Não Apaguem a Memória!


As minhas primeiras palavras são para recordar aqueles que, neste lugar, nesta rua, no dia 25 de Abril de 1974, foram barbaramente abatidos a tiro pela PIDE/DGS. Todos sabemos que a mais tenebrosa das polícias do regime levou a sua sanha criminosa até ao fim.

Ainda hoje, a 36 anos de distância, me custa pensar que as últimas vítimas do fascismo foram jovens, nossos irmãos na esperança de Democracia. Jovens que desejavam ver a sua terra libertada. E não lhes foi permitido. Sobre o que seria viver em Liberdade, não chegaram a saber mais do que o que ouviam dizer, e talvez tivessem lido, acerca das democracias que havia por esse mundo fora. Morreram precisamente quando acreditaram que o seu sonho se tornava realidade.

O tempo corre, falamos, escrevemos e não se esgotam as más memórias. Quando passo ali por trás, junto ao Teatro São Carlos, ainda recordo a força que me chegava de longe, nas vozes do coro em ensaio, enquanto eu procurava não adormecer na frente da agente policial. Alucinação ou magia.

Foi exactamente neste espaço que, durante décadas da ditadura, esteve sediada a polícia política. De tempos a tempos, o seu nome mudava, mas o martírio dos portugueses que se batiam pelos seus ideais e pelos seus mais básicos direitos prosseguia.

Agora, uma gente de negócios endinheirados quis trazer para o imaginário lisboeta uma história de sonhos, apagando uma história nacional de pesadelos e, sobre os escombros dessa sede, ergueu um condomínio de luxo, atribuindo-lhe uma designação que soa indecorosa aos nossos ouvidos de resistentes: “Paço do Duque”.

Olho do exterior a construção faraónica, repudio as pichagens que começaram a aparecer, mas a verdade é que me trazem o encarnado dos pingos de sangue e os desenhos indutores de alucinação que manchavam as paredes enegrecidas das salas de interrogatório. Olho este portão e quase tremo. Não se me apagam as emoções e os medos com que o atravessava, sentada por trás da grade de uma carrinha, vinda do Forte ou já de regresso a Caxias, entalada entre duas agentes da policia. Porque as mulheres, jovens ou não, eram presas na condição de revolucionárias, em igualdade de circunstâncias com os homens, mas depois, uma vez chegadas aos interrogatórios, tinham tratamento suplementar especial. Eram chantageadas na sua dignidade de mulheres, humilhadas, violadas no seu pudor feminino. Atingidas emocionalmente e ameaçadas, nos laços de maternidade. Ainda estão vivas, e festejam hoje o dia da Revolução, algumas companheiras da luta anti-fascista, cujo testemunho pessoal ultrapassaria o que, algum dia, eu poderia contar-vos. Outras já desapareceram: Sofia Ferreira muito tinha para contar. Morreu na semana que hoje termina, com uma impressionante história de vida, dedicada à Resistência.

Não têm conta os portugueses anónimos que aqui permaneceram noites e noites, submetidos à tortura do sono – às vezes, dias e dias de pé, impedidos de se sentarem. Poderão hoje estar mais, ou menos, satisfeitos com o estado do Estado Democrático, poderão divergir mais, ou menos, nas suas posições políticas actuais, mas estou ciente de todos eles se emocionam quando passam neste local.
(mais…)

Saudação do NAM

25 de Abril 2010

O Movimento Cívico Não Apaguem A Memória! – NAM, saúda todos os participantes no acto da inauguração da placa que sinaliza o local onde se situava a sede da PIDE/DGS, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, realizado no dia 25 de Abril de 2010.

Saudamos todos os que durante meio século lutaram contra a ditadura, pela democracia e pela liberdade e que sofreram a prisão e as torturas daquela tenebrosa polícia política. Em particular saudamos os que ali se encontravam presentes, nomeadamente Edmundo Pedro, António Borges Coelho, José Manuel Tengarrinha e Helena Pato. Saudamos os capitães do MFA pelo seu papel histórico no 25 de Abril de 1974 e em particular os que ali se associaram a este acto nomeadamente o cor. Vasco Lourenço e muito especialmente o comandante Luís da Costa Correia o “capitão de Abril” que tomou, com a força militar que comandava, precisamente ali, onde nos encontrávamos, a sede da PIDE/DGS.

Saudamos o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. António Costa, a Senhora Vereadora da Cultura, Drª Catarina Vaz Pinto pela forma pronta como acolheram a proposta do NAM, lhe deram execução de modo a coincidir com o dia 25 de Abril e participaram neste importante acto de preservação da memória. Saudamos também o director da Cultura, Dr. Mota Veiga, o Director do Património Cultural, arquitecto Jorge Carvalho e demais funcionários da CML que participaram neste acto ou na sua preparação.

Sinalização da PIDE/DGS

De acordo com o programa da inauguração da placa de sinalização da PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso em Lisboa, realizou-se um cortejo que partiu dos paços do concelho da CML onde usaram da palavra a Senhora vereadora da Cultura Drª Cartarina Vaz Pinto e pelo NAM o Professor Jorge Martins que ao longo do mini-roteiro o animou e ofereceu de modo impressivo uma informação histórica da ditadura e do dia 25 de Abril de 1974 relacionada com os locais do percurso.

Após o descerramento da Placa, usaram da palavra Raimundo Narciso pelo NAM, José Manuel Tengarrinha, Edmundo Pedro e Helena Pato na qualidade de ex-presos políticos e lutadores anti-fascistas e o Presidente da CML Dr. António Costa.

O mini-roteiro e o acto final tiveram uma significativa participação de umas 150 a 200 pessoas.

(Clicar para ler)

Por notícia difundida pela Lusa esta manhã, soubemos que a Placa «ia mudar de sítio» devido aos protestos do movimento «Não Apaguem a Memória!».

Entretanto, foi de facto recolocada mas em local igualmente pouco visível e sem as letras pintadas, como tinha sido exigido, o que a torna praticamente ilegível.

Albertina Lemos, uma das fundadoras do NAM!, morreu ontem (dia 26), no Porto, vítima de câncer. Há já alguns meses que sabíamos que o estado dela era grave, mas a força anímica que possuía levava-nos a acreditar, infantilmente, que ia resistir pelo menos até à Primavera e, depois, tudo seria possível.

Não foi, como humanamente sabemos.

A Albertina tornou-se uma personagem conhecida no NAM! porque era ela que fazia a ligação entre Lisboa e o núcleo do Porto. Sofria de poliomielite, que contraiu muito jovem, no Brasil, para onde emigraram os pais, mas a discrição e a tenacidade com que se apresentava depressa faziam esquecer essa «particularidade», como a designava a Maria Rodrigues, uma amiga de longa data.

A Albertina, na sua simplicidade, era um cérebro. Foi uma das alunas mais distintas do curso de Farmácia na Universidade do Porto. Pertenceu à pró-associação de estudantes e, recorda Luísa Oliveira, caloira da promoção de 1968/69, quando a Albertina chegava a finalista, ela fazia a «diferença» no ambiente «conservador e situacionista» da escola.

Foi para Paris como bolseira e aí vincou-se a sua adesão antifascista, militando nas organizações maoístas da esquerda radical. Depois da revolução de Abril foi activista da OCMLP – Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa e participou no seu órgão de imprensa, O Grito do Povo!

Viveu as vicissitudes do processo revolucionário em curso e não soçobrou ao desânimo. Manteve-se atenta aos movimentos sociais e foi sem surpresa que os amigos a viram a intervir no Tolerância, na luta pela interrupção voluntária da gravidez, assim como no NAM! quando ele surgiu, no seguimento da manifestação que se realizou frente à antiga sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, protestando contra o apagamento da memória na resistência à ditadura.

A Albertina Lemos já não está entre nós, mas permanece dentro da nossa fraterna amizade. Adeus companheira!

António Melo

Entre os países da CPLP, para lá da Língua e da História comuns, há um traço de união que, embora muito próximo de nós em anos, é normalmente esquecido: a tortura sofrida pelos seus povos sob regimes de ditadura, fossem estes nacionais, como nos casos de Portugal e do Brasil, colonizadores, como nos casos dos países que atingiram a independência em 1974/75, ou invasores, como no caso de Timor-Leste.

E, no entanto, essa é uma memória traumática que urge enfrentar, não apenas pelo que representa para os que a sofreram, quer pelo que dela se prolonga, muitas vezes, numa desatenção aos Direitos Humanos indigna de povos que por eles se bateram em condições de extrema dificuldade.

É no sentido de pensar essa memória, não apenas enquanto passado, mas enquanto sombra pesando sobre o presente, que a Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória (NAM) e o Centro de Estudos Sociais (CES-Lisboa) entenderam levar a cabo, em Lisboa, um Seminário subordinado ao tema “Que fazer com estas memórias?”, a ter lugar nos próximos dias 5 e 6 de Março de 2010, no CES-Lisboa (Picoas Plaza, R. Viriato, perto a Maternidade Alfredo da Costa, do jornal Público e do hotel Sheraton; no 1º andar, sobre o pátio com restaurantes, pintado de vermelho e com grandes letras a dizer CES.).

Queremos ouvir testemunhos de quem sofreu a tortura, comentários de médicos que trataram os torturados e de cineastas que recolheram a sua memória.

Queremos que a memória não se perca, para que o futuro seja melhor.

Programa detalhado e definitivo, e mais informação, aqui.

Data: 5 e 6 de Março de 2010
Local: Centro de Estudos Sociais-Lisboa, Picoas Plaza (metro: Picoas)

Entrada livre

Organização:
«Não apaguem a memória!» / Centro de Estudos Sociais

 
Programa

Sexta-feira, 5 de Março
9:30 – 10:30 Abertura – Porquê um Seminário Lusófono sobre Tortura e Memória?
José Manuel Pureza, Representante do Centro de Estudos Sociais – Lisboa
Raimundo Narciso, Presidente da Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória
Cecilia Coimbra*, Representante do Movimento Tortura Nunca Mais (Brasil)
Simonetta Luz Afonso, Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa
10:30 – 12:00 Projecção do filme “48”, de Susana Sousa Dias
12:00 – 12:30 Comentário pelo Dr. Afonso Albuquerque (Médico psiquiatra, autor de um livro sobre o impacto da tortura sobre presos políticos portugueses)
12:30 – 13:30 Debate sobre o filme, com a presença da realizadora Susana Sousa Dias
13:30 – 15:00 Pausa para almoço
15:00 – 16:30 Projecção do filme “Memória para uso diário”, de Beth Formaggini
16:30 – 17:30 Comentário pelo Dr. Carlos Martin Beristain (Médico especialista em Saúde Mental, Universidade de Deusto, Bilbao) e por Alípio de Freitas (português, preso e torturado no Brasil.)
17:30 – 18:30 Debate sobre o filme, com a presença da realizadora
Sábado, 6 de Março
10:00 – 11:30 Projecção do filme “ Tarrafal: Memórias do Campo da Morte Lenta”, de Diana Andringa
11:30 – 12:00 Comentário por Miguel Cardina, historiador, investigador do CES e Victor Barros, investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20).
12:00 – 13:00 Debate sobre o filme, com a presença da realizadora
13:00 – 13:30 Sessão de encerramento: Como fazer da memória partilhada da tortura uma alavanca pela defesa da Cooperação e dos Direitos Humanos?, Secretário Executivo da CPLP, Eng. Domingos Simões Pereira*.
* A confirmar

 
Para: Assembleia da República

 
CLASSIFICAR O POSTO DE COMANDO DO M.F.A. COMO MONUMENTO NACIONAL

O Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA tem um problema grave desde que foi criado, em 2001: a falta de garantia da sua preservação enquanto espaço de memória do 25 de Abril de 1974. Na verdade, não se trata verdadeiramente de um museu, integrado na rede nacional (nem local) e, em consequência, está dependente do quartel onde está instalado, o Regimento de Engenharia Nº 1 – Pontinha. Se o quartel for desactivado, o NMPC corre sério risco de desaparecer.

É imperioso, portanto, que se faça alguma coisa antes que esse cenário possa ser uma realidade. E mesmo que não se perfile no horizonte – como já se perfilou seriamente –, há que dignificar aquele espaço como merece. A melhor forma de afastar definitivamente esse perigo e de o dignificar é classificar o Posto de Comando como imóvel de interesse nacional ou de interesse público. Nenhuma autoridade pública manifestou a intenção de o fazer: quer os poderes locais, quer os poderes centrais, sempre se mantiveram à margem do problema. Resta o poder dos cidadãos. Só um significativo movimento cívico poderá forçar quem de direito a cuidar deste património tão simbólico para a conquista da democracia e da liberdade proporcionadas pelo MFA.

É essa a finalidade desta petição a apresentar à Assembleia da República, com o objectivo de os deputados tomarem todas as providências necessárias à preservação e dignificação do edifício onde se instalaram os militares que comandaram as operações do 25 de Abril, garantindo a classificação do Posto de Comando do MFA como “Monumento Nacional” ou “Tesouro Nacional”, de acordo com a Lei do Património (Lei nº 107/2001 de 8 de Setembro).

Assine a Petição AQUI.

Divulgue-a.

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A recordar:

 

Esta carta foi hoje enviada ao presidente da CML, António Costa, a cada um dos vereadores – Helena Roseta, Manuel Salgado, José Sá Fernandes, Catarina Vaz Pinto, Manuel Brito, Fernando Nunes da Silva, Maria João de Azevedo Mendes, Graça Fonseca, Pedro Santana Lopes, João Navega, Lívia Tirone, Gonçalo Reis, Dina Vieira, Victor Gonçalves, António Carlos Monteiro e  Ruben de Carvalho – e à presidente da Assembleia Municipal, Simonetta Luz Afonso.

   
Exmº  Senhor
Presidente da Câmara Municipal de Lisboa

Dr. António Costa:
Como é  certamente de seu conhecimento, a placa que recordava os quatro jovens ali assassinados no dia 25 de Abril de 1974, afixada por um grupo de cidadãos na ex-sede da PIDE/DGS, na R. António Maria Cardoso, foi retirada no início das obras visando a transformação da sede da antiga polícia política em condomínio de luxo.

Recentemente, e após alguns protestos – entre os quais o da Associação – Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! – veio a ser colocada em local envergonhado e de pouca visibilidade, no que consideramos um profundo desrespeito pela memória dessas vítimas, pela vontade dos cidadãos que ali a tinham colocado e pelo povo de Lisboa e seus representantes, que ali a tinham preservado.

Em outros países, honra-se a memória dos que lutaram pela Liberdade, os seus nomes tornam-se nomes de ruas, antigas prisões e sedes das polícias políticas são mantidas como Museus. Choca-nos ver que em Portugal, pelo contrário – e com a prometida excepção da cadeia do Aljube, prevista para albergar o futuro Museu da Resistência – se permite que essa memória seja assim desrespeitada.

Dir-se-á  que exigir o regresso da placa ao seu local de origem é prender-se demasiado a um símbolo. Mas, sobretudo neste ano em que se comemora o Centenário da proclamação da República, vale a pena lembrar a importância de um outro símbolo na manutenção da memória dos heróis dessa República tão vilipendiada pelo Estado Novo, a estátua a António José de Almeida junto à qual os antifascistas se manifestavam, enfrentando a repressão, em cada 5 de Outubro.

Por isso, vimos solicitar a sua intervenção para que a placa com os nomes de Fernando Gesteira, José Barrento, Fernando Barreiros dos Reis e José Guilherme Arruda volte ao lugar de onde foi retirada, permitindo aos que ali passam recordar não apenas esses mortos pela Liberdade no dia 25 de Abril de 1974, mas também todos aqueles que, no mesmo local e ao longo de anos, enfrentaram a prisão e a tortura, armados apenas pela força das suas convicções.

Melhores cumprimentos.

Pel’ A Direcção da Associação – Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!
Lúcia Ezaguy Simões
Vice Presidente da Direcção

Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

As atitudes da administração dessa empresa em todo o processo da placa evocativa da morte de cidadãos às mãos da PIDE/DGS revelam uma total falta de respeito e um humilhante desprezo não só por aqueles que foram assassinados na tarde de 25 de Abril, os únicos, aliás, como por todos os que passaram pelas salas de interrogatório da sede da PIDE. E não foram poucos os que por aí passaram, de intelectuais a camponeses, de operários a estudantes, homens e mulheres. Esse edifício tem uma longa e triste memória ao serviço da morte, da tortura e da humilhação daqueles que lutaram para que em Portugal houvesse um regime democrático. Mas nós, e digo nós porque fui dos que por aí passaram, apesar de conscientes de que desse regime viriam a beneficiar indivíduos como os que ocupam a administração dessa empresa, não desistimos dessa luta. Como não desistiremos de vos lembrar que nos mesmos locais que agora são salões, salas e quartos, se faziam interrogatórios onde se praticava a tortura do sono e da estátua. E não deixaremos que queiram agora apagar a memória desses dias, escamoteando a verdade sobre o antigo condomínio privado da PIDE, agora condomínio habitacional. Junto o meu protesto ao de todos os cidadãos que requerem dignidade para a placa evocativa dos acontecimentos do dia 25 de Abril.
Artur Pinto
ex-preso político

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Exma. Administração do GEF:

Em primeiro lugar, peço-vos desculpa pelo clássico “Exma.”, mas ainda fica bem, independentemente do nível de excelência ser inexistente.
A atitude do GEF traduz não uma ígnara provocação política mas aquela pertinaz ignorância da História e cobarde alinhamento com as chamadas forças dominantes que caracterizou e caracteriza a esmagadora maioria dos pequeninos gestores portugueses. Por isso estamos na posição em que estamos no espaço europeu.
Creio que estão à espera que todos os recursos legais, das (demasiadas vezes tão lamentável) governações local e central e da mobilização popular (bem difícil de induzir, V.V.Exas. sabem) sejam utliizados.Fica por mim assinalada a vossa inteligência.
Espero que um assomo de decência e bom senso, coisa indisponível mesmo nos melhores centros comerciais, seja introduzido no precioso tempo das vossas decisões, no caso de considerarem a sua vantagem, sei que meramente táctica.
As maiores felicidades para os vossos bons empreendimentos.
Maximiano Gonçalves

O Jorge Martins divulgou agora uma curta versão sonora dos acontecimentos. Aqui fica outra.

 

 
Habituados que estamos a imagens, OUVIR coloca-nos num outro patamar de indignação – pelo menos no que me toca.

Sobretudo quando, em Janeiro de 2010, ainda não se conseguiu que a GEF, empresa imobiliária responsável pelo actual condomínio de luxo, reponha a placa com os nomes dos mortos do dia 25 de Abril no seu local de origem – aparentemente, porque este se encontra perto da porta principal por onde entrarão os moradores e as suas ilustres visitas.

 
Um texto de Jorge Martins (*)

 
Aconteça o que acontecer, a história que originou a famigerada placa da sede da PIDE está bem documentada. Não há meio de apagar a memória do último acto daquela criminosa polícia política, perpetrado no próprio dia da conquista da Liberdade.

O registo sonoro da manifestação popular na rua António Maria Cardoso e da tomada das instalações da PIDE pelo MFA aí está para memória futura. O assassinato dos quatro manifestantes e o grito uníssono de “Morte à PIDE!” não deixam dúvidas do que foi aquela polícia e do legítimo ódio que gerou na população.

Brevemente, vamos comemorar o 36º aniversário do 25 de Abril e o que se tem feito pela memória da ditadura é incomparavelmente menos do pouco que se tem prometido. Como de costume, os bons exemplos estrangeiros não sensibilizam os nossos governantes. Quando será que o Ministério da Cultura assume a memória dos crimes da ditadura e da pertinaz resistência antifascista? Será politicamente incorrecto recordar o nosso passado negro? Será que se contenta com umas encomiásticas comemorações do centenário da República?

E o Ministério da Educação, o que tem feito? Substancialmente, nada mais do que o Ministério da Cultura. Já não bastava a pouca importância que se dá ao estudo da ditadura nos nossos programas escolares de História do ensino básico e secundário, como nos confrontamos com o alheamento face à opinião pública sobre as últimas questões relacionadas com a memória da ditadura: a desonrosa transformação do edifício da PIDE num condomínio de luxo, em vez de um museu da PIDE e da resistência; o silêncio e a inércia quanto à construção de uma pousada na Fortaleza de Peniche, em vez da edificação de um exemplar espaço de memória das prisões do regime; o desinteresse por qualquer iniciativa em relação aos Tribunais Plenários.

Aconteça o que acontecer à placa da sede da PIDE, aqui fica o registo sonoro dos acontecimentos ocorridos na rua António Maria Cardoso no dia 25 de Abril de 1974. E para que não se apague a memória da PIDE, afixem a vossa placa na blogosfera, porque, como cantava Francisco Fanhais: “É preciso avisar toda a gente!”.

 

 

(*) Biografia de Jorge Martins

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Exmos Senhores
A construção dum condomínio no prédio da R. António Maria Cardoso, que foi sede da P.I.D.E, constitui, objectivamente, um desafio à memória e à inteligência de todos os anti-fascistas . Noutras geografias, noutras arenas políticas, essa construção já estaria reduzida a cinzas! As cumplicidades que tornaram possível esta existência não lhes confere, a uns e a outros, a prerrogativa de provocarem, indefinidamente, as pessoas decentes deste país. Queria apenas recordar-lhes que nesta indignação estão incluídos cidadãos que sofreram na carne a repressão fascista e que não permitirão, seguramente, que um punhado de saudosistas agite a bandeira da provocação pidesca.
Cumprimentos
Agripino Almeida

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Exmºs Senhores,

Associo-me a todos os cidadãos que têm demonstrado a sua preocupação pela colocação no prédio V propriedade, da placa, em lugar e de forma bem visível, respeitante à identificação do prédio como o local da sede da antiga polícia política, assinalando, para além desse facto, os acontecimentos ali ocorridos no 25 de Abril.

É o mínimo para respeitar a memória dos resistentes que por ali passaram e dos que morreram ao celebrar a Liberdade.
José Vera Jardim

  
Exmos. Senhores,

Junto-me aos inúmeros cidadãos indignados pela vossa atitude de procurar, embora de uma forma fugidia e digna de Tartufo, esconder a placa de homenagem às últimas vítimas da PIDE.
A vossa empresa sentir-se-à, talvez, temerosa de que a exibição desse lembrete dos tempos pesados da ditadura prejudique a a sua imagem; não seria o caso, uma vez que julgo muito difícil associar o vosso aos nomes das vítimas dos estertores do fascismo moribundo. Pelo contrário, a divulgação pública da vossa rasteira tentativa e da eventual recusa em a corrigir é que redundarão em desprestígio.
Exorto-vos, por isso, a recolocar a placa em local bem visível e digno da memória que teimamos em preservar.
António Russo Dias
Diplomata

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Exmos Senhores:

O regime democrático em que vivemos, se por um lado é campo de oportunidades para livre desenvolvimento de actividades lucrativas como a vossa, é também um quadro de valores de que ninguém está dispensado. A preservação da memória e da história que possibilitou esta mesma democracia é um deles e, seguramente, dos mais desprezados e negligenciados.
Não vamos exigir de uma empresa de construção que se substitua às entidades oficiais no cumprimento desse ‘dever de memória’, o que seria tão louvável e meritório quanto inédito! Mas podemos e devemos exigir, em nome da mais estrita ética democrática que a vossa empresa cumpra os mínimos, isto é, respeito por um compromisso: o da colocação de uma simples placa evocativa do último de uma negra lista de crimes da PIDE.
O vosso comportamento, contudo, denota um entendimento oportunista e hipócrita desse mesmo compromisso, o que só nos pode causar a mais viva revolta e indignação. Por isso me junto aos muitos cidadãos que exigem a recolocação da referida placa no local inicial.

Maria Manuela Cruzeiro

Investigadora do Centro de Documentação 25 de Abril e do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

  
Sabemos que a preservação da memória da resistência não tem sido uma prioridade do poder político (nas suas várias composições) saído da revolução.

As estratégias de branqueamento dos seus episódios mais sombrios como que prolongam a política de silêncio e invisibilidade dos tempos da ditadura. O descuido, a desatenção e o desinteresse sistemático para com as marcas desse passado recente são tragicamente visíveis no que respeita, justamente, aos locais da repressão. Hoje lugares destruídos, desfigurados ou definitivamente transfigurados.

Se não vejamos: a cadeia da PIDE do Porto foi transformada em Museu Militar. O Reduto Norte do Forte de Caxias continua, segundo penso, prisionalmente operacional (obviamente para presos comuns). A Prisão do Aljube, já destruída no seu traçado anterior, e depois de alguns anos ocupada pelo Instituto de Reinserção Social, é actualmente propriedade da CML, para futuras instalações do reclamado Museu da Resistência. Seria a única boa notícia neste quadro desolador, mas a experiência, infelizmente, não nos autoriza o mínimo optimismo. E, mesmo fora do território nacional o tristemente célebre campo do Tarrafal, se para os portugueses com mais de 40 anos significava ‘campo da morte lenta’, para os mais jovens virou sinónimo de turismo, pesca e praia…O mesmo que, suspeito, acontecerá a prazo com o Forte de Peniche, cujo complexo e polémico processo de reconversão em pousada tem sido amplamente discutido (especialmente na NET e particularmente neste blog) mas também esporadicamente na imprensa escrita, quando, é certo, escasseiam notícias de maior impacto mediático e mais premente actualidade. Assim sendo, desconheço os últimos lances do conturbado dossiê, mas temo não se vislumbrar qualquer solução que não ceda à implacável lógica economicista, e ao rolo compressor do negócio imobiliário…para mais de luxo…

O caso da sede da PIDE na António Maria Cardoso, com mais eficácia e espírito empreendedor o testemunha e aí está, em todo o seu esplendor, um magnífico complexo habitacional, destinado a gente sem memória, que é meio caminho andado para a felicidade… ou pelo menos, sem más memórias, atendendo à promoção comercial dos apartamentos, disponível no site do empreendimento que, cirurgicamente esconde a história recente, para se fixar na história dos moradores nobres até ao séc XVII. Les bons esprits se rencontrent…

Daí que, face ao lamentável e grotesco episódio da placa, haja dois tipos de atitude e, também dois tipos de interlocutores, de acordo com as suas responsabilidades específicas: a primeira, digamos de baixa densidade, consiste em confrontar a empresa em questão com um compromisso que assumiu. É uma questão de ética… empresarial se quiserem… supondo que isso existe…

A segunda, de alta densidade, é também ética, mas agora política. E consiste em confrontar, de novo, (e tantas vezes quanto necessário) os governantes deste país (nomeadamente o Ministério da Cultura) com as suas responsabilidades na defesa e transmissão da nossa memória colectiva. Denunciando que a fuga a esse compromisso é um crime contra o passado de luta e resistência, sem o qual eles nem sequer existiam.

Daí o apelo do Miguel Cardina que subscrevo na íntegra: «Guardem alguma coisa para o que der e vier. É que alguma coisa está mal num país que aprova em 2008 uma resolução que vincula o Estado ao ‘dever da memória’ e depois convive com placas desaparecidas, antigas cadeias políticas em vias de se transformarem em pousadas de luxo, e museus e arquivos sem dinheiro para funcionarem

A defesa da memória e a indignação pelo seu apagamento não se podem encolher tanto que caibam numa simples placa.

A ler aqui.

Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

  
À Administração da GEF
Ex.mos Senhores

Não aprecio excessivamente as placas comemorativas, mas aprecio muito menos as construções imobiliárias, por mais belas e confortávies que sejam, destinadas a uns quantos, nos sítios mais significativos das cidades, onde todos os que fazem essas cidades, se quisessem, poderiam viver, mas não podem.

Acho que a memória se constrói e destrói todos os dias de forma digamos que «natural», mas que há formas de a destruir ou reduzir) prepotentemente, o que só podem fazer aqueles que têm ou julgam ter poder, em nome de um futuro fabricado para esses mesmos «uns quantos» que poderão viver, se quiserem, nas zonas a que só uns podem ter acesso, e não todos, como o dia indicado na placa em questão parecia apontar  – e apontava mesmo.

Por isso me indigno quando acontece que, para uns quantos terem lucros que não consigo avaliar, e uns quantos (os mesmos ou outros) terem vidas que julgam melhores (e que não o serão necessariamente), isso se faça à custa do esquecimento (ou desvalorização) de coisas que houve (e não foram inventadas), bem diferentes das lembranças obrigatórias das dívidas aos bancos e ao fisco, mais ou menos necessárias para habitar nos lugares melhores.

Ou seja, que, neste caso, se passe um risco fácil sobre mortes (retirando ou deslocalizando uma placa), mortes que não aconteceram por acaso. Mortes de gente que queria que a História desse um salto e, com a morte, deixou de o poder querer. Mortes com autor, feitas por gente que não queria mudar a direcção da História passada, que era indubitavelmente a da opressão, do silêncio, do martírio, da pobreza.
De que parecia termo-nos vistos livres. Mas que, com gestos «ligeiros» como este, parece tentar regressar.

Será que os lucros (de quem vive disso) diminuem necessariamente só porque se «alivia» a via pública, mudando de lugar uns nomes e uns factos, que para muitos outros (que não vivem dos lucros) são determinantes do que vivem há mais de 30 anos e do que outros (mais novos) começaram (com dificuldades várias) a viver?
Eduarda Dionísio

Comunicado do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!

Sobre a placa evocativa das últimas vítimas da ex-PIDE/DGS no edifício onde se situava a sua sede, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa.

Lisboa, 7 de Janeiro de 2010

Em conversa havida hoje, por telefone, com o Dr. Fernando Gomes do GEF – Gestão de Investimentos Imobiliários, reiteramos a  posição da direcção do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! de que a placa evocativa das últimas vítimas da ex-PIDE/DGS deveria voltar a ser afixada no mesmo lugar de onde fora retirada antes do início das obras.

O  Dr. Fernando Gomes disse compreender a posição do NAM, mas que não podiam ser obrigados a pôr a placa onde entendêssemos e que se fosse colocada num local visível em nada estariam a desrespeitar a memória, indo nesse sentido, aliás – afirmou – muitos dos mails que o GEF (gef@gef.pt) tinha  recebido.

Solicitou, por fim, que a posição do NAM lhe fosse transmitida por escrito, após o que dariam uma resposta.

Pel’A Direcção do NAM

Raimundo Narciso

 
Um texto de Jorge Martins (*)

Na sequência das crónicas que tenho publicado sobre o Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA e considerando que aquele espaço de memória está subaproveitado, pois continua a fazer as mesmas coisas desde que foi criado há 8 anos, a saber: visita de estudo com passagem pela exposição e visionamento do mesmo excerto do filme da SIC “A Hora da Liberdade”, resolvi, entre outras propostas organizativas, programáticas e dinamizadoras, elaborar um conjunto de fichas de trabalho, destinadas aos professores (principalmente os de História).

Este tipo de projectos sempre esteve na mente da direcção da Associação «Não Apaguem a Memória», pelo que é sob os seus auspícios que são lançadas no «Caminhos da Memória», que passa a disponibilizar um modelo de ficha para o 4º,  6º, 9º e 12º anos, em PDF, que se pode descarregar livremente e ser aplicada aos alunos desses anos curriculares em que o 25 de Abril é estudado nas escolas.

As fichas foram concebidas para que cada aluno faça o seu próprio estudo da importância do Posto de Comando no 25 de Abril e conheça factos e personalidades decisivas para o sucesso da revolução. Procurou-se aumentar o grau de dificuldade, à medida que a ficha se destinava aos níveis curriculares mais elevados. Mas, somo os alunos, as turmas e as escolas não são todos iguais, qualquer professor pode usar questões das fichas previstas para os outros anos, retirar ou acrescentar perguntas. Obviamente, os alunos também podem descarregar as fichas e usá-las autonomamente, assim como qualquer visitante.

Estas são as primeiras fichas, pois já estão a ser concebidas outras fichas complementares, com sugestões de trabalho de pesquisa individual (designadamente na Internet) e trabalhos de grupo (por exemplo, apresentações em PowerPoint). Os anos curriculares estão identificados do seguinte modo: 1- 4º ano; 2- 6º ano; 3- 9º ano; 4- 12º ano.

Sugestões e críticas são bem-vindas.

 
(*) Biografia de Jorge Martins

Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

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À Administração da GEF

Não me abono de outra condição, para além da de ter sido um dos dez milhões de portugueses a quem a ditadura salazarista pretendeu calar a vocação para a liberdade e a emancipação, para reclamar o direito à indignação e a concluir que:
a) – os que hoje temem confrontar-se com a memória daquilo que foi quase meio século de obscurantismo salazarista, são os herdeiros históricos dos que constituíram a sustentação social activa desse tempo de ignomínia;
b) – como inimigo de hoje, não me merecem outro respeito para além daquele que é devido ao inimigo;
c) – por mais placas que ocultem, jamais serão capazes, como não o foram os seus ascendentes, de tapar a placa que nasce todos os dias na consciência de cada homem, como sinal da sua vocação para a liberdade, e de tudo aquilo que o conceito, no seu sentido mais terreno, também encerra: direito e obrigação de participar na actividade do colectivo humano através do instrumento de que se encontra dotado – a capacidade de trabalho – e a usufruir dos bens, para o corpo e para o espírito, em condições de igualdade com os demais, que a sua actividade produz.
nelson anjos

 
Exmos, Senhores,

É profundamente lamentável a ocultação da placa da PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso. Por um lado, denota a insensibilidade cultural do tecido empresarial e, por outro, desrespeita a memória dos portugueses e a sua História. Se o argumento economicista-comercial é o do receio que a referência afaste compradores ou inquilinos, então é ainda mais triste este atentado contra o património etnológico português, reflexo de um provincianismo serôdio da nossa cultura empresarial que persiste em resistir à elevação e insiste numa tradicional postura de ocultação, símbolo do medo que não queremos esquecer, enquanto povo, pela manipulação cruel que dele se fez no passado e que recusamos reeditar. Não se pode ocultar a História nem a verdade senão para efeitos imediatos de rentabilização de uma reserva mental que elimina a cultura a troco de um lucro que também a História dará a conhecer.
Esperamos, apesar deste infeliz episódio, que vença a elevação de uma cultura empresarial que o Centro Histórico de Lisboa merece e que a sociedade portuguesa justifica. Devolvam à cidade a sua memória e recoloquem dignamente na Rua António Maria Cardoso o testemunho de reconhecimento nacional por um sofrimento que não queremos, nunca mais!, ver repetido!
Com os melhores cumprimentos,
Ana Paula Fitas

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Exmos. Senhores,

Na sequência da notícia sobre a forma como a vossa empresa tratou o compromisso, estabelecido com o movimento «Não Apaguem a Memória!», de manter, no prédio da Rua António Maria Cardoso que foi sede da antiga PIDE-DGS, a placa evocativa das últimas vítimas da corporação que serviu de braço repressivo ao regime autoritário derrubado em Abril de 1974, venho exprimir o meu mais veemente protesto pela decisão de colocarem em local praticamente imperceptível a referida placa. Para além de uma grande falta de respeito para com a memória de pessoas que sofreram ou deram a vida pela democracia, esta atitude traduz também um claro menosprezo pela essência de um regime democrático que permite hoje, justamente a empresas como a vossa, exercerem a sua actividade num país sem medo e, para muitos, com uma qualidade de vida sem a qual a actividade imobiliária e de lazer que invocam seria impossível.
Aguardando atentamente que o compromisso seja honrado, envio os meus cumprimentos.
Rui Bebiano

 
Ex.os Senhores.

Acordei tarde para este problema, quando o vosso condomínio de luxo está pronto, ou poderia ter sido o último combate da minha vida, mas tudo faria para que não existisse.
Agora é facto consumado e ainda assim escondem não só o passado mas uma mísera placa que tenta recordá-lo. Reponham-na onde estava ou terão muitos amargos de boca.
Cumprimentos
Teresa Salvaterra

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Ex.mos Senhores,

Indignação é a primeira mas infíma palavra para o que sinto e penso.
Se o esquecimento é inadmissível, a sobranceria e a brutalidade implícitas na localização actual da placa fazem-me pensar que o vocabulário escasseia para qualificar a situação.
Não se pode permitir que a placa que um “grupo de cidadãos” mandou fazer seja assim retirada e assim colocada!
É preciso dar a conhecer o que se passou!
O mínimo que podem fazer, para já, é recolocá-la no local de onde a tiraram
Luísa Tiago de Oliveira

 
Exmos senhores:

Acabo de deixar no endereço que abaixo refiro uma carta aberta que vos é dirigida, de que extraio apenas algumas poucas palavras que vos envio neste mail. Escrevi-a com indignação pelo acontecido, sob a vossa responsabilidade, num espaço simbólico da memória recente do nosso País. Sendo embora pesada a sua história, deve ser recordada. O Paço do Duque foi erguido sobre escombros da ditadura. Os quatro jovens mencionados na placa nunca chegaram a saber o que era viver em Democracia. Foram muitos milhares os portugueses que ali foram interrogados e torturados, que permaneceram noites e noites submetidos a espancamentos e a torturas. Alguns deles ainda se emocionam quando passam naquele local. Estou entre esses. Não evoco o meu passado de resistente anti-fascista para reclamar a reposição imediata da placa em lugar condigno, ou para reclamar a edificação de um memorial. Mas lembro-me daqueles que já partiram e penso que a sua memória assim o exige. E exige respeito. Respeito que passa, também, pelo recato, pela discrição: a empresa imobiliária do “Paço do Duque” devia ter tido o bom senso do recato na publicidade que faz dos apartamentos de luxo. Não teve. Devia, ao menos, respeitar o compromisso assumido com o NAM e colocar a placa em sítio visível. Vamos esperar.
P.S. O endereço referido é este
Com cumprimentos
Maria Helena Pato

Iniciamos hoje a publicação de cópias que nos foram enviadas, de mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

 
Ex.mos Senhores,

Sou um dos muitos milhares de cidadãos que atravessaram os portões do agora condomínio de luxo quando esse edifício, no tempo da ditadura, servia de antro policial onde se prendiam, torturavam e assassinavam os que lutavam para que a liberdade e a democracia fossem bens comuns e vulgares no nosso país. Para um povo adulto, com história e memória, para qualquer cidadão decente, esse espaço, marcado pela ignomínia do livre arbítrio de criminosos que então faziam lei, devia merecer, no mínimo, respeito para com as vítimas dos esbirros da ditadura.
A vossa atitude de primeiro retirarem a placa evocando as últimas vítimas da PIDE e depois, acintosamente, a recolocarem “discretamente” de forma imperceptível, é um acto gratuito e ofensivo de prolongarem, agora ferindo a memória das vítimas, a acção da PIDE contra os combatentes pela liberdade. Nós, os que fomos vítimas da PIDE e todos os que não querem que Portugal seja habitado por um povo sem história nem memória, não vamos ficar calados nem inactivos. De todas as formas pacíficas e cívicas, mas decididas, não calaremos o nosso protesto nem a denúncia sobre as forma cínica como hoje pretendem fazer esquecer e branquear a PIDE e os seus crimes. Contem com isso, para vossa reflexão. A vossa ganância pelo lucro não pode, não vai, quebrar a defesa da história da liberdade neste país que implica a recordação para as gerações mais novas, do terror e da opressão que, durante décadas, nos oprimiu.
Com os melhores cumprimentos.
João Tunes

 
Em virtude do assunto em apreço dizer respeito à GEF – Gestão de Fundos Imobiliários, SA, sugiro uma visita ao link abaixo.
Com os melhores cumprimentos,
Miguel Cardina
(mais…)

Expressámos, hoje, por telefone, ao Dr. Fernando Gomes da GEF – Gestão de Investimentos Imobiliários, a nossa indignação pelo não cumprimento da promessa que nos havia sido feita de que a placa evocativa das últimas vítimas da ex-PIDE/DGS seria colocada no mesmo lugar de onde havia sido retirada antes das obras.

Foi-nos dito que iriam averiguar o que se tinha passado e que, por razões da quadra festiva, voltássemos a contactar a empresa no próximo dia 4 de Janeiro.

Deixámos claro que não nos resignaríamos com a alteração do local de afixação da placa, que têm sido inúmeros os protestos contra as tentativas de apagamento da memória daquele sinistro local, sendo certo que iríamos lutar, por todos os meios ao nosso alcance, para manter viva a memória de tantas portuguesas e portugueses que lutaram e morreram pela liberdade.

 
Na fotografia, a placa tal como está agora colocada.

Dado que a carta enviada pela direcção do movimento «Não apaguem à Memória»  à empresa GEF-Gestão de Fundos Imobiliários, SA, responsável pelas obras do condomínio de luxo no edifício ex-sede da PIDE/DGS, recebida a 4 de Dezembro p.p., para pedir explicações sobre a retirada da placa evocativa das últimas vítimas da PIDE não obteve resposta, contactámos por telefone, no passado dia 16, a administração da empresa.

Na conversa havida com o Dr. Fernando Gomes, membro do Conselho de Administração da GEF, deixámos claro que se não houvesse uma resposta favorável à nossa exigência de recolocação da placa, desencadiaríamos uma série de acções de protesto que seriam definidas na reunião de Direcção do NAM agendada para ontem, 17 de Dezembro.

Fomos informados pela administração da empresa, pouco antes do início da nossa reunião, que a placa seria recolocada no mesmo local de onde fora retirada, alegamente apenas por motivos de obras, dentro de 4 ou 5 dias.

A direcção do NAM decidiu aguardar até ao fim deste mês o cumprimento desta promessa.

(Será enviado ligação para este texto à empresa GEF)

De um comunicado do movimento «Não apaguem a Memória»:

«Quando, no ano passado, em 29 de Outubro, organizámos na Assembleia da República o colóquio internacional «Tarrafal uma prisão dois continentes», Edmundo Pedro propôs, com o apoio da direcção do NAM, que essa data fosse escolhida como o Dia da Memória dos Resistentes e das Vítimas da Ditadura. Esse foi, em 1936, o dia da abertura do campo de concentração do Tarrafal e da entrada nele do primeiro contingente de presos políticos idos de Portugal. 

Para lembrar aquele acontecimento histórico, e a luta contra a ditadura em geral, a direcção do NAM realizará, na Fundação Mário Soares (Rua de S. Bento em frente à Assembleia da República), na próxima 5ª feira, dia 29 de Outubro de 2009, às 21 horas, uma sessão com a apresentação do documentário «Há 70 anos, o Tarrafal», de Fernanda Paraíso, seguido de debate.

Aljube

No passado dia 25 de Abril, foi celebrado um Protocolo entre os Ministérios das Finanças e da Justiça, pelo qual a Câmara Municipal de Lisboa assumiu a posse da antiga cadeia do Aljube, onde virá a ser sediado o futuro Museu Municipal dedicado à República, Resistência e Liberdade.

No mesmo dia, foi assinado um segundo Protocolo, desta vez entre o Município de Lisboa e o Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória (NAM), cujo texto se divulga na íntegra e do qual se destaca:

«- Em concordância com esse empenho na salvaguarda da memória, nomeadamente através da dignificação daqueles locais cujos nomes foram sinónimos de opressão, de brutalidade e também de heróica resistência, a Câmara Municipal de Lisboa assumiu o compromisso de colaborar na produção de um Memorial às vítimas da ex – PIDE/DGS;

– Simultaneamente, o NAM, em parceria com o Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e do Arquivo e Biblioteca da Fundação Mário Soares, propõe a realização no espaço do Aljube, entre 25 de Abril de 2010 e 25 de Abril de 2011, da exposição “A Voz das Vítimas”, integrada nas Comemorações do Centenário da República;

– Competindo à Câmara Municipal de Lisboa fomentar e apoiar, pelos meios adequados, as actividades desenvolvidas no domínio social e cultural, a realização da exposição “A Voz das Vítimas” reveste-se de manifesto interesse municipal porquanto contribui de forma significativa para a reflexão e a divulgação dos valores da República, da memória da resistência à ditadura e da liberdade conquistada em 25 de Abril de 1974;»

Protocolo CML - NAM sobre Aljube

Nos últimos dias têm vindo a lume diversas notícias anunciando a mudança dos tribunais a funcionar na Boa-Hora para o Parque das Nações e a cedência do edifício para «hôtel de charme». 

 Assim, depois da passagem a espaço burocrático da antiga prisão política do Aljube, da transformação da sede da PIDE em condomínio de luxo, da proposta de fazer uma pousada no forte de Peniche, chegou a vez do Tribunal Plenário de Lisboa. Apesar das boas palavras e resoluções da Assembleia da República, parece não poder haver dúvidas de que a memória da luta antifascista é algo que, para lá de não se querer preservar, se pretende destruir. 

Dizem-nos que não é por fazer da PIDE um condomínio, de Peniche uma pousada, da Boa Hora um hotel que a memória da resistência antifascista desaparecerá.

Ora não é o temor de que a alteração física dos edifícios leve ao esquecimento que nos leva a protestar pela sucessiva entrega desses lugares de memória da resistência a projectos imobiliários. O que nos preocupa é o sinal que isso envia às novas gerações, que não viveram a luta antifascista. O que nos preocupa é que a facilidade com que se destroem símbolos lhes comunique uma ideia de desinteresse por uma luta que está na base da democracia em que vivemos, ou, mesmo, de complacência para com a ditadura.

O que nos preocupa é só conseguirmos compreender esse desinteresse pela memória da resistência como um sinal de vitória póstuma da ditadura. Ou seja: como um desinvestimento na democracia. O que nos confunde tanto mais quanto ao mesmo tempo se preparam, com pompa e circunstância, as comemorações do Centenário da República. 

Insistimos, por isso, na necessidade de recordar, na António Maria Cardoso, que ali sofreram e morreram diversos antifascistas; de recusar a transformação de Peniche e da Boa-Hora em unidades hoteleiras; de preservar o Aljube e criar, ali, o Museu da República e Resistência.
 
 
A Direcção do NAM