Vária


Augusto Boal

 
(Contributo de Lúcia Ezaguy Simões

 
Por ocasião da morte de Augusto Boal, no passado dia 2 de Maio, divulgamos um conjunto de documentos publicados no Brasil, que podem ser lidos aqui.
Destaque para esta
Carta do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
 

Companheiro Boal, 

A ti sempre estimaremos por nos ter ensinado que só aprende quem ensina. Tua luta, tua consciência política, tua solidariedade com a classe trabalhadora é mais que exemplo para nós, companheiro, é uma obra didática, como tantas que escreveu. Aprendemos contigo que os bons combatentes se forjam na luta.
Quando ingressou no coletivo do Teatro de Arena, soube dar expressão combativa ao anseio daqueles que queriam dar a ver o Brasil popular, o povo brasileiro. Sem temor, nacionalizou obras universais, formou dramaturgos e atores, e escreveu algumas das peças mais críticas de nosso teatro, como Revolução na América do Sul (1961). Colaborou com a criação e expansão pelo Brasil dos Centros Populares de Cultura (CPC), e as ações do Movimento de Cultura Popular (MCP), em Pernambuco.
Mostrou para a classe trabalhadora que o teatro pode ser uma arma revolucionária a serviço da emancipação humana.
Aprendeu, no contato direto com os combatentes das Ligas Camponesas, que só o teatro não faz revolução,. Quantas vezes contou nos teus livros e em nossos encontros de teu aprendizado com Virgílio, o líder camponês que te fez observar que na luta de classes todos tem que correr o mesmo risco.
Generoso, expôs sempre por meio dos relatos de suas histórias, seu método de aprendizado: aprender com os obstáculos, criar na dificuldade, sem jamais parar a luta.
Na ditadura, foi preso, torturado e exilado. No contra-ataque, desenvolveu o Teatro do Oprimido, com diversas táticas de combate e educação por meio do teatro, que hoje fazemos uso em nossas escolas do campo, em nossos acampamentos e assentamentos, e no trabalho de formação política que desenvolvemos com as comunidades de periferia urbana.
Poucas pessoas no Brasil atravessaram décadas a fio sem mudar de posição política, sem abrandar o discurso, sem fazer concessões, sem jogar na lata de lixo da história a experiência revolucionária que se forjou no teatro brasileiro até seu esmagamento pela burguesia nacional e os militares, com o golpe militar de 1964.
Aprendemos contigo que podemos nos divertir e aprender ao mesmo tempo, que podemos fazer política enquanto fazemos teatro, e fazer teatro enquanto fazemos política.
Poucos artistas souberam evitar o poder sedutor dos monopólios da mídia, mesmo quando passaram por dificuldades financeiras. Você, companheiro, não se vergou, não se vendeu, não se calou.
Aprendemos contigo que um revolucionário deve lutar contra todas, absolutamente todas as formas de opressão. Contemporâneo de Che Guevara, soube como ninguém multiplicar o legado de que é preciso se indignar contra todo tipo de injustiça.
Poucos atacaram com tanta radicalidade as criminosas leis de incentivo fiscal para o financiamento da cultura brasileira. Você, companheiro, não se deixou seduzir pelos privilégios dos artistas renomados. Nos ensinou a mirar nos alvos certeiros.
Incansável, meio século depois de teus primeiros combates, propôs ao MST a formação de multiplicadores teatrais em nosso meio. Em 2001 criamos contigo, e com os demais companheiros e companheiras do Centro do Teatro do Oprimido, a Brigada Nacional de Teatro do MST Patativa do Assaré. Você que na década de 1960 aprendeu com Virgílio que não basta o teatro dizer ao povo o que fazer, soube transferir os meios de produção da linguagem teatral para que nós, camponeses, façamos nosso próprio teatro, e por meio dele discutir nossos problemas e formular estratégias coletivas para a transformação social.
Nós, trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra de todo o Brasil, como parte dos seres humanos oprimidos pelo sistema que você e nós tanto combatemos, lhes rendemos homenagem, e reforçamos o compromisso de seguir combatendo em todas as trincheiras. No que depender de nós, tua vida e tua luta não será esquecida e transformada em mercadoria.
O teatro mundial perde um mestre, o Brasil perde um lutador, e o MST um companheiro. Nos solidarizamos com a família nesse momento difícil, e com todos e todas praticantes de Teatro do Oprimido no mundo.

Dos companheiros e companheiras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

Um texto de Luísa Tiago de Oliveira (*)
 
Com o 25 de Abril em Portugal, inicia-se uma nova vaga de revoluções democráticas na Europa e no mundo, como têm sublinhado inúmeros historiadores e cientistas sociais.
Nos países a braços com ditaduras, o desejo de mudança e a inspiração «portuguesa» são reclamadas por movimentos de oposição, havendo manifestações onde se pedem «portugaladas» como na Grécia, envolta na ditadura dos coronéis, ou situações em que os militares democráticos são chamados os «portugueses» como na América Latina.
A esperança, avivada pela revolução portuguesa, foi também um dos sentimentos que o 25 de Abril desencadeou em sectores da sociedade espanhola.
É neste contexto que, no país vizinho, alguns militares anti-franquistas constituem a Unión Militar Democrática no Verão de 1974, procurando e conseguindo contactos com militares do MFA.
Num país em que existia a pena de morte, aliás posta em prática meses mais tarde, quando militantes nacionalistas bascos são executados pelo garrote, os militares da Unión Militar Democrática arriscaram. Presos vários dos seus principais dirigentes em Julho de 1975 e morrendo Francisco Franco em Novembro desse ano, a Unión Militar Democrática viu a seu percurso muito perturbado. Julgados em Conselho de Guerra em 1976, os militares presos foram condenados e afastados das Forças Armadas espanholas por largos anos, dissolvendo-se a organização a que pertenciam em 1977.
A própria existência da Unión Militar Democratica, que terá agrupado cerca de duas centenas de militares, independentemente da sua força, desconhecida para o regime, quebrou a imagem de apoio unânime das forças armadas ao regime franquista e, assim, contribuiu, para a disseminação e a legitimização da ideia de mudança.
Tal como aconteceu com a Guerra Civil de Espanha, que hoje representa um espaço de combates pela memória essencial na sociedade espanhola após décadas de silêncio, também sobre as lutas e os movimentos antifranquistas apenas há poucos anos se levantou o manto da denegação, do esquecimento ou da desvalorização. Entre estes movimentos, está o desta organização política de militares, largamente ignorados na transição para a Democracia, sobre cuja acção se começa agora a falar.
Foi assim que, a convite da Associação 25 de Abril, estiveram em Portugal, para participar mas comemorações, alguns dos militares da Unión Militar Democrática como o Major Luis Otero Fernandez, o Capitão José Fortes Bouzan, o Capitão Fernando Reilein, presos a 29/7/75, e o Capitão José Ignacio Dominguez Martin-Sanchez, nesssa data ausente de Espanha e que depois se exilou em Portugal por alguns meses.
No dia 24, visitaram os principais locais dos eventos revolucionários em Lisboa (como o Posto de Comando do MFA da Pontinha, o Terreiro do Paço, o Quartel do Carmo, os vestígios da sede da PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso), seguindo-se um jantar comemorativo na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, agora desactivada e, no dia seguinte, a participação nas comemorações do 25 de Abril.
Durante a sua estadia em Portugal, foi também assinado um protocolo de colaboração entre o Foro Milicia y Democracia, cujo objectivo consiste em recuperar e difundir a memória histórica da Unión Militar Democrática no âmbito da luta pela democratização em Espanha, com a Associação 25 de Abril, estreitando-se, assim, laços bastante esquecidos mas que se estabeleceram há 35 anos e que testemunham as diferentes vias de transição para a democracia nos dois Estados ibéricos.
 
 (*) Biografia de Luísa Tiago de Oliveira

Nos próximos dias 20 e 21 de Abril (segunda e terça-feira), decorre no Centro de Estudos Sociais, em Coimbra, o Seminário Luso-Brasileiro sobre Repressão e Memória Política. Mais informações aqui.

“A GUERRA”: 2.ª série estreia hoje – (via Twitter)

 
Adenda – Por indicação de Sofia Loureiro dos Santos, sugerimos esta leitura.

Portugal Anos 50Numa tarde destas, enquanto me esforçava uma vez mais por dar algum sentido à livralhada acumulada sem grande nexo aqui em casa, reencontrei um conjunto de postais reproduzindo algumas das fotografias de Gérard Castello Lopes tiradas ao Portugal dos anos 50. Foram editadas em 1999 na companhia de dois pequenos textos de dois Antónios. «Outros tempos, outros lugares», sublinha um deles, o Tabucchi, na contracapa. O outro, o Barreto, fala de um país passado que Castello Lopes revirou e nos ofereceu contrariando uma quase crónica escassez de imagens. Mas será realmente assim? Estaremos nós a olhar aqui para um país inteiramente outro, mergulhado num sono colectivo e prolongado do qual só na década de 1960 terá sido possível despertar? Revejo as imagens e encontro em quase todas elas vestígios de um Portugal que me parece o de sempre, diverso daquele que hoje habitamos mas nem por isso imóvel, nem por isso falho do movimento que é parte da memória comum na qual continua a apoiar-se aquilo que nos aproxima, ajudando a desenhar a comunidade que imaginamos.

(mais…)

Sugestão de leitura: Fernando Rosas, Seis teses sobre memória e hegemonia, ou o retorno da política.

 
(Contributo de Maria João M. Pires)

No passado dia 29 de Outubro, realizou-se em Lisboa o colóquio Tarrafal, uma prisão, dois continentes, por iniciativa do Movimento «Não apaguem a memória!»

Da intervenção de um dos antigos presos, Justino Pinto de Andrade, divulgamos hoje os minutos finais em que é descrita a libertação, no dia 1 de Maio de 1974, de todos os que se encontravam no Tarrafal (vídeos 5 e 6 de um conjunto que se encontra online na íntegra).

(Localização dos quatro primeiros: 1, 2, 3 e 4.)

 

 

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O texto que se segue contém excertos de uma carta de Liz Sevcenko, publicada no jornal  Herald Tribune, de 23.12.2008.
 

«A memória é um terreno central sobre o qual se constroem e asseguram no futuro as democracias. A inextricável relação entre a história e os direitos humanos vem sendo cada vez mais reconhecida por instituições locais e internacionais. Comissões de Verdade e Reconciliação em muitos países vêm exigindo espaços de memória e confrontando os aspectos mais difíceis e sensíveis da história das nações, reconhecendo nesse labor um requisito fundamental duma sociedade aberta. 

Todos os governos são responsáveis por manter um acesso aberto ao passado dos povos. Não se trata apenas de decidir se os arquivos devem ser abertos ou manter-se fechados e ocultos. A democratização da história – e usar a história para sustentar uma democracia saudável – exige fóruns públicos que permitam às pessoas lidar abertamente com o passado, em todos os seus aspectos de desonra e glória. 

Apagar a memória dum passado de repressão politica e de resistência contribui fortemente para aceitar culturas de repressão no presente. Pelo contrário, criar espaços de debate e reflexão sobre esse passado, em todos os seus aspectos e consequências no presente, pode ajudar a construir uma cultura de militância democrática. O tratamento que cada nação dá ao seu passado necessita de ser tomada a sério como uma indicação segura de compromisso com os direitos humanos.»

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Excelente 2009 para todos os que têm acompanhado os seis meses de vida deste blogue. Agradecemos a atenção e as muitas palavras de encorajamento e prometemos continuar a «caminhar», como soubermos e como pudermos.

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E uma breve história da árvore de Natal do Centro Rockefeller, em Nova Iorque.

A propósito do 25 de Novembro de 1975, sugere-se a leitura de um texto de Maria Manuela Cruzeiro, apresentado, em 2005, no Museu da República e Resistência.
25 de Novembro: quantos golpes afinal?

«E talvez seja esta uma das mais pesadas heranças de Novembro: esse desajuste dramático entre o discurso e a realidade, que é ainda hoje a debilidade maior da vida portuguesa. Vem de trás, certamente, mas a República de Novembro acentuou fortemente essa esquizofrenia ideológica e cívica.»

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Um texto de Manuel António Pina (*)

Originalmente publicado em Notícias Magazine, de 16/11/2008

Heine chamou aos historiadores profetas do passado pois a História, como todas as formas de memória, pode ser escrita, ou imaginada, de intermináveis modos. Escrever a História é, de facto, uma espécie de exercício de arte combinatória de alguns da totalidade infinita dos acontecimentos, dando-lhes coerência narrativa e tentando adivinhar neles alguma forma de sentido ou de desígnio. O homem é um animal causal e precisa desesperadamente de sentido. Infelizmente, a sucessão dos acontecimentos históricos (o que quer que isso seja) raramente tem sentido, o sentido é algo que havemos de ser nós a conferir-lhe.

Vem isto a propósito de o ex-embaixador Hall Themido ter vindo, em livro recente, a reescrever a acção de Aristides Sousa Mendes no salvamento de judeus durante a 2ª Guerra. Na História de Hall Themido, Salazar fez o que devia ao demitir o cônsul, sendo «incompreensível criticar» o Ministério dos Negócios Estrangeiros, «incluindo o ministro, por ter aplicado a lei nas circunstâncias da época». Aristides Sousa Mendes foi punido pela sua «actuação irregular» ao conceder vistos (como se sabe, «irregulares») a judeus em fuga à barbárie nazi, pois era necessário «manter disciplina nos serviços que de forma directa ou indirecta pudessem, com a sua actuação, afectar o estatuto de neutralidade» do país.

Para Hall Themido, relevante na actividade de Aristides Sousa Mendes enquanto cônsul em Bordéus não foi ter sacrificado a carreira a salvar gente dos campos de extermínio, mas o facto (provavelmente também «histórico») de o processo disciplinar de que foi alvo ter sido «o último de vários […] ao longo da carreira».

Segundo o ex-embaixador, Sousa Mendes é «um mito criado por judeus» (onde é que já ouvi algo parecido sobre Auschwitz?), e é «totalmente irrealista» falar-se em 30 000 vistos «concedidos em apenas alguns poucos dias pelo cônsul e seus familiares, de forma cega, no consulado e até nos cafés da vizinhança» (onde é que já ouvi algo parecido sobre os números do Holocausto?). Talvez, com efeito, 30 000 seja um número redondo de mais. Talvez Sousa Mendes tenha, desobedecendo a Salazar, salvo apenas 29 999 judeus. Ou talvez, quem sabe?, tenha sido apenas um. A dimensão ética da sua desobediência e do sacrifício a que, por isso, se expôs não depende do número de pessoas que terá salvo. Mesmo que, para outros, devesse ter seguido a ética (chamemos-lhe assim) da obediência e cuidado da própria carreira, deixando os judeus que lhe pediam auxílio ir (azar deles) para as câmaras de gás.

Ao contrário de Sousa Mendes, Hall Themido teve uma longa carreira cumprindo ordens (onde é que também já ouvi isto?), quer sob o fascismo quer depois do 25 de Abril. «Manda quem pode e obedece quem deve» e, por isso, nunca lhe terá passado pela cabeça desobedecer aos superiores, fossem quem fossem e ordenassem o que ordenassem. E, na sua hierarquia de valores, não há, pelos vistos, nada «superior», nem as leis dos homens nem a lei de Deus, ao seu ministro.
As citações de Hall Themido foram recolhidas do “Expresso”.

(*) Biografia de Manuel António Pina

JMPO texto que escrevi ontem sobre o desaparecimento de João Martins Pereira não era uma evocação nem pretendia servir de obituário. Correspondeu apenas a uma reacção a quente perante a notícia da morte de uma pessoa que não conheci pessoalmente mas me habituei a acompanhar. Na minha biblioteca, em lugar acessível, os seus livros estão encostados aos de António José Saraiva e de Eduardo Lourenço, e julgo que tal poderá dizer alguma coisa a alguém. Ou di-lo a mim, pelo menos. Não falei portanto de algumas das suas intervenções e das ausências me falaram mails que recebi entre ontem e hoje. Não lembrei, por exemplo, o seu lugar fundador no MES e, muitos anos mais tarde, no Bloco de Esquerda. Ou a sua actividade como professor, engenheiro e cronista.

Mas uma ausência me parece de facto injusta. Num testemunho conciso e comovente saído hoje no Público, Eduarda Dionísio anota o esquecimento de um jornal absolutamente único, publicado a partir de 1975, do qual João Martins Pereira foi director, colaborador e acima de tudo grande entusiasta. Tratava-se da Gazeta da Semana, anos depois reduzida por dificuldades várias a Gazeta do Mês, e do qual até tinha a colecção completa, desaparecida algures junto com um caixote que levou descaminho numa qualquer mudança. Sobraram-me apenas alguns exemplares dispersos, e é de um deles que me sirvo para ajudar a preencher a falha.

Junho de 1980, artigo «Resistir ou Re-existir» na Gazeta do Mês número 2: «A condição feminina é-me exterior, como o é, num outro plano, a condição operária, a mim, intelectual de extracção burguesa. Libertar-me do complexo de “não ser operário” não é distanciar-me do problema da exploração. É justamente escolher colocar-me, em relação a ele, na única posição que, de boa-fé, me é possível assumir: a da apreensão intelectual, a da “teoria”, a de uma prática solidária, que não a de uma prática vivida (impossível) ou a de uma prática imitada (falsa). Levantemos de uma vez certas ambiguidades persistentes: não posso fazer minha a luta pela emancipação feminina, como não posso fazer minha a luta proletária. Estou com elas. E ao estar com elas, isso determina-me nas lutas que me pertence, a mim, travar.» Parágrafos destes, num tempo dominado agora pelos exageros do politicamente correcto e pelo receio da exposição pública, não existem muitos.

[Entretanto o Centro de Documentação 25 de Abril disponibilizou online a colecção da Gazeta da Semana]

João Martins Pereira

Morreu ontem João Martins Pereira. Na Primavera de 1971 comprei um livro seu, Pensar Portugal hoje – publicado pela Dom Quixote em plena «abertura marcelista» -, no qual, entre outros temas urgentes, se abordava já, pela primeira vez de forma explícita e de um ponto de vista reflexivo, o carácter subversivo da mudança de costumes que Portugal se encontrava então aceleradamente a viver. Essa mesma que ainda hoje permanece algo subavaliada por alguns historiadores, em detrimento da ênfase dada a uma mudança política efectiva mas mais lenta e epidérmica. Recorro a um sublinhado meu datado daquele ano:

«A passagem da rigidez quase total à flexibilidade quase total (…), eis mais uma aprendizagem em que se inicia a classe dominante entre nós. Foi já duro o caminho que a levou dos tempos (não tão recuados) em que nas nossas praias não se podia ver um tronco masculino ao léu (…) até àqueles mais próximos em que os pacatos burgueses saborearam sem pestanejar a fustigação das costas de Romy no filme A Piscina. Aliás (…) no campo dos “costumes” terá tido uma influência decisiva a intensificação dos movimentos de pessoas nos dois sentidos: o turismo estrangeiro em Portugal e as deslocações cada vez mais frequentes de portugueses ao estrangeiro (bolsas, turismo universitário, turismo tout court, a própria emigração). Os portadores da “moral tradicional” viram-se totalmente ultrapassados, e terão talvez ficado surpreendidos que não tenham sido plateias uivantes e babando-se de lascívia as que assistiram aos primeiros nus nos nossos ecrãs. Nada disso: o melhor da nossa burguesia (e não só a intelectual) já estava muito mais «avançada» do que supunham – mesmo a que saía do Blow Up para se encafuar na missa das 7 mais próxima.»

João Martins Pereira viria anos depois a ser secretário de Estado da Indústria do 4º Governo provisório, acompanhando o ministro João Cravinho e colaborando na complexa gestão das nacionalizações. Viria a demitir-se em divergência com a política do governo e a incapacidade deste para responder a uma crise económica cujos resultados, nessa altura de grandes esperanças mas de vacas bem magras, a maioria dos portugueses sentia na pele.

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180px-armisticetrainComemora-se hoje o 90º aniversário do fim à Primeira Guerra Mundial. Em 11 de Novembro de 1918, foi assinado o Tratado do Armistício, na carruagem de um comboio, na floresta de Compiègne.

Muita informação sobre este conflito num site que lhe é dedicado.

 
(Em colaboração com Maria João M. Pires)

Edmundo Pedro faz amanhã, 8 de Novembro, 90 anos. O núcleo redactorial deste blogue e a direcção do Movimento «Não apaguem a memória!» desejam-lhe as maiores felicidades e continuarão a contar com ele para muitos e entusiásticos combates.

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«Percurso existencial», escrito por Edmundo Pedro propositadamente para este blogue

Comecei a trabalhar aos doze anos numa oficina de serralharia. Daí em diante, interrompi o curso diurno da Escola Industrial Machado de Castro e passei a estudar à noite. Aos treze, entrei para o Arsenal da Marinha. Aí conheci dois vultos cimeiros do movimento operário de então, meus colegas de trabalho na oficina de máquinas do Arsenal: António Bento Gonçalves e Francisco Paula de Oliveira. Este último viria a celebrizar-se sob o pseudónimo de “Pavel”. 

O primeiro era então Secretário-geral do PCP, o segundo Secretário-geral da Federação da Juventude Comunista. Ambos exerceram no meu espírito uma influência determinante. 

Filiei-me na Juventude Comunista aos treze anos, pouco depois de ser admitido naquela empresa do Estado. 

Fui detido pela primeira vez pela polícia política no dia 17 de Janeiro de 1934, pouco depois de ter completado os 15 anos de idade, por estar envolvido na preparação da tentativa de greve geral que deflagraria no dia seguinte. A minha primeira detenção está, pois, estreitamente ligada ao movimento de protesto contra a liquidação do sindicalismo livre. Esse movimento ficaria conhecido na história das lutas operárias como o «18 de Janeiro». Pela minha acção na preparação desse evento, fui condenado pelo Tribunal Militar Especial, acabado de criar por Salazar, à pena de um ano de prisão e à perda dos «direitos políticos» durante cinco anos… 

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Ter pisado o mesmo Tarrafal, ter vivido o mesmo inferno, ter habitado por dentro a mesma «frigideira», respirado os mesmos 40 graus de Sol, ter ouvido os mesmos gritos dos guardas e assistido, depois, no fim, no fim mesmo de tudo, ter assistido ao mesmo rumor, primeiro longínquo, a apurar os ouvidos, depois mais nítido – mas, mas, mas, podemos acreditar? – viiiiva Cabo-Veeeerde e… lá o que fosse aproximava-se como um apocalipse mas ao contrário…viiiiva o paigêcêêê.

Era 1 de Maio de 1974, cinco dias depois de Lisboa, ali no Tarrafal, o céu a cair e a levantar-se, rasgando cercas e muros e entregando de mãos estendidas o paraí…a liberdade, libeeertem os preeesos! Liberdaaade! Gritavam. Ouvia-se, a caminho do campo de concentração. Gritavam para si, a ganhar forças, e para os outros, para os outros ouvirem. Uma multidão afoita sem bandeiras nem ordem levantava os braços, aproximava-se e tudo à volta parava, e olhava os campos, as árvores e os bichos do Tarrafal. Depois chegaram os capitães e disseram que sim, que era verdade. As amarras estavam caídas, as grilhetas despejadas no chão.

Ter pisado o mesmo Tarrafal não quer dizer que venham todos a fazer o mesmo caminho. A vida é um mundo de trajectos diferentes. Podemos escolher o caminho ou o caminho escolher-nos a nós. Há o mérito, sem dúvida, mas também há as oportunidades, as boas escolhas ou as escolhas em má hora. As condições de cada um são diferentes e isso decide também. Decide o saber, decide o ter. Decidimos nós… ou  as circunstâncias decidem por nós.

Dos libertados do campo de concentração estiveram no colóquio internacional Tarrafal -Uma Prisão dois Continentes, na Assembleia da República, em 29 de Outubro – um colóquio da iniciativa do Movimento «Não Apaguem a Memoria!» (NAM) – um destacado diplomata de Cabo Verde, um embaixador de Angola, um embaixador da Guiné-Bissau e um professor universitário em Luanda. Mas José Pedro Castanheira numa peça jornalística no Expresso de 25 de Outubro, a antecipar-se ao citado colóquio, deu particular destaque a um ex-tarrafalista que fez outros caminhos ou outro caminho o escolheu, diferente dos que distinguiram aqueles seus companheiros de infortúnio no Tarrafal.

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Bobby Kennedy, em 1968: «In the next 40 years a Negro can achieve the same position that my brother has.»

Contributo de Maria João M. Pires

Segundo revela a edição de hoje (03/11/2008) do El País, com base em documentos desclassificados do Arquivo Nacional de Washington, Arias Navarro, o último presidente do governo de Franco, disponibilizara-se para atacar Portugal, em 1975. «Profundamente inquieto» com a evolução da situação portuguesa, Arias terá expressado a disponibilidade de Espanha para levar a cabo o «combate anticomunista sozinha, se isso fosse necessário», mas confiando na «cooperação e cooperação dos seus amigos», entre os quais os Estados Unidos, com quem Espanha procurava, na altura, trocar a cedência de bases militares pela entrada na NATO.

ADENDA: Para os adeptos da “história contrafactual”, aqui fica uma hipótese (im)provável.

«Logo em ’62, o Abandono, que David [Mourão Ferreira] escreveu para Amália, foi apelidado por muita gente de Fado Peniche, tão evidentes eram as referências ao famigerado forte-prisão.»

 

 
Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar.
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar.
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar.

Levaram-te, a meio da noite:
A treva tudo cobria.
Foi de noite, numa noite
De todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite,
E nunca mais se fez dia.

Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar.
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar.
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar

Mais vale tade do que nunca. Está no ar. Para ver, clique aqui.

A totalidade do colóquio será disponibilizada posteriormente.


  Luís Fonseca (Cabo Verde)

 

  Constantino Lopes da Costa (Guiné)
  e Manuel Pedro Pacavira (Angola)

 

  Edmundo Pedro (Portugal)


  Máquina de cortar tabaco
  concebida e construída por Bento Gonçalves,
  no Campo de Concentração do Tarrafal, em 1940.

  (Réplica executada no Arsenal do Alfeite, Julho de 2003)

O Colóquio Inrernacional «Tarrafal – uma prisão, dois continentes», está ainda a decorrer hoje, 29/10.

 
Algumas fotografias tiradas durante as sessõs desta manhã.

 

   Maria da Luz Boal e Joaquim de Sousa Teixeira

 

  Justino Pinto de Andrade

Nos passados dias 12 e 13 Setembro 2008, realizaram-se, no convento dos Capuchos, que comemorou então os seus 450 anos, duas récitas da ópera Der Kaiser von Atlantis oder die Tod Verweigerung («O Imperador da Atlântida ou a abdicação da Morte»), composta, em 1943, por Vicktor Ullmann, com libretto de Peter Kien, no campo de concentração de Theresienstadt (Terezin, a norte da actual República Checa). Estreada na sua totalidade pela primeira vez em Portugal, com organização da Câmara Municipal de Almada e da Associação Ginásio Opera (1), a ópera foi concebida pelos dois artistas durante o cativeiro em Theresienstadt, para apresentação no campo de concentração. Devido à sua temática pacifista e anti-hitleriana, o espectáculo jamais seria levado à cena dado que, nos ensaios realizados em Outubro de 1944, o comando local das SS proibiram a sua apresentação. Pouco tempo depois, Ullmann, Kien e todo o cast foram enviados para Auschwitz, onde acabariam por morrer nas câmaras de gás. Apenas em Dezembro de 1975, trinta anos depois da sua criação, a ópera teria a sua estreia mundial no Bellevue Center de Amesterdão.

Dada a perplexidade que pode haver com o facto de ter sido composta uma ópera – não foi aliás caso único em Theresienstadt – num campo de concentração nazi, convém dar algumas explicações sobre a forma como ele foi concebido pelos nazis, como instrumento de propaganda para esconder os seus crimes, a par aliás com a destruição das câmaras de gás e as transferências dos deportados dos campos do extermínio, nas «marchas da morte», no final da guerra. Lembre-se que, questionado sobre as atrocidades cometidas, o próprio chefe das SS, Heinrich Himmler disse a um deportado estar convicto que ninguém iria acreditar na magnitude do crime do extermínio e que ainda hoje os negacionistas do Holocausto utilizam o exemplo de Theresienstad.

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Segundo noticiou o jornal Público, de 25 de Setembro de 2008, a Fortaleza de Peniche vai ser transformada em Pousada de Portugal, devendo abrir portas até 2013. «Com um investimento previsto de dez a 15 milhões de euros, a nova unidade deve compatibilizar a função hoteleira com a “preservação da memória da prisão política”» – disse António Correia, presidente da Câmara de Peniche. O autarca acrescentou que essa «pousada será diferente», pois «será construída num local que é visitado por milhares de pessoas à procura da memória do que ali se passou» (*).

Esta declaração parece uma anedota (de mau gosto).

Será que o Sr. Presidente da Câmara está à espera de «clientes» bebam um copo, num hipotético bar, erguido junto ao «parlatório», onde os familiares visitavam os presos políticos com uma placa de vidro encimado por uma rede de permeio e os guardas a vigiarem? Ou que dêem um mergulho na piscina, junto à «furna» isolada em cimento, que servia de «segredo», para punir os presos políticos? Ou ainda que façam parapente para o mar, ou escalada dos muros, para reviver as fugas audaciosas dos presos políticos?

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  Um texto de José Pedro Barreto (*)

  Publicado na revista Egoísta, Setembro de 2001 (número especial Tributo a Nova Iorque)
  (Clicar na imagem para ler melhor)

  
(*) Biografia de José Pedro Barreto

Marta Kubišová é uma cantora checa que foi muito popular durante a Primavera de Praga. A sua canção «Motlitba pro Martu» (Oração para Marta) será para sempre recordada como símbolo de uma imensa esperança de liberdade que terminou na noite de 20 para 21 de Agosto de 1968.

Marta Kubisova veio mais tarde a ser proibida de cantar no seu país durante cerca de duas décadas.

    Publicado originalmente em A Terceira Noite

Ao mesmo tempo que na generalidade do território espanhol, como consequência do combate que vem sendo travado à volta da recuperação e da revisão da memória histórica, desaparecem os últimos vestígios da presença de nomes de franquistas e de falangistas na toponímia e na designação de instituições públicas, em Caldas de Reis, província de Pontevedra, Galiza, encontra-se exposta uma polémica estátua-fonte de Francisco Franco Bahamonde – muito clássica, aliás, se não for vista como exercício de pastiche –, que vomita água com a qual os passantes vão matando a sede. Esta não resultou de qualquer homenagem pública, mas antes de uma encomenda municipal para um festival de arte. Levanta, ainda assim, algumas questões interessantes: permitirá ela uma evocação do Caudillo por la Gracia de Dios ou antes a dos espanhóis que o seu regime fez garrotar? irritará os seus partidários e divertirá os seus inimigos? apoiará um momento de subversão da estética oficial do franquismo? produzirá um efeito de sublimação ou de banalização da história recente? ajudará a esquecer ou a lembrar? As respostas serão múltiplas e nem sempre unívocas. No estado actual de perda rápida da memória colectiva e de uma cada vez mais veloz mutabilidade da vida dos signos, tendo porém a olhá-la como algo que emerge como uma peça de mobiliário urbano, ademais efémera, pela qual a maioria dos cidadãos – «ni contentos, ni descontentos», como já o afirmaram alguns – passará sem prestar grande atenção. Como por um trivial recipiente para o lixo público.

Um texto de José Manuel Pureza (*)

Intervenção no Acto Cívico de Memória dos 50 anos
da carta de D. António Ferreira Gomes a Salazar
(Coimbra, 13 de Julho de 2008)

«Posso errar, mas creio bem estar com a doutrina da Igreja ao discordar de doutrinas que, sendo de V. Exa., são da Situação.»

Assim escreveu D. António Ferreira Gomes duas linhas que ficaram a marcar a História. É certo que a carta – melhor, o «pró-memória» de 13 de Julho de 1958, enviado ao ditador por sugestão prudente de outro nome da coragem de ser católico no Portugal desse tempo, o bispo da Beira D. Sebastião Soares de Resende – está longe de ser politicamente unívoca. Mas a História é assim, é sempre mais e sempre menos do que a vontade pessoal de quem a faz. Nem Humberto Delgado queria mais do que «uma pátria livre, anti-totalitária, cristã, alicerçada na família», nem D. António Ferreira Gomes poupou elogios à «política externa e ultramarina e do problema económico» de Salazar. O que ficará para a História, no entanto, é que a «carta do bispo do Porto» e o «obviamente demito-o» de Delgado se geminaram no abalo sísmico definitivo do salazarismo como modo de compreender o país, mais do que como simples regime político. A carta do bispo do Porto foi a abertura católica à possibilidade do «obviamente demito-o». E nisto foi uma mudança abissal da Igreja e do país que se afirmou.

A mansidão agradecida da Igreja Católica para com Salazar foi um dos pilares fortes do fascismo português. O providencialismo do ditador começou aí, na sua personificação como resgate do sossego de uma Igreja provocada, a contra-gosto, a confrontar-se, durante a I República, com os desafios da laicidade. Os desmandos e as perseguições, que existiram, tiveram a sua simetria no Salazar do Centro Católico Português e do CADC, para quem «há um direito político cristão» e «há uma política da Igreja», sendo que o Centro Católico deveria ser a organização dos católicos, unidos para «realizar constitucionalmente uma actividade política», para «defesa das liberdades e dos direitos da Igreja».

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