Testemunhos


Este post foi publicado originalmente no blogue do Centro Nacional de Cultura, em 19/1/2009.

   
«Lusitania, Quo Vadis?». Foi este o título de um ciclo de conferências organizado pelo Centro Nacional de Cultura em Março de 1969. Nenhuma pergunta poderia exprimir tão bem o que nos perguntávamos a nós próprios no final dos anos 60.

O Centro Nacional de Cultura era um das peças de um complicado puzzle que constituía então a oposição ao salazarismo e, em 1968-1969, foi dirigido por um grupo de pessoas a que pertenci. Mais concretamente, em 27 de Novembro de 1968, realizaram­­-se eleições para os corpos gerentes e, para além de José Manuel Galvão Teles (presidente) e de mim própria (vice-presidente), passaram a fazer parte da Direcção: Teresa Amado, Manuel Moita, Sebastião José de Carvalho, António Reis e Nuno Portas. Éramos todos muito jovens, católicos ou já ex­‑católicos. À Mesa da Assembleia Geral presidiu Henrique Martins de Carvalho, tendo com vogais Gonçalo Ribeiro Teles e Augusto Ferreira do Amaral e o Conselho Fiscal ficou constituído por José Ribeiro dos Santos, Francisco de Sousa Tavares e Francisco Lino Neto. A Direcção reflectia uma renovação total, a continuidade era assegurada nos outros corpos gerentes.

A nova Direcção começou imediatamente a organizar debates e reuniões na sede do Centro e procurou angariar fundos e novos sócios.

Entretanto, a oposição pensava já nas eleições legislativas do ano seguinte. Em 20 de Janeiro de 1969, foi criada a Comissão Promotora de Voto, por carta enviada ao Presidente do Conselho e, entre os quarenta e três subscritores, seis eram membros dos corpos gerentes do Centro Nacional de Cultura.

Era importante tirar partido de todas as ocasiões de debate, tão alargado quanto os condicionalismos o fossem permitindo. O Centro planeou então uma iniciativa de grande vulto, consubstanciada em três sessões a serem realizadas em Março de 1969, sob o tal nome genérico de «Lusitania, Quo Vadis?». Política Económica, Acção Cultural e Perspectivas Políticas foram os grandes temas escolhidos, a sede da Sociedade Nacional de Belas Artes o local conseguido para a realização.

Embora se previsse uma grande afluência de participantes – o que, de facto, aconteceu –, foi decidido evitar o modelo clássico, e já explorado até à exaustão, de «conferência, seguida de debate» e adoptar um formato relativamente informal: para cada uma das sessões, foi previsto um painel com duas pessoas encarregadas de formular perguntas e três que tinham a missão de lhes responder. Foi elaborado e divulgado o seguinte programa, recheado de nomes sonantes:
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Naquela madrugada de 21 de Janeiro de 1965, não sei exactamente que horas eram, talvez umas 7 da manhã, bateram à porta de casa. Era a casa de meus pais.

Tinha-me deitado tarde, depois de uma reunião da minha célula para, entre outrtas coisas, fazer um ponto de situação depois das prisões, em Dezembro, do funcionário do partido (PCP) que controlava o sector universitário e do seu contacto. O funcionário dava pelo nome de Nuno Álvares Pereira. Exactamente, é isso mesmo, o nome do Condestável. Funcionário que eu conhecia perfeitamente pois estivera escondido em minha casa, ainda a dos meus pais, apesar de eu dever ignorar a sua identidade e função pois estava uns furos abaixo dele na organização. Nessa reunião recebera a última edição de O Militante. Chegado a casa, coloquei-o na gaveta da mesa de cabeceira, por baixo dos lenços e das meias.

Naquela madrugada, bateram à porta uma primeira vez. Não para minha casa, mas para o rés-do-chão, one habitava a senhoria, uma senhora de ar severo e de poucos amigos. A senhora sabia perfeitamente quem morava no primeiro andar, isto é, sabia que eram pessoas que não eram afectas ao regime. Foi à janela e quando lhe disseram que era para o primeiro andar, apercebeu-se de quem era, recusou-se a abrir a porta e disse para tocarem para cima. A porta da rua destrancava-se à noite e só se abria por dentro ou com chave, por fora. Algum alvoroço na escada do prédio, a senhora avisa a minha mãe, que entretanto fora à janela saber quem batera. Vem para dentro, vai ao meu quarto e avisa-me. Levanto-me e enquanto a minha mãe desce as escadas, vou ao escritório do meu Pai e retiro alguns livros incrimanatórios que meto dentro da cama. Volto-me a deitar e, logo a seguir, entra a PIDE pela porta dentro. Identificam-me e dizem para me levantar porque tinha de os acompanhar. Um passa revista à casa nos locais do costume, autoclismo, cimo dos móveis, debaixo das camas, escritório, etc. Sinto-me feliz e seguro por os livros estarem a recato. Enganei-os, penso. Levanto-me afastando a roupa da cama com o à-vontade suficiente para não provocar desconfiança, mas com o cuidado necessário para não desvendar o esconderijo. A felicidade durou muito pouco tempo, pois o outro PIDE que ficara no quarto fora direito à mesa de cabeceira. Só quando ele diz qualquer coisa como “Pois é, pois é, isto é uma chatice” é que caí em mim e vi que me tinha esquecido da peça mais incriminatória que se podia ter. É que com o Avante, podia-se ser só simpatizante e até dar a “explicação” que tinha sido posto na caixa do correio. Mas com O Militante não havia volta a dar, pois só era distribuido a quem pertencia ao Partido. E lá fui, de táxi, para a António Maria Cardoso, na altura já “condomínio privado”. Da PIDE. Formalidades da identificação, barulho constante de abrir e fechar de portas, movimento pelos corredores. Terão prendido mais alguém, interrogo-me. Julgo que ao fim da manhã, sou levado por uma porta das traseiras, em frente à entrada do Hospital da Ordem Terceira, para uma das tristemente famosas carrinhas Mercedes azul escuro que me levaria ao Aljube. Despojam-me de tudo, relógio, cinto, atacadores, óculos, etc. e depositam-me num “curro”. Onde permaneci por mais 44 dias, em total isolamento.

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Às vezes, a minha estante traz-me descobertas: livros que me foram oferecidos e nunca houve vontade de ler, ou que – como é este caso – por ali ficaram esquecidos, à espera de leitura num intervalo de acalmia da torrente “tsunamiana” dos anos da Revolução. Peguei agora no “Caxias: últimos dias do fascismo” de Orlando Gonçalves e já não voltei ao trabalho urgente que tinha entre mãos. O prazer manifesto com que o autor procura as palavras certas e joga com elas lembrou-me, de repente, que além de excelente jornalista tinha sido um amante das Letras. Mas quis, sobretudo, trazer aqui o testemunho de um companheiro da luta anti-fascista que saiu em liberdade em 26 de Abril de 74. Em minha opinião, um extraordinário testemunho. Uma escrita lenta, pormenorizada, à dimensão do tempo na cadeia, e mais ainda daquele que era vivido em regime de isolamento. A repetição dos gestos, evidenciada na repetição propositada da descrição desses gestos, reflecte bem a monotonia do quotidiano numa cela. O texto dá-nos a dimensão desse tempo – que se queria “estender ou encurtar” – e a importância dos gestos com que se preenchia esse tempo. O que mais me impressiona é a simplicidade com que nos transmite (ou recorda) o profundo significado do isolamento (a revolução começara muitas horas antes e Orlando Gonçalves divaga acerca do sal e da pimenta que a companheira lhe levara…).
A atenção a tudo que vem, não vem, ou se espera, dos companheiros das salas do rés-do-chão e do lado é qualquer coisa de comovedor para quem passou por ali. Ficamos a saber que, nesse 25 de Abril, quando os presos políticos ainda continuavam a ignorar o seu futuro, é uma voz feminina a primeira a ecoar no Forte, saudando a Democracia. Lindo! – Desculpem, não resisto ao simbolismo! – Helena Pato

 
Um texto de Orlando Gonçalves (*)

 
Mais um dia… Dias e noites sucedem-se obsessivos, sem fronteiras definidas, estupefacientes. Esta linearidade é também peça da engrenagem que nos tritura.

Amanheceu cinzenta esta quinta-feira, o céu e a terra a confundirem-se e a apertarem a esfera em que mal nos movemos. Nem sequer se distingue os contornos da Outra- Banda e o rio não é mais do que a fronteira neutra de continentes hostis.

Já cumpri a rotina matinal. Foi mais lento, desta vez, o passeio na cela. Aquela urgência inconsequente de atingir um destino deu nesta calma vulcânica que aparento. Enquanto caminho, os mais desencontrados pensamentos à velocidade do átomo. Todas as ameaças de ontem, todos os problemas que deixei suspensos, a sorte dos amigos e o destino do país, apresentam-se repartidos por um presente e futuro que sinto meus como se fossem de outrem. O cérebro é calda ignescente, só com dificuldade separo a realidade da ficção.

De novo procurei chamar a atenção do Navarro. Em vão! Por mais que batuque não vem qualquer resposta do outro lado. Que lhe terá sucedido? Tortura no reduto sul? Doença? Uma preocupação subsidiária a somar a tantas que me ocupam.

Será que os homens lá de fora compreendem a nossa situação? Suspeitarão eles, ao menos, da nossa existência entre muros? Refiro-me, em particular, aos homens que ao volante dos seus carros correm na estrada que se estende na minha frente.

Faz pouco tempo, entregaram-me outra encomenda da Luísa. Pelo rol, que confiro, sinto e sofro a sua solicitude. Pequenos nadas de que não se esquece: sal, pimenta, uma espátula de madeira…Um livro que mandou não me chegou às mãos.

Ontem ao meio-dia (hora legal), entreguei o requerimento a pedir autorização para receber livros e revistas. Foi-me devolvido, à noite, por carência de data. “É preciso fazer outro”, disse o guarda. Fazer outro? Bem que podia aproveitar papel, apor a data imprescindível, mas lá isso era contrário às regras daquele jogo. Rasgar, repetir, fazer outro, esse era o único remédio. Já fiz outro. Voltarei a entregá-lo na hora exacta e no cumprimento das boas normas.

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Acabara de me fazer “amigo” do Jaime Mendes no Facebook.  Já éramos amigos desde os anos 60, década que ganhou fama de mágica por causa dos Beatles, do movimento Hippie, da luta contra a guerra no Vietnam, da ida de Iuri Gagarine ao espaço e Neil Armstrong à Lua, do Maio de 68, da Primavera de Praga, do movimento feminista, do direito ganho pelas mulheres portuguesas (creio que só as universitárias!) à perda da virgindade sem perda da honra e outros acontecimentos que viraram o mundo do avesso.

Nesses anos 60, como muitos outros da minha geração estudávamos, namorávamos e conspirávamos nos cafés de Lisboa. Conversas cifradas e sussurradas no meio de caras desconhecidas entre as quais tentávamos adivinhar a do informador da PIDE que não deixaria de por ali andar de serviço. Procurávamos instintivamente identificá-lo, adivinhá-lo. Pela cara, pelos gestos, pelo modo de nos observar, pela sua frequência no café.

O nosso “quartel general”, era o café Pão de Açúcar na Alameda Afonso Henriques, no sítio onde ainda hoje está, mas muito diferente. Estudantes do Instituto Superior Técnico quase todos e activos associativos, frequentávamos as aulas de engenharia, e a escola superior de política e cultura, a associação de estudante. Frequentávamos a polícia de choque, correndo à sua frente e conspirávamos contra a ditadura de manhã, à tarde e à noite. O Carlos Marum, a Noémia, o Mário Lino, a Paula Correia, o Rui Martins, a Clara, o Santos Marques, o Rui Pereira, a Teresa Spranger, a Teresa Tito Morais, o Gabriel e mais alguns, a viver por perto, na casa dos pais como o Jaime Mendes ou em quartos alugados, como eu, constituíamos a guarda avançada dos “conspiradores” do Pão d’Açúcar, certos de que mais ano menos ano acabaríamos com o regime fascista ou mais dia menos dia acabaríamos na prisão. Conseguimos, quase todos, atingir as duas metas. A começar pela última, é claro.

O Jaime Mendes preparava-se na cidade universitária para ser médico que veio a ser com proficiência, fama e proveito seguindo a tradição da família, enquanto eu me familiarizava com a engenharia electrotécnica no IST a dois passos dali. Cresciam em mim então duas paixões que resultaram inconciliáveis. Uma pela Física das partículas que “esmiuçava” a matéria, outra pelo derrubamento da ditadura, independência das colónias e pela sociedade nova se dizia estar a construir o Homem Novo. Venceu esta.

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Conheci um grande artista quando ainda estava circunscrito a um cubículo comercial que lhe aperreava o talento. Refiro-me a um dos grandes fotógrafos portugueses tardiamente revelado e que, ainda depois, derramou talento como camara man no cinema e na televisão: Augusto Cabrita (1923-1993).

Quando miúdo, vivendo no Barreiro, volta e meia tinha de ir tirar as tais fotografias tipo passe. Não tinha escolha de fotógrafo. A família toda era “obrigada” a recorrer a um que tinha estabelecimento montado, um pequeno estúdio fotográfico, junto à Sociedade Os Penicheiros. Questões velhas de amizades entre famílias com afinidades. Eu lá ia, tinha que ser, por obrigação e sem qualquer gosto, molhando constantemente a mão e passando-a pelo remoinho no alto do meu cabelo rebelde para ficar o menos mal possível no retrato de obrigação. O fotógrafo era o Senhor Cabrita. Ele tratava-me simpaticamente e procurava pôr-me à vontade, trocando impressões cúmplices sobre como iam as coisas no nosso Barreirense, então a jogar na primeira divisão. Era um homem de riso aberto e com um olhar que se via que estava para além do pequeno estabelecimento onde ele ganhava a vida e que fora montado pelo seu pai. Enquanto vivi no Barreiro, nunca recorri a outro fotógrafo que não fosse o Senhor Cabrita. Soube depois que, enquanto artista, ele exercitava, em privado, outros talentos ligados à música, sobretudo tocando piano, inclinação que partilhava com a sua irmã Dulce que vim a conhecer mais tarde, uma economista, bibliotecária e Mezzo-Soprano (tendo ilustrado, magnificamente, com a sua espantosa voz, obras de Lopes Graça), casada com o jornalista e escritor Dinis Machado.

Mas o Senhor Cabrita, melhor dizendo – Augusto Cabrita, galgou espaços para além da sua “lojeca” barreirense e do mundo das fotografias tipo passe e de casamentos e baptizados, desatou a fotografar por aí fora, tornou-se reconhecido, começou a recolher prémios e a tornar-se famoso. Fez nome no cinema (foi o responsável pela imagem do Belarmino de Fernando Lopes) e na televisão, através de inúmeras reportagens, sobretudo as associadas à guerra colonial. De “fotógrafo” passou a Artista. Foi um dos melhores fotógrafos portugueses de todos os tempos e terminou a sua carreira com direito ao tratamento reverencial de Mestre Augusto Cabrita. Tinha, sobretudo, um enorme talento a captar rostos e enquadramentos paisagísticos e sociais. Sem as fotografias dele sobre o “velho” Barreiro, dificilmente a memória da urbe e suas pessoas que enquadraram a maior concentração industrial portuguesa de todos os tempos teria sobrevivido, incluindo a transição de uma aldeia ribeirinha de moleiros, pescadores e fragateiros para a via da modernidade e da industrialização, pelos caminhos de ferro, pela indústria corticeira e, finalmente, pelo gigante industrial que foi a CUF e que foram transformando o Barreiro na maior vila operária portuguesa.

Demorou mas chegou o tempo da minha vaidade juvenil de apregoar aos quatro ventos, para me pôr em bicos de pés face aos do meu tamanho e igualha, quando Augusto Cabrita começou a alastrar a sua fama, de informar as minhas tribos escolares que aquele senhor, agora Mestre, era quem me tirava os retratos para os bilhetes de identidade e cadernetas onde me registavam as gazetas às aulas.

 
Imagem: Uma das fotografias de Augusto Cabrita. Regista o tempo do advento da televisão, em meados dos anos 50 do século XX, um bem escasso que se via sobretudo nos cafés e que, em momentos especiais, provocava ajuntamentos urbanos.

 
(Texto publicado no blogue Água Lisa)


  (Fundação Mário Soares)

 
Bem a propósito do 48º aniversário do Golpe de Beja (ontem), este texto de JHS e os excertos do documento agora divulgados.

 
Um texto de José Hipólito dos Santos (*)

 
Há dias, remexendo em velhos papéis guardados no fundo dum armário, saltou aos meus olhos um conjunto de folhas agrafadas tendo como título “Viagem Secreta a Portugal”. Era um texto de que não mais me lembrara, ou que tinha considerado definitivamente perdido, que me fora dado por Arajaryr Campos a secretária/companheira do General Humberto Delgado.

Um dia, em Julho de 1964, em Argel, recebi um recado do General Delgado convidando-me a ir tomar um refresco na sua vivenda, no interior do Palais du Peuple, residência oficial do Presidente da Argélia Ben Bella.

Eu fora um dos cinco promotores da sua ida para Argel, além de ser o presidente da JAPPA – Junta de Acção Patriótica dos Portugueses da Argélia, mas pretendia sobretudo conversar comigo como participante no Movimento de Beja.

Falámos um pouco sobre as tensões na Oposição portuguesa na Argélia e das dificuldades dos portugueses exilados. Nenhum de nós estava interessado, então, em aprofundar a natureza dessas tensões que viriam, algumas semanas depois, a transformar-se em rupturas graves.

O que se passara com o assalto ao quartel de Beja, que fazia parte dum projecto seu de carácter insurreccional com militares e civis que adeririam em cascata, continuava a estar no centro das suas reflexões.

Interessou-se particularmente pela maneira como eu tinha estabelecido a ligação entre os civis de Manuel Serra e os militares de Varela Gomes, ligação essa que constituía a base de todos os seus projectos.

Mas o General, sem esconder a grande decepção com o falhanço daquela tentativa revolucionária, atrasando o seu desejo de libertar Portugal da ditadura, pôs-se a contar como entrara em Portugal, para dirigir o Movimento de Beja, como se escondera, depois de constatar que tudo estava perdido, e como finalmente saíra de Portugal, rompendo as malhas duma repressão sem precedentes, em todo o país. Arajaryr tinha sempre um complemento na evocação desses episódios e um comentário picante contra a PIDE que se deixara ludibriar várias vezes. O General teatralizava alguns episódios, como quando fora obrigado a sair do comboio, em Barca d’Alva, para mostrar o passaporte ao PIDE. Fingindo sofrer de perturbações nervosas que lhe provocavam esgares fisionómicos e algum descontrole de mãos e braços, postou-se face ao agente da PIDE que não tinha coragem para o encarar e carimbou o passaporte com a maior rapidez!

Relatavam tudo isso com uma certa satisfação, por vezes, dando umas gargalhadas e consideravam que a PIDE era menos competente do que se pensava, nomeadamente os activistas políticos da Oposição.

A festa do reencontro do General e de Arajaryr, que viajara por Vilar-Formoso, fez-se em Madrid, sancionado por uma fotografia que depois exibiram publicamente.

Entretanto, Arajaryr levantara-se para ir buscar um documento, escrito por si, que intitulou VIAGEM SECRETA A PORTUGAL, o tal documento que reencontrei.

O que a seguir se transcreve são trechos desse texto, que traz elementos de reflexão sobre a personalidade do General e sobre erros cometidos, de que viria a pagar uma pesada factura. Mas a responsabilidade da Oposição, toda ela, foi muito grande no pagamento dessa factura.

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Tenho colaborado neste blogue com inúmeros testemunhos sobre os crimes cometidos pela PIDE/DGS. O tempo passa, escrevemos, falamos, e não se esgotam as más memórias. Foi exactamente no lugar onde agora se ergue este condomínio de luxo – indecorosamente (provocatoriamente) designado por “Paço do Duque” – que, durante décadas, se concentraram as forças “nacionais” da tenebrosa polícia política do regime de Salazar e Caetano. Era ali que, diariamente, 24 horas em 24, interrogavam, ameaçavam, espancavam, torturavam cidadãos que iam buscar a todo o país, acusando-os das suas ideias democráticas ou da prática de uma outra religião diferente da católica (como foi com as “testemunhas de Jeová de Almada”, em 1968). Pela noite dentro, chegavam carrinhas com homens, mulheres e, quantas vezes, crianças que os acompanhavam (tive na minha cela de prisão uma companheira que esteve sempre, meses, com um filho de 2 anos). Os directores, os inspectores, agentes e informadores agitavam-se num vaivém sem fim, de subidas e descidas, de entradas e saídas de carros, de mudanças de turno e de interrogatórios.

A sua sanha criminosa foi levada até ao fim e, por isso, ali caíram fuzilados quatro jovens, nossos irmãos na esperança da Democracia. A placa removida pela empresa de gestão imobiliária GEF é um modestíssimo testemunho da nossa memória.

Foram muitos milhares os portugueses que ali permaneceram noites e noites, submetidos à tortura do sono – às vezes, impedidos de se sentarem – e alguns deles ainda se emocionam quando passam naquele local. Estou entre esses. Não evoco o meu passado de resistente anti-fascista para reclamar a reposição imediata desse pequeno rectângulo em lugar condigno, ou para reclamar a edificação de um memorial. Mas lembro-me daqueles que já partiram e penso que a sua memória o exige. E exige respeito. Respeito que passa, também, pelo recato, pela discrição: a empresa imobiliária do “Paço do Duque” devia ter tido o bom senso do recato na publicidade que faz dos apartamentos de luxo. Não teve. Devia, ao menos, respeitar o compromisso assumido com o NAM e colocar a placa em sítio visível. Esperemos.

Não se queira trazer para o imaginário lisboeta uma história de sonhos, apagando uma história nacional de pesadelos. O meu pesadelo acabou no dia 25 de Abril, o destes senhores pode não ter ainda começado. Tenho setenta anos e muito respeito pelo Estado democrático, mas “com a história como horizonte” (tal como refere o site de publicidade do condomínio) olho aquelas reluzentes paredes exteriores e vejo o encarnado dos pingos de sangue que manchavam as paredes das salas de interrogatório.

Tundra

Artigo publicado na revista LER de Novembro

«Uma simples folha de papel de escrever / Parecia um milagre /
Caindo do céu sobre a floresta negra» (V. Shalamov)

Georgi Vladimov (1931-2003) escreveu The Faithful Ruslan (New York, 1979), O Fiel Ruslam, na época do Degelo, quando Kruschev suavizou um pouco o peso da censura. Mas duas décadas depois o pequeno romance-alegoria ainda só circulava no circuito samizdat. O narrador é um cão que cumprira com sinistra devoção o seu trabalho de guarda num campo de trabalho. Fechado o campo, os donos humanos partiram para uma nova vida, mas Ruslan encontrou uma última missão: numa atitude de fidelidade para com o mundo que servira, passou a seguir por todo o lado um antigo prisioneiro. No final juntar-se-á a uma matilha para despedaçá-lo, tal como a um grupo de operários da fábrica que sucedra aos antigos pavilhões carcerários, num festim de morte e zelo iniciado quando lhe pareceu que estes violavam as regras rígidas que fora treinado para fazer cumprir. Boa parte da memória escrita dos sobreviventes dos campos de concentração recupera sempre esta dimensão de irreversibilidade do passado: aqueles que os habitaram na condição de prisioneiros, e viveram para contar a experiência, jamais abandonaram de todo as rotinas e os condicionamentos impostos por anos de uma vida sem lugar para a transgressão ou para a esperança.

Quando entramos nos relatos daqueles que conseguiram sobreviver aos Lagern nazis e ao Gulag percebe-se, porém, que a caracterização do encarceramento concentracionário, «a experiência do século» como lhe chamou Heinrich Böll, diverge entre eles num aspecto crucial. Nos grandes campos alemães, o detido era-o num tempo que antecedia a previsível inevitabilidade do fim. E sabia-o, uma vez que pertencia, em regra, a um grupo destinado a ser erradicado de forma mecânica e implacável. Uma inflexibilidade revelada até na impiedade nazi diante das crianças, rara nos campos soviéticos. A norma nos redutos do Holocausto era a da luta mais extrema do prisioneiro, permanentemente imerso no medo, no horror, na disciplina, no tormento mais intolerável e na antevisão da morte, por um estreitíssimo limiar de sobrevivência. Apenas mais uma noite, só mais uma hora, um minuto, um breve instante. É o que evocam os relatos memorialistas de Élie Wiesel ou de Primo Levi quando enfatizam dramaticamente a ausência de limites na mais brutal luta pela vida. Em Se isto é um homem (Lisboa, 1988), Levi recorda como logo pelo segundo dia em Auschwitz os homens do seu grupo se olhavam já como fantasmas: «não há espelhos para nos vermos mas o nosso aspecto está diante de nós, reflectido em cem rostos lívidos, em cem fantoches miseráveis e sórdidos.» Um pequeno mundo, o único mundo possível, onde em pouco tempo o combate pela sobrevivência transformará cada um no chacal do seu próximo.

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Depois do meu primeiro natal e mudança de ano, sem emboscadas, minas ou trocas de tiros, inconformado mas “adaptado”, lidando com o paludismo que me apanhara e a solidão que não me largava, vivendo intensamente, através da distância, o poema levado e trazido pelos aerogramas sobre a saga comovente de a minha primeira filha, a Catarina, estar a crescer na barriga de sua mãe, o insólito aconteceu. Alferes miliciano da tropa colonial, internado no noroeste da Guiné, em Pelundo no chão manjaco, então zona de impasse no conflito, fui condenado a uma pena de prisão. Numa cena corriqueira de entradas e saídas do quartel no mato, o comandante do batalhão, um tenente-coronel, ordena-me (eu estava de “oficial de dia”) que aplicasse um castigo corporal a um cabo do meu pelotão que regressava “desenfiado” (após a hora de recolher estipulada) ao quartel e que ele tinha visto a tentar regressar sorrateiro. Numa noite no mato da Guiné, enfiados naquela guerra estúpida, aquela ordem soou-me a muito mais absurda que a falha regulamentar do cabo. E senti-a como um insulto às nossas condições e circunstâncias. Pior, mais estúpida que a própria guerra. Reagi, recusando-me a cumprir a ordem e desafiei o tenente-coronel a tentar ser ele a cumprir a “pena” de agressão, mas avisando-o que, se o tentasse, contaria com a minha reacção. O assunto morreu (adormeceu) ali, o tenente-coronel enfiou-se nos seus aposentos, o cabo safou-se de qualquer sanção, eu terminei o meu “serviço” a olhar as estrelas das noites da Guiné. No dia seguinte de manhã, foi-me comunicada uma sanção disciplinar pelo meu comportamento “indigno de um oficial” por “desrespeitar as ordens dadas pelo seu comandante”: dois dias de prisão. O quartel não estava dotado de prisão pois os prisioneiros feitos na região eram entregues à PIDE que tinha calabouços e um centro de interrogatórios em Teixeira Pinto, ali perto e onde estava instalado o comando militar operacional da região. O diligente tenente-coronel mandou evacuar uma casamata que servia de abrigo e foi ali que cumpri a minha pena de prisão, estendida a três dias porque foi agravada por despacho do general Spínola, então governador e comandante-chefe da Guiné. Foi uma pena de prisão caricata, tendo havido um “levantamento” de solidariedade no quartel que eu próprio tive que desarticular, apelando ao bom senso dos “revoltosos” comandados pelo médico do batalhão que, com uma “força” e armados de G3, irromperam na minha casamata-prisão para “me libertarem”. Depois de parlamentarmos, assentámos numa plataforma de entendimento, substituindo a “libertação” pela organização de convívios em carrossel no espaço improvisado da prisão, cantando Zeca Afonso, jogando cartas e esgotando o stock do majestoso vinho de missa fornecido pelo capelão, também solidário na “revolta”. Ao fim e ao cabo, em vez de prisão prisioneira, o que aconteceu foi mais uma manifestação simbólica, num quartel metido dentro da guerra colonial, de repúdio perante o hiper militarismo de alguns profissionais da guerra, fascistas fardados, que juntavam ao ódio colonial que motivava a guerra, um conceito medievo e salazarista de ordem militar bruta que considerava normal que os castigos dos oficiais aplicados aos subordinados incluíssem o direito ao espancamento, mesmo para pecadilhos de pouca ou nenhuma monta. Portanto, pela minha parte, não foi por aqui que o gato foi às filhós. Pior eram as consequências do castigo que me foi averbado, enquanto oficial punido com prisão: mais três meses de guerra (passei de uma comissão de vinte e um meses para vinte e quatro); perda do direito a voltar a gozar férias (o que retardava ver a minha filha, a nascer em breve, só me sendo permitido fazê-lo quando ela tivesse a idade de nove meses -(*); expulsão da minha unidade, com transferência imediata para um outro batalhão (como “oficial castigado”, naturalmente que me esperava ser colocado num quartel sujeito a “guerra quente”).  

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A Declaração Universal dos Direitos do Homem foi assinada em 10 de Dezembro de 1948 – há 61 anos, portanto.

Entre múltiplas violações dramáticas dos referidos direitos em diversas partes do mundo, a Amnistia Internacional chama este ano de novo a atenção para a Birmânia, nomeadamente para a situação em que se encontra a líder da oposição Aung San Suu Kyi.

Trata-se de um país com uma história complexa, como o é a de todo o Sudoeste Asiático, recheada de conflitos com vizinhos e guerras com colonizadores. Os portugueses também por lá andaram, bem como os franceses, mas foi a colonização britânica que mais marcou – depois de duas guerras birmano-inglesas no século XIX e de vários episódios durante a II Guerra Mundial (onde teve já um papel determinante Aung San, pai de d’Aung San Suu Kyi), o país acabou por proclamar a independência em 1943. Em 1962, viu-se governado por uma primeira ditadura militar, com uma versão de socialismo que o levou rapidamente à pobreza.

1988 foi um ano decisivo, com grandes manifestações contra o regime, que resultaram numa promessa de eleições livres. Aung San Suu Kyi regressou ao país, fundou a «Liga nacional para a democracia» e obteve uma vitória estrondosa nas ditas eleições que acabaram por se realizar em 1990. Mas os militares recusaram a transferência do poder e mantiveram-na em residência fixa até 1995. Libertaram-na então mas durante pouco tempo já que, nos últimos vinte anos, «a senhora», como é carinhosamente tratada pelos seus conterrâneos, Prémio Nobel da Paz em 1991, esteve detida ou com restrições de movimentação durante catorze.

Presa pela última vez em Maio de 2007, está neste momento a cumprir um acréscimo de pena de residência fixa durante dezoito meses, havendo no entanto uma muito leve esperança de que seja liberta a tempo de participar na campanha para as eleições que terão lugar em 2010, mesmo que sem esperanças de vitória. (E mesmo que esta viesse a acontecer, Aung nunca poderia assumir a chefia do governo, já que uma alteração à Constituição estabelece agora que o cargo seja ocupado obrigatoriamente por um militar.)

Soube-se no passado dia 4 que o Supremo Tribunal da Birmânia decidiu ouvi-la no dia 21 deste mês (depois de, em Outubro, ter rejeitado fazê-lo), segundo se crê como consequência da pressão internacional. E teve ontem, 9 de Dezembro, o terceiro encontro, desde o início de Outubro, com membros da Junta Militar.

Acabam de ser lançadas várias petições online, como por exemplo esta e uma outra no Facebook, da Amnistia Internacional, que apela para a sua libertação bem como dos outros mais de 2.100 outros presos políticos em Myanmar. Não custa nada assinar e é o mínimo – e infelizmente também talvez o máximo – que podemos fazer.

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Segredo e coragem, a alma da conspiração

A vida dos que, de algum modo, não abdicaram nunca de lutar contra a opressão imposta pelo regime ditatorial foi sempre de perigos diversos, uns maiores, outros nem tanto, mas todos susceptíveis de levarem à prisão ou, em casos extremos, à clandestinidade e à fuga, ao exílio. Quantas vezes com sacrifício dos que nos eram mais próximos e queridos. Vão já uns trinta e tal anos, talvez quarenta, um companheiro meu viu-se envolvido num episódio que demonstra bem este tipo de situação.

Andando a sentir que era seguido, decidiu abrigar-se em casa de uns amigos na Beira Alta e aguardar por melhores dias. Como vivia com os pais avisou-os do que se passava. Volvidas umas semanas regressou a Lisboa.

Mas em má hora o fez já que, alguns dias depois, foramm presos dois companheiros que peretenciam à sua célula. Sabendo que a sua prisão poderia estar eminente, decidiu preparar a fuga para Paris. Dado o carácter perigoso da situação decidiu nada contar aos pais, até para os salvaguardar na hipótese de interrogados pela polícia. Começou por pedir a uns amigos em Lisboa, pessoas insuspeitas perante a PIDE, que o abrigassem por uns dias até que lhe fosse garantida a passagem da fronteira. Naturalmente que isto implicava, em princípio, ou a passagem a ”salto” por montes e vales, ou a passagem pela fronteira com um passaporte falso. Às vezes ambas.

Estranhando a ausência do filho, os pais foram indagar aos hospitais e junto de colegas mais próximos, mas não se atreveram a ir a nenhuma das polícias. Até que decidiram ir pedir conselho a uns amigos, ele um quadro superior num ministério e ela professora liceal. Relataram as suas preocupações, a mãe sempre muito chorosa temendo o pior, e os amigos lá os acalmaram como puderam tendo-lhes prometido que através dos seus conhecimentos iam tentar saber alguma coisa. Os dias passaram e os pais continuaram sem nada saber do filho, até porque o amigo também não tinha conseguido obter qualquer informação.

Até que, volvidos uns dez dias, os senhores recebem uma carta com remetente de Paris. Exultaram de alegria, eram notícias do seu filho. Nessa mesma noite foram a casa dos amigos levar a boa nova e compartilhar com eles a sua alegria. E qual não foi o seu espanto quando ficaram a saber que o seu filho, no próprio dia em que lá estiveram a pedir auxílio, estava escondido no andar de cima, onde morava o filho deles com a mulher, dali saindo directamente para o exílio. Graças à coragem dos amigos em manter segredo, não cedendo à comoção da amizade, o seu filho estava agora fora de perigo.

raimundo vilar

Mais do que sofrer eventual prisão, quem se dispunha a lutar contra a ditadura fascista derrotada em 1974 enfrentava o drama maior da tortura e a angústia de saber como lidaria com ela para não fornecer informações à PIDE, que pudessem prejudicar a luta ou levar à prisão de companheiros. Dado adquirido era que a polícia política levava a vítima a situações extremas com torturas físicas e morais e por vezes à convicção de que não escaparia com vida.

A forma como procedia à prisão era muito estudada pela PIDE e estava quase estandardizada. Mas as circunstâncias encarregavam-se de fazer das suas. Eis como procedeu a PIDE/DGS para prender dois membros da Acção Revolucionária Armada, ARA.

Em Fevereiro de 1973 a PIDE concluiu que tinha informações bastantes para prender Manuel Policarpo Guerreiro, 29 anos, casado, pintor da construção civil, a trabalhar em Cascais e a viver em Rebelva, Carcavelos; Carlos Coutinho, 29 anos, casado, jornalista no diário O Século, a viver na Rua Palmira, em Lisboa; António João Eusébio, 30 anos, solteiro, estucador, a viver em Sassoeiros, Carcavelos e Manuel dos Santos Guerreiro, 30 anos, casado, motorista a viver em Abrunheira, Rio de Mouro.
Seguro da capacidade da PIDE para prender num ápice todos estes operacionais da ARA o inspector Adelino da Silva Tinoco assinou a respectiva ordem de prisão no dia 21 de Fevereiro de 1973.
Às dezoito horas e trinta minutos, desse dia, em Cascais à saída do emprego a PIDE prendeu Policarpo Guerreiro e às 21h prendeu em casa Jesuína, sua mulher, que não sabia da prisão do marido e um primo que casualmente ali se encontrava. No dia seguinte prendeu às nove horas da manhã Carlos Coutinho e Antonieta ao saírem de casa para irem ao médico com a sua filha bebé.

Quando os agentes da polícia vão a casa de Manuel dos Santos Guerreiro têm uma surpresa. A casa não tem ninguém. Cercam a casa e esperam. Um, dois, três dias. Demoram a descobrir que a sua presa está na terra, em Grândola, com os pais. No dia 25 às 18 horas, vinha Manuel Guerreio (o apelido é pertinente como verão) com o irmão dum desafio de futebol quando foi interpelado por um sujeito que o agride brutalmente na cara com um murro e lhe aponta uma pistola com ameaças de morte. O irmão não se intimidou e atirou-se ao agressor. Os outros agentes, (sim o sujeito era um agente da PIDE/DGS mas não esteve para apresentações) até ali escondidos, começam a disparar tiros de intimidação. Acorrem os pais a socorrer os filhos e enfrentam os pides armados. Manuel foge para o campo onde está o avô. Os agentes da PIDE perseguem-no de pistola em punho. Manuel enfrenta-os com o pau com que o avô toca o gado. Os pides querem-no vivo e disparam para o lado. É de novo socorrido pelos pais e irmão agora armado de machado. Manuel consegue fugir pelos campos. O irmão, António Guerreiro, tenta fugir numa carrinha que é parada a tiro, é espancado e preso. Os pais, feridos são levados para o hospital.

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Um texto de Helena Cabeçadas (*)

 
Em Fevereiro de 1967 fui convidada pela União Internacional de Estudantes, sedeada em Praga, a participar num encontro sobre imprensa estudantil na República Democrática Alemã (RDA). Eu tinha 19 anos, era estudante de Ciências Sociais na Universidade Livre de Bruxelas, e ocupava-me, entre outras actividades, do jornal do Secretariado dos Estudantes Portugueses no Estrangeiro (SEEPE) – daí, a razão deste convite.

Aceitei a proposta com entusiasmo. Sentia um enorme desejo de conhecer o outro lado da “cortina de ferro”, como então era designada a fronteira que separava a Europa Ocidental da Europa de Leste, dos países do “socialismo real”, que eu idealizava como as sociedades igualitárias pelas quais valia a pena lutar, arriscar a prisão, a tortura ou o exílio. A minha militância no Partido Comunista Português, em Bruxelas, era discreta, pois procurava preservar a possibilidade de regresso legal a Portugal, de cujas escolas fora expulsa no final do Liceu, em 1965. Iria pois com papéis e identidade falsa, para que não ficassem vestígios dessa viagem proibida no meu passaporte português.

Estava um Fevereiro glacial. Escolhi levar roupa quente, prática e feiosa – calças, botas, gorro, um velho casaco de pele de gazela mal curtido, que deixava pelo por todo o lado e com o qual enfrentava os Invernos tristes da Bélgica – não fosse vir a ser acusada de “tendências pequeno burguesas”…

Parti do Aeroporto de Bruxelas num pequeno avião quase vazio, só dois ou três indivíduos com ar soturno, em direcção a Praga. Aí, fui conduzida ao Hotel e a primeira surpresa foi o encontro com os “estudantes” da U.I.E. (União Internacional de Estudantes), que eu imaginava jovens e que eram já de meia-idade, com ar de funcionários, vestidos de modo formal: gravata, fato completo, sobretudo… levaram-me a um bar, beber whisky (não, não era vodka!), com uma música horrível e ambiente pesado, desagradável. A minha primeira estadia em Praga foi rápida e chata, com os estudantes quarentões da UIE. Apercebi-me, de relance, da espantosa beleza da cidade mas, com tais companhias, não era entusiasmante descobri-la.

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universidade coimbra

Em 1977, durante um processo de luta estudantil contra a reintegração na Universidade de Coimbra de destacada figura do regime fascista, a Associação Académica (AAC) organizou um “Tribunal de Opinião Estudantil”, iniciativa que mereceu franco apoio dos estudantes e um acolhimento favorável, mesmo nos meios não universitários. Respondendo a um apelo para a denúncia do que tinha sido o obscurantismo e a repressão nas escolas do Estado Novo, surgiram inúmeras personalidades ligadas ao ensino. Com a presença de professores e de dirigentes associativos de diferentes épocas, as sessões do Tribunal de Opinião Estudantil decorreram de forma extremamente viva, graças aos depoimentos dessas pessoas, e constituíram momentos importantes para o esclarecimento e a consciencialização da opinião pública acerca das lutas estudantis no passado e da repressão.
Apresentam-se aqui extractos da intervenção de um dos participantes: Joaquim Namorado*. Foi um lutador anti-fascista intransigente e um prestigiado intelectual. As sucessivas gerações de jovens que em Coimbra contactaram com ele, e a quem legou uma sólida consciência democrática, referem-no sempre com admiração e agradecimento. Note-se que se trata de um depoimento oral, espontâneo, sem os cuidados linguísticos de uma intervenção escrita, e que ocorre nos anos ainda quentes da Revolução.

 
«(…) Era eu estudante universitário de recente data quando, em 1931, se deu a revolta da Madeira. Os estudantes de Coimbra empunharam a sua bandeira e manifestaram-se na rua a favor dos revoltosos. Nesse ano, a faculdade era dominada pelo grupo de integralistas chefiado por Pedras Vital, o que não impediu uma manifestação estudantil na sala dos Capelos contra a ditadura militar. A repressão abateu-se sobre os estudantes junto à Porta Férrea, onde foram barbaramente espancados.
Contra os integralistas, reuniram-se os estudantes em torno do grupo seareiro de Coimbra, dirigido por Mário de Castro. Era nas salas de conferências e nos teatros que os seareiros ripostavam às agressões ideológicas e denunciavam a repressão dos tenentes da polícia. É conhecida a história acerca de uma intervenção de António Sérgio feita em Coimbra com outros membros da Seara, a propósito de um programa que propunham, com uma construção ideológica diferente, um programa que constituísse a base democrática e ideológica para uma solução republicana e definisse uma linha económica da abundância. Os integralistas sabotaram a sessão. Os estudantes responderam com outra sessão, onde o combate se alargou para além das balizas culturais.

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Um texto de António Marquês (*)

Faz hoje precisamente 45 anos. 19 de Novembro de 1964. Nos dias antes, o meu pai tinha-me avisado várias vezes: “Toino, olha que isto do trabalhar não custa nada, temos que respeitar os mais velhos, eles sabem mais do que tu”; “não te deixes levar por aqueles que te vão dizer que os que ganham mais é que devem trabalhar, tu só vais como aprendiz, vais para aprender”. Tinha eu os meus 14 anos, feitos em Março, no mês dos burros. Ia começar a trabalhar, ia entrar nesse novo mundo. Os estaleiros da Parry & Son, em Cacilhas, eram o local laboral escolhido para a minha iniciação no mundo do trabalho.

Já sabia que tinha que apanhar a camioneta da Beira-Rio que passava no centro da Cruz de Pau às 7 e vinte. Nesse tempo, o percurso até Cacilhas, livre das centenas de automóveis e do comboio que hoje o mortificam, ainda se fazia em 15 minutos, vá lá 20 minutos, no máximo. Até Corroios aquilo era limpinho: 2 minutos. A partir do Laranjeiro já começava a parar mais, de vez em quando uma entrada de 4 ou 5 passageiros, um ou outro que acabava a viagem e, porque estava mais perto da porta da frente, era por aqui que saía e logo atrapalhava um pouco. Na Cova da Piedade é que se perdia mais uns momentos, que eram recuperados com uma aceleração até Cacilhas, ainda sem a Lisnave, que nesse tempo o motorista era só isso: condutor. Sem ser preciso sorte, aos vinte para as oito eu entrava na Parry e tinha 17/18 minutos para trocar de roupa. A chapa tinha que estar no chapeiro da oficina até às 8 h, quando o Sr. Cleto, o encarregado, a fechava. Quem viesse depois…

Mas o São Pedro não esteve comigo nesse dia e o meu planeamento saiu todo furado. Novembro já a mais de meio, nesse dia estava, às 7 horas da manhã, quando saí de casa, um nevoeiro dos diabos. Chegado à paragem dos autocarros, havia um monte (nesse tempo ainda não se formavam filas) de gente que dava para dois autocarros, pois estes andavam atrasados. E agora, que fazer? Os meus pais já tinham saído para a fábrica ainda mais cedo do que eu. Já não podia dispor das suas palavras. Restou-me aguardar e pensar como é que iria ser recebido, a chegar atrasado logo no primeiro dia.

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homem com mala

Nota: O episódio que se segue, embora possa parecer inacreditável, foi-me contado por duas fontes diferentes, ambas credíveis, e em tempos diferentes.

 
A cortesã amiga

Em tempos de resistência não se limpam armas e há que deitar mão a todas as possibilidades para se escapar à prisão ou, pelo menos, para esconder à polícia o maior número de provas possível.

Todos os que andaram nestas andanças conhecem muitos dos truques que se engendra-vam para esconder documentos comprometedores: do autoclismo ao colchão, do interior de um livro colocado por trás de outros numa prateleira da estante à arca no sótão, às vezes na casa de um amigo insuspeito ou de um parente na província. Se a imaginação dos resistentes tinha que ser muita, a da polícia não lhe ficava atrás e, de um modo geral, acabava por ir direitinha aos esconderijos. Mas, nem sempre.

Estamos em meados dos anos sessenta, talvez 1964, quando este episódio, a roçar o inacreditável, se passa. Um companheiro que morava ali para as avenidas novas, começou a desconfiar que a sua casa estava a ser vigiada. Como, semanas antes, havia sido preso um outro com quem ele mantinha ligações conspirativas, receou que ele tivesse falado na polícia. A situação adensa-se qundo recebe a informação de que o melhor era limpar a casa e preparar-se para o pior, ou seja, a prisão. Dirige-se para casa e verifica que a vigilância tinha sido reforçada. A prisão está eminente. Sobe no elevador, entra em casa e mete a papelada conspirativa e alguns livros numa pequena mala de viagem, tendo tido o bom senso de não queimar nada na sanita: os restos queimados ficam sempre à tona. Mas sabe que não pode sair com a mala.

No andar de baixo morava uma senhora de idade balsaquiana, com muito boa presença e simpática, com quem ele já se cruzara por várias vezes. Como se dizia então, a senhora «recebia», embora sempre com a maior discrição. Era uma cortesã. O nosso amigo, com a polícia à perna e não vendo outra alternativa, corre o risco de bater à porta da senhora, contar-lhe o que se passava e pedir-lhe para guardar a mala. A senhora manda-o entrar, fecha a porta e, espante-se, diz que ali é que ela ficaria bem guardada, que a  punha debaixo da cama. Ainda mal refeito da surpresa da sorte, regressa a casa. Passados alguns minutos a PIDE esta lá, passa revista e leva-o preso. A prisão não durou mais do que uma semana. A PIDE não tinha grandes provas até porque o companheiro anteriormente preso não falara nele. Foi o que se chamava «andar à pesca».

Regressado a casa, aguardou uns dias até ganhar coragem para ir bater à porta da senhora. Quando o viu, a nossa boa dama diz-lhe «Entre, entre, a sua malinha continua aqui, debaixo da cama». Quando ele se debruça para puxar a mala, remata ela «Aqui é que ela estava mesmo bem guardada», e em voz mais baixa quase sussurante, «porque um dos que vem cá a casa é da PIDE!»

O episódio termina aqui, o resto da história não, mas também não é para aqui chamado.

guerra

 
Um texto de José Pedro Barreto (*)

 
Porque é que naquele momento eu desisti de fazer uma coisa e fiz outra? O que comanda as nossas vidas? O que é que nos faz tomar uma decisão súbita num determinado segundo? O destino? O simples acaso?

O que me fez, naquele dia tórrido de 1973, decidir repentinamente não subir para a pesada Berliet atascada nas margens do rio Nango? A verdade é que cheguei a colocar a espingarda sobre a caixa e a pôr um pé na roda para subir. Lá em cima, o Gil, impante como de costume ao sol do meio-dia, mãos nas ancas, chamava-me: “Anda para aqui, daqui é que se vê bem.”

Não sei o que ele queria ver, a não ser a largueza da mata em redor, as clareiras de capim ressequido. Mas ele era assim: o cabelo loiro quase rapado, os olhos azuis que cintilavam, a boca fina num ricto de desafio e basófia. Ele adorava aquilo, adorava a jactância, o combate, a dureza e a glória da guerra. Era homem de poucas palavras e riso escarninho, que imprimia aos seus soldados um ritmo infernal e uma mística arrogante que apelava à mais masculina das auto-estimas, quase ascético de hábitos, despojado nas exigências diárias, admirador dos grandes feitos. Judeu beirão, idolatrava o general Moshe Dayan e a sua condução fulgurante da guerra dos Seis Dias: costumava encher o peito de ar, arrotar a cerveja e gargalhar tapando um olho com a mão espalmada: “O zarolho! O zarolho é que os topava a todos!”

Porque não ir também para cima da camioneta, juntar-me ao espectáculo? A tensão, o cansaço e o tédio das longas jornadas militares pedem por vezes gestos simbólicos que dêem algum sentido e alento ao que fazemos, nem que sejam de pura encenação. Não há nada de heróico em desatascar uma camioneta presa na lama, mas um pouco de basófia não faz mal a ninguém. Oferecer o peito às balas de algum atirador que andasse por ali era coisa que o Gil adorava fazer.

Mas de repente, resolvi não subir. Estava calor, e a água aquece nos cantis. Decidi que era mais interessante ir mergulhar o meu na corrente do Nango, de água leitosa mas fresca – uma espécie de frappé de campanha. E foi assim que retirei a G3 da caixa da Berliet e me fui agachar na orla do rio, dez metros ao lado.

Tínhamos saído de manhã de Nambude, dois pelotões sob o comando do Gil, como de costume ao raiar da aurora. A coluna mensal de reabastecimento vinha de Mocímboa da Praia, ofegando penosamente pela picada, a passo de homem, seguindo a vanguarda apeada de “picadores” em busca de minas. Como de costume, limparíamos a picada de eventuais engenhos, encontrá-la-íamos a meio do caminho e regressaríamos com ela a Nambude, já montados nos carros. Era a forma de se abreviar uma jornada de apenas 40 quilómetros mas que, naquele caminho aberto na mata, por vezes nada mais que rodados lamacentos, chegava a durar um dia inteiro.

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Soldado ferido

Nas «eleições» de 1969, a guerra colonial, então particularmente acesa em Moçambique e na Guiné, foi o principal separador das posições das duas agregações oposicionistas – a CDE reproduzia o posicionamento do PCP e apostava forte na denúncia máxima e possível da guerra colonial com partido implícito pelos movimentos de libertação; a CEUD evitava referir o tema e quando este era incontornável procurava um posicionamento não radical sobre a guerra e punha em cima da mesa a quimera retórica de defesa de «autonomias». Nas «eleições» seguintes, as de 1973, já a oposição se apresentou unificada e o posicionamento acerca da guerra colonial, entretanto agravada, retomou o essencial das posições da CDE de 1969.

A guerra colonial era, para o regime, a grande questão política tabu. Caetano, por convicção e pela pressão dos ultras nacional-colonialistas entrincheirados atrás do Presidente Tomás, continuava o dogma-mito herdado de Salazar: «não discutir o Ultramar», continuar a guerra. Então, colocar sequer a questão da guerra colonial, discutindo saídas para ela, mesmo que tímidas, configurava uma traição à pátria. Tal não era sequer permitido durante as «campanhas eleitorais» (se tal fosse feito, e normalmente era-o no último discurso, o representante das «autoridades» intervinha e fazia terminar a sessão, a que se seguia, por regra, uma carga policial). Mas Caetano não só prosseguiu a guerra colonial, como o fez recorrendo a «operações sujas» e outras em larga escala perante o progressivo agravamento das situações militares em Moçambique e na Guiné, gerando uma dinâmica de «tudo ou nada». E, nesta via, aprofundou-se a «fusão», na máquina de guerra colonial, entre a polícia política (PIDE) e o exército colonial. Logo no início de 1969, pouco tempo depois de Caetano suceder a Salazar, o então líder da Frelimo (Moçambique), Mondlane, foi assassinado na Tanzânia através de uma encomenda-bomba, o que desencadeou não só uma crise na Frelimo como uma atribulada luta pela sucessão na liderança. E, no ano seguinte, Kaulza de Arriaga (comandante-chefe) montou uma das operações militares mais gigantescas e recheadas em meios humanos e militares ocorridas na guerra colonial, a operação «nó górdio».  Em resultado final, a Frelimo expandiu a sua área de intervenção guerrilheira em Moçambique. Na Guiné, Caetano deu luz verde a Spínola e à PIDE para uma das mais vastas e custosas operações de tentativa de aliciar e corromper uma das frentes do PAIGC, ocorridas no norte no «chão manjaco», e que terminou em Abril de 1970 quando os guerrilheiros atraíram a uma cilada um grupo de elite dos oficiais do exército português, massacrando-o. Spínola e a PIDE, com o acordo prévio de Caetano, reagiram no final de 1970 através de uma operação com grandes meios («mar verde») de invasão da Guiné-Conacry e que tinha, entre os objectivos, assassinar o Presidente deste país (Sekou Touré) e colocar um «partido amigo» no poder, assassinar Amílcar Cabral e o núcleo dirigente do PAIGC (sediado em Conacry), destruir a força aérea e a frota naval guineense, libertar os prisioneiros militares portugueses. Só o último objectivo foi alcançado (mas a troco de um número ainda maior de «comandos africanos» deixados no terreno e posteriormente fuzilados). Em 1973, como culminar de uma operação de infiltração da PIDE, foi conseguido o velho objectivo de assassinar Amílcar Cabral. A este desaire, a perda do seu líder carismático, o PAIGC respondeu, através de novo e sofisticado armamento, com a prática neutralização do domínio do espaço aéreo pelo exército colonial e declarar a independência unilateral da Guiné-Bissau, rapidamente reconhecida por dezenas de países membros da ONU.

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Berlin Wall

Faz agora 20 anos a notícia abalava o mundo e deixava todos estupefactos. Não é que não se percebesse já, e desde pelo menos há dois ou três anos que o “campo socialista”, o “socialismo real”, o regime que abarcava um terço da humanidade e mudara grande parte do mundo nos últimos 70 anos tinha os dias contados. Pelo menos tal como tinha sido até ali. Em que se transformaria, e como se transformaria, isso era ainda uma incógnita. Mas nesse dia 9 de Novembro de 1989 o Muro de Berlim caía. Dois milhões de cidadãos do outro lado do mundo viriam nos três dias seguintes ver os brilhos do capitalismo, as infindáveis variedades de produtos dos supermercados, as faiscantes montras Vuitton, os reluzentes Mercedes.

A queda do muro de Berlim, todos tinham percebido, era um sinal. O símbolo e a antecipação de que tudo aquilo que estava lá para oriente poderia vir, mais depressa do que se pensara, por aí abaixo. E talvez sem armas nucleares, sem tanques nem canhões. Pelo menos em grande número e sem demasiado sangue.

Como reagiu o principal adepto e suporte ideológico do regime comunista da RDA, na sua forma mais pura e dura, o PCP e Álvaro Cunhal?

O Secretário-Geral do Partido Comunista Português tinha passado o dia encafuado numa sala que então abrigava o Cinema Universal, na Rua da Beneficência, a duzentos metros da sua casa, a sede do CC, na Soeiro Pereira Gomes. Decorria lá uma reunião magna da Juventude Comunista Portuguesa, a JCP, uma assembleia, um congresso, qualquer coisa com uma dimensão menor e a minguar, que não podia fazer história nem sequer para a pequena história do “Partido”. À saída Cunhal tinha um batalhão de jornalistas que lhe apontaram à cara uma parafernália de microfones, objectivas, gravadores e máquinas de filmar. Não adivinho que terá pensado Álvaro Cunhal. Que os media estavam a dar tanta importância à reunião quanto ele? A dúvida, se houve, foi um momento porque o que lhe atiraram com perguntas foi o muro. O muro de Berlim. Aí Cunhal não gostou e não teve tempo de medir , em segundos, o alcance de tal queda . Prenúncio do desmoronamento do comunismo, coisa que não admitia, nem admitiu depois, mesmo contra a realidade dos factos. Aliás, desde há algum tempo que deixara de dar importância aos factos e à realidade que teimosamente contrariavam o que estava escrito. Tanto pior para eles e para ela. De modo que insurgiu-se contra os jornalistas e contra o disparate de perguntas daquelas, sensacionalistas e provocatórias, quando ele “acabava de sair de uma magnífica reunião da JCP onde foram tomadas importantíssimas decisões.”

O «grupo secreto»… era uma acusação sibilina que reboava pelos corredores da sede do CC do PCP, e designava uns quantos “camaradas”, inimigos internos, talvez ligados à CIA ou, ainda pior, ao PS e que, topem a tineta, dera-lhes para no comité central e noutras reuniões menores contrariar a justa orientação do partido.

As vítimas (muito pouco vítimas) da vã e tola atitude de querer impor na actividade mesma do “Partido” discussão livre por células, pela imprensa, por congressos e outras leviandades, as vítimas – dizia eu – deram a acusação por boa e falavam entre si “olha lá pá vamos mas é reunir o grupo secreto e comemorar a queda do muro com um jantar na Varina da Madragoa”.
E agora mesmo lembrámo-nos… e se fossemos comemorar os 20 anos da queda do Muro à Varina? Dito e feito. Lá iremos. Mas não todos porque José Barros Moura e António Graça, já não podem estar presentes. A não ser na nossa saudade.

muro berlim

Estamos à beira dos vinte anos passados desde a queda do Muro. Esse Muro que foi o símbolo maior, um autêntico ícone, da separação radical de dois mundos, dos pontos de vista político, ideológico e social, em permanente confronto até à vitória de um sobre o outro, um desfecho de antagonismos herdados de 1917 e há muito anunciado que alimentou medos de décadas de que se iria «resolver» pela via da hecatombe nuclear e que, surpreendendo todos, se deu de uma forma instantânea e pacífica, porque o comunismo simplesmente tinha apodrecido (como aqui, em Portugal, acontecera ao fascismo de Caetano). Nesse momento histórico, o Muro, caindo, transmutou-se, por via da dinâmica dos símbolos, de emblema maior opositivo entre capitalismo democrático e comunismo totalitário para o sinal maior da vitória de um e falência do outro.

Nunca vi, ao vivo, o Muro que a maior parte das pessoas conhece através da imagem, o Muro odiado, conspurcado, repleto de graffitis obscenos, humorísticos ou artísticos, decorado com repulsa que ia do talento irónico até ao ódio, aquele Muro em que o ocidente cuspia na antítese comunista. Mas conheci, no princípio da década de 80, um outro Muro no lugar do mesmo Muro, um Muro limpo, sepulcral, bélico e emblemático da luta de classes, o Muro visto de Berlim-Leste, então capital da RDA. E ainda hoje, quando se fala do Muro, é esse Muro que remexe a minha memória. Em viagem turística, com dois casais metidos num velho Fiat 127 atafulhado de apetrechos campistas, todos militantes empenhados do PCP, ali estávamos, eu e os meus companheiros de viagem, após quatro mil quilómetros de estrada e calcorrearmos a Checoslováquia e a RDA, a olhar para a face comunista do Muro, o lado do mundo que Lenine iluminava. O percurso tinha sido feito até à Porta de Brandenburgo, onde o Muro apresentava uma espécie de «barriga», por uma zona em que raros eram os berlinenses que ali passeavam ou simplesmente circulavam, o meio envolvente era dissuasor, fortemente policiado e militarizado, a vista alcançava a «terra de ninguém» e, ao fundo, o Muro com a sua frieza de betão, um betão lívido a fazer de horizonte após ouriços de arame farpado numa faixa de terreno que se sabia minada. Entre espaços repetidos, elevavam-se as guaritas com guardas armados de kalash e binóculos. Por muito que isso me apetecesse, e na altura apetecia-me muito e acima de tudo, eu não conseguia encontrar naquela imagem gélida, bélica, desumanizada, petrificada a betão, a classe operária que eu tudo fazia por servir e seguir, as lutas dos trabalhadores, os gritos anticapitalistas contra a opressão, a igualdade e a fraternidade que procurei no comunismo, a camaradagem representada na vida do partido, a festa da festa do avante, o Cunhal contado a admiradores, seguidores e crédulos, muito menos amanhãs mesmo que afónicos. Mais que para fora, o Muro pareceu-me apontado para dentro, também para mim, comunista e internacionalista, marxista-leninista pois claro. E a visão do Muro, enquanto claustrofobia totalitária, reencontrei-a quando o vi de novo á minha beira estando sentado numa esplanada durante uma visita à beleza de Potsdam, perto de Berlim, dando-me a dimensão tentacular daquele polvo de betão. Apesar do choque, o Muro não me trouxe, então, indignação ou protesto. Simplesmente, engoli-o, por disciplina e fidelidade, como outros que ainda hoje andam enfartados com gulags e lubiankas a inchar-lhes o estômago transformado em sede de pensamento político e absorvedor de neurónios para serem corroídos pelo suco gástrico.

Hoje, quando vejo pedaços expostos do Muro que engoli em Berlim-Leste há quase trinta anos atrás, graffitados como não o conheci, sinto-os como se tivessem saído de dentro de mim por via de vómitos, admirando-me com as dimensões daquilo que um ser humano, abdicando da inteligência e da lucidez, sobretudo do juízo sem amos, pagando o preço da tranquilidade de uma paz ideológica, é capaz de olhar sem ler na escrita do betão, o que petrifica ideais, sonhos e utopias.

 
(Texto publicado também no blogue Água Lisa)

velho no muro de Berlim

 
Um texto de José Pedro Barreto (*)

 
Era uma figura trágica e ao mesmo tempo grotesca. De boina e casacão coçados, cabelos brancos compridos, esbracejava de bengala na mão e vociferava sem cessar. A névoa gelada abafava-lhe os gritos dirigidos ao «outro lado». O velho soltava imprecações na direcção de Berlim-Leste, do alto de um palanque nas imediações da Friedrichstrasse. Por vezes calava-se e ficava de olhos fechados, braços abertos, como quem espera acolher alguém. Perdera o tino há anos, disseram-me, quando lhe mataram o filho que tentava fugir para o Ocidente, naquele mesmo local. E agora estava ali todos os dias, arengando a sua revolta enlouquecida.

Vi Berlim pela primeira vez nesse Inverno de 1977. Estava muito frio. O Muro tinha 16 anos, e era uma atracção turística. A plataforma no alto do qual se encontrava o velho louco era uma das várias que foram erguidas do lado de cá, e das quais se podia ver por cima do muro. Os autocarros de turistas paravam regularmente junto delas, despejando hordas tagarelas que subiam, excitadíssimas, para espreitar «o comunismo» ao vivo. Pouca coisa se via além de ruas desertas e casas cinzentas, para lá das fiadas de arame farpado e obstáculos da terra-de-ninguém. Mas isso só reforçava a ideia de que para lá do Muro era o Inferno, e os turistas voltavam a entrar nos autocarros consolados por terem nascido do lado certo. Alguns até choravam com a história do velho.

Em 1961, Kruschev dissera: «Vamos fazer um muro em Berlim, e o Ocidente vai ficar a olhar para ele como uma ovelha estúpida.» Tinha razão. Mas que poderia o Ocidente fazer, sem arriscar, julgava-se na altura, uma guerra medonha? A ovelha ficou a olhar e fez de Berlim uma espécie de montra do chamado «mundo livre», regada com o sangue de centenas de alemães apanhados pelo muro no lado errado à hora errada, cujos nomes estão gravados em cruzes que se perfilam acompanhadas de coroas de flores. Den Toten der Mauer. Aos mortos do Muro.

Um dos mortos fora o filho daquele velho tonto. Ele vira tudo, disseram-me, enquanto lhe gritava e estendia as mãos do lado de cá: o rapaz a correr desvairado, depois as rajadas, e o corpo que se abate como um boneco atirado ao chão. Como aconteceu a outros, ficou ali vários dias antes que o fossem buscar.

Não deve haver dor pior. Em Novembro de 1989, quando, a golpes de picareta, os alemães começaram a destruir o Muro, eu lembrei-me daquele velho cujo filho podia ter esperado 28 anos. Uma eternidade.

 
(Publicado originalmente no blogue Janelas.)

(*) Biografia de José Pedro Barreto

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É natural. Julgo que acontece o mesmo a todos. Perdemos a memória dos primeiros tempos da infância. Dessa fase, ficará um ou outro flash mas terá de ser algo muito marcante para resistir à erosão do tempo e à necessidade da nossa capacidade para memorizar expelir recordações e registos para receber outras, mais recentes. Qual a idade mais recuada em que nos recordamos de nós próprios? Exceptuando uma grande alegria ou um enorme desgosto de tempo mais infantil talvez seja a fase do início escolar e mesmo assim através de um ou outro breve episódio. O certo é que pouco me lembro dos meus primeiros anos de vida. Por isso, muitas vezes dei comigo a olhar as fotografias guardadas de quando era muito pequeno e perguntar-me: mas este sou (fui) eu? E nunca me conseguia rever na personagem retratada, ligando imagem e realidade vivida.

Entre as fotografias que guardaram de quando eu era criança, havia uma (não sei onde pára) que me despertava especial curiosidade. Teria os meus quatro anos. O ambiente do cenário era campestre, tinha uma flor na mão e usava um enorme chapéu de palha de adulto para me proteger do sol. O meu riso foi captado escancarado pelo fotógrafo e deve ter sido assim por cauda da novidade de ser retratado pois não me lembra outra qualquer fotografia minha em que estivesse tão risonho. Mirei e remirei essa fotografia vezes sem conta. Aquela foto era uma espécie de redenção da minha absoluta e persistente falta de fotogenia. Achei sempre que nela tinha ficado muito bem e que nunca tinha voltado a ser tão bonito. Melhor, ficou cá para mim a certeza de que, na altura da fotografia, foi a única vez em que a beleza foi generosa para com a minha figura tão vulgar quanto desinteressante. Mas havia mais, olhando-a, a minha atracção por aquela fotografia tinha ainda qualquer coisa de misterioso que me prendia a ela e que ia além do riso, da flor e do chapéu grande. Durante anos, volta e meia, vasculhava no álbum familiar à procura dela. Tornou-se uma obsessão. Havia algo que ou não batia certo ou então faltava ali.

Um dia, teria os meus catorze anos, percebi num instante o que me levava a perscrutar insistentemente o raio da foto. Desvendei o mistério num ápice. É que a fotografia estava excelente mas o fotógrafo tinha-me cortado os pés no enquadramento. Não entendi como é que estando eu tão bonito, o fotógrafo (o meu Tio Luís) tinha feito aquele enquadramento desajeitado e logo ele que se ufanava de ser mestre amador naquela arte. Resolvi exprimir a minha indignação e lavrei o meu protesto verbal. Mas o artista tinha as suas razões. O meu tio explicou-me que me enquadrara sem pés porque eu estava descalço por ainda não ter ganho estatuto social suficiente para calçar sapatos, sandálias ou chinelos que fosse e decidiu poupar-me a essa evidência da minha desqualificação social (só depois, arrancado aos meus pais e à minha aldeia de Trás-os-Montes, com a vinda para a cidade, onde se proibia circular-se descalço, entregue aos meus tios e pais substitutos, passei a ter direito a sapatos). Percebi a boa intenção mas achei mal que a vergonha (do fotógrafo, não a minha) tivesse impedido que a melhor de todas as minhas fotografias me mostrasse incompleto, sem direito aos meus pés.

 
(Texto revisto de um post publicado no blogue Água Lisa)

dissidente  

Com atraso, verifiquei só agora que em Julho passado fez dez anos que faleceu o António Graça, funcionário clandestino do PCP durante muitos anos, torturado e preso durante seis anos pela PIDE, dirigente daquele partido e depois impulsionador de uma das mais importantes dissidências no PCP no final da década de 80. 

Sobre António Graça, transcrevem-se duas evocações. A primeira é da autoria de Raimundo Narciso: 

«O António Graça era um dos quatro ou cinco membros do Comité Central que em 1987 e 1988 desenvolveu, naquele órgão do PCP, uma assinalável actividade crítica à linha política da direcção de Cunhal. Demitiu-se em 1991. Foi desde muito novo um destemido lutador contra a ditadura fascista e militante do PCP. Desenvolveu nos anos cinquenta e sessenta, como quadro clandestino do PCP, importante actividade política que o levou à prisão durante seis anos a partir de 1964. Submetido a torturas pela PIDE para denunciar companheiros, resistiu a tudo. Por isso, no PCP, pertencia à galeria dos heróis, até ao momento em que contestou as orientações e as práticas da direcção do partido. Foi um dos iniciadores do INES e da Plataforma de Esquerda. Não aderiu ao PS nem foi para a Política XXI. Defendia que os ex-comunistas deviam, com outros, criar um partido próprio. António Graça, foi membro do CC do PCP de 1979 a 1988, participou nos trabalhos da Comissão de Extinção da PIDE/DGS em 1974 e 75. Nos anos seguintes, foi responsável pelos serviços de informação do PCP. Era um quadro político com grande experiência, argúcia e uma prodigiosa memória. Faleceu com 60 anos, em 1 de Julho 1999. Era muito respeitado e estimado pelos seus companheiros políticos. Era meu amigo. Era teu amigo.» 

(depoimento incluído numa entrevista que Raimundo Narciso concedeu em Abril de 2004 ao blogue «Água Lisa».
 
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redacção1

Por ocasião do 40º aniversário das eleições legislativas de 1969, decidimos fazer esta pergunta a nós próprios – os nove redactores deste blogue. As respostas revelam bem a variedade dos nossos passados.

Artur Pinto – Nas «eleições» de 1969 estava a cumprir o serviço militar. Participei tão activamente quanto pude, uma vez que já tinha uma prisão atrás de mim, em 1965, e a informação da PIDE foi-me acompanhando. E, como já tinha tido sido castigado por duas vezes, não me podia permitir grandes aventuras. Mas participei dando o meu apoio logístico em serviço nocturno na sede, ali ao Campo Pequeno. E é curioso referir que enquanto eu e a minha Mãe militávamos na CDE, o meu Pai, fiel às suas amizades, em particular com Soares e Zenha, apoiou a CEUD. Mas mais curioso é o facto de se ter afastado de Soares após o 25 de Abril, para virar à esquerda. A minha actividade e aprendizagem política prática tinham começado nas «eleições» do Delgado, tinha eu 16 anos, continuado na Crise de 1962, até à prisão em 1965. Mas a experiência da CDE foi particularmente importante pelo convívio que tive com figuras destacadas da Oposição. E lembro com saudade Sottomayor Cardia, que eu já conhecia da Crise Académica, um homem de grande cultura, saber e, até, coragem, sobretudo atendendo à sua fraca compleição física. Uma noite em que houve algumas provocações pidescas à porta da CDE, ele não hesitou em vir à rua comigo e defender os companheiros vítimas da provocação. Queria mesmo apresentar queixa, do que foi dissuadido. Como lembro o andar pelas casas dos amigos, noite dentro, a entregar propaganda para estes distribuírem. E dizer que foi com alguma surpresa que dois ou três oficiais do quadro, sabendo das minhas ideias, me abordaram para colher informações e propaganda. Um deles viria a ser um participante activo ao comando de uma das colunas militares em Abril de 1974. Afinal, ao fim de cinco anos, acabámos por ganhar mesmo as eleições.

Diana Andringa – Sendo Domingo, estava, provavelmente, em Peniche, a visitar o Alexandre. Teria provavelmente ido na véspera, como a Lena, a Graça e a Manuela, habituais companheiras desses fins de semana de «turismo prisional» e encontrado a Maria Emília Brederode, a Nita Feronha, a Zé Catanho, que visitavam no Forte os seus irmãos. Terei quase certamente desabafado com o Alexandre o desgosto pelo meu recente trabalho como copy-writer na Ciesa NCK, depois da demissão colectiva da Vida Mundial, onde fora tão exaltante trabalhar. Teremos voltado a falar dessa demissão que me ensinara tanto sobre solidariedade, e cuja razão sentia ligada às eleições e às disputas entre CEUD e CDE. Teremos talvez discutido, na vigiada conversa no Parlatório, a forma como as candidaturas de Oposição tratavam a questão colonial – e a exigência de um corte radical com a ideologia colonialista. Faltavam três meses para ser presa, Angola estava-me mais próxima que Portugal.
Em frente da porta, do lado de fora, terei talvez comprado uma batata-doce assada ao vendedor de castanhas. Afinal, era esse o sabor do Outono em Peniche.

Helena Pato – Lembro-me tão bem do 26 de Outubro de 1969! Durante o dia, sentada na mesa de voto da freguesia de Santa Maria dos Olivais, eu não tirava os olhos da urna dos votos e o grupo de velhos pidescos e ranhosos da União Nacional, que constituía a mesa, não tirava os olhos de mim – um olhar que parecia de nojo por eu ser mulher, uma garota, e estar ali delegada de uma lista da oposição. À noite, na sede nacional da CDE, no Campo Pequeno, troquei reflexões, notícias e nervoso, muito nervoso, com os companheiros da Comissão Política com quem reuni. Do Lindley Sintra e do Pereira de Moura tenho uma saudade imensa. Não me esqueço do arguto e obstinado Sottomayor Cardia remando contra a nossa maré. Já os outros, mal eu sabia que, um dia, haveria de os ver quase todos pela Assembleia da República interpelando-se na «defesa da honra da bancada» – e todos em diferentes bancadas, da esquerda claro está… –, ou passando revista às tropas num quartel, ou dando brilho a um governo, ou falando em Belém ao Povo, com a bandeira portuguesa de um lado e a da Comunidade Europeia do outro. Enquanto isso, eu ficava cada vez mais mulher e cada vez mais mãe. O eterno desgraçado destino de quem nasce no feminino. Porém, irremediavelmente apaixonada pela vida política e cegamente enterrada na profissão que, por maus motivos, agora mais brado dá neste país.

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tuol seng camodja

Há mais do que um motivo para ser impossível esquecer o Cambodja, onde estive há cerca de seis meses: os magníficos templos de Angkor, a miséria extrema em que vive uma parte da população (*) e as pegadas deixadas pelos inqualificáveis crimes dos Khmers Vermelhos.

O texto de Rui Bebiano, aqui publicado ontem, fez-me «regressar» porque não há família no Cambodja que não tenha uma história semelhante à que é contada no livro que é referido. A do guia turístico que acompanhou o grupo em que integrava não era muito diferente (tinha 13 anos em 1975), o que é inevitável num país que perdeu 20 a 25% da população (cerca de dois milhões de pessoas, embora não haja números exactos), em apenas quatro anos – enquanto nós por cá vivíamos o PREC e os anos que se seguiram, ou seja há relativamente pouco tempo.

Uma das consequências absolutamente impressionante e visível, mesmo para o turista desprevenido, é que o Cambodja é hoje um país quase sem velhos: a grande maioria dos que teriam actualmente cerca de 60 anos, ou mais, desapareceu – pura e simplesmente.

Mas o que nunca sairá da memória de quem por lá passou é a «fotografia» de um dos mais célebres killing fields, situado nos arredores de Phnom Pehn, onde se encontra o Museu do Genocídio de Tuol Sleng. Numa antiga escola transformada em prisão e nos terrenos que a rodeiam, terão sido torturadas e assassinadas cerca de 10.000 pessoas – homens, mulheres e muitas crianças –, como testemunham largas centenas de fotografias expostas em grandes painéis. É um museu muito simples, impressionante pobre, mas terrível.

Há muita literatura sobre este período negro de uma parte importante do sudoeste asiático, há um grande filme (The Killing Fields, Terra Sangrenta, em português) e muitos pequenos vídeos como este, precisamente sobre o museu de Tuol Sleng.

 

 
(*) Escrevi, in loco, um pequeno texto sobre as terríveis condições em que vivem muitos cambojanos.

Guiné 1964

 
Um texto de José Augusto Rocha (*) 
 
A 25 de Novembro de 1963, embarquei no cargueiro «Ana Mafalda», (1) adaptado à pressa para transportar outra e nova carga – homens soldados – rumo à guerra colonial da Guiné.  A partir desta data, como que começou outro tempo na minha vida e, tantos anos passados, vem dar testemunho breve da memória daquela guerra o ex-tenente miliciano, José Augusto Rocha.

Fá-lo em condições privilegiadas de um amadurecimento de tempo passado, ou seja, potenciado por aquilo que um dia tão bem recordou Eduardo Lourenço, citando Teixeira de Pascoais: «o futuro é a aurora do passado». Na verdade, desde aquela longínqua data de 1963 até aos dias de hoje, já lá vai muito futuro, o suficiente para re-iluminar uma vivência pessoal que agora transmito pela primeira vez e que sei comporta elementos desconhecidos daquela guerra.

Nos anos sessenta, a ordem de incorporação e a ida para a guerra colonial estava indisfarçavelmente ligada à repressão política e à PIDE. Esta articulação era particularmente visível em relação ao movimento estudantil e em especial aos seus dirigentes. As medidas de repressão do aparelho do Estado, ao nível das forças armadas, eram várias e diversificadas e iam desde a incorporação em  estabelecimentos militares disciplinares de correcção, como o de Penamacor, onde foi internado, por exemplo, o Hélder Costa e o João Morais, até incorporações antecipadas e transferências arbitrárias de quartéis, de acordo com estritas ordens da polícia política (PIDE).

No meu caso, libertado do Forte de Caxias, em Julho de 1963, fui incorporado logo em Setembro, para minha total surpresa, no «Regimento de Lanceiros 2», conhecido como o quartel da polícia militar, unidade de confiança do regime político do Estado Novo. Vim a encontrar aí outro dirigente associativo, da Associação dos Estudantes da Faculdade de Letras, o João Paulo Monteiro, filho do exilado político Adolfo Casais Monteiro. A surpresa de imediato foi esclarecida. O treino militar do 1º ciclo, naquele Regimento, era muito duro e de verdadeiro castigo e, logo que terminou, ambos fomos transferidos para a Escola Prática de Infantaria de Mafra, por despacho do então Ministro da Defesa Nacional, General Mário Silva.

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julgamento
 

No Julgamento do Golpe da Sé 

A 11 de Março de 1959 está-se na véspera da eclosão do que ficará conhecido como o Golpe da Sé, assim chamado por ser aí que reuniam os conspiradores civis. Como sempre sucedera em acções anteriores, a impreparação e o facilitismo dos revoltosos levaram á sua prisão. Houve mesmo alguns aspectos caricatos como o de um Major conspirador que não fazendo parte de uma determinada unidade, nela compareceu fardado, nessa noite, para se encontrar com um outro oficial, também integrante dos revoltosos. É evidente que causou estranheza a sua presença, em particular ao oficial de dia. Mas isto não passa de um «fait-divers» do que quero contar.

Todos os conspiradores, civis e militares, foram julgados no Tribunal Militar de Santa Clara, em Julho e Agosto de 1960. Naturalmente que os seus defensores eram a nata dos advogados da Oposição, todos com grande tarimba destes julgamentos. Entre outros, eram cerca de uma dúzia, estavam Eduardo Figueiredo, Acácio Gouveia, Olinto Figueiredo, Catanho de Menezes, Cunha Leal, Duarte Vidal, Salgado Zenha, etc, já todos desaparecidos. E estava também Mário Soares, que penso ser o único advogado sobrevivente, pelo menos deste julgamento.

Os militares revoltosos eram todos oficiais e encontravam-se detidos no presídio militar da Trafaria. De entre estes sobressaía a figura de um velho capitão que participara no 28 de Maio mas que repudiaria a orientação política entretanto seguida. Afastado do Exército, participa em tudo o que é intentona. Era um homem de boa compleição, entroncado, e de equivalente coragem física. Um dia, já perto dos 80 anos, à porta do café Londres, arrumou a murro e a pontapé dois pides que o interpelaram. Homem frontal, falava sempre com uma voz que se impunha. Tinha 70 anos à data do julgamento.

As janelas da sala do tribunal estão abertas de par em par, pois o calor é muito e não há ventilação. Algumas senhoras abanam-se com os leques, os homens que ainda usam chapéu fazem o mesmo.

(Um parentesis para contar que quando Cunha Leal, com a sua voz de trovão, fazia as alegações, o Juíz Ptresidente pediu-lhe para falar mais baixo, pois ouvia-se tudo na rua. Ao que ele respondeu: «Era o que mais faltava sr. dr. juíz! Deus deu-me esta voz é com ela que falo e é com ela que hei-de morrer! Mande o senhor fechar as janelas, se quiser!»)

Os detidos estão sentados logo à frente da primeira fila da assistência onde se sentam os familiares, apenas separados por uma balaustrada em madeira. O ambiente é pesado e rigoroso, ou não fosse um tribunal militar, as portas guardadas por elementos da Polícia Militar. Após um curto intervalo, quando a sessão retoma, a mulher do nosso bravo capitão debruça-se na balaustrada e sussurra-lhe «Carlos, tens a braguilha aberta!» ao que ele responde prontamente, «Ó filha, isto é pássaro que já não sai da gaiola».

Ignora-se, ainda hoje, se foi esta a razão, ou qualquer outra mais elaborada e complexa, que levou o tribunal a concluir por sentenças benevolentes.

carlos cruz 1975 

Vem aí mais uma noite eleitoral, mas nem a panóplia tecnológica com que tudo se passa hoje me faz esquecer os bastidores das eleições na década de 70. Por motivos profissionais, estive envolvida no apuramento dos resultados das votações, e respectiva divulgação, e é certamente difícil para as novas gerações imaginarem, sequer, a dificuldade, o pioneirismo e o stress com que tudo se passava.

Para começar, depois da contagem dos votos, os resultados eram introduzidos manualmente duas vezes: primeiro, descentralizadamente (julgo que nas capitais de distrito), em aparelhos de telex que os enviavam para Lisboa; depois, numas outras máquinas que os transmitiam para o computador central do Ministério da Justiça – tudo isto demorava horas, sobretudo quando se tratava de eleições autárquicas onde o número de dados era muito mais elevado.

Nem entro na descrição da complexidade que era programar antecipadamente, de raiz, sem software «pré-fabricado», todas as validações e cálculos necessários para o apuramento, e passo para a noite eleitoral propriamente dita. Tudo se processava no centro de informática do Ministério da Justiça, de onde os resultados eram transmitidos, unicamente, para a RTP e para a Gulbenkian (onde se concentravam VIP’s e jornalistas). Aí eram visionados em sinistros terminais a verde e verde (recorde-se que ainda não tínhamos PC’s…) – depois, pelo menos nos primeiros anos, passava-se de novo ao manual ou à pura oralidade.

Nem sei quantas directas terei feito nestes três locais, mas era na RTP que se viviam as maiores emoções. Parecerá hoje impossível, mas a emissão da noite eleitoral de 25 de Abril de 1975, coordenada por Carlos Cruz, teve início às 19 horas e terminou… às 24 do dia seguinte – durou trinta horas. Não sei exactamente em que ano, Joaquim Letria dirigiu as operações, a partir do Estúdio 2 no Lumiar. Tinha atrás dele, preso a uma cortina, um gráfico de cartão, onde ia deslocando manualmente um ponteiro. O «drama» que vivi, durante toda a noite, foi passar dezenas de vezes por trás da dita cortina sem tropeçar num colossal emaranhado de cabos espalhados pelo chão nem tocar na cortina, o que nem sempre era possível – quando isso acontecia, o gráfico abanava e os espectadores viam em casa…

Poderia contar dezenas de histórias, mas resumo só mais uma. Por ocasião de umas eleições autárquicas, talvez as primeiras, no dia seguinte à tarde ainda faltavam os votos de uma freguesia do Norte. Localmente, ninguém conseguia encontrar o presidente da respectiva mesa, mas o inesperado aconteceu: ele acabou por chegar, em pessoa, ao Ministério da Justiça em Lisboa. Trazia a urna ainda fechada e tinha deixado à porta… o cavalo! 

Factos como este são hoje puramente anedóticos, mas podem ser úteis para nos apercebermos de que o início desta etapa da nossa história democrática ainda está «à vista» e que trinta e cinco são, afinal, muito poucos anos.

Almirante Cabeçadas
  (Clique para aumentar. O Almirante Cabeçadas está ao centro.)

 
Um texto de Helena Cabeçadas (*) 

Com o aproximar do centenário da implantação da República dei por mim a tentar compreender e a pensar num dos seus principais protagonistas e reconhecido herói, a quem estou ligada por laços familiares e afectivos muito fortes, o Almirante Mendes Cabeçadas, meu tio-avô. Dele guardo recordações muito intensas, que certamente influíram no meu percurso de vida e que gostaria de partilhar. 

Há dias visitei o Museu da Presidência da República e deparei-me com o seu retrato, no meio dos outros retratos de Presidentes. É um retrato sombrio e triste, de tal modo que tive dificuldade em reconhecê-lo, pois não corresponde, de modo algum, às memórias que dele tenho, que são as da minha infância e adolescência e que correspondem à fase final da sua vida (fim dos anos cinquenta e primeira metade dos anos sessenta). A imagem que dele guardo é de uma pessoa afável, cheia de energia, os olhos azuis muito vivos, rodeado de amigos na «Mexicana» e na «Anabela», pastelarias perto da casa onde vivia com duas das suas filhas, na zona da Praça de Londres, e onde reunia uma tertúlia de que faziam parte figuras conhecidas da oposição democrática como Dias Amado, Luís Rebordão, Fernando Vale, Cunha Leal, Adão e Silva, entre outros… Velhos republicanos, anti-salazaristas, maçons convictos que, à mesa do café, comentavam a actualidade política de modo crítico e exaltado e contavam histórias de revoluções, prisões e golpes de estado contra o regime fascista, dos quais tinham sido os principais protagonistas e pelos quais tinham estado presos. Eu ouvia-os, fascinada. Era garota, teria uns 14, 15 anos, saía do Liceu ali perto (o D. Filipa e, depois, o D. Leonor) com as minhas amigas e íamos ouvi-los, encantadas. Era como desfolhar as páginas de um livro de História Contemporânea, mas ao vivo, que não nos era contada, nem sequer mencionada, nos nossas bafientas aulas do Liceu. Gritos entusiásticos de «Viva a República» finalizavam muitas destas discussões apaixonadas e, para mim, apaixonantes. Os PIDES lá estavam, claro, sentados em mesas próximas, para não perderem pitada, com os seus cabelos gordurosos e as suas gabardinas cinzentas, pelo menos aqueles que nem se davam ao trabalho de disfarçar a sua condição pidesca. Provavelmente haveria outros, menos obviamente vestidos de PIDE e que passavam despercebidos… Os velhos republicanos não se preocupavam em falar baixo, talvez porque já estivessem um bocado surdos, ou porque já tinham sido presos várias vezes e já não se importavam muito, ou porque a PIDE naquela época (início dos anos sessenta) já não ligava à oposição moderada republicana, na sua obsessão pelo PCP e pelos comunistas, que considerava então a principal ameaça para o regime. Eu e as minhas amigas lá estávamos, todas contentes, com as batas do Liceu, a beber capilés e a ouvir aquelas histórias extraordinárias de golpes militares e revoluções, prisões e fugas arriscadas… 

O meu tio e os amigos gostavam imenso de nos ver aparecer, um grupinho de miúdas curiosas que os ouviam, avidamente. Deviam pensar que assim se passava o testemunho de aspirações democráticas e de resistência ao salazarismo. E tinham razão pois, de uma maneira ou de outra, todas nós nos tornámos antifascistas e activistas de esquerda, mais à esquerda do que eles desejariam, claro, mas os tempos eram outros. 

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livro da terceira classe

Tenho experiência de como temos de domar o bárbaro que transportamos em cada um de nós. Desde cedo. Desde tão cedo que essa minha experiência de criança é ainda hoje uma cicatriz na minha memória.

Andava na então Terceira Classe, tinha dez anos. Lembro-me bem do professor. Era um ser frio e duro. Mas não me lembro que tivesse olhos porque eles estavam escondidos atrás de umas lentes muito grossas. Mas sentia-se o seu olhar gelado de severidade a sair por baixo do Crucifixo ladeado pelas caras sombrias de Salazar e Carmona. Naquele tempo, usava-se palmatória para castigar maus comportamentos ou falhas na aprendizagem. A aplicação de castigos físicos ou de humilhação aos alunos integrava o sistema educativo salazarista e não era contestado, porque não era sequer contestável, nem sequer pelos pais. Por isso, uma régua grossa de madeira fazia parte dos instrumentos de «ensino e disciplina» que ornamentavam a mesa professoral. Mas o professor da minha Terceira Classe, severo e cruel na aplicação de palmatoadas, lembrou-se de refinar o seu sadismo, recorrendo à sus difusão pela transformação dos castigados em castigadores. Periodicamente, organizava uma espécie de sabatinas em que um miúdo fazia uma pergunta sobre matéria escolar a outro. Se este não soubesse a resposta certa, o perguntador tinha direito a dar uma reguada na mão do ignorante. Ele queria envolver-nos e integrar-nos no mundo de lobos em que a mente do desgraçado vivia. Usava, assim, uma espécie de pedagogia de torturador.

Um dia, um mau dia, calhou-me fazer a pergunta crucial a um companheiro de classe. Senti uma importância prepotente a subir ao cimo dos meus dez anos. Rebusquei a pergunta mais complicada que consegui construir. O desgraçado do colega não fazia a mínima ideia quanto à resposta. O professor proferiu o veredicto: dá-lhe uma reguada. Aquela desproporção de poder apoderou-se de mim e senti a luxúria do domínio sobre outro. Peguei na palmatória e atirei-lhe uma reguada com toda a força que tinha. O meu colega contorceu-se de dor e ficou com a mão inchada durante uma semana. Eu tinha ultrapassado o «Mestre». Senti um profundo mal estar e assustei-me com a minha bestialidade. Eu tinha mudado de campo de uma forma instantânea. E da volúpia sádica desci à vergonha, à mais profunda das vergonhas. Ainda hoje sinto essa cicatriz nas minhas lembranças de infância. Por ter aprendido cedo demais a facilidade com que de pisado se passa a canalha, o frasquinho com o antídoto para o veneno do domínio nunca saiu do meu bolso. 
 
 
(Originalmente publicado no blogue Água Lisa)

telefone antigo

Toda a resistência tem episódios que o tempo acaba por revelar terem roçado o inacreditável, mesmo o impossível, às vezes até o caricato. E que, com a distanciação do tempo, acabam por nos fazer sorrir. Como diria o meu amigo Helder Costa, são alguns episódios do «saudoso tempo do fascismo». Não conheço muitos destes momentos, mas fui protagonista de um ou outro e sei de outros. Proponho-me contar alguns deles, com pequenas alterações para evitar o reconhecimento de moradas e de pessoas, sempre que se justifique. 

Nos idos dos anos sessenta, a zona da Av. de Roma e Avenidas Novas era o local preferido pela malta estudante, quer para morar, quer para as tertúlias de café. Todos nos recordamos do Vává, do Nova Iorque, da Suprema, da Trevi, do Tic-Tac, do Branco e Negro e do Londres. Havia mais, mas não eram frequentados pela «malta». O Londres era o café preferido pelo pessoal do chamado «reviralho»: burguesia liberal (doutores e engenheiros) e alguns militares na reserva. Alguns de nós, estudantes, também por lá parávamos. Estudava-se de tarde, a tertúlia ficava para a noite. No Londres havia um funcionário só para o salão de bilhares, que era na cave. Este funcionário tinha três particularidades, porque um mal nunca vem só: andava como se sofresse de uma blenorragia permanente, usava os óculos na ponta do nariz e tinha um tom de voz nasalado. Volta e meia, anunciava pela instalação sonora as delícias à disposição dos jogadores e demais clientes. Com uma voz fanhosa apregoava: «Já provou os pastéis de bacalhau do salão de bilhares? Então prove!» Mas tinha ainda uma outra função, mais nobre, a de chamar ao telefone os clientes para quem havia uma chamada. 

Num certo dia de 1961, ano em que, a 21 de Janeiro, se dá o assalto ao Santa Maria, alguém foi à cabine telefónica que havia à entrada, logo a seguir à porta giratória, ligou para o café e pediu para chamarem ao telefone o senhor capitão Henrique Galvão. O nosso bom homem assim fez. Quando se ouve pela instalação sonora «Chamam ao telefone do salão de bilhares o senhor capitão Henrique Galvão», o espanto acompanhado de silêncio, foi total. Logo seguido de uma imensa e gargalhada.

GEPDESP

Reunimos. Éramos uma vintena de professores – uns mais velhos, como o Tiago de Oliveira, outros, gente muita nova, de vinte e poucos anos, como o Paulo Varela Gomes. Apertávamo-nos por trás de uma mesa e sentados em sofás, numa sala obscura do «Sindicato» do Ensino particular, situado a meio da Conde Redondo, em Lisboa. Eram poucos os colegas de quem não sabíamos o nome. Entrevíamo-los para além de uma barreira de fumo que ameaçava ir, mais tarde, fazer das suas. Hoje, sabemos de muitos companheiros desses «caminhos de memória» que se passaram para outra dimensão. Adiante, não interessa. Pertencíamos quase todos aos Grupos de Estudo do pessoal docente do ensino secundário e preparatório – uma estrutura nacional nascida poucos anos antes e que adquirira uma crescente ligação aos professores, de norte a sul do País. (*) 

À tarde, seguiu-se a noite e, após uma animada ceia no bas-fond da prostituição – num restaurante por baixo – entrámos pela madrugada dentro: opiniões em catadupa. Este sugere, aquele exige, o outro recusa, pressa muita pressa, e – sobretudo – uma vontade transbordante de aproveitar a situação para pôr os pontos nos ii em matéria de ensino, dos direitos profissionais e do funcionamento das escolas públicas. Queríamos conseguir rapidamente um sindicato nacional de professores que exprimisse a nossa voz.
Reunião, novamente, em dia seguinte, com mais gente – já em representação de um número significativo de escolas. Fecha-se a fase de preparação: redige-se um stencil que alguém «policopiaria» e que, horas depois, seguiria para os professores e para a Comunicação Social. Às duas da manhã, estava aprovado por unanimidade o primeiro comunicado que deveria chegar aos estabelecimentos de ensino de Lisboa, de todos os graus de ensino, oficial e particular. Histórico:

«A Comissão Coordenadora do Grupo de Estudo do Pessoal Docente do Ensino Secundário e Preparatório de Lisboa, em reunião com professores de escolas do ensino secundário, preparatório, primário e infantil, de Lisboa e concelhos limítrofes, considerando:
1º – que é abusiva e despropositada a atitude assumida por alguns directores de escolas do Ciclo Preparatório de Lisboa de apoio à recondução do professor Veiga Simão no Governo Provisório;
2º – que a existência de um ministro do antigo regime neste Governo Provisório poderá dar imagem pública de uma Junta de Salvação Nacional hipotecada a ideias e personalidades do regime derrubado;
3º – que, à luz da nova situação criada pelo 25 de Abril, se torna urgente discutir e encontrar colectivamente a solução para os graves problemas que afectam o professorado
Convoca a classe para uma Reunião Geral de Professores, no dia 2 de Maio, às 21.30 h, em local que será oportunamente divulgado através dos órgãos de informação.»  

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