Livros


Comboio da Memória

Depois de em 2005 ter publicado Pós-Guerra, Tony Judt passou a ser um dos historiadores do mundo contemporâneo mais conhecidos fora dos circuitos universitários. Mas O Século XX Esquecido, editado posteriormente, aproxima-se mais de The Burden of Responsability, lançado em 1998, um livro sobre a tradição intelectual francesa do período inaugurado com a vitória dos aliados que se inscreve num dos interesses estáveis de investigação de Judt. A edição portuguesa omite a palavra que se destaca no título original – Reappraisals, reavaliações – e é pena que o tenha feito, pois o volume, agrupando 23 ensaios escritos entre 1994 e 2006, propõe justamente uma série de olhares bastante originais, apoiados por uma excelente capacidade de argumentação e apresentados sob a forma de regressos, de releituras, a realidades relativamente recentes que a vertigem da «era do esquecimento» se tem encarregado de suprimir.

Do conjunto emergem duas preocupações maiores de Judt. A primeira enfrenta o «desaparecimento do intelectual» como instrumento de uma consciência crítica do seu tempo, cuja herança não está garantido que sobreviva às mudanças actualmente em curso. A outra diz respeito à aceleração dos processos de esquecimento do passado e de instrumentalização da memória. Ambas atravessam as quatro partes nas quais os ensaios escolhidos foram arrumados. A inaugural apresenta um conjunto de viagens ao «coração das trevas», olhando de perto a trajectória de intelectuais que de diferentes maneiras se confrontaram com a experiência totalitária: Arthur Koestler, Primo Levi, Hannah Arendt e o agora quase esquecido Manès Sperber, inequivocamente observados com um respeito enorme pela dificuldade extrema das suas escolhas e do seu trabalho solitário. Já a segunda parte, ocupando-se do «compromisso intelectual», regressa de uma forma crítica e bastante original à obra de Albert Camus, Leszek Kolakowski, Edward Said, Eric Hobsbawm, Louis Althusser e Karol Wojtyla, os dois últimos glosados de um modo particularmente cáustico.

Nas terceira e quarta partes intervêm outros interesses de Judt, que vão da história política e cultural da Europa a partir do pós-Segunda Grande Guerra, narrada ponderando a relação das diferentes experiências nacionais com os seus diversos «lugares da memória» – apropriando-se aqui do conhecido conceito lançado por Pierre Nora – à evolução da sociedade americana desde os tempos duros da Guerra Fria aos anos de George W. Bush e da vertigem neocon. Pelo meio dois importantes artigos relativos à história de Israel – onde Judt, de ascendência judaica, viveu parte de uma juventude militante e idealista envolvida na experiência inicial dos kibutzim – , contendo a crítica de uma arrogância belicista que não parou de crescer a partir da Guerra dos Seis Dias (1967), bem como a defesa de um «Estado binacional». Posições que lhe valeram o ódio e actos de vindicta por parte de organizações judaicas, em particular algumas das sediadas nos Estados Unidos. Quase sem momentos fracos, O Século XX Esquecido é um livro soberbo, cuja leitura nos pode ajudar bastante a decifrar o presente que nos cabe viver.

Tony Judt, O Século XX Esquecido. Lugares e Memórias. Tradução de Marcelo Felix. Edições 70, 464 págs. [Publicado originalmente na revista LER de Junho]

À Esperade GodinhoÉ este o subtítulo de um livro (*) que resultou de longas conversas à volta da mesa de vários jantares, entre quatro portugueses (três, mais rigorosamente, já que o quarto se naturalizou belga), todos nascidos na década de 40. Todos também emigrantes de longa duração, que começaram por recusar sobretudo a guerra colonial, que foram profissionalmente muito bem sucedidos no exílio e que optaram por continuar a viver até hoje fora do país, embora com ele mantenham ligações mais ou menos frequentes, conforme os casos e as diferentes fases da vida.

Antes de mais, importa realçar, positivamente, esta modalidade de narrativa de memórias em grupo, sob a forma oral, que serve bem os objectivos que os intervenientes se propõem: partilhar e discutir, detalhadamente, experiências e visões diferenciadas do mundo, da Europa e de Portugal, no passado e no tempo presente – longuíssimos diálogos que nos proporcionam uma leitura fácil e agradável, mas que deixam adivinhar que muitas e muitas horas de trabalho se passaram entre o gravador e o papel… 

José Morais (neuropsicólogo), Manuel Paiva (físico), Jorge de Oliveira e Sousa (politólogo) e Amadeu Lopes Sabino (advogado) nunca chegam a encontrar-se com «Godinho» , o misterioso personagem que, ironicamente, está na origem do título ao livro. Dos quatro testemunhos, os dois mais interessantes são, no meu entender, o de José Morais que nos dá um fidelíssimo retrato das vicissitudes por que passou como membro do Partido Comunista (até dele sair e depois emigrar) e, principalmente, o de Amadeu Sabino.

Complexo é o percurso deste ex-PC, depois MRPP, UDP de passagem, hoje liberal assumido, europeísta com um entusiasmo que nem parece deixar lugar para quaisquer reservas quanto à actuação da Comissão Europeia (onde, aliás, é alto funcionário). O seu testemunho ilustra bem o que foi a segunda metade da década de 60, e o início da de 70, para uma parte significativa da juventude estudantil portuguesa, no caso concreto para a que foi seduzida pelo «maoísmo europeu» que era «uma utopia, uma ficção, que nada tinha a ver com o maoísmo chinês», mas que «exerceu uma força e um impulso imensos na revolução das mentes dos que o praticaram» (p. 298).

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Nostalgia

Paul Hollander é um sociólogo americano que deixou a Hungria natal após o esmagamento da revolução antiestalinista de 1956, tendo sido responsável, em conjunto com a jornalista Anne Applebaum, pela edição recente de From the Gulag to the Killing Fields, uma perturbante compilação de testemunhos de ex-prisioneiros políticos dos regimes do «socialismo real» que nos dá um retrato vertiginoso dos patamares desse mundo inferior para o qual estes foram empurrados. Neste O Fim do Compromisso o objectivo é outro, apontando para uma revisitação, apoiada no conjunto alargado de testemunhos autobiográficos, do percurso de quadros comunistas de origem intelectual que após servirem durante décadas os regimes em cujos fundamentos de justiça acreditaram, iniciaram um processo de questionamento das suas certezas iniciais. Mas olhando também aqueles que, no Ocidente, se empenharem apaixonadamente na causa comunista e depois com ela romperam.

Estes processos, individuais e quase sempre solitários, foram inevitavelmente demorados e invariavelmente dolorosos. Demorados pois implicaram uma revisão de convicções, mudanças profundas na vida de quem os viveu, e, no caso de a ruptura ocorrer nos países nos quais os comunistas detinham o poder, riscos pessoais muito elevados que requeriam bastante ponderação. Nas entrevistas feitas pelo autor, a esmagadora maioria dos testemunhos falou, por isso, muito mais da resistência ao desencanto, e das hesitações, do que do exacto momento no qual decidiu consumar a ruptura. Insistindo, recorrentemente, no modo como a teoria do «fim último» tantas vezes serviu para escamotear a desilusão e adiar o corte. Mas foram também processos dolorosos porque produziram quase sempre uma mudança muito profunda na vida de quem os viveu, o isolamento radical do seu dissídio, infamantes acusações de traição, a redução forçada ao silêncio, e, por vezes, graves complicações no que respeitava à sobrevivência material ou à segurança pessoal.

O estudo de Hollander segue em regra uma estratégia discursiva que integra informação segura, confirmada, e reflexão ponderada. Perde todavia um pouco de lucidez quando, no capítulo final, o autor baixa a guarda e mostra uma faceta profundamente anticomunista, revelando alguma incapacidade para aceitar as razões de quem, apesar de tudo, não abjurou totalmente e resistiu à completa desilusão. Eric Hobsbawm, Noam Chomsky, Edward Said e Toni Negri, entre outros, são aí invectivados por, cada uma à sua maneira, terem continuado a sugerir, após 1989, que a «convicção comunista» é algo de imperecível, localizado bem para lá das experiências nefastas do socialismo de Estado e da paralisia dos partidos ortodoxos, mantendo uma dimensão positiva e frequentes vezes atraente.

Paul Hollander, O Fim do Compromisso. Intelectuais, revolucionários e moralidade política. Tradução de Virgílio Viseu. Pedra da Lua, 480 págs. [Publicado originalmente na revista LER de Maio]

imagem14Por ocasião da publicação recente em Portugal de Fantasia Vermelha, de Iván de la Nuez, repesca-se aqui uma resenha feita à data da edição espanhola do livro.

A imagem de Cuba como sinónimo de utopia, festa e liberdade deve-se, em grande medida, ao contexto específico dos anos sessenta e aos debates que então atravessam a esquerda. Cuba representava, simultaneamente, uma afronta veemente ao imperialismo americano e a possibilidade de um socialismo alternativo àquele que era proposto por Moscovo. Como em nenhum outro caso, os intelectuais ocidentais desempenharam um papel fundamental na disseminação deste fascínio pela ilha caribenha. O último livro de Iván de la NuezFantasia Roja. Los intelectuales de izquierdas y la Revolución cubana – fala precisamente deste «cubanismo de uma zona da esquerda ocidental» (p.15), que ainda hoje parcialmente se mantém, agora numa mistura de admiração voluntariosa pelo regime de Havana e de recuperação de temas próprios de um tempo pré-revolucionário.

Iván de la Nuez (n. 1964), um escritor cubano radicado em Barcelona, explora neste texto o fascínio dos intelectuais ocidentais comprometidos com Cuba, obsessão essa que «talvez mereça uma explicação mais psicológica do que política, mais erótica do que ideológica, mais pessoal do que social» (p.11). A viagem é feita através das representações construídas por gente tão diversa como Jean-Paul Sartre, Régis Debray, Giangiacomo Feltrinelli, Oliver Stone, Sydney Pollack, Wim Wenders, Graham Greene, Max Aub, Ry Cooder ou David Byrne. Apesar das profundas diferenças assinaladas, todos eles ajudaram a criar uma ilha paralela, que este ensaio revisita de forma crítica.

O autor esclarece, logo a abrir, que o termo «fantasia» não é utilizado em sentido pejorativo, como uma imagem enganosa, mas sim, na linha de Peter Sloterdijk, como uma «ideia que se faz verdadeira a si mesma, como uma ficção operativa» (p.14). Deste modo, a sedução por Cuba – mais próxima da utopia do que do quotidiano –, foi também a responsável pela criação de ideias que ajudam a explicar a Revolução. Ao mesmo tempo, demonstram um punhado de teorias que pertencem, de pleno direito, à história dos discursos neo-coloniais. Apostadas em aprofundar a crítica ao capitalismo, esta vasta trama de vozes empenhadas raramente esteve interessada em conhecer com profundidade as dinâmicas reais do Terceiro Mundo, como o denunciaram, em tempos e termos diferentes, Conrad, Guevara ou Said.

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tribunais1

Publicado originalmente no blogue Água Lisa

Numa altura em que a Justiça anda, na consideração pública, pelas ruas da amargura (muito por culpa própria, quando procurou ou deixou mediatizar-se), é oportuno que se pare para pensar no percurso que fez para aqui chegar. E, para isso, interessa, desde logo, saber-se de onde veio. Ou seja, em que árvore foi enxertada. Nesse mister, é oportuníssima a edição do volume volumoso sobre como, décadas atrás, se julgavam os “crimes sociais e políticos” ou os “crimes contra a segurança do Estado” numa obra de académicos que documentam até à exaustão e à perplexidade a ignomínia vestida de toga que perseguia e punia a diferença, desde a grossa à comezinha (*).

Desde então, dessa Justiça sumária comandada a partir da polícia, muito foi o caminho percorrido quando as dobradiças do portão da ditadura se partiram. As mulheres, antes disso sujeitas ao ónus do sexo, irromperam pela magistratura dentro. A legislação floresceu e sofisticou-se com nós. A frequência de Direito passou a ser expediente de licenciatura para meio mundo incapaz de escolher vocação. O segredo de Justiça serve para ser violado por acosso de jornalistas desejosos de partilharem incontinências, vendendo-as em papel ou no écran. Hoje, é um cumprimento formal dizer-se que a Justiça é autónoma e um dos pilares da democracia. Resta o caminho urgente de uma reforma e da redignificação da Justiça que a desaproxime da balbúrdia pública e do seu enxovalho, reversos das suas contradições e vaidades. Para isso, primeiro que tudo, tem que converter-se à humildade do respeito.

Excepto para os apostados na morte do Estado, para que o Estado Totalitário se reerga, no modelo Salazar-Caetano ou seu simétrico, a esperança na recuperação da Justiça, enquanto Justiça democrática, tem direito a existir. E esse voto de confiança pode e deve colher-se no percurso feito que este livro oportuníssimo ilumina. Lê-lo é uma lição sobre a escala de entorses, comparando a prova do tempo dos crimes justiceiros com o dos entorses de crescimento. Mas, for favor, não demorem tanto no caminho a caminhar.

(*) – “Tribunais Políticos – Tribunais Militares Especiais e Tribunais Plenários durante a Ditadura e o Estado Novo”; Irene Flunser Pimentel, João Madeira, Luís Farinha e Maria Inácia Rezola, com coordenação de Fernando Rosas. Edição Temas e Debates/Círculo de Leitores.

A Nova EsquerdaPublicado originalmente na revista LER de Março

Celso Cruzeiro é reconhecido principalmente pela sua actividade como advogado e por ter sido um dos rostos principais da «crise estudantil» coimbrã de 1969. Conhece-se-lhe o activismo constante em alguns dos combates da esquerda geralmente não-alinhada, bem como o interesse por uma leitura interpretativa dos episódios de militância pelos quais passou, mas era-lhe até agora ignorado o gosto persistente e actualizado por uma reflexão teórica aprofundada sobre as circunstâncias, as coisas e as causas da esquerda. Este A Nova Esquerda retoma no título a designação utilizada para definir politicamente alguns dos movimentos radicais das décadas de 1960-1970, mas nem por isso se ocupa em excesso com uma busca retrospectiva das referências que naquele tempo moldaram o percurso do autor. Ao invés, a actualização das leituras e dos debates aos quais este se reporta conferem ao livro uma dimensão exemplar, rara entre nós, de adequação do reconhecimento da mudança do mundo ao pulsar mais contemporâneo do pensamento crítico e da intervenção política.

Esta é, no entanto, uma daquelas obras das quais é habitual dizer-se que valem pelo todo. Não é possível lê-la de forma fragmentada, pois resultaria quase indecifrável um discurso erudito que não se compraz com sublinhados ocasionais. Trata-se de facto de um texto denso, consistente, resultante de um trabalho aturado de cerca de treze anos, através do qual Celso Cruzeiro conduz o leitor por quatro inquietações com correspondência noutros tantos capítulos. A primeira delas diz respeito à busca de um sentido, no domínio da epistemologia das ciências e da reflexão filosófica, para um mundo que hoje, mais que nunca, se revela instável e desconforme os grandes sistemas explicativos da modernidade colapsados a partir do segundo pós-guerra. A segunda ensaia um trabalho de compreensão da realidade actual do capitalismo, da renovação das suas vias e métodos, das consequências da ordem injusta que materializa para a vida das pessoas comuns. A terceira inquietação prende-se com a busca de indícios que permitam entrever a construção de uma teoria revolucionária capaz de fazer frente às novas realidades, à desesperança e às carências impostas pelo actual processo de mudança histórica. E, por fim, o quarto problema conduz o autor ao vasculhar das consequências mais nefastas da presente ordem económica mundial e do aparecimento de algumas das vozes e das tendências capazes de lhe fazerem frente no terreno.

Quando, a dado momento, recorre à voz do economista e filósofo neoliberal Friedrich von Hayek onde este declara não existir actualmente «critério algum através do qual nós possamos descobrir o que é socialmente injusto», Cruzeiro aponta justamente para o inverso: para a necessidade de perceber as causas da injustiça de modo a que se torne possível combatê-la e aniquilá-la. Uma obra marcada, por isso, mais pela esperança que pelo desencanto.

Celso Cruzeiro (2008). A Nova Esquerda. Raízes teóricas e horizonte político. Porto: Campo das Letras – Âncora Editora. 250 págs.

Os filhos de EstalineSó pelo título e pela capa (*) poucos deduzirão que se trata de um livro que é essencialmente uma história de amor. Uma história admiravelmente escrita (com a mestria de um grande repórter) e sobre um amor especial. Tão especial que, por a narrativa se basear em factos e não em fantasia criativa, quase apetece, ao ler-se o livro, desejar-se inutilmente que não tivesse acontecido assim, com a «guerra fria» de permeio. Só que sobre isso não há volta a dar. 

Mas sendo uma história de amor, o livro de Owen Matthews (um consagrado jornalista anglo-soviético) é, porque esse é o contexto da génese de vida do autor ao ter nascido de um casamento entre uma cidadã soviética e um súbdito britânico, um livro que diz mais sobre a URSS, os dois lados da «guerra fria» e a Rússia pós-comunista que muitos volumes de sovietologia e de pós-sovietologia. E daí o título. Que, se calhar, até nem está mal. Com o aliciante de se ler com a velocidade e o fascínio de um fôlego. Para depois se parar para respirar e aceitar-se com resignação indignada que Estaline existiu mesmo e deixou sementes que não o deixam esquecer. Não só as sementes políticas, sobretudo as que infernizaram pessoas e sentimentos. E é por isso que acho que o título devia ser outro. Um outro. Que assinalasse melhor uma das magníficas surpresas editorais dos últimos tempos através deste livro sobre um amor.
 
(*) – “Filhos de Estaline”, Owen Mattews, Edições Dom Quixote

 
(Originalmente publicado em Água Lisa.)

Biografia de João Tunes.

Portugal Anos 50Numa tarde destas, enquanto me esforçava uma vez mais por dar algum sentido à livralhada acumulada sem grande nexo aqui em casa, reencontrei um conjunto de postais reproduzindo algumas das fotografias de Gérard Castello Lopes tiradas ao Portugal dos anos 50. Foram editadas em 1999 na companhia de dois pequenos textos de dois Antónios. «Outros tempos, outros lugares», sublinha um deles, o Tabucchi, na contracapa. O outro, o Barreto, fala de um país passado que Castello Lopes revirou e nos ofereceu contrariando uma quase crónica escassez de imagens. Mas será realmente assim? Estaremos nós a olhar aqui para um país inteiramente outro, mergulhado num sono colectivo e prolongado do qual só na década de 1960 terá sido possível despertar? Revejo as imagens e encontro em quase todas elas vestígios de um Portugal que me parece o de sempre, diverso daquele que hoje habitamos mas nem por isso imóvel, nem por isso falho do movimento que é parte da memória comum na qual continua a apoiar-se aquilo que nos aproxima, ajudando a desenhar a comunidade que imaginamos.

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«As cidades também são isto: deixar cair as ruínas e erguer arquitecturas promíscuas sobre os restos da memória. Em Lisboa, na Rua António Maria Cardoso, entre os teatros, os cafés dos intelectuais e os esboços do Tejo, aquelas ruas de postal que se dobam repentinamente deslizando para baixo como pinceladas num quadro. Um antigo e pequeno edifício nobiliário que amanhã vai ser um condomínio de luxo dotado de parques de estacionamento e lojas. Mas até ontem, até 1974, as suas salas acolhiam a sede da PIDE.»

Assim começa o posfácio de Roberto Francavilla ao livro de Giorgio Fratini, As paredes têm ouvidos / Sonno elefante. Um livro que, em Outubro do ano passado,  foi considerado o melhor livro italiano de banda desenhada no Festival de BD de Roma, Romics 2008.

A Paula Cabeçadas já chamara a atenção para este livro em 23 de Fevereiro do ano passado, citando um artigo do JN que assinalava a sua edição em Itália. A Campo das Letras editou-o pouco depois, em Abril, em Portugal. (ISBN 978-989-625-293-9).

Encontrei-o há dias numa livraria. Chamou-me a atenção a frase da capa, sob o título: «PIDE. Um som, um acrónimo, uma palavra que ainda hoje, para muitos portugueses, provoca um grande arrepio na espinha.»

Fiquei curiosa. Abri-o e deparei com uma imagem do Chiado, em Abril de 2006, logo seguida da da Rua António Maria Cardoso, onde, num  «sábado à tarde», prosseguem os trabalhos no «complexo de edifícios históricos ao fundo da rua». Um homem e uma mulher passam, avaliam-no, é um edifício interessante, com uma boa localização. Mas o homem crê lembrar-se que fora ali a sede da PIDE. O que não impressiona a companheira: «Um dia é uma coisa, no dia a seguir é outra, é normal, não?»

Mas, apesar de italiano e de ter nascido depois da extinção da polícia política, Giorgio Fratini, que conheceu Lisboa no âmbito do programa Erasmus, não considera isso tão normal assim. Sabe que «durante longos anos, ali dentro, a anulação sistemática de qualquer direito à livre expressão das pessoas foi prática diária» e prefere não deixar esquecer esse passado. Lembra as pessoas humilhadas, presas, torturadas. O medo e o horror de não conseguir resistir à tortura. Lembrar, diz ele, é o destino dos edifícios, é o dever dos elefantes: «Nós somos as testemunhas da vida que acontece dentro de cada edifício que se ergue». E aquele que mutilou o companheiro para lhe poupar o sofrimento de testemunhar a inumanidade não ignora a sua culpa: «Aquilo que fiz é um peso que estou condenado a carregar. Agora, após anos de esquecimento, esvaziam-nos e reconstroem-nos como modernos apartamentos de luxo. Lembram-nos de quando fomos nobres (e fomo-lo), mas com o mesmo reboco apagam também a sujidade do passado recente. Devia estar aliviado, mas sinto apenas tristeza. Impedi a memória daquele passado. Fui eu que permiti o sono elefante

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Slavenka Drakulic

Versão revista de um texto publicado na LER

Como Sobrevivemos ao Comunismo Sem Perder o Sentido de Humor foi escrito durante o ano de 1991, numa altura em que o volume de estudos, de memórias e de reportagens sobre a Europa de Leste crescia muito rapidamente, com um crescente público de leitores à procura de um universo que lhe era desconhecido ou que fantasiara. Resultado da experiência pessoal, familiar e profissional da autora – Slavenka Drakulic é uma jornalista croata que antes e após o início da fragmentação da Jugoslávia teve a oportunidade rara de visitar diferentes países de ambos os lados da «Cortina de Ferro» – nele se descrevem aspectos de um quotidiano com muitas características partilhadas na generalidade dos países que viveram a experiência do «socialismo real», questionando-se ao mesmo tempo, a partir do interior, a afirmação de um modelo que se autodefinia como triunfante. Ao mesmo tempo, nos 19 ensaios aqui reunidos, fá-lo a partir de uma perspectiva feminista, singular e relevante quando se sabe que o feminismo era praticamente inexistente naquele universo, e que as vozes femininas eram ali geralmente subordinadas a um discurso colectivista que excluía a sua representação autónoma.

Drakulic assevera, a dado passo, que quem tenha crescido na Europa de Leste aprendeu desde muito novo que a política não é um conceito abstracto, mas antes uma força poderosa e omnipresente, «que influencia as pessoas na sua vida de todos os dias». Tal significa que a sua leitura dos quotidianos que relata os insere na ordem política imperante, jamais atribuindo uma grande importância à sua articulação com particularismos históricos ou culturais. Deve reconhecer-se, porém, que a sua perspectiva crítica, por vezes arrasadora, é temperada pela nostalgia de um igualitarismo, entretanto perdido, que suavizava o baixíssimo nível de vida da generalidade das populações. Fá-lo em particular no ensaio que relata o seu confronto com a miséria e o abandono com o qual, quando ali chegou pela primeira vez, veio a deparar nas ruas de Nova Iorque. Mas por outro lado, por detrás da uniformidade de comportamentos percebe-se perfeitamente, na sucessão das informações e dos testemunhos apresentados, que ocorreram cambiantes e mesmo distinções entre os diversos países comunistas e no interior da própria Jugoslávia, o que tempera uma tipificação excessiva dos métodos utilizados pelas autoridades e dos processos utilizados pelas populações para se lhes adaptarem ou os contrariarem. Quando se afirma que «foi no plano da vida quotidiana, mais do que no plano ideológico, que o comunismo realmente fracassou», insinua-se como foi principalmente uma acentuada dificuldade de relacionamento entre governantes e governados que precipitou o seu fim. Assim se escreve a uma dada altura: «se os políticos tivessem olhado, uma vez que fosse, para dentro dos nossos guarda-fatos, caves, armários e gavetas – sem ser para confiscar livros proibidos ou propaganda subversiva –, teriam visto o futuro que estava reservado aos seus magníficos planos».

Notável também é a forma poética utilizada por Drakulic no processo da escrita, transformando cada um dos capítulos deste livro numa espécie de vinheta que ilustra a condição do cidadão comum e retrata o seu quotidiano sob a realidade do comunismo. O sentido de humor evocado no título, bastante menos presente afinal do que seria de supor, é assegurado pela maneira acentuadamente sarcástica de descrever o passado e, por parte daqueles que lhe sobreviveram, por um uso irónico da memória. Um livro datado, sem dúvida, mas muito útil.

Slavenka Drakulic, Como Sobrevivemos ao Comunismo Sem Perder o Sentido de Humor. Tradução de Rui Pires Cabral. Pedra da Lua, 160 págs. ISBN: 978-989-8142-11-5.

Originalmente em A Terceira Noite

am2Adriano Moreira, ex-ministro do Ultramar no período mais negro da guerra colonial, opositor de Marcelo Caetano em relação ao destino das colónias – sem ser exactamente um ultra mas opondo às «ambiguidades» de Marcelo Caetano ambiguidades ainda maiores -, é uma personagem central na história contemporânea portuguesa. Antes e depois do 25 de Abril, mas não por se ter ilustrado na oposição ao antigo regime. 

O seu percurso é único: vemo-lo passar (sem que nos explique porquê) da situação de estudante com origens modestas, que tinha conseguido entrar para a exclusiva universidade dos anos 50 e preocupado apenas com a conclusão do seu curso, para advogado nos escritórios que eram a sede da oposição ao regime. 

Acácio Gouveia, Teófilo Carvalho Santos, Abranches Ferrão acumulavam uma advocacia próspera com a liderança virtual da oposição democrática ao regime e Adriano Moreira fez aí o seu estágio, não pela escolha consciente de quem escolhe um patrono ideologicamente próximo, mas, como nos explica, pela dificuldade de encontrar um patrono para o seu estágio.    

Como é sabido, as más companhias têm os seus efeitos: pouco tempo depois, ao jovem advogado Adriano Moreira era confiada a defesa dos generais no golpe falhado de 1947, uma história ainda mal conhecida com contornos únicos. O Golpe militar – não realizado porque à última hora, como quase sempre sucedia, os oficiais menos comprometidos recuavam – tinha uma capa legal.

O Gen. Marques Godinho, Almirante Mendes Cabeçadas (do 5 de Outubro e do 28 de Maio) e outras altas patentes que se tinham passado da ala republicana do regime para a oposição ao mesmo iriam, em conjunto, falar com o Marechal Carmona e pedir-lhe que demitisse Salazar. Era meio verdade (em Belém, de Carmona a Craveiro Lopes, havia sempre uma conspiração latente e nunca realizada) e era a história para contar no tribunal depois do golpe falhar.

A reacção do regime – o semi-envolvimento de Carmona e as suas patentes davam aos envolvidos a convicção que não seriam tratados como os comunistas ou os anarco-sindicalistas – foi inesperadamente  feroz. Carmona (com uma longa história de recuos e traições aos seus antigos companheiros) deve-se ter acobardado. Um seu primo (o almirante Carmona) foi testemunha dos conspiradores com uma posição muito incerta. 

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znComunismo e Nacionalismo em Portugal abre com uma história curiosa contada por André Malraux: durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), nas proximidades de Toledo, abate-se sob as tropas republicanas mais um punhado de bombas do céu que, ao contrário de tantas outras, desta vez não explodem. Surpreendidos, os republicanos descobrem-lhes no dorso uma mensagem em português – «camarada, esta bomba não explodirá» – indiciando a sabotagem dos engenhos algures na passagem de Portugal para Espanha. Como nota José Neves, este exemplo permite dar conta da «tendência internacionalista que trespassou fronteiras estatais e identidades nacionais sem revelar grande consideração por qualquer tipo de ideologia nacionalista». O livro em causa, no entanto, analisa precisamente o reverso dessa disposição: o modo como o Partido Comunista Português, sobretudo a partir da «reorganização» empreendida nos anos 40, forjou um «nacionalismo comunista» oposto e em competição com o nacionalismo do Estado Novo.

Se é verdade que o internacionalismo proletário, por um lado, e o nacionalismo fascista, por outro, não deixaram de se confrontar – como aparece evidenciado no episódio recordado por Malraux – não é menos verdade que a mundivisão comunista – nomeadamente, aquela oriunda dos partidos da Terceira Internacional – foi também animada por uma forte pulsão soberanista. Assim sendo, o nacionalismo comunista construiu-se como um nacionalismo alternativo ao do Estado Novo, mas nem por isso menos convicto na invenção de uma identidade nacional, a qual se deveria acomodar com a figura revolucionária do proletariado, numa dinâmica tensional em regra desequilibrada. Como assevera o autor: «Pretendendo-se um nacionalismo instrumental, um meio para um outro fim, o nacionalismo comunista acabou por assumir uma importância tal na história do PCP reorganizado que em nenhum momento este terá programaticamente proposto uma terra sem estados nacionais. Uma terra sem amos, sem dúvida que sim, mas não a Internacional».

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mos1No ano em que se celebra o 40º aniversário da encíclica Humanae Vitae, de triste memória e ainda mais triste vigência, Miguel Oliveira da Silva dá-nos um importante contributo para a compreensão da temática em questão. 

Médico obstreta-ginecologista, professor de Ética Médica e Bioética na Faculdade de Medicina de Lisboa e licenciado em Filosofia, o autor pergunta se a Igreja não deve reconhecer os seus erros, «se não há uma outra ética da sexualidade compatível com a fé» e «porque se calam nesta matéria tantos dos bioeticistas, crentes e não crentes». 

Começa por recordar a «oportunidade perdida» que o Concílio Vaticano II foi em temas relacionados com a sexualidade e o significado dramático da publicação da Humanae Vitae e das reacções que provocou, para depois abordar a problemática do ponto de vista da Bioética. 

Regressa por fim à discussão das posições da Igreja e, num capítulo deliciosamente intitulado Quem influencia o Espírito Santo?, refere-se a Yves Congar que se perguntava «por que estranha razão o Espírito Santo influencia apenas ou sobretudo o Papa e não a Igreja no seu conjunto». 

O livro tem um excelente prefácio do padre Anselmo Borges, retomado em parte num artigo de opinião publicado pelo mesmo no Diário de Notícias. O seguinte excerto resume bem uma interpretação possível das raízes do que está de facto em causa: 

«O que envenenou a relação da Igreja com a sexualidade foi o choque entre o poder e o prazer, porque o prazer pode abalar o poder.
Concretamente, há a doutrina do pecado original, entendido não como o primeiro de todos os pecados – todos pecam -, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.»

Para além de todas as leituras, uma coisa parece certa: mesmo os mais cépticos dificilmente acreditariam, em 1968, dois meses depois do Maio francês, que quarenta anos mais tarde o Vaticano teria ainda o mesmo posicionamento relativamente ao controle da natalidade e ao uso de meios contraceptivos. Mas a realidade aí está para provar o contrário e para justificar o carácter oportuno do livro que Miguel Oliveira da Silva agora publicou.

  
Miguel Oliveira da Silva, A Sexualidade, a Igreja e a Bioéica. 40 anos de Humanae Vitae, Caminho, Lisboa, 174 p.

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Um texto de Maria João M. Pires (*)
Originalmente publicado em Jugular

O dia 24 de Novembro é, em Portugal, o Dia Nacional da Cultura Cientifíca. A escolha da data é simples de explicar, foi nesse dia que nasceu Rómulo de Carvalho. Ao contrário de outros, de cada vez que ouço falar dele a primeira coisa em que penso (ok, a «Pedra Filosofal» não conta) é num magnífico livro editado pela Gulbenkian em 1998 que se chama As origens de Portugal – História contada a uma criança. A minha relação com este livro é definição perfeita de paixão à primeira vista, pousei os olhos naquele livro grande, de capa dura azul escura, abri-o e… o encantamento surgiu. Já o ofereci a crianças uma boa dezena de vezes e constatei, embevecida, que a «magia» não me atingia só a mim. Em certas idades interessa menos a «efectiva cientificidade» da informação e muito mais a capacidade de cativar pequenos leitores e, no caso em questão, interessá-los por essa coisa «estranha e misteriosa» que é o passado, já não vivido como fábula. Ambos os objectivos, diz-me a experiência, são sempre ( conseguidos com As origens…, além disso há uma clara preocupação de rigor. Não é um livro «normal», pode dizer-se que é uma espécie de… hum, como descrever?… «apontamentos ilustrados» (ou grande carta ilustrada) feita por Rómulo de Carvalho para iniciar o filho, na altura com 7 anos, na História de Portugal. A linguagem é adequadíssima sem ter nada de infantilo-cretinóide. Tudo é apresentado com uma grande dose de humor à mistura. Andava à procura da capa (ou de uma página do livro) para ilustrar este post e encontrei um texto da Luísa Ducla Soares que apresenta exemplos (deliciosos) daquilo que estou a dizer:

«Pois Rómulo de Carvalho entrou, sem reservas, no mundo das vivências infantis. Ao falar das lutas entre cristãos e sarracenos, sintetizava assim a atitude dos guerreiros do norte: “atiraram-se aos mouros como tu costumas atirar-te aos doces. Foi o que se chama uma limpeza”(…)

Não esconde a barbaridade dos cruzados, dos cavaleiros de Afonso Henriques,
trespassando com lanças velhos, mulheres, crianças, roubando a própria roupa que traziam vestida aos pobres vencidos. Descrevendo as lutas como se de um filme se tratasse, aconselha: “O melhor é tu fechares os olhos para não veres tanta desgraça”».

Bem, os exemplos que ela apresenta são tantos que a tentação de os passar para aqui é mais que muita. Em vez disso o conselho: leiam a parte que se dedica às Origens… neste texto. E, conselho de amiguinha, experimentem, da próxima vez que forem a uma livraria, pegar nele e depois digam-me se é ou não uma tentação. Uma coisa asseguro, o prazer com que os putos o descobrem é imenso…

Adenda: Outra sugestão de leitura, que não tinha descoberto quando escrevi este texto há dois anos, é A História de Portugal Revisitada por Rómulo de Carvalho/António Gedeão: Ilustrações sobre o quotidiano Medieval de  Maria Isabel Morán Cabanas.

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(Clicar nos desenhos)

(*) Biografia de Maria João M. Pires.

carvskis11Na historiografia do 25 de Abril são ainda dominantes as teses de que 1. A revolução apanhou de surpresa as diplomacias mundialmente dominantes, especialmente a Norte-Americana. 2. A intervenção dos Estados Unidos em todo o processo, particularmente no Verão Quente, e a sua influência no seu desfecho (25 de Novembro de 75) são de reduzida importância.

A obra Carlucci vs. Kissinger, patrocinada pelo Instituto Português de Relações Internacionais e pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, que o veterano Bernardino Gomes assina em co-autoria com Tiago Moreira de Sá, desmonta de uma vez por todas essa visão ingénua de uma revolução estritamente nacional, que se faz e desfaz nas barbas do gigante americano, sem que este levante um dedo… numa imaginosa reactualização de David contra Golias, ou numa mais moderna versão do famoso slogan small is beautiful

A partir de agora, sempre que se fale de intromissões e pressões estrangeiras na nossa revolução, ou de apoio norte-americano às forças democráticas portuguesas na transição para a democracia (e a opção por uma ou outra formulação não é, naturalmente, mera questão de semântica!) não se poderá mais argumentar com o estafado fantasma da teoria da conspiração…, o que significa que reflexões por muitos consideradas fantasiosas, como as de Varela Gomes (Revista História nº66, Abril de 1984, por exemplo) e outros, são hoje estudos credíveis, assim provando que também na história, como dizia Vergílio Ferreira, «um erro é uma verdade à espera de vez».

Contudo, entre tantas revelações surpreendentes, confesso que a maior surpresa para mim foi o modo natural e totalmente desinibido com que os autores relatam a intervenção americana em Portugal, como procedimento trivial, burocrático, de mera rotina… e que, sabe-se lá porquê, me fez presente a imagem de Carlucci, (afinal o verdadeiro herói desta história) num programa da RTP, em 1991, no qual, com visível bonomia e desprendimento, se prestou a falar das «brigas» daqueles bons velhos tempos….

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Texto de José Pedro Castanheira, lido na sessão de lançamento do livro. 

 
O livro começa com uma dúvida, assim formulada pela autora: «Pode parecer estranho» um trabalho desta natureza, sobre um personagem que «deveria ser remetido ao silêncio». 

Percebo a dúvida, ou a interrogação, mas ela é, a meu ver, descabida. Para conhecer em profundidade um regime autoritário, um governo ditatorial ou um sistema, seja fascista ou comunista, é necessário estudar com detalhe as suas principais estruturas repressivas. A começar pelas respectivas polícias políticas, sejam elas a PIDE/DGS, a Gestapo ou a KGB. E conhecer também o perfil exacto dos seus principais responsáveis. Perfil político, ideológico, profissional, humano, psicológico. Só assim poderemos compreender com rigor não só o que, e como fizeram, mas sobretudo porque o fizeram. É a esta abordagem que se devem alguns dos melhores trabalhos biográficos de figuras como Salazar, Franco, Hitler, Estaline ou Mao, ou, num outro plano, Eichmann ou Mengele. É neste contexto que me parece absolutamente normal e necessário este estudo sobre Fernando Gouveia. Pelas razões que qualquer leitor compreenderá.

 
O homem

«O reconhecimento de que os criminosos são seres humanos acarreta terríveis conclusões acerca da natureza humana» – escreve Irene Pimentel. 

Alcino Ferreira, militante do PCP detido em 1951, descreveu Fernando Gouveia como um sujeito magro, de altura média, meio careca e conhecido pela forma de pôr o chapéu e de usar gabardina clara e fato azul. Na opinião do mesmo Alcino, Gouveia era um tipo «muito perigoso e um cínico puro, que estava na PIDE principalmente por amor à arte e era incontestavelmente a cabeça da luta contra o partido». 

Deveras interessante é a descrição da vida familiar de Fernando Gouveia, recolhida a partir do testemunho de uma dos sete filhos – Fernanda Maria, praticamente a única que o visitou na cadeia. 

De personalidade complexa, Fernando Gouveia nasceu em 22 de Julho de 1904, na freguesia do Socorro, em Lisboa. Filho ilegítimo de um capitão médico, que se envolveu com uma criada, fez apenas a instrução primária. Estas origens humildes – muito semelhantes, por exemplo, às do seu colega Rosa Casaco – irão marcar profundamente a sua vida. 

Nos primeiros anos da ditadura militar revelou «alguma simpatia» pelo Movimento Nacional-Sindicalista, de Francisco Rolão Preto. Fanático de Salazar, participou nos serviços de vigilância ao ditador, acompanhando-o quando se deslocava a Santa Comba Dão. Membro da Legião Portuguesa, recebeu instrução militar e desfilou em vários aniversários do 28 de Maio. 

A sua vida afectiva e familiar foi marcada pela instabilidade: três (ou quatro?) casamentos, sete filhos, de cinco mulheres diferentes.

Vivia numa casa alugada, no Areeiro, e não tinha conta bancária. Ouvia os Companheiros da Alegria no Rádio Clube Português, gostava de música clássica, entretinha-se com o teatro radiofónico da Emissora Nacional, era furioso do Benfica, coleccionava num caderno receitas de cozinha que copiava dos jornais. 

Só em 1962, e obrigado por Silva Pais, é que passou a ter telefone em casa e a deslocar-se numa viatura de serviço, com motorista. A filha, Fernanda Maria, aluna do Liceu Rainha D. Leonor, frequentava a Livraria Barata, onde comprou dois dos mais célebres livros de poesia de Manuel Alegre – o que lhe deu direito a uma violenta bofetada por parte do pai, que a proibiu dessas coisas. Como a proibiu de seguir advocacia – «todos os advogados são comunistas além de serem uns unhas-de-fome». Também não permitiu que seguisse Histórico-Filosóficas – acabando por enveredar pela hotelaria. 

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Versão de uma nota de leitura publicada na LER de Outubro

TremlettVinte e cinco anos durou o pacto del olvido, definido sem signatários, que fez com que o franquismo e a Guerra Civil fossem empurrados para dentro dos armários. Ao contrário do que aconteceu no Chile, na África do Sul ou na Argentina, em Espanha não se fizeram inquéritos, não existiram comissões da verdade, nem se procurou organizar a reconciliação. Os mecanismos repressivos não foram denunciados nem os seus responsáveis punidos, como aconteceu, ainda que de forma diferenciada, em Portugal, na Alemanha Oriental e na República Checa. Em larga medida, foram até alguns homens que haviam sido da confiança de Francisco Franco que decidiram, projectaram e controlaram a transição para a democracia. O preço a pagar por esta «paz podre» foi um silêncio que fez com que o corte com o passado tivesse sido mais aparente que real.

Giles Tremlett é jornalista e correspondente do Guardian em Madrid, onde vive há mais de vinte anos. O objectivo que traçou para este livro ambicioso foi o de apurar até que ponto o presente de um grande número de espanhóis se encontra ainda contaminado por fantasmas e ressentimentos impressos na consciência individual e na memória colectiva. Mas também o de constatar de que forma eles se têm esforçado para porem termo à amnésia generalizada, encarando-a de frente. Concebido como uma reportagem autónoma, cada capítulo avança por diferentes tempos, assuntos e problemas. Após uma importante introdução, na qual aborda o actual esforço de entendimento do passado, traduzido na aprovação da «lei da memória histórica», ocupa-se de assuntos tão diversos como as consequências da Guerra Civil e o peso da figura de Franco, a complexa trama do processo de transição para a democracia, as sequelas da explosão do turismo de massas na costa mediterrânica, a projecção cultural e social do flamenco, o papel da indústria do sexo e do mundo do futebol, o embate do terrorismo pós-11 de Março, os caminhos do feminismo em terra de machos, o impacto das ideias separatistas na Catalunha, na Galiza e no País Basco. No final, um capítulo sobre a «identidade espanhola» recorre a Pedro Almodóvar para enunciar um processo emergente de superação da velha Espanha franquista, substituída por um mundo exuberante e descomprometido que atribui escassa importância aos sinais do passado. Em todas as áreas, uma modernidade agressiva cruza as marcas do tempo, revelando uma sociedade complexa, que tanto se orgulha da sua própria história como é capaz de conviver bastante mal com o fardo que a anterior geração lhe deixou de herança. Os recentes desenvolvimentos em redor da releitura dos crimes da Guerra Civil confirmam a permanência desse clima de ambiguidade.

Giles Tremlett, Fantasmas de Espanha. Viagens pelo Presente Escondido de um País. Tradução de Maria Mendes. Alêtheia Editores, 572 págs. ISBN: 978-989-622-107-2.

A guerra civil espanhola foi, durante décadas, embebida numa espécie de silêncio espesso, apenas interrompido pelos discursos triunfais sobre a «paz» dos vencedores e pelas evocações dos seus mártires. Num lúcido estudo intitulado Memoria y Olvido de la Guerra Civil Española, publicado pela primeira vez em 1996, Paloma Aguilar Fernández anotou a existência na Espanha democrática de uma «memória colectiva traumática da Guerra Civil». Neste domínio, a transição não só não ajudou a sanar a ferida como contribuiu para a reforçar, ao sustentar-se num «pacto tácito entre as elites mais visíveis para silenciar as vozes amargas do passado». Como é sabido, este processo tem vindo a ser progressivamente desbloqueado por diferentes associações ligadas à recuperação da memória histórica. E recebeu importantes impulsos nos últimos tempos, com a aprovação da Lei da Memória Histórica e a mediática iniciativa do juiz Baltasar Garzón de investigar o destino das vítimas de Franco.

Significativamente, e se as primeiras obras de fôlego sobre a guerra civil foram escritas por autores estrangeiros (Hugh Thomas, Anthony Beevor, Ronald Fraser, Paul Preston), a verdade é que os espanhóis têm vindo a revelar nos últimos anos um interesse espantoso pelo assunto. Basta efectuar um passeio despreocupado pelas livrarias de uma qualquer cidade do país vizinho para nos apercebermos da crescente historiografia dedicada ao conflito que opôs republicanos e nacionalistas. Também no campo da ficção têm aparecido obras – como este volumoso As Vozes do Rio Pamano, de Jaume Cabré – que se propõe tomar o evento como alavanca narrativa. No caso deste romance, trata-se sobretudo de abordar o tempo da «ressaca», o surdo e espaçado jogo do gato e do rato que a ditadura teve de travar, durante a década de quarenta, com os fogachos ainda acesos da resistência republicana. (mais…)

O fascínio da autora, Clara Queiroz, pela personalidade de Emma Goldman resulta da impressionante actualidade da análise política, da defesa dos direitos das mulheres e dos trabalhadores, da justiça social e política e, sobretudo, da intransigente luta pela liberdade.

Cada obra acaba por ter algo de autobiográfico, mesmo que seja a biografia de outra personagem. A autora, cuja empatia com a biografada é muito grande, revê-se no seu pensamento e na sua personalidade e retira do silêncio para o público português esta personagem, malquista e malvista pelos hegemónicos na esquerda europeia durante tantos anos.

Através da narrativa escorreita do livro, assiste-se à vida de uma judia russa, nascida na Lituânia e emigrada para os EUA, onde se abriu para a revolução e para o anarquismo. Este seria, aliás, na sua vivência, intimamente relacionado com o feminismo. Emma Goldman participou também em reuniões com socialistas alemães que tentavam organizar o movimento operário norte-americano e acompanhou as lutas operárias pelas oito horas de trabalho.

Esteve presa durante dois anos e, em 1919, foi deportada para a Rússia com Berkman, seu marido. Aí, depressa descobriram que a revolução, na qual tantas esperanças tinham depositado, também encarcerava anarquistas e outros dissidentes. E ouviram da boca do próprio Lenine que a liberdade de expressão era um conceito burguês.

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O género biográfico está a conhecer entre nós um interesse surpreendente e tem despertado nos meios de comunicação social (imprensa sobretudo) um acolhimento particularmente carinhoso. É óbvio, para quem tenha um conhecimento mínimo do funcionamento do chamado quarto poder, que a relação copulativa deve substituir-se pela causal. Assim, a aceitação do público é grande porque é grande a divulgação mediática.

Neste círculo aparentemente aberto às necessidades e gostos de leitura, mas na verdade rigorosamente fechado nas quatro linhas do jogo do mercado, as editoras de sucesso têm que ter os seus olheiros (como no futebol), para sondar quais as tendências da estação (como na moda) e quais os criadores que melhor as podem concretizar. Vemos assim biografias para todos os gostos, saídas da pena de cultores das ciências humanas (para além da história, seu terreno tradicional), mas também de escritores em geral, jornalistas, ou mesmo pessoas sem qualquer experiência de escrita que, bem ou mal, os próprios ou alguém por eles, consideram ter um percurso digno de ser conhecido e divulgado.

Nesta variedade de oferta, é obvio o enorme desequilíbrio na qualidade do produto, porque os olheiros, sujeitos à pressão dos dirigentes contratadores, tanto recrutam na Liga de Honra, como visitam os campos de chão batido da Liga dos Últimos. No fundo eles sabem que, com a ajuda da publicidade em horário nobre, se podem transformar lances (de) duvidosos em magníficas jogadas de golo feito. Carolina Salgado, por exemplo, marcou bem, embora por falta de preparação não tenha aguentado o jogo todo. Porém o marchandise rendeu, o público comprou,  como comprou Jardel, Mantorras, Cristiano Ronaldo (obviamente!…) e compra agora o inenarrável Octávio Machado…

E comprará tudo o que, aparentemente, nada tenha a ver com o desporto-rei – mas na verdade tem tudo, porque a metodologia de treino já impôs as suas regras ganhadoras no vasto e moderno estádio democrático.

Como exemplo, basta ver o catálogo de uma jovem editora de sucesso (segundo o seu site oficial vendeu no primeiro ano de existência 300.000 exemplares!): a Esfera dos Livros. Apostando forte na linha biográfica, publicou já um número muito significativo de títulos, que só a enorme abrangência do género permite chamar biografias. Assim, desde a excelente biografia com todas as letras de Humberto Delgado, de Frederico Delgado Rosa (só comparável ao trabalho de Pacheco Pereira sobre Cunhal), aos trabalhos académicos de um muito institucional (à beira de um curriculum oficial) Costa Gomes no Centro da Tempestade de Luís Nuno Rodrigues, ou de uma mais atrevida e espontânea Cecília Supico Pinto, o Rosto do Movimento Nacional Feminino de Sílvia Espírito Santo, a oferta é variada. Mas não fica por aqui. Alarga-se grandemente, passando pela apologético-panegírica «vie en rose» de Sócrates, O Menino de Oiro do PS de Eduarda Maio, pelas ternurentas memórias de Micas (ajudada por Joaquim Vieira) Os Meus 35 anos com Salazar, para só parar nos picantes Amores de Salazar, com direito a réplica em As Mulheres de Salazar, da incontornável Felícia Cabrita que assina ainda na mesma editora Pinto da Costa- Luzes e Sombras de um Dragão.

Ora bolas, lá estou eu a falar de futebol, quando o que queria mesmo era falar de biografias. E, se possível, de pessoas que mereçam ser biografadas.

Acaba de ser publicado Salazar 40 anos?, com desenhos de Cláudio Torres (*).

Da Introdução:

«Aproximava-se o ano de 1966, em que passavam quarenta anos do 28 de Maio de 1926, e a ideia surgiu naturalmente… Era necessário participar mais directa e empenhadamente na denúncia de um regime que parecia eternizar-se no poder. (…)

Para organizar um texto justificativo e coerente recorri ao meu pai [Flausino Torres], já então exilado em Argel, onde colaborava com a Frente Patriótica de Libertação Nacional. Foi dele a ideia de seleccionar dos discursos de Salazar algumas frases e afirmações que, de certa forma, enquadrassem os desenhos. Ainda chegaram a ser publicados alguns exemplares com a chancela das efémeras Edições Liberdade [em 1966]. Mas o esquecimento instalou-se, aconteceu o 25 de Abril e os anos passaram. Passaram outros 40 anos sobre a queda do ditador.» 

(*) Com colaboração de Flausino Torres, Edições Afrontamento, 2008, 80 p.

 

Quem, de algum modo, conhece a história dos conflitos ideológicos no campo da esquerda durante as décadas de sessenta e setenta, identifica o papel fundamental que desempenhou o chamado «maoísmo» na construção de um discurso simultaneamente de proximidade e ruptura com as práticas dos partidos comunistas tradicionais, bem como a sua importância na politização de algumas franjas da sociedade, com intensa expressão nos territórios estudantis. Em O um dividiu-se em dois, José Pacheco Pereira (JPP) procede à revisão atenta do conflito sino-soviético, anotando a constituição, um pouco por todo o mundo, de estruturas autónomas alinhadas com as teses de Pequim. A genealogia ideológica da inaugural manifestação portuguesa desse fenómeno – a FAP/CMLP, criada em 1964 – é também objecto de tratamento neste volume, que é apresentado como o primeiro de uma série dedicada a diferentes aspectos dos movimentos radicais de esquerda desses anos.

Como sugere JPP, apesar dos grupos pró-chineses terem adquirido características específicas de acordo com a realidade nacional em que se inseriam, o certo é que a sua matriz é directamente devedora do questionamento chinês e albanês da tese da «coexistência pacífica» defendida por Moscovo. Se, no final da década de cinquenta, os primeiros confrontos, ainda latentes, têm como pano de fundo a questão da cooperação militar e os obstáculos ao programa de armamento nuclear da China, rapidamente a crítica se centra nas acusações do abandono soviético da luta de classes mundial, por entre acusações cruzadas de «revisionismo» e «esquerdismo». Em final de 1963 a cisão estava consumada e a partir desta altura começam a proliferar partidos alinhados com as teses chinesas. (mais…)

Publicado originalmente em Água Lisa

Estamos decididamente em boa maré editorial no que respeita a história política. E, nas últimas novidades que deram á praia, o livro mais surpreendente e impressionante que encontrei foi, com a chancela da «Afrontamento», a edição de um velho diário de Flausino Torres (1) sobre os tempos vividos em Praga e imediatos à ocupação da Checoslováquia pelos tanques e tropas do Pacto de cinco países do Pacto de Varsóvia e cujos registos terminam no final de 1968 (2). E este é um livro de décadas de publicação adiada e evitada (3) que, simplesmente, constitui dos melhores testemunhos disponíveis sobre a primeira fase da «normalização checoslovaca», o que muito deve à argúcia de observação do autor e ao seu talento de escrita directa, impressiva e contextualizante (o autor era historiador e professor, além de transportar consigo uma longa militância comunista).

Flausino Torres inicia o seu «diário» já depois da ocupação consumada (neste sentido, o livro não trata, ou trata por evocação, quer da invasão propriamente dita como da «primavera de Praga» que antecedeu este estrangular da experiência do «socialismo de rosto humano» naquele país) e tem final antes da consumação do climax da «normalização» (ou seja, quando se dá a purga no PCC, com a expulsão de meio milhão de membros do partido, e Dubceck é silenciado e substituído por Husak, com o partido e o país reestalinizados integralmente à maneira de Brejnev e para felicidade tranquila de Cunhal) que se verifica mais tarde, em Abril de 1969. Portanto, o período abordado é ainda o da ocupação em compasso de espera, de compromisso, numa tentativa de os soviéticos deixarem acalmar a onda de indignação que a invasão suscitara (e que alastrara inclusive às hostes de alguns partidos comunistas) e em que ainda não tinham todos os dados geo-estratégicos para decidirem se haveria um confronto, que esteve eminente, com os Estados Unidos, ou proceder ao alastramento da ocupação, igualmente na agenda das probabilidades, a outros dois países socialistas recalcitrantes perante a ortodoxia do Kremlin, e que estavam na rota de imediatos caminhos dos tanques: a Roménia e a Jugoslávia, países dominados por comunistas heterodoxos. Pelo período abordado, julgo que o maior interesse do «diário» não será tanto a descrição e análise da invasão em si (que vai aparecendo em flash-backs) nem a «normalização» onde não chegou os apontamentos do autor mas antes dois depoimentos de interesse particular e muito mal conhecido nesta problemática: – a acomodação conciliatória e ingénua de compromisso de Dubceck e da sua equipa, confiando que era possível esperar algo de uma plataforma negociada com os invasores (num recuo que foi fatal para as esperanças autonómicas); – o nascimento e o desenvolvimento entre os checos de sentimentos antisoviéticos que não só se enraizaram profundamente entre as camadas mais vastas da população (quando a estima e admiração pela URSS tinham raízes fundas no povo checo pela libertação da ocupação nazi pelo Exército Vermelho ocorrida vinte e cinco anos antes) e que progressivamente se viria a transformar em anticomunismo atávico dos povos checo e eslovaco até ao crescendo da «revolução de veludo» e que hoje se exprime no facto de, actualmente, a apologia do marxismo-leninismo (a par da do nazi-fascismo) estar proibida por lei (e, antes, muitos eram os checos que aderiram ao comunismo e dele eram militantes).

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Não é fácil julgar os crimes de uma ditadura. Em França, depois da ocupação em 1945, os collabos que tinham denunciado, ou mesmo torturado, os resistentes foram julgados por juízes que tinham prestado juramento de fidelidade ao Marechal Pétain como condição para manter o seu cargo.

Os assassinos do Gen. Humberto Delgado foram julgados por um tribunal militar (como se sabe a justiça militar está para a justiça, como a música militar está para a música) cujo acórdão nos fez acreditar até hoje que o general tinha sido morto a tiro, limitando a responsabilidade dos assassinos como uma versão judicial que ia contra os dados contidos na autópsia.

A primeira biografia séria de Humberto Delgado, feita por um seu descendente sem formação académica como historiador mas com todas as qualidades para o ser, tem esta grande revelação. O resto, mais coisa menos coisa, já sabíamos. O seu passado de ultra (Da Pulhice do Homo Sapiens) do regime, a sua lenta passagem para a esfera aliada, a sua transformação num oficial NATO que vai criando a pouco e pouco uma relação especial com o regime (depois da guerra Salazar precisava a todo o custo de um oficial com credenciais pré-aliadas) e depois o “obviamente demito-o”.

No entanto, esta biografia de Delgado é uma obra notável: a chegada apoteótica de Humberto Delgado ao Porto depois de uma viagem de comboio marcada pela incerteza com aplausos e apupos é do melhor que já foi escrito sobre a resistência ao salazarismo. Os factos conhecem-se: Delgado chega ao Porto e depara com uma recepção apoteótica – temos as fotografias – que nada fazia prever. De repente, o regime treme. Há uma espécie de milagre nesta recepção porque não havia anda nem organização, nem propaganda. Meia dúzia de apoiantes e mais nada. A estrutura clandestina que tradicionalmente animava a oposição – o PCP – estava ainda contra e procurava lançar Arlindo Vicente. Delgado chega, o Porto vem para a rua (quem foi que passou palavra?) e tudo muda.

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  Viriato da Cruz, ao centro, com Mário Pinto de Andrade e Lúcio Lara (Roma, 1959)

«As leis do condicionamento industrial e as pautas aduaneiras os industriais de Portugal, freando a actividade dos industriais de Angola. Existe um controlo absoluto em toda a industria e todo o comércio de Angola, visando, fundamentalmente, manter Angola em situação de perpétua dependência económica em relação a Portugal e as potências imperialistas.

O colonialismo inoculou, pois, em todo o organismo de Angola, o micróbio da ruína, do ódio, do atraso, da miséria, do obscurantismo, da reacção. O caminho em que nos vêm obrigando a seguir é, portanto, absolutamente contrário aos supremos interesses do povo angolano: aos da nossa sobrevivência, da nossa liberdade, do rápido e livre progresso económico, da nossa felicidade, de pão, terra, paz e cultura para todos.»

Assim analisava a situação angolana, em Dezembro de 1956, Viriato da Cruz, um dos fundadores do MPLA e seu primeiro secretário-geral. O nome do Movimento surge, aliás, no texto que citamos, em que escreve:

«Porém, o colonialismo português não cairá sem luta. Deste modo, só há um caminho para o povo angolano se libertar: o da luta revolucionária. Esta luta, no entanto, só alcançará a vitória através de uma frente única de todas as forças anti-imperialistas de Angola, sem ligar às cores políticas, à situação social dos indivíduos, às crenças religiosas e às tendências filosóficas dos indivíduos, através portanto do mais amplo MOVIMENTO POPULAR DE LIBERTAÇÃO DE ANGOLA.»

Esse verdadeiro «Manifesto» é um dos documentos incluídos no livro Viriato da Cruz, o homem e o mito, publicado pelas editoras Prefácio e Chá de Caxinde e recentemente apresentado em Lisboa.

Nascido em Kikuvo, Porto Amboim, em 25 de Março de 1928, Viriato da Cruz fez os estudos liceais em Luanda. Poeta, foi um principais mentores do Movimento dos Novos Intelectuais de Angola e da revista Mensagem. Saiu de Angola em 1957, passando brevemente por Lisboa e foi juntar-se em Paris a outro intelectual angolano, a quem o unia uma cumplicidade antiga: Mário Pinto de Andrade. Ali desenvolve intensa actividade cultural e política, participando, nomeadamente, no 2º Congresso de Escritores e Artistas Negros, onde apresenta o documento A responsabilidade do intelectual negro.

Fundador e primeiro secretário-geral do MPLA, vem a entrar em dissidência com o movimento, fixando-se posteriormente na China, onde morre a 13 de Julho 1973, em conflito com o regime chinês, que anteriormente admirara.

Coordenado por Edmundo Rocha, Francisco Soares e Moisés Fernandes, Viriato da Cruz, o homem e o mito, recorda a vida e a obra de um dos mais importantes nacionalistas angolanos, no seu duplo aspecto de poeta e político, lançando, nomeadamente, novas informações sobre a sua vida na China. Para que o nome de Viriato da Cruz não caia o esquecimento.

Tem sido um filão muito explorado, e de grande popularidade, a recuperação de figuras históricas, através da sua dimensão humana, numa conjugação de dados históricos com ficção literária. Quando essa operação se faz através das relações amorosas mais ou menos conhecidas, de preferência infelizes, o sucesso está garantido, independentemente do real valor de muitas dessas obras.

Também o amor funesto de Sá Carneiro e Snu Abecassis tem inspirado despretensiosas revisitações um pouco por toda a imprensa escrita ou falada. Deste conjunto uniforme e pouco exigente, destaca-se o livro de Miguel Real O último Minuto na Vida de S., apresentado na própria capa como «o último grande amor português visto pela imaginação romanesca e pelo talento de um dos mais importantes ficcionistas nacionais da actualidade». Contudo, da leitura das breves 125 páginas conclui-se pelo manifesto exagero da avaliação (de quem? onde?). Não que a ideia não fosse boa: uma narrativa no feminino, acção desenrolada numa fracção de 50 segundos em tempo real, em constantes flashbacks, um cenário que invoca a realidade portuguesa das décadas de 60 e 70.

O resultado, pelo contrário, é decepcionante: através de intermináveis tiradas ora de lirismo extremo, ora de crítica social sardónica e jocosa, alternando com sínteses rápidas, a pretensa busca estilística, com neologismos de duvidoso gosto, surge totalmente desajustada aos objectivos anunciados. Aquele país, aquele Sá Carneiro e sobretudo aquela Snu não têm qualquer consistência dramática, são puras abstracções, pois nem por um momento o autor consegue captar-lhes a alma, e fazer o que faz qualquer escritor: caminhar até onde eles o possam levar. Compensa o vazio das personagens com o longo monólogo feminino, tão improvável quanto absurdo, naquela situação-limite (a morte eminente) e na boca daquela heroína. A realidade portuguesa que o autor pretende vista pelo olhar de uma mulher «bela, escandinava, independente, culta, desinibida, divorciada» não passa no filtro do próprio olhar de Miguel Real, cuja «erudição» gratuita e dispersiva, característica da sua obra ensaística, se torna numa obra literária descabida e insuportável.

Ficamos, pois, por visões exteriores, sínteses simplistas, muito à beira do cliché e da caricatura. Sá Carneiro e Snu ficaram assim mais longe da imortalidade que aquele grande amor lhes prometia.

Miguel Real (2007), O último minuto na Vida de S., Edições QuidNovi, 130 págs.

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