Entrevistas


Por ocasião de mais um aniversário da morte de Amílcar Cabral.

 
Aqui, «Amílcar Cabral» pelo grupo Korda Skrabu Kauguiamo

Um vídeo com declarações de Amílcar Cabral. Clique na barra:

retrouver ce média sur www.ina.fr

ou ver excertos legendados em português aqui.

 
Crónica publicada no jornal Público em Janeiro de 1993:

Para a gente que, no início dos anos 60, frequentava a Casa de Estudantes do Império – e, depois do seu fim, se refugiou nos cafés mais próximos, como a Mimo ou o Rialva, o nome de Amílcar Cabral surgia como quase mitológico. Talvez por isso, pelas conversas e histórias em seu redor, a sua morte causou-me, não só a natural indignação perante o assassínio de um grande dirigente, mas também a mágoa de quem perde um amigo que não chegou a conhecer. Por tudo isso, Amílcar Cabral e os factos do 20 de Janeiro surgiam, naturalmente, sempre que falava com gente que com ele se tinha cruzado, no PAIGC. Dessas conversas se tece este relato:

“Quando o conheci, numa casa da Rua Actor Vale, em Lisboa, não o associei a esse Amílcar Cabral de cujo trabalho na Guiné já tínhamos ouvido os ecos. O engenheiro que me apresentaram não parecia capaz de fazer nada disso…”

Ana Maria Cabral riu-se, quando me contou esta história, em Cabo Verde, há já alguns anos. Ri-me também: porque já ouvira comentários semelhantes, mas também porque talvez fosse essa qualidade, fazer sem tornar evidente que fazia, que lhe tivesse permitido estar entre a escassa dezena e meia de guineenses a ascender a um curso superior, em Portugal. Talvez fosse ainda essa qualidade que lhe permitiu, durante dois anos, correr a Guiné de lé a lés, na sua qualidade de agrónomo: fazendo um trabalho científico (que seria depois publicado pela Imprensa Nacional), mas também adquirindo um conhecimento que esteve na base da luta vitorosa do PAIGC, semeando ideias, cultivando cumplicidades. Até que finalmente o disfarce caíu e foi proibido de permanecer na terra natal, onde só era autorizado a entrar uma vez por ano, para uma curta visita a sua mãe.

Nessa altura tinha já uma ideia muito clara sobre os problemas que levantaria, à luta de libertação, a existência de múltiplas etnias, sem laços entre si. Mas dizia: “É com esta gente, como ela é, que temos de fazer a luta. Será a própria luta que os fará avançar.” Conseguiu assim que os Balantas, depois de combaterem no seu próprio terreno, admitissem ir dar uma mão aos Fulas, no chão destes. Tal como deixou que fosse a prática a combater as superstições: “Se um chefe está tão carregado de amuletos que pecisa de carregadores para o ajudar a transportá-los e, por isso, não se precipita para o abrigo em caso de bombardeamento e morre, e outro sem amuletos, que está no abrigo, escapa, as pessas começam a perceber que é o abrigo o melhor dos amuletos…”

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josé manuel tengarrinha

Em 2005, a Revista Seara Nova, então dirigida por Ulpiano Nascimento, publicou uma conversa com José Manuel Tengarrinha, um dos dirigentes que mais se destacaram na liderança da oposição democrática, em 1969 e 1973. Dessa longa conversa, em que o político e historiador reflecte e relata na primeira pessoa factos da resistência anti-fascista ao longo dos 48 anos da ditadura, transcrevemos a parte relativa ao movimento CDE.
 
 
Seara Nova – Em 1969, surge a Comissão Democrática Eleitoral (CDE). Todos estes aspectos que já abordámos influenciaram a CDE?
José Manuel Tengarrinha – Daí a necessidade de compreender as características que a CDE tem em 1969. É evidente que é fortemente marcada pela queda política de Salazar e pela pretensa esperança na abertura do regime. Todos nós fomos embalados nessa esperança, embora uns mais que outros. Na nossa área, a esperança era limitada, mas a área socialista estava eufórica. Mário Soares, que tinha estado no exílio em São Tomé, foi amnistiado por Marcelo Caetano e regressou. Este facto é importante para se perceber o contexto em que nasce a CDE. Mário Soares pretende apresentar-se como o dirigente máximo da oposição e como o interlocutor legítimo para Marcelo Caetano dialogar com a oposição. Nesse sentido, elabora um documento que é tornado público e enviado para Marcelo Caetano, em que diz que é preciso encontrar forças políticas capazes de ter visibilidade, e dando como completamente excluída a hipótese de o PCP desempenhar qualquer acção relevante no panorama da oposição portuguesa por se encontrar praticamente extinto. Ou seja, apresenta-se como o único capaz de ser a face da oposição democrática. Esse documento reúne cento e vinte assinaturas, entre as quais as de Urbano Tavares Rodrigues, Rogério Fernandes e outros.

SN – Que importância tem nessa altura e nesse contexto o II Congresso de Aveiro?
JMT – Era aí que queria chegar. Nota desta evolução que tenho estado a assinalar são as características dos três congressos de Aveiro. Os dois primeiros são congressos republicanos, só o último se designa Congresso da Oposição Democrática. 

SN – O que denota o peso do republicanismo histórico.
JMT – Exactamente. O primeiro é inclusive presidido por um antigo ministro da Primeira República. 

SN – Mas Mário Sacramento já participa.
JMT – É a condescendência porque não tinham ninguém que o conseguisse organizar. Reconheciam o Mário Sacramento e respeitavam-no, embora soubessem que era militante do Partido Comunista. Havia uma enorme admiração intelectual por Mário Sacramento, que foi o secretário do Congresso e teve grande influência em toda a sua organização, ainda que este primeiro congresso se tivesse limitado a fazer a denúncia política, com intervenções dispersas e com um acento mais «comicieiro» do que propriamente de reflexão sobre os problemas. O segundo congresso, em 1969, realiza-se já com o Marcelo Caetano como presidente do Conselho de Ministros e, nessa altura, a intervenção dos elementos da área comunista, digamos assim, tanto os intervenientes como os que estão na organização, já é mais forte. E tem esta característica que é interessante: está dividido em secções e com a preocupação de análise das situações concretas do País. Não é já apenas a proclamação política, como no primeiro, e no velho estilo da retórica republicana, mas um congresso em que se pretendeu estudar problemas e encontrar soluções. Dado que a participação foi muito mais diversificada que no primeiro congresso e dado que a nova situação política, com o Marcelo Caetano, trazia algumas perspectivas de que a oposição se apresentasse como uma força que exercesse influência na condução política, elabora-se a Plataforma de São Pedro de Moel. 

SN – A Plataforma de São Pedro de Moel assenta num acordo, mas nas legislativas de 1969 a oposição concorre em duas listas distintas.
JMT – Chegou-se a acordo, mas havia questões em que as divergências eram grandes e são estas que acabam por vir a determinar a existência da CDE e da CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática). Primeiro, a questão da guerra colonial com o reconhecimento do direito das colónias à independência que era visto pela corrente socialista de uma forma mais recuada, assente num estatuto de certa autonomia, diria que um neocolonialismo encapotado. Para isto, havia duas razões, uma delas por quererem captar sectores moderados da oposição, ainda na área próxima do republicanismo histórico que era colonialista; outra prendia-se com a pretensão de serem elementos válidos para o diálogo com Marcelo Caetano e, obviamente, se defendessem a independência das colónias não o conseguiriam, uma vez que para aquele a defesa das colónias era ponto de honra e quem defendesse a independência e o diálogo com os movimentos de libertação era, pura e simplesmente, considerado traidor. Recordo-me que nessa altura Mário Soares chegou a ter reuniões com o presidente da Acção Nacional Popular (ex – União Nacional) para tentar acertar posições. 

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A 16 de Outubro de 1975, um grupo de cinco jornalistas ao serviço de duas televisões australianos foi morto por tropas indonésias em Balibó, Timor-Leste.
Adelino Gomes foi uma das últimas pessoas a vê-los com vida e explica os factos em entrevista ao Expresso – vídeo aqui.

Mário Pinto de Andrade em Havana
 
(Primeira, segunda, terceira e quarta parte deste texto.)
 
 
Entre as repercussões dessa conferência numa sala da Câmara dos Comuns, considera Pinto de Andrade o entendimento, pelos militantes do interior, de um encorajamento à passagem à luta armada: «Dois meses depois, a  4 de Fevereiro de 1961, os militantes do interior, encorajados por essa conferência de Imprensa, pelos apoios internacionais de que o movimento dispunha e aproveitando a presença dos jornalistas que pretendiam cobrir o eventual acontecimento da chegada do Santa Maria a Luanda, decidiram uma acção contra as prisões onde estavam detidos alguns dos nacionalistas e, sobretudo, dirigentes do Movimento, do MPLA, sobre os quais pesava, aliás, a ameaça de transferência para o Tarrafal. Portanto, esta conjunção de circunstâncias decidiu a acção do 4 de Fevereiro, que depois se transformou em início da luta armada, mas cujo objectivo era a libertação dos presos políticos.» 

Pouco depois, segue-se o 15 de Março, uma acção da UPA: «Há uma diferença qualitativa e organizacional. Evidentemente que há o ponto de vista de cada um dos movimentos, subjectivo, mas objectivamente pode dizer-se que a acção dos militantes do interior, enquadrados por militantes do MPLA – a acção não é exclusiva, mas enfim, é reivindicada pelo MPLA – sucedeu uma tal repressão sobre as populações que já não restava outra alternativa que organizar-se de uma maneira muito mais organizada, para fazer do 4 de Fevereiro o verdadeiro ponto de partida de uma luta de libertação nacional. Mas era necessário ainda algum tempo, porque os meios de que dispúnhamos, os conhecimentos de que éramos portadores, a difusão das próprias técnicas de guerrilha não estavam suficientemente maduras para enquadrar os angolanos nacionalistas numa verdadeira luta de libertação nacional. Entretanto a UPA considerou o 4 de Fevereiro como uma precipitação, uma iniciação precipitada nessa via, e iniciou em 15 de Março as operações nas plantações de café, o que se transformou numa acção que se pode denominar em termos técnicos de guerrilha em jacquerie, uma insurreição não controlada pelos próprios dirigentes no seu desenvolvimento. O próprio Holden Roberto disse, numa conferência de Imprensa em Nova Iorque, que as suas palavras de ordem tinham sido ultrapassadas. Mas, independentemente da discussão sobre a natureza do 4 de Fevereiro e do 15 de Março, a nossa primeira ilação e o nosso primeiro reflexo foi propor e aprofundar propostas anteriores ao movimento adverso – adverso ideologicamente – de criar uma frente unida para fazer face ao inimigo comum. Só que a parte adversa não considerou assim. A capitalização que a direcção da UPA fez do 15 de Março inviabilizou a nossa ideia de movimento unido, que nos permitiria pôr os nossos recursos em conjunto para fazer frente à repressão e à resposta do inimigo, que viria, e que naturalmente, a partir desse ano de 61, foi fatal a uma grande parte da insurreição no Norte. A nossa análise era a favor de uma Frente unitária e uma preparação da luta armada que não se assemelhasse ao ataque indiscriminado aos civis ou à transformação numa guerra de tipo racial. Essa capitalização, esse monopólio que a UPA se atribuiu do norte de Angola tornou impossível uma unidade e a própria operacionalidade daquilo a que se chamou depois a 1ª Região Político Militar do MPLA.» 

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Mário Pinto de Andrade - Muralha da China 
 
(Primeira, segunda e terceira parte deste texto.)  

 
Pinto de Andrade troca Paris por Conacry, a primeira base africana: «Para nós, Conacry era uma estância provisória. O que queríamos era aproximar-nos do interior. Com a independência do Congo, começámos a criar novas células. Estávamos em atraso em relação à UPA, que era originária da etnia Bakongo, com clientela política nos meios da emigração em Kinshasa. E Holden Roberto tinha apoio dos dirigentes, nomeadamente de Patrice Lumumba, cujo primeiro reflexo foi apoiar a UPA e excluir o MPLA. Circulava nessa altura uma teoria, defendida por Franz Fanon, de que a UPA recrutava no meio camponês, enquanto que o MPLA era um grupo de intelectuais mestiços. Tínhamos que ultrapassar esses preconceitos para nos podermos enraizar no Congo.»

Lara é o mensageiro para reforçar o MPLA no interior: «Neto já estava em Angola e foi em torno dele que a resistência se organizou. Havia várias organizações e entendemos que a unidade interna devia ser em torno do MPLA e de Agostinho Neto, mas este foi detido em Junho de 60 e, depois dele, o meu irmão, o sacerdote Joaquim Pinto de Andrade.»

Um pouco antes, em Maio, tinham dirigido um memorando a Salazar, propondo a abertura de conversações sobre a situação das colónias: «Estávamos numa época de outorga de independências por meios pacíficos e, para iniciar a luta armada, precisávamos de responsabilizar o inimigo e provar que a contradição com Portugal se situava no campo da luta armada. Foi por isso que redigimos esse memorando ao Presidente do Conselho, a Salazar, em carta registada, para o Palácio de S. Bento. E ali dizia-se simplesmente, no essencial, que sabíamos que Portugal estava a preparar uma guerra preventiva, e que o único modo para evitar esse confronto, que se podia transformar numa autêntica guerra, era reunirmos uma mesa-redonda com os diferentes partidos políticos, para discutir o acesso à autodeterminação e independência. O memorando foi assinado pelo então Presidente do MPLA – eu próprio – Viriato da Cruz e Lúcio Lara e não recebeu resposta do nosso destinatário. Mas recebeu um comentário no jornal Novidades, que pertencia à família salazarista e católica, que o rejeitava, dizendo que nem mesa-redonda nem quadrada para discutir o indiscutível, o que não tem discussão, que era a independência.»

A ideia da luta armada já se agitava no grupo desde os anos 50. Em 59 tinham tido mesmo uma proposta de formação de elementos, de quadros para a luta armada: «Isso passou-se em Roma, na Páscoa romana, creio que em Abril, à margem do 2º Congresso de Escritores e Artistas Negros. Nessa altura já não era secretário de Alioune Diop, mas estive nesse Congresso, com Viriato da Cruz, Lúcio Lara e Marcelino dos Santos. Como conhecia bem Franz Fanon, com já tinha estado em Paris quando do 1º Congresso, servi de intermediário numa reunião que solicitou com os africanos das colónias portuguesas. E reunimo-nos num café, clandestinamente. Fanon era um homem perseguido pela Polícia, tinha sido vítima de uma tentativa de assassinato, mas era já um responsável do GPLA, Governo Provisório da Argélia Livre, um conselheiro político escutado. Defendeu a tese de divisão do imperialismo: a Argélia lutava contra o imperialismo francês, era necessário atacar outro imperialismo da família NATO, para dividir a força da NATO. Então propunha que aqueles grupos, aqueles actores dirigentes – que ainda não eram reconhecidos como tal – aqueles nacionalistas, envidassem esforços para desencadear, simultaneamente, a luta armada em Angola e Moçambique.»

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Mário Pinto de Andrade
 
(Primeira e segunda parte deste texto.) 

 
Em 1954, Mário Pinto de Andrade parte para Paris:
«Sentia-me perseguido, como toda a gente, pela PIDE. E pressenti que, não estando ligado propriamente às actividades políticas portuguesas, seria para mim um corte na minha própria formação continuar em Lisboa. Depois, já tinha ligações com o Alioune Diop, com a Présence Africaine, e havia também já dois dos elementos do nosso grupo em Paris, Marcelino dos Santos e Guilherme Espírito Santo, da família do 37 da Rua Actor Vale.»

Sendo necessário justificar a saída de Portugal, o objectivo explícito para as autoridades portuguesas foi a participação num campo de trabalho. Saiu sem dificuldades, graças também à cumplicidade de um amigo – mais tarde seu editor – João Sá da Costa, que lhe passou um documento de idoneidade moral e financeira: «Fiz o tal mês de trabalho num campo internacional no Sudeste da França, com estudantes de vários países, entre os quais argelinos, cheguei a Paris e tive a felicidade de encontrar Alioune Diop e de ter imediatamente a esperança, ou, pelo menos, o engajamento, de trabalhar na revista Présence Africaine, na dupla função de secretário da nova série da revista e de secretário pessoal do próprio director.»

Mantinha o contacto com Viriato da Cruz e os restantes compagnons de route, mas começa a ligar-se a intelectuais africanos francófonos:
«Foi um deslumbramento. Para além de me inscrever na escola Prática dos Altos Estudos – onde tive por mestre Roger Bastide – tinha o meu quotidiano preenchido pelo trabalho na Présence Africaine, onde circulava o escol da intelectualidade francófona. Nenhum intelectual importante nesse tempo deixava de frequentar essa revista. E não só africanos, também intelectuais de outras áreas, do mundo negro. Richard Wright, por exemplo, que vivia em Paris nesse tempo, James Baldwin e mesmo o Chester Himes, de uma maneira mais peregrina, mas enfim, o essencial da intelectualidade francófona não só colaborava como mantinha contactos com Alioune Diop e eu ia, evidentemente, aprofundando os meus conhecimentos e alargando os meus horizontes culturais. E devo dizer que beneficiei da amizade pessoal não só de Alioune Diop, naturalmente, mas também de Aimé Césaire e Léopold Sedhar Senghor e indico os nomes nessa ordem pela intensidade das relações.»

Pelo próprio facto da origem senegalesa de Alioune Diop, os primeiros contactos intelectuais de Mário Pinto de Andrade com o mundo francófono foram com o meio senegalês. Mas, para além disso, Mário vivia na cidade universitária e a cidade universitária desse tempo, anos 50, plena guerra fria, era um mundo de grande agitação política:
«Devo dizer que um outro elemento importante, que não teve passagem por Lisboa, não frequentou as academias de Portugal, mas que se encontrava em Paris – tinha vindo directamente de Goa para Grenoble, passando por Moçambique – foi o meu amigo, o meu cúmplice, Aquino de Bragança. Era um homem cujo destino se cruzou com o meu e teve uma influência extraordinariamente importante, na sua qualidade de grande agitador de ideias. De modo que esta vivência de Paris foi das mais ricas e mais determinantes no meu devir cultural e político.»

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Joaquim Pinto de Andrade
 
(A primeira parte deste texto pode ser lida aqui.)

 
Na viagem para Lisboa, Mário tem a companhia do irmão Joaquim e do futuro cardeal Alexandre Nascimento. A saída das Ingobotas – «mais precisamente do Quilómetro 5» – para um jovem que apenas fizera algumas curtas viagens em Angola, foi «uma separação penosa, difícil, um primeiro desenraizamento»: «Encontrei o Outono, quase já princípio de Inverno, as folhas mortas no Cais de Alcântara, foi extremamente difícil, mas essa dificuldade foi atenuada por saber que ia viver numa pensão – perto de Santo Amaro, contígua à estação dos eléctricos – onde estavam já dois angolanos que me tinham precedido nessa aventura, um colega de escola, Licínio de Assis, filho do dicionarista e antigo jornalista António de Assis Júnior, e Humberto Alves Machado.» 

Poucos dias depois, «creio que na própria semana em que cheguei a Lisboa»,  Humberto Machado, estudante de Agronomia, apresentou-lhes um colega chamado Amílcar Cabral: «Lembro-me, naturalmente, tão importante foi esse encontro, do dia exacto em que lhe apertei a mão pela primeira vez, a esse homem que foi a personalidade mais influente na minha geração. Foi na rua Luís de Camões, subindo a R. Luís de Camões ao encontro da Tapada da Ajuda, do Instituto Superior de Agronomia, que encontrei pela primeira vez Amílcar Cabral. Um homem elegante, disponível, que me considerou imediatamente como mais um elemento, mais uma unidade no grupo que depois haveríamos de formar.» 

Seguiram-se o moçambicano Marcelino dos Santos e Agostinho Neto, «que eu conhecia mal em Angola, e que, vindo de Coimbra, veio também alojar-se nessa pensão de Santo Amaro.» 

Segue-se, nesta lista de nomes que entrarão para a História, Francisco José Tenreiro, um pouco mais velho, nessa altura a estagiar com o geógrafo Orlando Ribeiro. «E depois a família Espírito Santo, no 37 da rua Actor Vale, e muitos outros, o Américo Boavida, o Diógenes Boavida, etc.» 

O número de africanos em Lisboa foi-se alargando, e foram-se constituindo novas organizações:
«Nessa altura havia pólos de congregação. O primeiro pólo para nós, estudantes,  era a Casa de Estudantes do Império, pelas facilidades de ordem social e recreativa que permitia. Mas, como africanos, organizámo-nos para lá da CEI. Começámos por ter conhecimento da Casa da África Portuguesa, dominada por um proto-nacionalista, Artur de Castro, e que estava na continuidade das várias associações que existiam em Lisboa, desde a Junta de Defesa dos Direitos de África, Liga Africana, Partido Nacional Africano, o Grémio dos Africanos… A Casa da África Portuguesa é uma organização que sucede ao Grémio dos Africanos, de 1929, é criada em 1944 e, em 49/50, pretendemos, alguns de nós, criar uma organização de reactivação, reorganizadora, da Casa de África. Não fomos bem sucedidos, porque a direcção era – para falar em termos actuais – reaccionária ou, pelo menos, conservadora e não estava disponível para aceder a uma presença e a uma infiltração de sangue novo. Sobretudo uma infiltração que, na interpretação de Artur de Castro, podia ser comunizante.» 

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Mário e Joaquim Pinto de Andrade 

Nasceu e morreu no mês de Agosto. Teria completado 81 anos no passado dia 21, se a morte não o tivesse apanhado em Londres poucos dias depois de fazer 62 anos – a 28 de Agosto de 1990. Pouco tempo depois, também, de ter tido oportunidade de conhecê-lo.

A partir dos anos 60 e durante muito tempo, Mário Pinto de Andrade foi para mim uma referência: angolano, nacionalista, intelectual prestigiado, primeiro presidente do MPLA. Mas só muito mais tarde, nos finais da década de 80, vim a conhecê-lo. Combinado um encontro à porta da Biblioteca Nacional e temendo não o reconhecer, perguntei-lhe se era parecido com o irmão Joaquim, que conhecia bem. A resposta desconcertou-me: «Não. Sou muito mais bonito!» Então, como reconhecê-lo? «Costuma ver muitos negros carregados de livros sair da Biblioteca Nacional de Lisboa?» 

Reencontrei a ironia na forma como, na entrevista que me deu, para a série documental «Geração de 60», definiu as suas origens sociais: «Não vêm na sociologia marxista. Era a lumpen aristocracia luandense.» Depois explicitou o conceito: «Caracterizava-se, nos anos 30, pela sobrevivência de pergaminhos familistas. Um grupo de gente que se reportava a um passado de participação na administração colonial, algumas funções na Igreja e no Exército e que ainda participavam das migalhas dessa existência.» 

O pai era um funcionário aposentado, os seus amigos eram também da área administrativa. Foi nesse meio que se formou a consciência nativista de Mário Pinto de Andrade: «A lumpen aristocracia se, por um lado, vivia dos seus pergaminhos, por outro veiculava aos seus descendentes uma consciência nativista. Havia uma ambivalência, um certo orgulho de ter sido parte integrante dessa vida no meio do colonizador e, ao mesmo tempo, de ter estado na vanguarda de uma luta contra as discriminações de que foram sendo vítimas, no seio da problemática de qualquer colonialismo.» 

De qualquer modo, sublinhou, «essa lumpen aristocracia não se situava ainda no extremo de sobrevivência do colonizado. Quem se situava nesse lugar era o indígena.» O meio em que Mário se inseria era considerado assimilado, com direito à escola e à ascensão social: «Em princípio. Evidentemente já se manifestavam outras formas de discriminação social – não falemos já de discriminação política, porque isso era mais vasto, era o próprio sistema já em vigor, o sistema do Estado Novo. Mas essas formas de discriminação social e racial exerciam-se já no nosso meio, no meio africano, exerciam-se já nas Ingombotas, onde vivi, no meio nativo em geral. Era já um meio de luta para ascender à vida social através da escola.» 

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Texto lido, em 16 de Dezembro de 2008, na cerimónia de evocação do 10º aniversário da morte do padre Felicidade.
 
 
Embora tenha seguido com interesse e curiosidade as posições do padre Felicidade Alves na década de 60 – e tenhamos ambos, segundo creio, habitado por alguns dias a mesma prisão, em Maio de 70 -, só em 1990 tive oportunidade de falar longamente com ele, numa entrevista para a série documental «Geração de 60»

Nessa altura, há muito que José Felicidade Alves fora afastado da Igreja Católica, cuja hierarquia começara por suspendê-lo para depois o excomungar. Mas, porque a nossa conversa tinha como base os anos 60, inflamava-se ao falar do que chamava as «chagas» da Igreja Católica portuguesa de então – nomeadamente a existência de capelães militares – e continuava a entusiasmar-se recordando João XXIII e as esperanças do Vaticano II.

Contou-me como, entrado no seminário com 11 anos, ali viveu 12 anos como seminarista, seguidos de 8 como professor, o que o fez  chegar aos 30 anos sem saber nada da vida política e social. Para me tornar mais evidente essa ignorância, explicou que só no seu 2º ano de Teologia, em 1945/46,  conseguiram finalmente ter acesso a um jornal: E acrescentou:  «Mas era o Novidades, e só podíamos ler durante o recreio. Aluno que fosse apanhado com rádio era expulso do seminário!» 

Prior na paróquia de Belém, toma consciência de que há um mundo à sua volta: «Veio um grupo de pessoas da União Nacional à sacristia reclamar que lhes dissesse em quem ia votar. E eu, que se calhar se não me dissessem nada votava no Américo Tomás, perante aquela impertinência, disse: “Vou votar no Humberto.” “No Delgado? Porquê?” “Acho bonito, depois de uma Berta – a mulher do Craveiro – vir um Humberto.” Levei para a chacota. “O senhor está a brincar! Mas nós queremos saber em quem vota!” “No Arlindo. Então não fica bem um ar lindo em Belém?” “Queremos saber em quem o senhor vai votar!” E eu disse: “Em quem vou votar? Naquele que a minha consciência indicar.” E aí tomei consciência de que era livre. “Mas o senhor vai connosco!” Cercaram-me e, depois da missa do meio-dia, levaram-me à Junta de Freguesia para eu votar. Era uma fantasia da parte deles, porque o voto era  secreto. E eles convenceram-se que, como ia com eles, ia votar no candidato deles – e eu votei em quem muito bem entendi. Mas isso levou-me a um certo distanciamento em relação a essas pessoas.»

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14/5/2010. Acaba de ser conhecida a morte de José Luís Saldanha Sanches, colaborador dos «Caminhos». Em jeito de homenagem, republicamos esta entrevista datada de 2008.

 
A Pública de ontem divulgou uma extensa e notável entrevista com Maria José Morgado e José Luís Saldanha Sanches. Com o consentimento deste último, colaborador regular deste blogue, reproduzimo-la na íntegra. Porque muitos leitores poderão não a ter lido e também porque nos parece importante que ela permaneça acessível num blogue com as características dos Caminhos da Memória.

 
Pública, 5/10/2008, Entrevista de Anabela Mota Ribeiro

Ela era a “renegada Morgado” e ele tinha o nome escrito nos muros de Lisboa: “O povo libertará Saldanha Sanches.” Depois desistiram da revolução, tiveram uma filha, descobriram com ela um mundo. Guardaram o inconformismo, a militância. Maria José Morgado e Saldanha Sanches ainda são revolucionários?

Eles já se permitem falar de fraquezas pequeno-burguesas. Como ter sentimentos, ter uma filha, a relação com a infância. Eles já se habituaram a vivê-las. Fazem imensa troça do radicalismo de um tempo – que é a forma de olharam para si, agora, e aceitar que foram outros. São desiludidos maoístas. São descrentes.
José Luís Saldanha Sanches, o fiscalista, não falou de Fiscal. Maria José Morgado, a procuradora incorruptível, não falou de corrupção. Falaram de uma coisa geracional. De um despertar colectivo que começou com a campanha de Delgado, e o apanhou a ele, mais velho. De um movimento que a fez despertar, a ela, na faculdade. Um movimento que apetecia. Foram um casal MRPP. Deixaram de ser MR’s e continuaram a ser um casal.

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Apresentação da peça Macbeth… o que se passa na tua cabeça? (1970)

Ricardo Seiça realizou «Estado de Excepção», um documentário – de que já se falou neste blogue – sobre o CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra). O autor explica-nos os motivos que o levaram a fazer o filme e esclarece que este é apenas a parte inicial de um trabalho etnográfico em curso.

Como é que apareceu a ideia de fazer um documentário sobre um grupo de teatro universitário, no caso o CITAC?

A ideia decorreu do convite que o CITAC me fez para os ajudar a fazer um projecto teatral sobre a história do inter-organismo e da sua influência no seio da Associação Académica de Coimbra (AAC), com o intuito de participar na comemoração dos 120 anos da academia. Por outro lado, creio que a geração actual do CITAC quis fazer algo sobre o grupo também decorrente das comemorações dos seus 50 anos (1956/2006) depois do lançamento de um livro comemorativo sobre a sua história. Talvez o facto de esta geração ser a primeira “fora da história” (do livro editado) tenha produzido um sentimento de que era interessante, também eles fazerem algo para a história.

Estando a fazer um estudo etno-histórico sobre o CITAC no âmbito de um doutoramento em Antropologia e tendo, eu próprio, pertencido ao grupo em 1995, e também pelo facto de ser um criador, pensaram ser interessante fazermos um projecto. O investigador tornou-se parte da investigação, impelindo o estudo para uma observação-participante peculiar. Tudo estava por fazer: tínhamos o precioso documento do livro e alguns documentos desorganizados no CITAC, tendo em conta que todo o espólio anterior a 1969 fora confiscado pela PIDE (da investigação feita junto dos arquivos militares, tudo parece ter acabado por desaparecer), e conhecíamos a história dos movimentos estudantis. Sugeri que fizéssemos entrevistas a (ex)citaquianos e que as filmássemos, em ordem a produzir conteúdos para construir a peça teatral que se começou a configurar como teatro documental. De caminho, a par da peça teatral, poderíamos realizar um documentário. E assim surgiu um objecto artístico “dois em um”.

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Publico hoje a terceira e última parte de um texto baseado numa conversa que tive com Edmundo Pedro (EP) e com Nuno Teotónio Pereira (NTP) (*).
(Parte 1 e Parte 2.)
 

Uma esperança chamada Cuba

Quando Portugal vivia ainda no rescaldo, já desiludido, das eleições presidenciais a que Delgado concorreu em 1958, a vitória de Fidel de Castro em Cuba, em Janeiro de 1959, funcionou como uma verdadeira mola para grande parte dos antifascistas portugueses. Foi uma «grande esperança de uma revolução democrática, de rosto humano, um solução diferente da soviética, que teve um impacto enorme» para EP, uma realidade seguida com «um muito grande entusiasmo» por NTP.

Experiência especialmente importante para este último foi uma estadia em Havana, em 1962, algum tempo depois da crise dos mísseis na Baía dos Porcos. NTP participou então no primeiro congresso internacional que teve lugar em Cuba depois da revolução (e tal aconteceu porque o local tinha sido escolhido antes de 1959), integrado num grupo de arquitectos de muitas nacionalidades – com direito a um discurso de Che Guevara e a um outro de Fidel, «que nunca mais acabava» (mas, segundo um participante cubano, «o mais curto que até então tinha feito»). Depois de grande insistência, NTP conseguiu convencer os responsáveis da rádio cubana a cederem-lhe a gravação do discurso de Fidel, garantindo-lhes que era «para fazer propaganda em Portugal» – o que era rigorosamente verdade. De regresso a Lisboa, promoveu várias audições em casa, religiosamente seguidas por grupos de amigos. Recorda-se bem de uma delas, em pleno rescaldo dos acontecimentos estudantis de 1962, quando Víctor Wengorovius levou consigo, e lhe apresentou, Jorge Sampaio. Conseguiu também realizar uma sessão no Sindicato dos Arquitectos, mas, alguns anos mais tarde, e apesar de não estar identificada, a bobina despertou a curiosidade de agentes da PIDE durante uma rusga e foi levada, juntamente com livros e com papéis.

A esperança depositada na revolução cubana foi, para ambos, tão grande como a desilusão com a sua concretização. Mas essa desilusão só viria mais tarde, muito mais tarde – nem conseguem situá-la exactamente no tempo.

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Conclusão da entrevista a Francisco Martins Rodrigues (1927-2008), realizada em Janeiro de 2008 (1.ªparte; 2.ªparte)

Ainda antes da constituição da FAP e do CMLP foi à China e à Albânia. Encontrou diferenças entre esses dois países?
Sim! Embora isso na altura fosse um bocado desconfortável para mim, porque eu estava na fase de querer ver tudo aquilo enquadrado… A Albânia tinha um discurso bom, anti-soviético, mas era um país atrasado e cheio de dificuldades. Eles fartavam-se de falar da experiência deles, da maneira como fizeram a guerrilha, o que era uma experiência relativamente limitada. Todo o discurso deles girava à volta disso. Quando falávamos da nossa experiência, não tínhamos correspondência.
Os chineses tinham uma experiência política e ideológica incomparavelmente maior. Na China encontrei uma profundidade que me agradava muito mais. O quotidiano dos chineses também me pareceu mais autêntico do que o dos albaneses. Levavam-me ao cinema, aos mercados, falávamos com as pessoas… Na Albânia era tudo controlado ao mais pequeno pormenor. Era sinal de que eles não se sentiriam muito à vontade. Sentia-se que, para além daquilo que nos diziam, havia um dia-a-dia que nos escapava. Na China não me apercebi disso. Na verdade, não conheci muito, estive lá menos de dois meses… E também fiz muitas visitas para encher o olho (visitas a fábricas, grandes banquetes com aparatchiks, etc.)..

Estava-se em vésperas da revolução cultural. Sentiu algum prenúncio disso?
Não. Presumo que eles tivessem cuidado em não transmitir o que discutiam internamente. Às vezes perguntam-me com quem discuti e sinceramente não sei dizer. Alguém do Comité Central, mas que não guardei na memória.
Eu gostava das discussões e dos argumentos utilizados por eles. Tinha um tradutor comigo, que falava espanholês e que tinha uma boa formação cultural, e que me levava a alguns sítios. As propostas dele eram do género de ir ver o Museu da Revolução mas eu preferia outro tipo de coisas, como ir ao cinema: cheio de gente, uma algazarra, tudo a discutir. Parecia-me que esse tipo de sítios permitiam entrar um pouco mais na maneira de ser das pessoas. Era um país pobre, sem dúvida. Mas notava-se que a transformação era um processo que envolvia as pessoas e não apenas os apparatchiks.

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Continuação da entrevista a Francisco Martins Rodrigues (1927-2008), realizada em Janeiro de 2008. A primeira parte pode ser lida aqui.

Em que contexto se dá a sua entrada para o Comité Central do PCP?
No final de 1960 há uma grande onda de prisões que atinge o Comité Central. E o Dias Lourenço, que estava no estrangeiro, vem cá dentro para segurar as pontas. É nessa altura que me decidem cooptar para o Comité Central, primeiro como membro suplente. Pouco tempo depois passo a efectivo e vou para a Comissão Executiva, que era composta por mim, pelo Blanqui Teixeira e pelo Alexandre Castanheira.

Que funções tinha essa Comissão Executiva?
Era o órgão que reunia com os responsáveis pelas troikas – grupos de funcionários – para se inteirar da situação do partido. E transmitia, a cada região do país, as orientações políticas. É aqui que eu começo a manifestar as minhas divergências, que já vinham da cadeia. Escrevo cartas para o Comité Central e o Cunhal, em 1963, manda-me ir lá fora para discutir as minhas divergências. Havia a necessidade de ir a Moscovo dar conta da situação do partido e, apesar do responsável ser o Blanqui Teixeira, sou eu designado para lá ir, pois podia fazer o relatório da actividade e, ao mesmo tempo, discutir as tais divergências.

Mas essas divergências já vinham da cadeia?
Sim. Com todas as limitações, discutíamos lá política, nomeadamente a linha que o partido estava a tomar sob a direcção do Fogaça. Foi aí que eu conheci o Cunhal e o Chico Miguel, que teve grande influência em mim.

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Retomo o relato de uma conversa que tive, no passado dia 27 de Maio, com Edmundo Pedro (EP) e com Nuno Teotónio Pereira (NTP) e que já foi objecto de um primeiro texto publicado neste blogue (*). 

Falaram então sobretudo do início da guerra Civil de Espanha, em Julho de 1936.

No dia 18 de Outubro desse mesmo ano, EP partiu para o Tarrafal, onde ficou até Agosto de 1945. Foi de lá que acompanhou a Segunda Guerra Mundial.

Em Lisboa, NTP começou uma longa evolução pessoal: ao lado do pai, profundamente anglófilo, tomou sempre partido pelos Aliados. «Quando a guerra acabou, era já um democrata», comenta. Para tal mudança terá contribuído, também, a influência da doutrina social da Igreja. Mas quer deixar bem claro que repudiava todas as formas de totalitarismo, «tudo o que fosse fascismo ou que “cheirasse” a comunismo» – em nome das suas convicções religiosas e, também, porque lia os relatos dos crimes do estalinismo. «Em que nós não acreditávamos», comenta EP que era então militante do PCP.
 
Fala-se depois da campanha de Humberto Delgado, em 1958.

Esse ano foi decisivo para uma viragem definitiva na vida e nas convicções de NTP. Por causa da campanha presidencial, certamente, mas muito mais pela influência directa de Francisco Lino Neto. Um documento que este escreveu, em Junho de 1958, foi importantíssimo para NTP e foi um marco incontornável na história da oposição dos católicos (1). Recorde-se que a célebre carta do bispo do Porto a Salazar, datada de 13 de Julho de 1958, é erradamente considerada como o primeiro passo da referida oposição, quando, de facto, foi já uma consequência da iniciativa de Lino Neto. A um outro nível, a vida de NTP foi também fortemente influenciada por Natália, sua mulher: com formação e antecedentes políticos radicalmente diferentes, a presença de Natália – que nem sequer era católica – viria a ser decisiva (2).

Entretanto, EP, juntamente com Piteira Santos, Varela Gomes e outros, tentou preparar uma insurreição armada que tirasse partido das condições excepcionais criadas pela campanha de Delgado. Mas falharam todas as hipóteses para conjugar esforços e reunir um mínimo de condições indispensáveis.
 
Volta-se um pouco atrás, a 1956 e à importância da invasão da Hungria pelas tropas soviéticas, especialmente traumatizante para EP:

«Foi o ano das minhas primeiras dúvidas. Um choque brutal, demolidor. Mas a crença no projecto soviético era tão firme que não abanava à primeira. Comecei no entanto a reflectir, sobretudo pelo facto de os operários das fábricas dos arredores de Budapeste resistirem contra o que era suposto ser o seu próprio governo!»

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A entrevista que aqui se publicará em três partes foi efectuada no final de Janeiro de 2008, pouco antes de Francisco Martins Rodrigues falecer, vítima de cancro. Martins Rodrigues acedeu a percorrer os principais momentos do seu trajecto político até ao 25 de Abril, tal como já tinha feito numa conversa com Carlos Morais, bem como em inúmeros textos de reflexão e memória que foi escrevendo ao longo da vida.

Nascido em Moura, em 1927, Francisco Martins Rodrigues começou a interessar-se pela política na sequência da prisão do seu irmão José Leonel, vindo posteriormente a ingressar no MUD–Juvenil e no PCP. Fez parte do Comité Central e da Comissão Executiva deste partido a seguir à famosa evasão da cadeia de Peniche a 3 de Janeiro de 1960, da qual tomou parte. Nos anos seguintes entraria em ruptura com o PCP, fundando a FAP e o CMLP. Torna-se então na principal referência teórica do maoísmo desta primeira fase. Em Janeiro de 1966 é preso pela PIDE e condenado a dezanove anos de cadeia. Permanecerá nos calabouços da ditadura até ao dia 27 de Abril de 1974. Posteriormente, fez parte do PCP(R) e da UDP, de onde viria a sair, em meados da década de oitenta, para constituir o colectivo Política Operária.

O excerto que a seguir se apresenta trata dos anos de militância no MUD-J e no PCP. Aproveita-se para informar que um texto autobiográfico sobre o período será em breve lançado pela Dinossauro e a Abrente, com o título Os Anos do Silêncio. Mas avancemos para a conversa.

Nasceu no Alentejo, uma região onde o Partido Comunista sempre teve um peso particular. Foi aí que entrou na política?
Não. Os meus pais vieram para Lisboa, teria eu seis ou sete anos, e desde essa altura que passei a viver aqui.

O que é que os seus pais faziam?
O meu pai era funcionário público e a minha mãe era doméstica. O meu pai tinha sido opositor ao regime e, por isso, tinha muitos problemas. Durante a Guerra de Espanha, era eu miúdo, ele comprou, de propósito, um rádio e um grande mapa de Espanha. Punha-se a ouvir e dizia-nos para procurar no mapa as terras… Éramos crianças e estas coisas marcam.

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Edmundo Pedro tem neste momento oitenta e nove anos, Nuno Teotónio Pereira oitenta e seis. O primeiro nasceu três dias antes do fim da Primeira Guerra Mundial, o segundo no ano em que Mussolini organizou a célebre marcha sobre Roma, que o conduziria à chefia do governo italiano.

Conhecem-se bem, são amigos, participam em múltiplas actividade de carácter cívico. Continuam imparáveis, grandes resistentes durante a ditadura, militantes persistentes em tempos de democracia (*). Têm hoje, sobre o mundo e sobre a vida, posições muito semelhantes.

Juntei-os, no passado dia 27 de Maio, numa conversa da qual tenho quase duas horas de gravação. Utilizarei hoje apenas uma pequeníssima parte de tudo o que ouvi e guardei – nem chegarei sequer à idade adulta destas pessoas que nasceram ambas em Lisboa, mas em contextos que dificilmente poderiam ter sido mais diferentes.

Edmundo Pedro (EP) vem do meio operário, tinha seis anos quando o pai foi deportado para a Guiné por actividades subversivas e aderiu muito cedo ao Partido Comunista. Nuno Teotónio Pereira (NTP) nasceu numa família burguesa, conservadora, monárquica e católica, mas nem por isso alheada de preocupações sociais.

Curiosamente, a vida viria a reuni-los, durante a adolescência, num mesmo quarteirão de Lisboa – facto que só descobriram na conversa que agora tiveram comigo. Com efeito, EP frequentou a escola industrial Machado de Castro, nas traseiras do liceu Pedro Nunes, onde NTP fez todo o secundário. Pelas minhas contas, terão coabitado assim, sem o saberem, paredes-meias mas de costas bem voltadas, durante dois ou três anos. «Via os vossos desafios de futebol, era o campo que separava as nossas escolas», lembra EP. «Havia uma diferença de classes bem visível», comenta NTP: «O meu liceu dava para uma bela e larga avenida, a tua escola para uma rua estreita e feia».

Comecei por ler excertos de textos que escreveram sobre o que foi, para cada um, o ano de 1936.

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