Filmes


Um texto de Jorge Martins (*)

RODRIGUES – A MAIOR FAMÍLIA SABUGALENSE – Tal como para os Henriques, podemos estabelecer dois períodos para os Rodrigues. O primeiro, entre 1544 e 1704, em que os réus naturais do Sabugal acabariam presos fora do concelho de nascimento. E o segundo, entre 1704 e 1752, em que os réus presos no Sabugal nasceram sobretudo noutros concelhos, mas alguns deles já haviam nascido no concelho, o que revela algum regresso dos Rodrigues ao Sabugal.

Com efeito, entre 1544 e 1704, os Rodrigues nascidos fora do Sabugal foram presos em Pinhel (3), Penamacor (2), Almeida (1), Guarda (1). Entre 1704 e 1752, os Rodrigues naturais do Sabugal foram presos no próprio concelho (6), na Guarda (7), na Covilhã (2), em Viseu (2), no Rio de Janeiro (1), em Seia (1), no Fundão (1), em Miranda (1), em Beja (1), em Lisboa (1), em Tavira (1), em Valladolid (1), na Galiza (1).

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Pela mão de um amigo, recebo o link para um filme que não tinha visto: “Quem é o Ricardo?”, realizado por José Barahona, com argumento e diálogos de Mário de Carvalho.

Chega-me um dia depois do 25 de Abril, um dia depois de ter ouvido um velho resistente antifascista dizer-me – talvez com mais gentileza do que verdade – que tinha aprendido muito ao ouvir os depoimentos dos africanos presos na Campo de Concentração do Tarrafal entre 1962 e 1974, que recolhi em “Tarrafal: Memórias do Campo da Morte Lenta”. E gostaria de o ter visto projectado ontem, caída a noite, na Rua António Maria Cardoso, no muro em frente à sede da PIDE, finalmente assinalada com uma placa, para que se não esqueça os muitos que por ali passaram e, sobretudo, o que foi o regime deposto a 25 de Abril de 1974.

Lamento só o ter visto hoje – mas, mesmo correndo o risco que todos o conheçam já, não quero deixar de o partilhar convosco. E de agradecer ao José Barahona, ao Mário de Carvalho e à Cinequanon por o terem feito.

 
Um filme de Diana Andringa (*), no IndieLisboa’10

Sexta-feira, 23 de Abril, às 21H30 no Grande Auditório da Culturgest
Domingo, 25 de Abril, às 18H30, no Pequeno Auditório da Culturgest
(Edifício da Caixa Geral de Depósitos, Campo Pequeno, Lisboa)

Chamavam-lhe “o Campo da Morte Lenta”. Os críticos, naturalmente. Que as autoridades, essas, chamaram-lhe primeiro, entre 1936 e 1954, quando os presos eram portugueses, “Colónia Penal de Cabo Verde” e, depois, quando reabriu em 1961 para nele serem internados os militantes anticolonialistas de Angola, Cabo Verde e Guiné, “Campo de Trabalho de Chão Bom”.

Trinta e dois portugueses, dois angolanos, dois guineenses perderam ali a vida. Outros morreram já depois de libertados, mas ainda em consequência do que ali tinham passado. Famílias houve que, sem nada saberem o destino dos presos, os deram como mortos e chegaram a celebrar cerimónias funebres.

“Ali é só deixar de pensar. Porque se não morre aqui de pensamentos. É só deixar, pronto. Os que têm vida ficam com vida. Nós aqui estamos já quase mortos.” A frase é do angolano Joel Pessoa, preso em 1969 e libertado, com todos os outros presos do campo, em 1 de Maio de 1974.

No 35º aniversário desse dia, a convite do presidente da República de Cabo Verde, Pedro Verona Pires, os sobreviventes reencontraram-se para um Simpósio Internacional sobre o Campo de Concentração do Tarrafal.

“Tarrafal: memórias do Campo da Morte Lenta” resultou desse reencontro. Durante os dias em que os antigos presos voltaram ao Tarrafal, gravámos entrevista após entrevista, registando as suas recordações. Trinta e dois presos, desde o português Emundo Pedro, um dos que o estreou, em 1936, aos angolanos e cabo-verdianos que foram os últimos a deixá-lo, no 1º de Maio de 1974, passando pelos guineenses que, ali chegados em Setembro de 62, saíram em 64 uns, em 69 os restantes. Um guarda, Joaquim Lopes, cabo-verdiano e convertido ao PAIGC. Uma das raras pessoas que testemunhou a vida no Tarrafal desde a sua abertura ao seu encerramento, Eulália Fernandes de Andrade, mais conhecida por D. Beba.

É um documentário feito à base de depoimentos e filmado quase sempre no interior do campo, afinal, o espaço em que os presos se moviam. Entre as raríssimas excepções, o cemitério, onde acompanhamos a homenagem dos sobreviventes aos que ali ficaram. Vozes, caras expressivas contra fundo de cela. Alguns objectos surpreendentes: as calças rasgadas pelo chicote e puídas pelo chão prisional, a planta do campo desenhada num osso de vaca, a bengala que testemunha o resultado da tortura. A alegria de se verem lembrados em duas exposições nas celas que tinham ocupado.

* com imagem de João Ribeiro, som de Armanda Carvalho e montagem de Cláudia Silvestre

Ousado e com conteúdos históricos fundamentais:
talvez todos os alunos devessem ser obrigados a ver o filme
de Susana de Sousa Dias (Enric Vives-Rubio)

 
Público, 29.03.2010 – por Vanessa Rato

«Não foi o filme a vencer cá o DocLisboa, o grande evento português para o documentário, mas foi o filme a ir “lá fora” e a voltar a casa com o Grande Prémio do festival Cinéma du Réel (Paris), um dos mais importantes do mundo. Estamos a falar de “48”, de Susana de Sousa Dias, uma aproximação de 93 minutos ao que foram os anos da ditadura fascista portuguesa e ao que esta implicou para os que lhe resistiram.

Estamos a falar, também, daquele que foi “provavelmente o mais ousado e vanguardista” objecto cinematográfico a passar pela edição de 2009 do Doc (palavras de Novembro último de Sérgio Tréfaut, o director do festival).

No Cinema du Réel, o prémio é de oito mil euros, mas, como sempre, há um mundo para lá do retorno financeiro – a começar pelo reconhecimento e a visibilidade acrescida. “O que é que posso dizer? Estou muito contente. É isso, basicamente”, dizia ontem ao P2 a realizadora. “Posso acrescentar que fiquei muito surpreendida com a muito boa adesão não só de profissionais -o júri, claro, outros realizadores… – mas também do público, em geral. Não é um filme, à partida, muito fácil.”»

Continuar a ler aqui.

Para além de um texto de José Augusto Rocha, que acabámos de publicar, divulgam-se hoje testemunhos de protagonistas, recolhidos em 2007, por ocasião do 45º aniversário dos acontecimentos (*).

 

Isabel do Carmo
Membro da Comissão da Pró-Associação
da Faculdade de Medicina de Lisboa

 

Jorge Sampaio
Secretário-Geral da RIA (Reunião Inter-Associações)

 
(*) A Crise Académica de 62, Fundação Mário Soares, 2007 (dvd)

Melhor documentário Festival do Rio 2007 pelo júri popular e do pelo júri da ABDec. Direção: Beth Formaggini Produção 4Ventos / GTNM-RJ
Exibido e apresentado pela realizadora, em Lisboa, no passado dia 6 de Março, durante o seminário «Que fazer com estas memórias?»

 
Um texto de Edu Passos, membro do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ

 
É preciso dizer da alegria de assistirmos o filme Memória para uso diário. O GTNM tem agora um filme que documenta a sua luta, que dá a imagem de seu movimento. O cine documentário talvez seja mesmo o meio apropriado para acompanhar e expressar a militância de um movimento social. Por quê? Porque o cinema é imagem-movimento – um estranho movimento, é verdade, já que é produzido por fotogramas, por uma série de quadros que postos lado a lado em um certo ritmo dão a sensação do movimento: um falso movimento? Do ponto de vista da experiência subjetiva não há diferença entre movimento real e falso movimento. O que assistimos na tela experimentamos como movimento. Vivemos como um movimento.

Por isso o cinema pode ser tão diferente da fotografia: a foto muito frequentemente quer registrar, quer dar testemunho de uma realidade vivida no passado, deixada no passado. Dessa realidade passada, a foto pode ser como um monumento que aponta para trás, que indica o que já era (um álbum de fotografia tem sempre um aspecto nostálgico, triste, até mesmo melancólico). O cinema, por outro lado, mesmo quando é documentário, porque é imagem-movimento editada, cria aquilo de que trata, sendo menos um retrato do que uma versão do passado. É o caso do documentário Memória para uso diário que vai ao passado sem olhar para trás (tal como Orfeu), recuperando imagens de uma história só vivida e não narrada (grande mérito do trabalho de pesquisa das imagens de arquivo). O filme faz o gesto da abertura dos arquivos, nos indicando que não basta abri-los, sendo ainda preciso completar a tarefa contando uma outra história. O filme faz o gesto e registra o gesto como este movimento tão delicado das mãos de Lola e Cléa ao folhear o passado. Só o cinema pode ter a realidade do gesto, acompanhando-o ao mesmo tempo em que o reinventando. Neste sentido, o cine documentário não está no tempo passado, não tem a nostalgia do vivido. Ele está neste tempo da invenção que é o tempo do porvir, do que poderá ser, não do que já era, mas do que já é. Do que já é como potencialidade, como abertura para outras realidades possíveis. No documentário filmamos o futuro, ou melhor, filmamos no horizonte do futuro.

Como pode ser um filme sobre a memória? O que este filme quer nos dizer quando afirma ser um documentário sobre a memória? O seu título nos dá uma pista: Memória para uso diário. Fala-se de memória enquanto uso. Está se indicando que há um sentido pragmático da memória. Daí as perguntas: para quê serve a memória? Para quem serve esta memória? O GTNM desde 1985 tem feito estas perguntas, indicando que há uma luta a ser travada no campo da memória. Há uma história oficial contada, há uma versão hegemônica acerca das lutas, sejam as lutas de resistência ao terrorismo de Estado durante os 20 anos da ditadura militar no Brasil, sejam as lutas atuais, tão cotidianas, que transferem a tecnologia da violência daqueles tempos para as periferias pobres da cidade. Dar uma outra versão para os eventos vividos é não só buscar reparação aos atingidos pela violência do Estado, é não só denunciar e levar ao julgamento os responsáveis pela violação dos direitos humanos, é, sobretudo, poder ser protagonista na narrativa da história, é poder também dar a sua versão, é poder dar um outro sentido para o passado, apostando em outros mundos possíveis, apostando no futuro. Uma memória que aponta para o futuro.

(mais…)

Para quem tiver acesso ao canal cultural franco-alemão «Arte», uma recomendação. Vai passar na quarta-feira próxima, com início às 19:30, a segunda parte do filme «Shoah» de Claude Lanzmann, realizado em 1985.

O filme dura cerca de 9 horas e por isso foi dividido em 2 partes. Continua a ser “o filme” sobre o Holocausto perpetrado pelos nazis. Acima de tudo um filme sobre até onde pode ir a (des)humanidade, o ódio, a indiferença face ao horror.

Lanzmann que é hoje o director da revista “Les Temps Modernes” fundada por Sartre e Simone de Beauvoir a seguir à guerra, está, aliás, envolvido agora numa polémica a propósito dum livro sobre a “heroicidade” dum polaco (não me lembro agora o nome) ao proteger judeus perseguidos pelos nazis na Polónia.
Como sabemos até existem “protectores” desses que vão ser”promovidos” a santos…

O filme de Lanzmann é certamente um dos “documentos de memória” mais impressionantes que se produziram. Um murro, bem mais violento que os que se podem apanhar no estômago – este vai bem mais fundo. Pena eu não poder gravar: de cada vez que estivesse chateado com as tricas e “merdices” do dia a dia ia vê-lo. Não percam!

   

Em período de comemoração… outras vozes, outras repúblicas…

   

   Milton Nascimento / Fernando Brant

   

Que mais não fosse pelo título, havia que o referir neste blogue. Trata-se de um filme que acaba de ser estreado em Espanha, da autoria de um belga, filho de exilados espanhóis. «Para devolver a dignidade às vítimas do fascismo», José Luis Peñafuerte levou três anos a fazer este primeiro grande documentário que será um importante instrumento ao serviço dos objectivos da Memória Histórica.

(Fonte)

doclisboa 2009

(Contributo de Diana Andringa e Joana Lopes)

 
48, de Susana de Sousa Dias

Acácio, de Marília Rocha

Dundo, Memória Colonial, de Diana Andringa

Os emigrantes, de José Vieira

Com que voz, de Nicholas Oulman

Pare, escute, olhe, de Jorge Pelicano

Futebol de Causas, de Ricardo Antunes Martins

 
Indochine, de Stewart Binns e Adrian Wood

Remeniscences Of A Journey To Lithuania, Jonas Mekas

Delivery Of A Nation, Momir Matovic

Bucharest, Memory Lost, Albert Solé

5 past 9, de Dario Schvarzstein

Notes on the Other, de Jonas Mekas

Behind the rainbow, de Jihan El- Tahri

Rachel, de Simone Bitton

Te revolution that wasn’t, de Aliona Polunina

The stade of exception de Germano Maccioni

California Company Town, de Lee-Anne Schmidt

A letter to uncle Boonmee, de Apichatpong Weerasethakul

The time that remains, de Elia Suleiman

The thorn in the Heart, de Michel Gondry

The decline f the Century -Testament L.Z., de Lordan Zafranovic

Melting Siberia, de Ido Haar

Loin du Vietnam, de Jean-Luc Godard, William Klein, Claude Lelouch, Joris Ivens, Chris Marker, Alain Resnais e Agnès Varda

Painful Silence, de Martine Baldacchino

 
N.B. – Trata-se de uma enumeração de filmes relacionados com o âmbito deste blogue, sem qualquer apreciação de carácter qualitativo.

(em actualização)

No próximo Sábado, pelas 21:00,
a RTP2 exibe

Nuno Teotónio Pereira – Um homem na cidade,

um documentário de Joana Cunha Ferreira,
que conheço e recomendo.

Los Refugiados de Barrancos

Acabámos de receber o seguinte mail do presidente da « ASOCIACION PARA LA RECUPERACION DE LA MEMORIA HISTORICA DE EXTREMADURA»:

Caros amigos: Os comunicamos que el documental LOS REFUGIADOS DE BARRANCOS, se estrenará en TV, mañana miércoles (quarta feira), a las 22.35 horas (21.35 horas de Lisboa) en CANAL EXTREMADURA TV. También se emitirá on line por internet y por satélite (se puede ver si se tiene parabolica orientada al satélite ASTRA, es un canal de emisión libre, sin codificar).

Lo más comodo para vosotros, será verlo on line.

Con ello se adelanta así al acto institucional en el que se hará entrega de la Medalla de Extremadura, concedida por el Consejo de Gobierno de la JUNTA DE EXTREMADURA (gobierno autónomo de Extremadura) a la localidad de Barrancos y que tendrá lugar en el Teatro Romano de Mérida, la próxima semana (7.09.2009). Con este galardón se valora la labor humanitaria prestada colectivamente por el pueblo de Barrancos.

Como sabeis, “Los refugiados de Barrancos” narra cómo multitud de republicanos de pueblos extremeños fronterizos con Portugal decidieron huir de España ante el avance de las tropas golpistas del general Franco. En dicho documental colaboran la antropóloga Mª DULCE SIMOES, los historiadores FERNANDO ROSAS, FRANCISCO ESPINOSA y JOSÉ MARIA LAMA y lo periodista PAULO BARRIGA, además del neto del teniente Seixas.

Aunque el procedimiento habitual de las autoridades portuguesas era entregar a los exiliados a sus aliados franquistas, gracias a la intervención humanitaria del teniente de la guardia fiscal portugués Antonio Augusto de Seixas, se crearon junto a la localidad de Barrancos dos campos de refugiados para alojar y proteger a los republicanos españoles.

Saludos.
José Manuel Corbacho Palacios. Abogado
Presidente de la ASOCIACION PARA LA RECUPERACION DE LA MEMORIA HISTORICA DE EXTREMADURA.

 
Sinopse: Setembro de 1936. Os últimos redutos republicanos situados junto à fronteira portuguesa são conquistados pelas tropas do General Franco. Tal como aconteceu em Badajoz e noutras povoações, a repressão desatada é brutal. O apoio do regime salazarista aos sublevados não aconselha a fuga a Portugal, mas, para muitos, esta é a única saída. Com efeito, centenas de pessoas decidem passar a fronteira, perseguidas, de perto, pelos militares revolucionários. O procedimento habitual das autoridades portuguesas é entregá-las aos franquistas, que as fuzilam sem demora. Porém, graças à humanitária intervenção do Comandante da Guarda Fiscal de Safara, Tenente António Augusto de Seixas, cria-se um campo de refugiados perto da localidade de Barrancos para alojar e proteger a este grupo de exilados espanhóis.

Z de Costa Gavras

Depois da publicação deste post, perguntaram-me se o filme «Z», de Costa Gravas, estava disponível na net. Pode ser visto aqui (dobrado em espanhol…).

Assinala-se hoje o 70º aniversário. Deixo aqui as referências de seis longos episódios que a relatam e reproduzo o último – aquele que está mais directamente relacionado com a efeméride de hoje.

 
P.S. – Muitos textos na imprensa espanhola de hoje, por exemplo no Público.es.

Estado de Excepção é um documentário que conta a história das primeiras duas décadas de existência de um grupo de teatro peculiar, o CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra). Fundado em 1956, no contexto da renovação política e cultural que precedeu as erupções contestatárias dos anos sessenta, o organismo transformou-se num lugar onde se ensaiaram e difundiram lógicas políticas, comportamentais e performativas diferentes daquelas que o Estado Novo se esforçava por promover. Energias de cariz libertário que, como o troço final do filme nos mostra, tiveram expressão, no rescaldo da revolução de 1974, nas tentativas de síntese entre uma prática teatral simultaneamente de vanguarda e popular.

Com realização de Ricardo Seiça Salgado, este é um objecto que surpreende desde logo pelo seu eficaz encadeamento narrativo, feito de pequenas histórias que fornecem um olhar comum sobre um tempo. O que remete para uma das virtudes do documento, isto é, a opção em contar a história do CITAC pela voz dos próprios citaquianos. Na verdade, muitas das informações que vão sendo relatadas ao longo do filme, não poderiam chegar até nós senão pelo testemunho dos próprios protagonistas. Recorde-se que estamos a falar de uma época em que um simples livro de actas podia ser uma prova incriminatória e de um organismo que foi esbulhado de todo o seu espólio a seguir ao encerramento compulsivo das suas instalações em 1970.

O documentário aproxima-se também daquilo que tem vindo a ser chamado de «micro-história», e que consiste, em traços simples, na capacidade de «ampliar a escala» e de atentar nas tensões que atravessam um objecto de dimensão relativamente reduzida. Deste modo, o estudo do «particular» permite iluminar o «geral», seja porque nos dá a ver a expressão localizada de alguns traços comuns, seja porque introduz perplexidades, quando se descobre uma «excepção» onde devia estar a «regra».

Assim, muitos elementos no filme permitem confirmar – e este é também o seu valor pedagógico – o retrato das lutas estudantis em Coimbra. Vemos ali, através do CITAC, o impacto da «Carta a uma Jovem Portuguesa» e o protagonismo crescente da mulher; as dinâmicas ocasionadas pelos conflitos de 1962 e de 1969; a presença rumorejante da guerra colonial; as energias gregárias, por vezes a roçarem a «guerrilha lúdica», muito próprias de Coimbra; o retrato de uma sociedade moralmente opressiva, da sua abertura lenta, do 25 de Abril e da experiência do PREC.

Por outro lado, o filme dá-nos elementos novos que ajudam a entender melhor o CITAC e o meio estudantil de Coimbra durante a ditadura. Dois exemplos: em primeiro lugar, o desenho que é feito da evolução interna do grupo mostra que o «vanguardismo» pelo qual ainda hoje é conhecido, não foi um dado uniforme. Apesar de um evidente arrojo estético, os diferentes encenadores – Luís de Lima, Victor Garcia, Ricard Salvat ou Juan Carlos Oviedo – representam etapas distintas em termos de métodos e práticas teatrais. Em segundo lugar, o documentário prova como, inserido no contínuo e crescente processo de contestação que invadiu os meios estudantis durante a década de 1960, o CITAC representava também aqui, a nível político, um papel de vanguarda. A este respeito, o título é certeiro: criando «espaços de liberdade», conquistando terreno ao cinzentismo dominante – que tinha por vezes expressão junto de certas elites de esquerda – o CITAC foi um pedaço, importante e singular, da resistência política, cultural e moral ao Estado Novo.

Irene Pimentel publicou neste blogue um texto intitulado «O aparelho torcionário da PIDE/DGS». Na segunda parte do mesmo, fala-se sobretudo de tortura, tal como foi praticada pela PIDE ao longo de décadas de ditadura.
 
Esta Curta-metragem ajuda a não esquecer.

«Quem é Ricardo?», 2004, 34 minutos
Realização de José Barahona, argumento de Mário de Carvalho.

 

Um rapazinho negro, criança ainda, marcado a ferro em brasa na testa, por ter perdido uma cabeça de gado. Tratado como gado ele próprio, a marca do proprietário a explicitar esse direito total sobre os seus trabalhadores. A criança olha-nos de frente, sob o oito deitado que lhe sulca a testa. Não nos interroga, não nos julga. Talvez se espante, isso sim, por haver um fotógrafo para a sua dor – que talvez, na sua curta vida, se tenha habituado a ver como normal, que talvez não imagine sequer que pode ser condenada por um homem que, armado de um máquina fotográfica, não teme as armas do patrão da criança.

Não admira, portanto, o título escolhido por Licínio de Azevedo, cineasta brasileiro há muito radicado em Moçambique, para um documentário sobre o autor da fotografia: «Ricardo Rangel, Ferro em Brasa». Um documentário que, para lá do homem, nos mostra a sua circunstância, o Moçambique dos anos pré-independência, esse Moçambique que tantos, ainda hoje, se recusam a ver, preferindo recordar a qualidade de vida da pequena parte da população que representavam.

O Moçambique onde um amigo – branco – de Rangel, desejoso de ser fotografado junto a um negro, se vê em apuros para o conseguir. O fotógrafo recorda os esforços com humor: a câmara preparada, o amigo pronto a, ao ver passar um negro, colocar-se-lhe ao lado – e, um após outro, o escolhido afastar-se, sobressaltado, temendo a má interpretação desse lado a lado com um branco.

É também com humor que conta uma outra história: preso por agressão a um homem casado que perseguia a sua irmã, é alvo, na esquadra, de uma estranha pergunta. «És assimilado ou não és assimilado?», pergunta o agente, terminado o auto de ocorrência. «É que se és assimilado, vais para o calabouço dos brancos; se não és, vais para o dos negros.»

Digam-nos, depois, que nas colónias portuguesas não havia racismo…

«Ricardo Rangel, Ferro em Brasa», passou há pouco em Lisboa, na iniciativa que levou por nome «Os dias do Desenvolvimento». Devia passar muitas vezes, muitas, para que não nos esqueçamos – cada vez que nos apiedamos sobre o Moçambique de hoje – o que era, também era, o Moçambique de então. Ao som de jazz, a música da vida de Ricardo Rangel.

Fizeram bem em escolher aquela fotografia para os cartazes. A da menina que se entre esconde, laço no cabelo, dois ou três dedos na boca, a olhar para o lado esquerdo. Fizeram bem, porque os olhos são, talvez, o que mais marca neste filme, Cartas a uma Ditadura.

Entendam-me: não pretendo, nesta frase, menorizar o documentário de Inês de Medeiros. Pelo contrário: entendo sublinhar a força de algumas das imagens de arquivo que escolheu. Imagens que mais facilmente nos voltam à memória, quando – ao contrário do que então sonhávamos – a Democracia não resolveu, até agora, o problema da pobreza: a oferta de géneros a quem deles precisa, o peixe, em vez da cana de pescar.

Chamávos-lhe, então, «a caridadezinha». José Barata Moura escreveu mesmo, sobre ela, uma canção. Lembram-se? «Vamos todos brincar à caridadezinha, festa, canasta e boa comidinha». Também ele provavelmente acreditava que bastava derrubar o regime para acabar com a humilhação da esmola.

A humilhação da esmola. A de quem recebe, por certo: é isso que mostram os olhos, duros, sem um soriso, daquela mulher a quem oferecem – nas imagens de arquivo do documentário de Inês de Medeiros – enxoval para o filho recém-nascido. É uma imagem longa – como se a pessoa que filmava, constrangida, sentisse a necessidade de aguardar que a mulher finalmente sorrisse. E ela finalmente sorri, mas sem que os olhos mudem. Recebe a esmola – e devolve-nos o desconforto. A humilhação de quem recebe, mas também a humilhação de quem dá: como a senti quando, no Ramalhão, o Natal significava uma visita à «nossa» pobre, com roupinhas para a criança que esse ano tivera, porque as gravidezes se seguiam umas às outras, para alegria do país católico e conservador e das senhoras esmoleres, mães de muito menos filhos.

Os olhos. Os olhos dessa mulher no filme. Os olhos das crianças que, também elas, recebem roupas e brinquedos e guloseimas e não sorriem. Os olhos duros. Os olhos no chão. Acodem-me à memória versos de Manuel Alegre: «Pergunto à gente que passa/ por que vai de olhos no chão. / Silêncio — é tudo o que tem/ quem vive na servidão».

Era esse o país que tínhamos. O que queríamos mudar. As senhoras que falam no filme, as que escreveram a Salazar, as que ainda hoje – não são todas – não distinguem «ditadura» de «democracia» já não me iritam, magoam-me. Porque fazem parte de nós, porque aquele país está dentro de nós, os que vivemos nele, ainda que contra ele. Ainda nos sustém o riso e a alegria. Ainda nos perturba.

Ao meu lado, uma jovem ri – e tem razão. Nascida em democracia, o Estado Novo parece-lhe, sobretudo, ridículo. Não tem, como os que o viveram, o peso desses anos a endurecer-lhes os olhos, a retraír-lhes o riso.

E fico grata aos cineastas que, crianças ainda no 25 de Abril, têm vindo a preservar a memória do que vivemos: Teresa Vilaverde e «Idade Maior», Serge Tréfaut e «Um Outro País», Maria de Medeiros e «Capitães de Abril», Inês de Medeiros e estas «Cartas a uma Ditadura», entre outros. Que recusam a amnésia.