Recortes


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Agosto em Lisboa é também sinónimo de arrumação de papéis, com consequente descoberta de documentos como este relacionado com um dos Colaboradores desta casa:

Saldanha Sanches, então membro do MRPP e director do jornal Luta Popular, foi preso em 7 de Junho de 1974 por incitar à deserção em massa e com armas dos soldados mobilizados para as colónias. Fonte.


Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra

Cartas Particulares a Marcello Caetano. 1.ºvolume. Prefácio e notas de José Freire Antunes. Lisboa: Publicações Dom Quixote. 1985.


  


   João Abel Manta

Não fosse 4 de Julho e podíamos não nos lembrar – entre os sinais da crise e as análises dela, as habituais recomendações  para ajudar a debelá-la aceitando o aumento da jornada de trabalho, os despedimentos, os congelamentos salariais, como se a crise, quando nasce, fosse igual para todos – que todos temos não apenas o direito à vida e à liberdade, mas também à procura da felicidade.

Que inspiradoras são as palavras da Declaração Unânime dos Treze Estados Unidos da América, em 4 de Julho de 1776:

«Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade. Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade.»

É bom haver uma desculpa para recordar.

O número de Julho-Agosto do Magazine Littéraire transporta consigo, para além de um notável dossiê sobre as conexões entre humor e literatura, a reprodução de uma conversa – «L’Histoire, victime de la mémoire?» – entre o académico Pierre Nora, actual director da revista Débat e autor do incontornável Les Lieux de la Mémoire, e Élie Barnavi, professor da universidade de Tel Aviv e conselheiro científico do Museu da Europa, em Bruxelas. Mais do que a exposição de duas formas absolutamente opostas de olhar a relação entre memória e história, ela serve para ajudar a desmistificar a ideia segundo a qual esta última é um saber frio e unívoco, do qual os valores da subjectividade e da cidadania se devem manter desejavelmente afastados.

Traduzindo os destaques (que sugerem muito bem o tom de toda a conversa a duas vozes):

Barnavi: «A História tem sido notificada para se colocar ao serviço da memória. Esta apropriação da História parece-me uma das características mais graves da nossa época.»

Nora: «O tempo no qual os positivistas conservavam à distância a história contemporânea parece hoje completamente ultrapassado. Fazer História é fazer história contemporânea.»

Barnavi: «Um dos males que corrói a nossa época é a confusão de papéis entre o historiador e o ideólogo.»

Nora: «A memória incorpora doravante uma reivindicação particularista, subjectiva e peremptória, quando não é terrorista.»

Um debate que é para (e que deve) continuar.


   Baltazar


   João Abel Manta

Na manhã em que tem início o terceiro Congresso Feminista, recorde-se o segundo, acima retratado, que teve lugar em Junho de 1928.

Certamente muito menos participantes, poucas intervenções, sem televisão, nem internet, nem blogues para o anunciarem. Num mundo muito diferente – ou talvez não tanto quanto possa parecer e muito menos do que seria desejável.

Elina Guimarães proferiu então um importante discurso que merece ser lido na íntegra. Algumas das suas afirmações poderiam ser repetidas hoje, amanhã ou depois de amanhã. Certamente com outros cenários, provavelmente por outras palavras, mas muito semelhantes quanto ao fundo de quase tudo o que está em questão.


   João Abel Manta

O parágrafo seguinte, da autoria da jornalista Ana Machado, foi publicado há alguns meses no Público online. Ele aproxima-nos do clima tenso e pungente que o formalismo datado da transmissão radiofónica à qual se refere – gravada no momento da partida de um dos primeiros contingentes de soldados destinados a Angola, logo após o início da Guerra Colonial – foi incapaz de disfarçar. Quem possua uma recordação vívida desses momentos, tornará por instantes ao seu próprio passado e confirmará a precisão do relato.

«Estamos em Junho de 1961. No Cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa, a multidão reuniu-se para ver partir um dos primeiros contingentes de soldados a partir para a Guerra Colonial. Há fanfarra, hino e ambiente de festa. O repórter lança-se no seu discurso, previamente revisto, onde fala da grandiosidade do império e do céu azul na partida, despedindo-se com um ‘boa viagem rapazes e até breve’. Mas o microfone da rádio, que não obedece a ordens, não conseguiu fazer calar os gritos de dor de mulheres e mães que se ouvem de fundo, ao longo de toda a reportagem.»