Este texto foi escrito a partir do rascunho da minha primeira carta dirigida ao Ministério da Educação (1947)! Protestativa, dorida, mas cordata. Na Europa ainda havia cheiro a mortos do holocausto, Portugal reclamava ter tido uma posição neutral na guerra, nas escolas fazia-se a saudação nazi, os meus pais viviam num clima de medo por serem ambos funcionários públicos. Pertencíamos a uma família de ideias e de tradições democráticas –  o meu avô tinha sabido do fim da guerra fechado no Forte de Caxias, pelos gritos de “vitória!”.
A “heroína” desta história é a minha Mãe. Tem 94 anos, chama-se Maria Augusta, conversa sobre política como sobre tudo o que faz parte do presente. Acha que foi a melhor professora primária do mundo (e se calhar foi…) e comove-se sempre que recorda este episódio. H.P.

 
Senhor Inspector:

Eu tenho oito anos e ando na terceira classe e isto aconteceu na primeira semana de aulas. Eu vim para esta escola agora pela primeira vez e ela é a escola do bairro onde eu vivo em Lisboa. Eu andava muito contente porque a minha professora tinha-me sentado na mesma carteira com uma menina que é minha amiga e se chama Nina, e que mora ao pé de mim ali logo abaixo da minha casa. É que eu não conhecia ninguém aqui nesta escola porque eu andava na segunda classe na Promotora de Alcântara, que a minha Mãe era lá professora e eu ia com ela todos os dias de camioneta e num eléctrico. Mas então foi que a meio do ano passado ela ficou doente e eu pensava que era pouco doente, só assim com uma doença sem febre que ia passar, e então eu continuei a ir para aquela escola mas sozinha. Por isso e por ainda ter poucos anos mudei para aqui agora na terceira classe para esta escola do Bairro. Senhor inspector eu ainda estava cá há poucos dias mas gostava muito da minha professora e um dia entrou pela nossa sala adentro uma senhora muito alta e muito forte cá da escola que eu nunca tinha visto e as meninas levantaram-se e a minha professora disse que era para ficarmos de pé até essa senhora nos dizer podem-se sentar, porque ela era a senhora directora. Então a senhora directora disse zangada que também era para estendermos assim o braço quando nos púnhamos de pé e era para dizermos Bom dia senhora directora e eu nunca tinha aprendido isso do braço na minha escola de Alcântara mas fiz como as minhas colegas. Quando aquilo acabou sentámo-nos e a senhora directora perguntou Quem é uma menina que tem a mãe tuberculosa?

As minhas colegas ficaram todas caladas e eu também porque eu não sabia o que era isso e só depois nesse dia é que eu soube porque era que a minha mãe não ia dar aulas ao alunos dela que o disse a senhora directora e pensei logo que se calhar ela ia morrer. Então a senhora directora falou muito alto É aquela menina não é? E virou-se para mim com o dedo apontado e estava com uma cara muito má e eu já estava quase a chorar e vai ela foi ao pé de mim agarrou-me no braço com toda a força levou-me e sentou-me sozinha no fundo da sala longe das minha colegas e disse que era para eu não lhes pegar e avisou a minha professora que também era para eu não ir ao recreio e eu sempre a pensar que eu não sabia que eu estava doente, e então se a minha mãe fosse morrer?

E depois quando se ia embora a minha professora disse assim Vamos meninas levantem-se outra vez e digam Bom dia senhora directora e façam o que a senhora directora vos ensinou a sauda…a saudassão. Fizemos todas e depois eu esperei pela hora do recreio e fugi para casa e ia a correr muito e a chorar, só queria que me dissessem se era verdade se a minha mãe ia morrer que parecia que a directora tinha dito isso.

Ao outro dia ao intervalo eu estava aqui na sala a comer o meu lanche cheia de pena por não ir lá para fora com as outras meninas mas era para não lhes pegar e eu vi a minha mãe vir cá falar com a minha professora com um papel que acho que dizia que o que ela tinha não se pegava, mas ela estava era muito furiosa com a senhora directora por causa disso da saudass…da saudação. E então depois das meninas virem do recreio a minha professora Dona Lurdes voltou a pôr-me ao pé da minha amiga que se chama Nina e no dia a seguir eu já fui ao recreio e nós as duas e mais umas minhas colegas nunca mais fizemos essa palavra que eu não sei dizer, quando alguém entrava. Porque a professora disse que isso só faziam as que queriam porque acho que ela gostou do que a minha mãe disse. Foi assim e depois na outra semana a minha professora já não veio e agora eu estou a escrever esta carta porque andam a dizer que a Dona Lurdes está de castigo por causa de mim e eu queria dizer ao senhor inspector que as meninas daqui nós todas gostamos muito dela e que temos muitas saudades dela e que ela ensinava muito bem. E também quero dizer que ninguém me mandou escrever esta carta eu é que pedi à senhora professora nova Dona Luísa que nos veio dar as aulas se ela me deixava e ela é muito boazinha.

Obrigada senhora professora Dona Luísa
Adeus senhor inspector

Lisboa, 30 de Outubro de 1947
Maria Helena Pato

 
Adaptação de um texto publicado in Saudações, Flausinas, Moedas e Simones, Campo das Letras, 2006

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Às vezes, a minha estante traz-me descobertas: livros que me foram oferecidos e nunca houve vontade de ler, ou que – como é este caso – por ali ficaram esquecidos, à espera de leitura num intervalo de acalmia da torrente “tsunamiana” dos anos da Revolução. Peguei agora no “Caxias: últimos dias do fascismo” de Orlando Gonçalves e já não voltei ao trabalho urgente que tinha entre mãos. O prazer manifesto com que o autor procura as palavras certas e joga com elas lembrou-me, de repente, que além de excelente jornalista tinha sido um amante das Letras. Mas quis, sobretudo, trazer aqui o testemunho de um companheiro da luta anti-fascista que saiu em liberdade em 26 de Abril de 74. Em minha opinião, um extraordinário testemunho. Uma escrita lenta, pormenorizada, à dimensão do tempo na cadeia, e mais ainda daquele que era vivido em regime de isolamento. A repetição dos gestos, evidenciada na repetição propositada da descrição desses gestos, reflecte bem a monotonia do quotidiano numa cela. O texto dá-nos a dimensão desse tempo – que se queria “estender ou encurtar” – e a importância dos gestos com que se preenchia esse tempo. O que mais me impressiona é a simplicidade com que nos transmite (ou recorda) o profundo significado do isolamento (a revolução começara muitas horas antes e Orlando Gonçalves divaga acerca do sal e da pimenta que a companheira lhe levara…).
A atenção a tudo que vem, não vem, ou se espera, dos companheiros das salas do rés-do-chão e do lado é qualquer coisa de comovedor para quem passou por ali. Ficamos a saber que, nesse 25 de Abril, quando os presos políticos ainda continuavam a ignorar o seu futuro, é uma voz feminina a primeira a ecoar no Forte, saudando a Democracia. Lindo! – Desculpem, não resisto ao simbolismo! – Helena Pato

 
Um texto de Orlando Gonçalves (*)

 
Mais um dia… Dias e noites sucedem-se obsessivos, sem fronteiras definidas, estupefacientes. Esta linearidade é também peça da engrenagem que nos tritura.

Amanheceu cinzenta esta quinta-feira, o céu e a terra a confundirem-se e a apertarem a esfera em que mal nos movemos. Nem sequer se distingue os contornos da Outra- Banda e o rio não é mais do que a fronteira neutra de continentes hostis.

Já cumpri a rotina matinal. Foi mais lento, desta vez, o passeio na cela. Aquela urgência inconsequente de atingir um destino deu nesta calma vulcânica que aparento. Enquanto caminho, os mais desencontrados pensamentos à velocidade do átomo. Todas as ameaças de ontem, todos os problemas que deixei suspensos, a sorte dos amigos e o destino do país, apresentam-se repartidos por um presente e futuro que sinto meus como se fossem de outrem. O cérebro é calda ignescente, só com dificuldade separo a realidade da ficção.

De novo procurei chamar a atenção do Navarro. Em vão! Por mais que batuque não vem qualquer resposta do outro lado. Que lhe terá sucedido? Tortura no reduto sul? Doença? Uma preocupação subsidiária a somar a tantas que me ocupam.

Será que os homens lá de fora compreendem a nossa situação? Suspeitarão eles, ao menos, da nossa existência entre muros? Refiro-me, em particular, aos homens que ao volante dos seus carros correm na estrada que se estende na minha frente.

Faz pouco tempo, entregaram-me outra encomenda da Luísa. Pelo rol, que confiro, sinto e sofro a sua solicitude. Pequenos nadas de que não se esquece: sal, pimenta, uma espátula de madeira…Um livro que mandou não me chegou às mãos.

Ontem ao meio-dia (hora legal), entreguei o requerimento a pedir autorização para receber livros e revistas. Foi-me devolvido, à noite, por carência de data. “É preciso fazer outro”, disse o guarda. Fazer outro? Bem que podia aproveitar papel, apor a data imprescindível, mas lá isso era contrário às regras daquele jogo. Rasgar, repetir, fazer outro, esse era o único remédio. Já fiz outro. Voltarei a entregá-lo na hora exacta e no cumprimento das boas normas.

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Tenho colaborado neste blogue com inúmeros testemunhos sobre os crimes cometidos pela PIDE/DGS. O tempo passa, escrevemos, falamos, e não se esgotam as más memórias. Foi exactamente no lugar onde agora se ergue este condomínio de luxo – indecorosamente (provocatoriamente) designado por “Paço do Duque” – que, durante décadas, se concentraram as forças “nacionais” da tenebrosa polícia política do regime de Salazar e Caetano. Era ali que, diariamente, 24 horas em 24, interrogavam, ameaçavam, espancavam, torturavam cidadãos que iam buscar a todo o país, acusando-os das suas ideias democráticas ou da prática de uma outra religião diferente da católica (como foi com as “testemunhas de Jeová de Almada”, em 1968). Pela noite dentro, chegavam carrinhas com homens, mulheres e, quantas vezes, crianças que os acompanhavam (tive na minha cela de prisão uma companheira que esteve sempre, meses, com um filho de 2 anos). Os directores, os inspectores, agentes e informadores agitavam-se num vaivém sem fim, de subidas e descidas, de entradas e saídas de carros, de mudanças de turno e de interrogatórios.

A sua sanha criminosa foi levada até ao fim e, por isso, ali caíram fuzilados quatro jovens, nossos irmãos na esperança da Democracia. A placa removida pela empresa de gestão imobiliária GEF é um modestíssimo testemunho da nossa memória.

Foram muitos milhares os portugueses que ali permaneceram noites e noites, submetidos à tortura do sono – às vezes, impedidos de se sentarem – e alguns deles ainda se emocionam quando passam naquele local. Estou entre esses. Não evoco o meu passado de resistente anti-fascista para reclamar a reposição imediata desse pequeno rectângulo em lugar condigno, ou para reclamar a edificação de um memorial. Mas lembro-me daqueles que já partiram e penso que a sua memória o exige. E exige respeito. Respeito que passa, também, pelo recato, pela discrição: a empresa imobiliária do “Paço do Duque” devia ter tido o bom senso do recato na publicidade que faz dos apartamentos de luxo. Não teve. Devia, ao menos, respeitar o compromisso assumido com o NAM e colocar a placa em sítio visível. Esperemos.

Não se queira trazer para o imaginário lisboeta uma história de sonhos, apagando uma história nacional de pesadelos. O meu pesadelo acabou no dia 25 de Abril, o destes senhores pode não ter ainda começado. Tenho setenta anos e muito respeito pelo Estado democrático, mas “com a história como horizonte” (tal como refere o site de publicidade do condomínio) olho aquelas reluzentes paredes exteriores e vejo o encarnado dos pingos de sangue que manchavam as paredes das salas de interrogatório.

 
A Universidade Lusófona realizou recentemente um seminário com o tema “Memórias do associativismo e sindicalismo docentes”. Propuseram-me, então, que aí deixasse o meu testemunho, as minhas recordações, acerca de como nasceram os sindicatos dos professores. Acedi, com a satisfação de poder, deste modo, legar memórias. Memórias que, ao que sei, nem nas comemorações dos 30 anos dos Sindicatos dos Professores nascidos em Abril de 74, nem agora, na passagem do 40º aniversário do Grupos de Estudo (que estiveram na base da sua criação), interessaram às direcções sindicais. Desdobrámos essa intervenção em três partes – 1, 2 e 3 – para que se torne mais fácil a sua leitura nestes CAMINHOS DA MEMÓRIA. A primeira parte pode ser lida aqui e a segunda aqui.

 
Os primeiros passos do movimento sindical docente na absoluta legalidade

Chegou o 25 de Abril e, ainda antes do 1º de Maio, os GEPDES não aguardaram orientações políticas ou partidárias: os elementos da sua Comissão Coordenadora esqueceram outros objectivos nacionais, afastaram diferenças ideológicas e deram continuidade ao projecto que os unia e os movia, havia tantos anos.
Em Lisboa, reunimos a 28 de Abril. Éramos uma vintena de professores – uns mais velhos, como o Professor Tiago de Oliveira, outros, gente muito nova, de vinte e poucos anos, como o Paulo Varela Gomes. Apertávamo-nos por trás de uma mesa e, alguns, sentados em sofás, numa sala obscura do Sindicato do Ensino Particular, situado a meio da Rua Conde Redondo. Eram poucos os colegas de quem não sabíamos o nome. Entrevíamo-los para além de uma barreira de fumo que ameaçava ir, mais tarde, fazer das suas. Hoje, sabemos de muitos companheiros desses “caminhos de memória” que se passaram para outra dimensão. Adiante, não interessa. Pertencíamos quase todos aos Grupos de Estudo do Pessoal Docente do Ensino Secundário e Preparatório. À tarde, seguiu-se a noite e, após uma animada ceia no bas-fond da prostituição – num restaurante por baixo – entrámos pela madrugada dentro. Opiniões em catadupa. Este sugere, aquele exige, o outro recusa, pressa muita pressa, e – sobretudo – uma vontade transbordante de aproveitar a situação para pôr os pontos nos “ii” em matéria de ensino, dos direitos profissionais e do funcionamento das escolas públicas. Queríamos conseguir rapidamente um sindicato de professores que exprimisse a nossa voz. À hora do jantar, entre portas ou junto ao balcão, vários de nós são surpreendidos por uma convocatória, feita de boca no ouvido do parceiro, para uma reunião ainda clandestina, com um “camarada” do PCP. “Ai tu também eras do partido?” – era a frase que se repetia, na surpresa indescritível dessa meia dúzia de colegas, amigos desde sempre, a quem era pedida confidencialidade.
Reunião da Coordenadora do Grupo de Estudos de Lisboa, novamente em dia seguinte, com mais gente, do ensino oficial e do particular – já em representação de um número significativo de escolas. Fecha-se a fase de preparação: redige-se um stencil que alguém “policopiaria” e que, horas depois, seguiria para as escolas e para a Comunicação Social. Às duas da manhã, estava aprovado por unanimidade o primeiro comunicado que deveria chegar aos estabelecimentos de ensino de Lisboa, de todos os graus de ensino, oficial e particular. Histórico:

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A Universidade Lusófona realizou recentemente um seminário com o tema “Memórias do associativismo e sindicalismo docentes”. Propuseram-me, então, que aí deixasse o meu testemunho, as minhas recordações, acerca de como nasceram os sindicatos dos professores. Acedi, com a satisfação de poder, deste modo, legar memórias. Memórias que, ao que sei, nem nas comemorações dos 30 anos dos Sindicatos dos Professores nascidos em Abril de 74, nem agora, na passagem do 40º aniversário do Grupos de Estudo (que estiveram na base da sua criação), interessaram às direcções sindicais. Desdobrámos essa intervenção em três partes – 1, 2 e 3 – para que se torne mais fácil a sua leitura nestes CAMINHOS DA MEMÓRIA. A primeira parte pode ser lida aqui.

Talvez a memória me traia em algumas situações. Talvez não devesse trazer ao conhecimento o que sempre foi desconhecido, (guardado no ainda hoje secreto da vida clandestina da luta anti-fascista). Proponho-me, simplesmente, dar uma achega para a história do sindicato de que sou sócia nº 3, deixando claro que não pretendo fazer a reflexão que cabe aos investigadores.

 
Com o ministro Veiga Simão, grupos organizados de professores criam sucessivas oportunidades de luta pela revalorização da função docente e pela sua Associação

Quase dois anos depois das eleições de 69, por 1971, reanimam-se as organizações unitárias da CDE: realizam-se encontros regionais e nacionais, constituem-se comissões de luta – contra a repressão, pela abolição das medidas de segurança (que permitiam manter indefinidamente em prisão um preso político, após o cessar do tempo de condenação), contra a censura e pela liberdade de expressão, com destaque para a Comissão Nacional pela Liberdade de Expressão. Surgem, entretanto, greves em diversas empresas e as manifestações tornam-se incontroláveis pelas forças policiais. É memorável o 1º de Maio de 1971 no Porto. Na tentativa desesperada de calar o descontentamento popular, Marcelo Caetano recorre cada vez mais à repressão.
No final de 1971, desfazem-se definitivamente as ilusões de uma via de transição gradual para a democracia. Marcelo Caetano faz uma viragem na condução do regime e desencadeia uma vaga repressiva de grande dimensão, desiludindo os últimos crentes na sua política de liberalização. As cooperativas são fechadas de forma brutal. Até a Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal, que tinha sido sempre consentida mesmo durante o salazarismo, foi encerrada. Houve perseguições aos sindicalistas e encerramento de vários sindicatos, prisões de operários, de estudantes (um ano mais tarde, houve um estudante morto a tiro numa manifestação estudantil), prisões de padres católicos, e mesmo a ala liberal de Sá Carneiro na Assembleia Nacional viu serem recusadas todas as propostas no sentido de uma progressiva abertura no regime. Nas Universidades, foi decretado o “Estado de Excepção”, com a presença constante de forças policiais (fardadas e à paisana) no seu interior, e com a possibilidade de instauração de processos disciplinares aos alunos politicamente intervenientes.
É, de facto, neste quadro político, neste clima, que situamos a tomada de consciência, por parte de alguns professores, dos seus problemas, e a necessidade que sentiram de elencar reivindicações. Quer na preparação do II Congresso Republicano de Aveiro, quer, sobretudo, nas legislativas de 69, muitos de nós vínhamos conhecendo professores democratas de outras escolas, animados por anseios políticos e pedagógicos idênticos aos nossos. Debatemo-los em grupos e pelo país fora. E foi assim que apareceu na redacção do programa da CDE de Lisboa, um pequeno parágrafo que sintetizava a vontade dos professores: “A função docente tem de ser revalorizada, para o que importa: preparar séria e intensivamente novo pessoal, a todos os níveis e facultar-lhes processos de actualização; elevar o nível geral de vencimentos; recrutar professores com isenção e objectividade, atendendo apenas à preparação pedagógica e científica; tornar livre a criação de sindicatos representativos”. Creio que é a primeira referência à “criação livre de sindicatos (de professores).

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A Universidade Lusófona realizou recentemente um seminário com o tema “Memórias do associativismo e sindicalismo docentes”. Propuseram-me, então, que aí deixasse o meu testemunho, as minhas recordações, acerca de como nasceram os sindicatos dos professores. Acedi, com a satisfação de poder, deste modo, legar memórias. Memórias que, ao que sei, nem nas comemorações dos 30 anos dos Sindicatos dos Professores nascidos em Abril de 74, nem agora, na passagem do 40º aniversário do Grupos de Estudo (que estiveram na base da sua criação), interessaram às direcções sindicais. Desdobramos essa intervenção em três partes – 1, 2 e 3 – para que se torne mais fácil a sua leitura nestes CAMINHOS DA MEMÓRIA.

Sigo por onde me permitem as minhas lembranças, os documentos que guardo, e a minha capacidade de interpretar o que vivi no movimento docente, até 1974. Talvez me alongue demasiado no entrelaçar de factos e de desenvolvimentos que, hoje, a 40 anos de distância, me parecem interligados e importantes na sua relação. Talvez a memória me traia em algumas situações. Talvez não devesse trazer ao conhecimento o que sempre foi desconhecido, (guardado no ainda hoje secreto da vida clandestina da luta anti-fascista). Proponho-me, simplesmente, dar uma achega para a história do sindicato de que sou sócia nº 3, deixando claro que não pretendo fazer a reflexão que cabe aos investigadores.  

 
Os primeiros passos do movimento docente, em 1969 – o Congresso Republicano e as CDE

Creio que seria bom começar pelo princípio.
A meu ver, o movimento gerador dos sindicatos de professores teve início no período de preparação das eleições legislativas de 1969, e não seria capaz de o historiar sem abordar, ainda que com alguma ligeireza, a evolução da situação política e do movimento democrático de oposição ao regime, nos cinco anos que antecedem o 25 de Abril.
Em Maio desse ano, decorria a crise académica de Coimbra, quando se realizou o II Congresso Republicano de Aveiro. Teve grande impacto e uma dinâmica que viria a deixar marcas no movimento oposicionista. Ali acorreram inúmeros democratas de diversos pontos do país, apresentaram-se moções e aprovaram-se propostas/teses que visavam a continuação da luta. Teses sobre a Promoção do Ensino e da Prática Desportiva, sobre Alojamento dos Trabalhadores nos Centros Urbanos, sobre política cultural, sobre Habitação Social, sobre a Democratização da Educação, sobre a Previdência Social, sobre Desenvolvimento económico. Outras “teses” propunham a constituição de Grupos de Estudo e Acção, ou, ainda, de Comissões Promotoras do Livre Acesso à Cultura. A esta distância, estranha-se que a guerra colonial, iniciada quase uma década antes, tenha sido, contudo, muito timidamente abordada nesse encontro, mas assim foi.
Por essa altura, na organização clandestina do PCP (a que eu pertencia), discutia-se já a questão das eleições legislativas que se avizinhavam, na perspectiva de que mereciam um tratamento diferente do habitual. Tratando-se de mais uma “farsa eleitoral”, não se podia deixar que o aproveitamento desse momento político se limitasse, como sempre, à apresentação de uma candidatura da oposição, entregue às personalidades habituais, e com meia dúzia de comícios – à semelhança do que, tradicionalmente, acontecia nas campanhas eleitorais – com um reduzido interesse na estratégia de combate ao fascismo. Sabia-se de antemão que se assim fosse, o movimento que se gerasse estaria condenado a estiolar a curto prazo. E se era facto que com a chegada de Marcelo Caetano ao governo o fascismo se mantinha intacto, que a PIDE continuava a prender e a torturar democratas, que a liberdade de expressão se mantinha muito estreita (a Sociedade Portuguesa de Escritores acabava de ser encerrada) e que a guerra colonial prosseguia, a verdade era que, apesar de tudo, na aproximação das legislativas, se sentia alguma aragem de “liberalização”. Ora, no entender da direcção comunista, esta situação deveria ser aproveitada, nomeadamente, para “a luta contra a repressão, pela libertação dos presos políticos e por objectivos concretos imediatos, pelo direito de expressão de pensamento, pelo direito de organização e de reunião.” Tratava-se de implementar um processo de combate político que aproveitasse realmente, ao máximo, a situação de maior abertura que o período eleitoral propiciava, no respeitante a liberdades de reunião e de expressão. Nessa perspectiva, havia, pois, que sensibilizar os democratas de outras correntes políticas, para, paralelamente aos contactos com figuras públicas de diferentes ideologias, nos empenharmos em outros objectivos que ultrapassassem a constituição de listas, com vista à apresentação de candidaturas. A verdade é que foi grande a receptividade conseguida no seio da oposição para esta estratégia e, rapidamente, se pôde contar com diversas personalidades de prestígio político ou intelectual, conotadas com várias correntes ideológicas, que desde logo se envolveram nesse projecto.
Em Lisboa, bastante antes do período da campanha eleitoral, já se promoviam reuniões – por sectores profissionais e em diversos concelhos – com o objectivo de discutir e de listar reivindicações destinadas a integrar o programa de candidatura. A base das “CDE”s estava em marcha. Pretendia-se conseguir aglutinar descontentamentos, despertando nas populações consciência política, e criando bases de organização que, mais tarde, pudessem vir a ser aproveitadas para dar passos em frente, em matéria de movimentos populares unitários. Para a memória do sindicalismo docente nascido na década de 70, acho indispensável recordar o que foram essas Comissões Democráticas Eleitorais. Porque constituíram um movimento ímpar na luta anti-fascista, ao longo dos quase 50 anos de ditadura – um acontecimento com características e uma dimensão que, em minha opinião, se deve “espreitar” sempre que se quer compreender melhor algumas batalhas sectoriais travadas mais tarde, até à revolução; mas, também, nos anos que se seguiram à revolução e, porventura, ainda hoje.

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universidade coimbra

Em 1977, durante um processo de luta estudantil contra a reintegração na Universidade de Coimbra de destacada figura do regime fascista, a Associação Académica (AAC) organizou um “Tribunal de Opinião Estudantil”, iniciativa que mereceu franco apoio dos estudantes e um acolhimento favorável, mesmo nos meios não universitários. Respondendo a um apelo para a denúncia do que tinha sido o obscurantismo e a repressão nas escolas do Estado Novo, surgiram inúmeras personalidades ligadas ao ensino. Com a presença de professores e de dirigentes associativos de diferentes épocas, as sessões do Tribunal de Opinião Estudantil decorreram de forma extremamente viva, graças aos depoimentos dessas pessoas, e constituíram momentos importantes para o esclarecimento e a consciencialização da opinião pública acerca das lutas estudantis no passado e da repressão.
Apresentam-se aqui extractos da intervenção de um dos participantes: Joaquim Namorado*. Foi um lutador anti-fascista intransigente e um prestigiado intelectual. As sucessivas gerações de jovens que em Coimbra contactaram com ele, e a quem legou uma sólida consciência democrática, referem-no sempre com admiração e agradecimento. Note-se que se trata de um depoimento oral, espontâneo, sem os cuidados linguísticos de uma intervenção escrita, e que ocorre nos anos ainda quentes da Revolução.

 
«(…) Era eu estudante universitário de recente data quando, em 1931, se deu a revolta da Madeira. Os estudantes de Coimbra empunharam a sua bandeira e manifestaram-se na rua a favor dos revoltosos. Nesse ano, a faculdade era dominada pelo grupo de integralistas chefiado por Pedras Vital, o que não impediu uma manifestação estudantil na sala dos Capelos contra a ditadura militar. A repressão abateu-se sobre os estudantes junto à Porta Férrea, onde foram barbaramente espancados.
Contra os integralistas, reuniram-se os estudantes em torno do grupo seareiro de Coimbra, dirigido por Mário de Castro. Era nas salas de conferências e nos teatros que os seareiros ripostavam às agressões ideológicas e denunciavam a repressão dos tenentes da polícia. É conhecida a história acerca de uma intervenção de António Sérgio feita em Coimbra com outros membros da Seara, a propósito de um programa que propunham, com uma construção ideológica diferente, um programa que constituísse a base democrática e ideológica para uma solução republicana e definisse uma linha económica da abundância. Os integralistas sabotaram a sessão. Os estudantes responderam com outra sessão, onde o combate se alargou para além das balizas culturais.

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