar à vontade. Eram só meninas brancas, todas do mesmo estrato social, filhas da burguesia colonial. Não me lembro de ver uma única menina negra ou mesmo mulata. Na altura não me questionava sobre isso, achava normal.

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Canal História

Quarta-feira 3 de Março, 22:00h
Quinta-feira 4 de Março, 6:00h e 14:00h
Sábado 6 de Março, 15:00 e 23:00h
Domingo 7 de Março, 7:00

 
Em 1940 os Estados Unidos fazem todo o possível para permanecer à margem da II Guerra Mundial. O imigrante austríaco Jack Werner foge dos nazis e chega aos Estados Unidos, onde se alista no exército para poder fazer parte da luta contra Hitler. Outros homens jovens, como Archie Sweeney, um jornalista, entram no exército após serem recrutados. Depois de Pearl Harbor, os Estados Unidos vêem-se mergulhados numa guerra de duas frentes e encontram-se mal preparados para o combate. O repórter de guerra Richard Tregaskis desembarca com os marines na ilha de Guadalcanal. O graduado Charles Scheffel casa-se apressadamente antes de ser enviado para o Norte de África.

(Via António Loja Neves, Actual, Expresso, 27/2)

Data: 5 e 6 de Março de 2010
Local: Centro de Estudos Sociais-Lisboa, Picoas Plaza (metro: Picoas)

Entrada livre

Organização:
«Não apaguem a memória!» / Centro de Estudos Sociais

 
Programa

Sexta-feira, 5 de Março
9:30 – 10:30 Abertura – Porquê um Seminário Lusófono sobre Tortura e Memória?
José Manuel Pureza, Representante do Centro de Estudos Sociais – Lisboa
Raimundo Narciso, Presidente da Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória
Cecilia Coimbra*, Representante do Movimento Tortura Nunca Mais (Brasil)
Simonetta Luz Afonso, Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa
10:30 – 12:00 Projecção do filme “48”, de Susana Sousa Dias
12:00 – 12:30 Comentário pelo Dr. Afonso Albuquerque (Médico psiquiatra, autor de um livro sobre o impacto da tortura sobre presos políticos portugueses)
12:30 – 13:30 Debate sobre o filme, com a presença da realizadora Susana Sousa Dias
13:30 – 15:00 Pausa para almoço
15:00 – 16:30 Projecção do filme “Memória para uso diário”, de Beth Formaggini
16:30 – 17:30 Comentário pelo Dr. Carlos Martin Beristain (Médico especialista em Saúde Mental, Universidade de Deusto, Bilbao) e por Alípio de Freitas (português, preso e torturado no Brasil.)
17:30 – 18:30 Debate sobre o filme, com a presença da realizadora
Sábado, 6 de Março
10:00 – 11:30 Projecção do filme “ Tarrafal: Memórias do Campo da Morte Lenta”, de Diana Andringa
11:30 – 12:00 Comentário por Miguel Cardina, historiador, investigador do CES e Victor Barros, investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20).
12:00 – 13:00 Debate sobre o filme, com a presença da realizadora
13:00 – 13:30 Sessão de encerramento: Como fazer da memória partilhada da tortura uma alavanca pela defesa da Cooperação e dos Direitos Humanos?, Secretário Executivo da CPLP, Eng. Domingos Simões Pereira*.
* A confirmar

Alguns posts que encontrei na blogosfera e que estão relacionados com os objectivos deste blogue. Notícias ou textos mais descomprometidos (ou não…) do que os habituais e que talvez ajudem alguns a navegar por outras paragens.

 

* * * Mário Beja Santos – Guerra Colonial – Angola – Guiné – Moçambique, Edição Diário de Notícias

 

* * * Almanaque republicano – Os Debates

 

* * * Luís Graça – PAIGC: um curioso croquis do Sector 2, área do Xime, desenhado e legendado por Amílcar Cabral

 

* * * José M. Martins – Henrique Galvão – Carta aberta a Salazar

Segundo o Público de hoje, «A documentação produzida entre 1930 e 1974 no âmbito da acção do Ministério do Ultramar está desde agora disponível para consulta (…). O projecto foi lançado em 2006 pelo historiador José Mattoso, com o objectivo de preservar e simultaneamente dar a conhecer aos investigadores e demais interessados a história da presença portuguesa nas ex-colónias durante o Estado Novo. O trabalho foi financiado pela Fundação Gulbenkian em colaboração com três ministérios.»

Arquivos acessíveis aqui.

 
Um texto de Miguel Teotónio Pereira (*)

Há quase cento e cinco anos que José repousa naquela cripta. Tempo de mais para uma vida, quase chegaria para duas. A esse repouso, imposto pela tirania da mãe de todas as mães – a Natureza -, ficava todavia José em débito por lhe ter poupado a excitação dos seus nervos, já de seu natural basto inflamáveis, que certamente o fluir dos acontecimentos não deixaria de provocar. A morte é dual – uma condenação original, e uma libertação prometida.

Ficou José a cinco anos de viver o triunfo do que fora a mola, e a seiva, da sua existência. Não conheceria o sobressalto da monarquia do Norte, não assistiria à degradação dos alicerces morais e sociais daquele triunfo, e à sua implosão na revanche reaccionária do 28 de Maio. Já nada poderia fazer para contrariar, com o seu ânimo poderoso e exaltado, o rumo da Revolução Nacional, a implementação de uma ditadura de inspiração fascista, a consolidação de um regime policial de partido único, que os desfechos da Guerra Mundial não puderam quebrar. E nem em sonhos – que não parecem ser plausíveis em meio do gelo do Sono eterno – lhe chegariam o viço libertador e os aromas redentores da flor de Abril.

Mas, estou em crer, se os mortos falassem – para os vivos, já se vê, que lá entre eles ninguém sabe de que conversam – não se queixaria José; quero dizer, queixas teria, e não poucas seriam – de adversários mas também de correligionários -, mas não da ausência de protagonismo nos acontecimentos do seu tempo; quando digo protagonismo, não estou pensando na acepção vulgar que hoje, e infelizmente, essa palavra carrega, mais aparentada com vaidade, mas naquela que verdadeiramente significa – a de alguém que protagoniza, que está por dentro, em três palavras – que é sujeito.

E que sujeito era José! Errático, instável, mas voluntarioso e de ideias assentes! O destino que o berço lhe proporcionou, sendo o pai um abastado proprietário agrícola, rejeitou-o ele, preferindo a vida tumultuosa das escolas e das academias citadinas (Portalegre, Coimbra, Porto, Lisboa), cursando sem concluir, e sempre escrevendo, em gazetas várias, assumindo diversas correspondências, até achar o leito do rio da sua vida: seria editor e livreiro, e para começar, fundou, em 1871, na alfacinha e proletária Rua do Arsenal, a Nova Livraria Internacional.

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