Bagdad 

Uma das cidades que me ficou gravada na memória foi Bagdad. Não a cidade mutilada de hoje mas a que conheci há trinta anos atrás. Lembro-me de uma cidade plana, com ruas e avenidas largas, desenhadas em geometrias perfeitas. E, entrando para o casco da cidade, pisar o chão da velha Bagdad desenhada em círculos concêntricos pontuados por mesquitas decoradas por arabescos fascinantes e bazares onde tudo se vendia, que exalavam todos os cheiros das especiarias e ofereciam negócios de panos, cobres e pratas de todas as formas e feitios. As casas ricas apalaçadas lembravam que estávamos na cidade das mil e uma noites. E, depois, tinha um rio bem torneado que dava mais beleza ao conjunto. Então, em 1978, o nível de vida era muito razoável (vivia-se na euforia dos petrodólares e da subida do preço do crude), sentia-se segurança, movimento, cor, pujança e optimismo. O vestuário era variado, sentia-se desenvoltura, modernidade e sem os atavismos dos exageros islâmicos. Na altura, o parque automóvel envergonhava Lisboa, Madrid ou Paris. Todos de boas marcas ocidentais, potentes e quase todos novinhos em folha. O problema eram os cruzamentos, pois os citadinos, eufóricos e competitivos, aceleravam nas aproximações, tentando sempre passar primeiro que o parceiro, o qual, por sua vez, tentava não ser desfeiteado.

Ia em missão sindical, não conhecia a língua árabe e brindaram-se com um guia (um moreno baixo e com o típico bigode iraquiano) que só falava árabe. Assim, imagina-se que a nossa comunicação se reduzia a sorrisos, gestos e salamaleques. Mas, tudo bem. O homem não largava os hóspedes que tinha de guiar como sua função e, assim, era divertido fazer-lhe fintas em escapadelas do hotel, galgar uma avenida em passo largo para acabar de o ver chegar junto de nós, ofegante da corrida de recuperação da companhia. Todos os dias, de manhã cedo, quando descia para o pequeno-almoço, lá tinha o porfiado guia sentado e atento à minha chegada. Fazíamos uns salamaleques efusivos como cumprimentos e eu lá ia matar o jejum sem que o guia me incomodasse o sossego. É que, enquanto eu trincava as torradas e comia os ovos mexidos e a salada de frutas, o meu estimado guia subia ao meu quarto para revistar malas e armários. Rápido, porque o homem já estava no seu posto quando eu saía da sala de refeições. Chamavam-lhe guia mas é claro que não passava de um polícia zeloso. Tão zeloso que, depois das suas revistas, ficava tudo como se o chui por lá não tivesse passado e eu só confirmava a busca, porque tinha os meus truques para detectar mexidas mesmo que feitas por profissionais. Todo o dia era passado em companhia do prestimoso guia que, coitado, passava a vida a rir-se para ser agradável. Suponho que, após o meu regresso, o homem tenha tirado férias para estar, uns dias, sem se rir.

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Os filhos de EstalineSó pelo título e pela capa (*) poucos deduzirão que se trata de um livro que é essencialmente uma história de amor. Uma história admiravelmente escrita (com a mestria de um grande repórter) e sobre um amor especial. Tão especial que, por a narrativa se basear em factos e não em fantasia criativa, quase apetece, ao ler-se o livro, desejar-se inutilmente que não tivesse acontecido assim, com a «guerra fria» de permeio. Só que sobre isso não há volta a dar. 

Mas sendo uma história de amor, o livro de Owen Matthews (um consagrado jornalista anglo-soviético) é, porque esse é o contexto da génese de vida do autor ao ter nascido de um casamento entre uma cidadã soviética e um súbdito britânico, um livro que diz mais sobre a URSS, os dois lados da «guerra fria» e a Rússia pós-comunista que muitos volumes de sovietologia e de pós-sovietologia. E daí o título. Que, se calhar, até nem está mal. Com o aliciante de se ler com a velocidade e o fascínio de um fôlego. Para depois se parar para respirar e aceitar-se com resignação indignada que Estaline existiu mesmo e deixou sementes que não o deixam esquecer. Não só as sementes políticas, sobretudo as que infernizaram pessoas e sentimentos. E é por isso que acho que o título devia ser outro. Um outro. Que assinalasse melhor uma das magníficas surpresas editorais dos últimos tempos através deste livro sobre um amor.
 
(*) – “Filhos de Estaline”, Owen Mattews, Edições Dom Quixote

 
(Originalmente publicado em Água Lisa.)

Biografia de João Tunes.

Guiné
 
É um dado normalmente adquirido que no «virar» do corpo de oficiais profissionais do exército colonial contra a continuação das guerras e que desembocou no 25 de Abril, teve influência importante o «contágio político» devido à incorporação, como oficiais milicianos, de muitos dos dirigentes e activistas (os que não optaram pela deserção e exílio) vindos dos movimentos estudantis em que se contestou a ditadura. Ao proceder à mobilização militar massiva de activistas estudantis politicamente formados e radicalizados, muitas vezes «por castigo» e interrompendo cursos, dando-lhes comando de tropas nos cenários de guerra, colocando-os até em maioria relativa quanto aos oficiais de carreira dentro das unidades militares coloniais, a ditadura cometeu um erro sem alternativa. Uma influência política e ideológica é sempre difícil de medir. Neste caso, há uma evidente penúria de meios para medir o fenómeno desta «contaminação» e o seu grau de importância na queda da ditadura e no fim da guerra colonial. Por um lado, os militares de carreira «abrilistas», por auto-estima, dificilmente valorizam o efeito político neles havido vindo dos seus convívios com os oficiais milicianos (seria admitir que «importaram» a consciência cívica e política adquirida e afirmada). Entretanto, os oficiais milicianos que fizeram a guerra, na sua maioria, prefere não falar dela. Finalmente, há uma evidente carência de estudos por parte de especialistas em tratamento de assuntos da memória que abordem esta componente da problemática da guerra colonial, particularmente no seu ocaso. 

O fenómeno aqui referido não se verificou de um modo homogéneo, longe disso. Nas três unidades em que estive colocado na Guiné (1969/1971) durante dois anos, vivi três experiências distintas, desde conhecer impenetrabilidades políticas de corpos de oficiais profissionais até ao desinteresse por política de muitos milicianos, passando por efeitos evidentes do desgaste da guerra e da descrença quanto ao seu desfecho em que se conjugava a erosão de sucessivas comissões cumpridas nos vários teatros de guerra e a doutrinação política e ideológica de milicianos politizados pelas lutas estudantis, politização esta que muitas vezes era suportada nos mesmos textos que orientavam a guerrilha inimiga (Mao, Che, Giap, Ho Chi Minh, Cabral). Retenho desta experiência inolvidável, o ano de 1970 em que estive colocado num batalhão de artilharia sedeado em Catió (sul da Guiné) e em que tive a percepção clara que a guerra colonial não ia durar muito mais tempo.

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Nino Vieira com Amílcar Cabral 

Nino Vieira (Kabi Nafantchamna) teve um fim trágico mas adivinhado. Desde 1970, ano em que o combati, que tinha como certo que seriam balas quem lhe encomendariam o enterro, prognóstico este que só pecou quanto ao prazo de cumprimento. Comandante guerrilheiro de excepção («general avant la lettre» como lhe chamou o historiador guineense Leopoldo Amado), Nino sempre denotou insuficiências culturais, políticas e éticas que fizeram dele um desacerto na envergadura das responsabilidades assumidas enquanto companheiro de luta chegado de Amílcar Cabral. Aos méritos militares de Nino, que o levaram até à nuvem do mito que o fez pairar – muito exageradamente – nas mesmas alturas do génio militar do vietnamita Giap, muito deve o sucesso da luta guineense contra o domínio colonial português. Aos defeitos pessoais e políticos de Nino, a Guiné deve grande parte do caos e miséria em que descambou e que impediu que a independência da Guiné-Bissau fosse, para o seu povo (melhor, para os seus povos), uma emancipação de facto relativamente ao passado colonial. Na fase de juventude da independência da Guiné, quando tudo estava em aberto para a realização dos anseios que alimentaram a valente luta anticolonial dos guineenses (e caboverdianos que se lhes juntaram), Nino puxou tudo para o fundo – o Estado, os ideais, a generosidade de construir um pais novo, impondo antes a corrupção, o nepotismo, o gangsterismo, o golpismo, o fraticídio étnico e a cleptocracia. Nino queimou praticamente tudo o que ajudara a construir mas de que não foi, nem de perto nem de longe, o único, ou sequer o principal, obreiro. E tornou a Guiné-Bissau ingovernável. Agora, quando o assassinaram no seu reduto a que havia regressado como Presidente, Nino já era melhor que a Guiné que ele ajudou a destruir e que se enterrara entretanto na bolanha imunda do descontrole absoluto e do narcotráfico. E é nesta medida que é uma injustiça histórica que a Guiné, a quem Nino tanto deu e a quem tanto tirou, tenha devorado agora este filho da sua terra, cumprindo à distância de quarenta anos, aquele que foi o sonho falhado de tantos militares portugueses de elite e «torre e espada» ao peito (incluindo o mais famoso «cabo de guerra português» após Mouzinho): caçar o Nino

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soldados

Um desencanto suficiente que desemboque na ruptura com a militância partidária implica uma conjugação de circunstâncias, evidências e sentimentos, uma espécie de drop point, que encadeie a capacidade de romper e fazer o luto. É como nos divórcios, poucos serão aqueles que são decididos na primeira constatação da falta de sentido de uma co-habitação. A decisão de «cada um ir às suas», quantas vezes aparece sobre um motivo aparentemente irrelevante mas que é a gota de água que transborda o copo, aparece como momento da necessidade inevitável de lucidez. E surge na altura, naquela altura, muitas vezes a do tal pretexto menor, porque se consegue então a margem racional para constatar o óbvio que não se viu nos momentos de paz, mais ou menos tranquila, com o desacerto.

A vida num partido comunista, se a militância for séria e a sério, é uma espécie de vida substituta. Ali estão os nossos ideais, ali está o nosso sentido de servir, ali estão os melhores, os nossos amigos e os nossos heróis, ali estão os amanhãs que merecem tudo para se negar e compensar o que hoje nos desgosta enquanto ser social. Ali está o vermelho que ilumina os cinzentos da nossa impotência da sensação de pequenez face às forças que nos trituram e trituram os outros. Aquele universo dá-nos a grandeza de sermos camaradas no Nós. Cada um é herói na sua dimensão de dar, ser e fazer, em osmose com os melhores, os mais valiosos, os mais talentosos, os mais capazes. «Eu limito-me a cobrar cotas» mas sou tanto como o herói que sofreu torturas e não falou. «Eu sirvo no bar de um Centro de Trabalho», mas sou tanto como o camarada que saltou as muralhas do Forte de Peniche. «Eu vou levantar o punho na manifestação», mas sou tanto como o Camarada que fala na Televisão ou lidera o grupo parlamentar. «Eu vou fazer claque para apoiar o último livro do camarada Saramago (Nobel!)» e sendo seu camarada, sinto que poderia escrever os livros que ele escreve, ou que os livros dele têm um parágrafo que podia ser meu. «Eu levanto o punho quando se evoca Cunhal» e sou igual a ele pois Ele é dos meus, pertence-me embora seja eu que pertença à sua memória exemplar, genial, heróica, inimitável, única.

Na minha geração, muitos entraram no comunismo porque era a única forma eficaz de se lutar contra o fascismo. A luta era com eles, eles eram a luta. O fascismo português construiu a dimensão que o comunismo teve e tem em Portugal. E se aqui ficou plantada uma das últimas e mais persistentes abencerragens do estalinismo serôdio, isso deve-se ao reflexo do irredentismo provocado pela rejeição ao bolorento salazarismo e de o PCP ter encontrado, em Cunhal, o génio capaz de construir um partido estalinista na última fase do estalinismo real, consolidando um partido reverente e dependente para com um centro estrangeiro mas com uma idiossincrasia nacional, mostrando ora uma ora outra, enquanto internacionalista ou como patriótico, contornando as colisões da contradição. E, talvez, ao facto de em Portugal, estarmos habituados a adoptarmos as modas que já estão caducas onde elas foram lançadas, pela rotina acumulada de sermos um país onde as novidades e a modernidade sempre chegam tarde.

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Uma guerra faz-se com armas. Quando das guerras coloniais, Portugal usou de várias estratégias para contornar a proibição formal da NATO em utilizar-se material seu num teatro de guerra fora dos objectivos militares da Aliança e teve nessas artimanhas a arte suficiente para obter armamento fornecido por várias das potências militares ocidentais (EUA, Alemanha, Itália, França, Israel). Entretanto, as guerrilhas anticoloniais abasteceram-se na URSS e restantes países do Pacto de Varsóvia. Esta diferença de aprovisionamento (e treino militar), acompanhando a divisão da «guerra fria», foi uma das marcas mais expostas dos alinhamentos políticos e ideológicos dos dois campos em conflito. Por um lado, a ditadura portuguesa procurava integrar a defesa do seu império na disputa global entre o Ocidente e o Comunismo. As guerrilhas independentistas recorriam aos únicos que estavam disponíveis a alimentar belicamente os destacamentos africanos que lutavam contra o Colonialismo e o Imperialismo. Se no caso português o uso de material militar de países capitalistas constituía um reforço da estratégia integradora de defesa nacional, portanto um avivar de convergência em que o desconforto da natureza ditatorial e colonialista do regime era atenuado pelo empenho na luta contra o Comunismo, no caso da guerrilha africana tratou-se, mais que uma questão de proximidade política (que também existia), do resultado de uma fatalidade. Ilustrando este contexto, ficou famoso o encontro de Amílcar Cabral com congressistas norte-americanos, numa das suas visitas aos EUA, em que estes acusaram o PAIGC de ser um instrumento da URSS e usando como prova disso o facto de a origem de todo o armamento dos guerrilheiros ser de países comunistas. Cabral reagiu de imediato entregando aos congressistas uma lista do armamento que necessitava e apelando a uma satisfação da «encomenda» pelas fábricas de armas norte-americanas, acrescentando que, na luta, o PAIGC não olhava para o «made in». Claro que a reunião terminou ali e Cabral voou a seguir para Moscovo com a mesma lista a ser entregue a um adjunto de Brejnev, merecendo rápido despacho favorável. E obviamente não havia armas grátis. 

Muito se tem discutido sobre a quantidade, a qualidade e a eficácia, na guerra colonial enquanto confronto de guerra de guerrilha versus guerra de contra-guerrilha, dos armamentos dos dois lados. Se parece indiscutível que o armamento dos guerrilheiros se adaptava melhor às condições dos combates que lhe eram próprios (anulação de percursos, emboscadas, flagelações de quartéis, fogo anti-aéreo), excelente e eficaz que muitas vezes excedia o nível de competência dos utilizadores, os militares portugueses nunca se puderam queixar de que fosse o défice no seu armamento (em quantidade e em qualidade) que desequilibrava os conflitos em seu desfavor. Para mais, os portugueses eram senhores exclusivos do domínio dos céus e dos cursos de água (aqui, com algumas importantes excepções na Guiné). Até à chegada à Guiné dos mísseis soviéticos terra-ar SAM-7 [conhecidos como Strela (стрела, flecha, em russo)]. 

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img_1673a1Enquanto aluno, no final da década de 50 do século passado, fui um dos que inauguraram as instalações resultantes da grande ampliação da Escola Alfredo da Silva no Barreiro (ainda funciona no mesmo local) e que constituiu, na altura, uma das grandes concentrações escolares do ensino preparatório e secundário. No após-guerra e com a expansão e modernização tecnológica das actividades industriais da CUF, o recrutamento de operários e funcionários administrativos passou a obedecer a bitolas mais exigentes de saberes, muito diferente da do anterior recrutamento feita essencialmente pela transformação de camponeses pobres fugidos das fomes nos campos em operários industriais a quem se exigia sobretudo o dispêndio de esforço muscular. Com a evolução tecnológica da modernização e expansão da CUF, as fábricas pediam mais operários e empregados e com uma formação adquirida enquanto jovens. Daqui que a CUF e o sistema de ensino técnico público vigente se tenham apoiado mutuamente, transformando a Escola Alfredo da Silva numa fábrica de jovens operários e empregados, muitos deles filhos de operários da «velha vaga» da própria CUF, dotando a grande concentração industrial de recursos em disponibilidade de mão de obra. A CUF contribuiu com equipamentos oficinais e laboratoriais e permitiu um segundo emprego, como professores, a vários técnicos da empresa, o Estado construiu as instalações e fez o enquadramento da Escola no ensino público técnico, sendo esta denominada Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva, em homenagem ao patrono da escola e grande patrão da indústria portuguesa. A enorme construção escolar para a época, com uma enorme população docente e estudantil, dava corpo a uma das divisões mais profundas da marca classista da Educação adoptada por Salazar. Terra muito povoada e com três médias e grandes concentrações operárias (corticeiros, ferroviários e da CUF), o ensino liceal (mais destinado a ascender à frequência universitária) não fazia parte dos planos dos programadores do ensino salazarista para o Barreiro. Os poucos filhos de origem na pequena e média burguesa local iriam a Setúbal frequentar o liceu e ali, no Barreiro, terra de operários, os filhos de operários deviam estudar para serem operários, através de cursos curtos (2 + 3 anos) e com componentes pedagógicas essencialmente prático-oficinais.

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As gerações que entraram na sua juventude depois de 1974 não imaginam, por felizmente não poderem imaginar, o que representava viver-se sob controlo policial a vigiar toda a rede de sociabilidade. E já não falo do controlo das opiniões políticas organizadas porque essas, naturalmente, tentavam escapar aos ouvidos da secreta. Refiro-me à opinião solta, ao desabafo, ao comentário, ao protesto espontâneo, ao gosto por isto ou aquilo e à aversão por aqueloutro.

O medo da polícia levava à interiorização de um mecanismo de defesa das emoções, da capacidade crítica e do impulso da opinião. Os portugueses aprenderam e refinaram a arte do cochicho, do subentendido e de se exprimirem através de meias palavras bem medidas. Perderam o prazer da alegria espontânea e substituíram-na pela sublimação da revolta e do desacordo. E do prazer. Temente dos ouvidos perigosos, o nosso povo adoptou uma espécie de misantropia social. Que se exercia sobre os incontinentes compulsivos da revolta pois aquele que manifestava abertamente esta ou aquela opinião era imediatamente suspeito de ser aventureiro, provocador ou bufo. Ainda hoje se notam traços da herança desta forma consolidada de contenção verbal e opinativa.

Como se estruturou este medo colectivo? Primeiro que tudo, através de um aparelho policial que se foi refinando ao longo dos anos. Este núcleo profissional, o corpo da PIDE, era completado por uma enorme rede de bufos (os chamados informadores) que constituíam a essência da rede de controlo da população. Um em cada quatrocentos portugueses recebia pagamento por informações prestadas à PIDE. Outra técnica conseguida pela polícia era a sua infiltração nos diversos organismos e movimentos oposicionistas e nela residiu a principal fonte de eficácia do combate do regime às movimentações antifascistas ou anticolonialistas. Assim, mesmo no seio das organizações mais consequentes e mais defendidas, sabia-se que a confiança não podia ser total porque em todos os segmentos de actividade política, sindical, cultural ou social, havia olhos e ouvidos da secreta.

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De há muito que embirro com fardas. Ficou-me desde que fui (mal) fardado pela primeira vez. Acho que a farda tira ao comum mortal a sua diferente identidade e torna-o demasiado parecido com outros tantos, sempre demais. E será para isso mesmo que existem e servem – transformar o indivíduo numa peça de uma instituição, ostentando a fidelidade obediente como valor.

O certo é que a maior parte dos miúdos passam por uma fase em que adoram fardas. Seja de bombeiro, de polícia ou músico de banda. Provavelmente porque os fardados lhes aparecem como adultos especialmente vocacionados para mandarem mais, até que os adultos. Talvez porque gostassem de ser adultos com super autoridade para escaparem à autoridade dos adultos que neles mandam.

Também tive a minha fase de adorar fardas e sonhar com o dia em que tivesse direito a uma. A minha grande oportunidade surgiu cedo, quando tinha os meus dez anos. Na altura, era obrigatório pertencer-se à Mocidade Portuguesa e logo a partir dos dez anos de idade. Todos os sábados havia instrução para-marcial (aprendi cedo a marcar passo) e mais umas tretas de actividades desportivas e lúdicas. Lá consegui que me comprassem a fardeta: calções e meias altas castanhas, camisa verde com emblema, bivaque na cabeça e cinto castanho com uma fivela branca com o enorme S metálico incrustado a simbolizar a fidelidade a Salazar. Farda nova enfiada, saí orgulhoso rua fora a entornar vaidade naquela minha novíssima qualidade de cidadão fardado. Claro que esperei e ansiei por olhares de inveja e espanto dos míseros passantes reduzidos à condição de anónimos e inferiores civis.

Vivia então o Barreiro uma altura em que a repressão estava na exacta medida da energia das lutas operárias por melhores condições de vida. Eu não sabia na altura, mas o Barreiro (assim como a Marinha Grande) eram vilas operárias sob ocupação militar (entregue à GNR). Não sabia nada disso, não queria saber e não entenderia se isso me explicassem. O que sabia é que o Barreiro era, como a maioria, uma terra de fardas – uma série de bandas de musica, os bombeiros, os escuteiros, os GNRs por tudo quanto era sítio, mais as fardas de ganga do pessoal das fábricas. E, em terra com fardas, eu tinha a minha, a de lusito. Que, é claro, achava mais catita que todas as outras.

O meu orgulhoso e inaugural desfile fardado não teve grande sucesso. Pior, foi um verdadeiro fiasco. A malta graúda assomava às portas das tabernas, desatava a rir-se, chamava-me piolho verde e, pior, escarnecia-me nas costas com olha mais um que é da bufa. Naquela terra com fardas, não entendi porque é que a minha farda merecia aquele tratamento, bem longe dos desejados suspiros de admiração e inveja. Bom, o certo é que rapidamente conclui que não ganhava nada com o negócio de me fardar na miragem de conseguir olhares com palmas. Encurtei o trajecto. E respirei de alívio ao desfardar-me. E disse para comigo: fardas nunca mais!. Longe estava de suspeitar que a farda me havia de vestir outra vez, mais um tanto de vida passado, sem poder despegá-la da pele. Verde, outra vez verde, era a farda. E pelo pior uso que se pode fazer de uma farda, o da guerra. No cú pior das cús das guerras do meu tempo de usar farda, o da Guiné.

 
Biografia de João Tunes.

 

Quando miúdo, a partir dos meus oito anos, durante as férias escolares, eu costumava ir, em viagem solitária, desde o Barreiro até à minha terra natal, uma aldeia perto de Sabrosa, no Alto Douro. 

Na época, no render das metades do século passado, em que, neste país, qualquer distância, mesmo pequena, implicava uma viagem trabalhosa, as minhas deslocações de férias pareciam-me uma volta ao mundo. Apanhava o barco que atravessa o Tejo ao fim da tarde, ia de autocarro até Santa Apolónia, entrava no comboio até ao Porto às onze da noite (era chamado de «comboio correio» e parava em tudo quanto era estação), chegava à Invicta na manhã seguinte, mudava, em São Bento, para o comboio da linha do Douro, descia no Pinhão depois da hora do almoço, tomava a camioneta da carreira para Vila Real e, finalmente, descia na minha aldeia no fim da tarde. Eram, mais ou menos, vinte e quatro horas de viajar ininterrupto entregue a mim próprio, pois só tinha acompanhamento familiar no ponto de partida e no destino final. Sentia aquilo como uma eternidade e era permanente o estado de pânico suado a imaginar-me perdido algures rodeado de adultos desconhecidos em metrópoles desumanas. Em cada ponto do percurso, não tinha qualquer noção se estava perto ou longe dos destinos das etapas, os bilhetes eram vários e eu sofria atrozmente com o pesadelo de imaginar um revisor-inquisidor chegar-se a mim e eu não conseguir encontrar o papel certo para lho apresentar. Assim, passava os tempos de viagem a verificar se não havia perdido os bilhetes e a verificar, paragem por paragem, que não me tinha nem enganado no trajecto nem ultrapassado o meu destino intermédio. Ia procurando cumplicidades e protecção nos adultos que se revezavam como meus companheiros ocasionais de viagem, confirmando se estava no comboio ou autocarro certo e quantas estações faltavam para o meu destino. Cruzava informações de uns passageiros com outros e, se surgiam discrepâncias nas sentenças, sentia-me perdido por não saber em quem acreditar. O pior, o clímax do medo, era quando se aproximava a descida na estação do Pinhão, em que a paragem do comboio durava não mais de dois minutos. Decorava a sequência das estações anteriores, três estações antes já tinha tirado a mala e encostava-me à porta com ela para usar bem os poucos minutos em que era preciso abrir a porta e saltar para a plataforma agarrado a uma mala quase do meu tamanho.

Então e depois, nunca me enganei nos destinos nem nos trajectos. Nunca perdi qualquer bilhete. Mas, ainda hoje, quando viajo, sofro do sindroma de pensar que, se calhar, entrei no transporte errado ou perdi o título de transporte. No que me reconheço, esta é a única faceta em que sempre me senti um rapazinho permanente, numa espécie de imunidade solitária ao envelhecimento.

 
Biografia de João Tunes.

 

Em 1954, com nove anos e ainda a iniciar-me na condição de barreirense adoptivo (tinha ido para lá morar no ano anterior), como consequência de um absurdo meteorológico, apanhei com um forte nevão em cima.

Então, pouco mais se respirava que fumo no Barreiro. Quem lá chegasse tossia, tossia, até os pulmões se habituarem aos fumos sulfurosos e nítricos da CUF, depois, com o tempo, deixava de tossir porque os gases poluidores entravam-nos no corpo e ganhavam foros de cidadania. Aliás, os barreirenses conheciam os forasteiros à légua porque esses eram os únicos que, entrados na vila, tossiam e se queixavam. Alfredo da Silva e herdeiros tinham doado aos barreirenses o «privilégio» de deixarem de ser alérgicos aos óxidos e anidridos nítricos e sulfurosos saídos abundantemente das chaminés do Império CUF. Como uma espécie de recompensa por deixarem que eles construíssem a sua fortuna avantajada a fabricarem e venderem adubos, enquanto sulfatavam e azotavam os pulmões dos trabalhadores e outros habitantes da vila operária. O Outono e o Inverno eram as épocas favoráveis ao smog. As névoas que eram frequentes pela proximidade do rio, misturavam-se então com o fumo e formavam uma mescla turva a fazer de atmosfera. Nessa altura, a agressão aos pulmões era maior porque os óxidos ácidos misturavam-se com o vapor de água e, então, aquilo que era respirado tinha um teor considerável de ácidos agressivos. As casas do Barreiro, talvez porque tinham sido construídas com pulmões mal acabados, ficavam rapidamente com sinais precoces e indeléveis da agressividade ácida. As paredes eram enegrecidas e escuros eram os telhados. E as árvores, as poucas árvores que teimavam em vegetar, tinham um aspecto lúgubre bem vincado como se quisessem exibir uma desdita de protesto contra os sádicos que as plantavam ali e depois davam-lhes fumos ácidos para respirarem. Como tantos outros, também eu me habituei e adaptei. E a paisagem humana, social e cultural do Barreiro, o feio e industrial Barreiro, passou a preencher a minha natureza como pessoa.

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(Publicado originalmente em Água Lisa)

Perfaz hoje exactamente 70 anos sobre a data de uma das maiores vergonhas da cobardia democrática, quando Neville Chamberlain, pela Grã Bretanha, e Édouard Daladier, pela França, baquearam perante Hitler e Mussolini através da assinatura do famigerado Tratado de Munique, em que aqueles estadistas entregaram aos dentes dos dois ditadores que buscavam o domínio do mundo o «osso» da Checoslováquia democrática na esperança oportunista de que, assim, lhes saciavam os apetites expansionistas e evitavam ter de defrontá-los pelas armas. 

Caracterizar assim o Tratado de Munique é, obviamente, um julgamento com o saber do posterior. Porque, na altura, quando Chamberlain e Daladier regressaram de Munique, eles foram saudados efusivamente, nos seus países e um pouco por toda a parte, como verdadeiros heróis pacifistas que tinham salvo a Europa e o mundo de uma guerra mundial. O que só pode significar que, então, as opiniões públicas não só estavam dominadas pelo medo do nazismo como se acreditava que os ímpetos bélicos de Hitler podiam ser saciados com alguns nacos. Ou seja, que a besta, quando de estômago cheio (supondo-se que a anexação da Áustria e das Sudetas, ambas habitadas predominantemente por povos germânicos), se deitaria a remoer, adormecendo, desta forma, os seus instintos de gula. E Hitler, formalmente, tinha para esgrimir perante a diplomacia conservadora e clássica que Chamberlain e Daladier representavam, um trunfo poderoso de legitimidade para anexar as Sudetas checoslovacas: ali viviam maioritariamente três milhões de alemães que, mobilizados pelo Partido Nazi das Sudetas, chefiado por Honrad Henlein, haviam votado esmagadoramente pela integração daquele território no Reich. E, formalmente também, os nazis afirmavam que da Checoslováquia lhes bastavam as Sudetas e que o resto da Checoslováquia se manteria independente e autónomo (o que desmentiram rapidamente ao ocuparem a Boémia e a Morávia sob a forma de um «Protectorado» e permitindo a separação da Eslováquia onde se instalara um regime clerical-fascista).   

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Publicado originalmente em Água Lisa

Estamos decididamente em boa maré editorial no que respeita a história política. E, nas últimas novidades que deram á praia, o livro mais surpreendente e impressionante que encontrei foi, com a chancela da «Afrontamento», a edição de um velho diário de Flausino Torres (1) sobre os tempos vividos em Praga e imediatos à ocupação da Checoslováquia pelos tanques e tropas do Pacto de cinco países do Pacto de Varsóvia e cujos registos terminam no final de 1968 (2). E este é um livro de décadas de publicação adiada e evitada (3) que, simplesmente, constitui dos melhores testemunhos disponíveis sobre a primeira fase da «normalização checoslovaca», o que muito deve à argúcia de observação do autor e ao seu talento de escrita directa, impressiva e contextualizante (o autor era historiador e professor, além de transportar consigo uma longa militância comunista).

Flausino Torres inicia o seu «diário» já depois da ocupação consumada (neste sentido, o livro não trata, ou trata por evocação, quer da invasão propriamente dita como da «primavera de Praga» que antecedeu este estrangular da experiência do «socialismo de rosto humano» naquele país) e tem final antes da consumação do climax da «normalização» (ou seja, quando se dá a purga no PCC, com a expulsão de meio milhão de membros do partido, e Dubceck é silenciado e substituído por Husak, com o partido e o país reestalinizados integralmente à maneira de Brejnev e para felicidade tranquila de Cunhal) que se verifica mais tarde, em Abril de 1969. Portanto, o período abordado é ainda o da ocupação em compasso de espera, de compromisso, numa tentativa de os soviéticos deixarem acalmar a onda de indignação que a invasão suscitara (e que alastrara inclusive às hostes de alguns partidos comunistas) e em que ainda não tinham todos os dados geo-estratégicos para decidirem se haveria um confronto, que esteve eminente, com os Estados Unidos, ou proceder ao alastramento da ocupação, igualmente na agenda das probabilidades, a outros dois países socialistas recalcitrantes perante a ortodoxia do Kremlin, e que estavam na rota de imediatos caminhos dos tanques: a Roménia e a Jugoslávia, países dominados por comunistas heterodoxos. Pelo período abordado, julgo que o maior interesse do «diário» não será tanto a descrição e análise da invasão em si (que vai aparecendo em flash-backs) nem a «normalização» onde não chegou os apontamentos do autor mas antes dois depoimentos de interesse particular e muito mal conhecido nesta problemática: – a acomodação conciliatória e ingénua de compromisso de Dubceck e da sua equipa, confiando que era possível esperar algo de uma plataforma negociada com os invasores (num recuo que foi fatal para as esperanças autonómicas); – o nascimento e o desenvolvimento entre os checos de sentimentos antisoviéticos que não só se enraizaram profundamente entre as camadas mais vastas da população (quando a estima e admiração pela URSS tinham raízes fundas no povo checo pela libertação da ocupação nazi pelo Exército Vermelho ocorrida vinte e cinco anos antes) e que progressivamente se viria a transformar em anticomunismo atávico dos povos checo e eslovaco até ao crescendo da «revolução de veludo» e que hoje se exprime no facto de, actualmente, a apologia do marxismo-leninismo (a par da do nazi-fascismo) estar proibida por lei (e, antes, muitos eram os checos que aderiram ao comunismo e dele eram militantes).

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A Censura tentava não dormir. Os censores de serviço, uma grande parte dos que exerciam aquela actividade faziam-no como sinecura do regime e para engordar o soldo de militares na reserva, vigiavam a escrita e as voltas que se tentavam dar ao texto para disfarçar implicações, mensagens e notícias capazes de perturbarem o sono cidadão que o regime cultivava.

Não só os grandes jornais diários e as revistas de maior tiragem eram especialmente vigiados. Também as publicações de menor tiragem, incluindo as publicações da imprensa regional, eram atentamente vigiadas para que uma frase ou sequer uma palavra não despertasse apetências insólitas relativamente ao modelo totalitário. Por exemplo, o Noticias da Amadora, semanário que, durante a ditadura e sob direcção de Orlando Gonçalves, representou uma voz de ampla difusão alternativa de opiniões, ultrapassando largamente a difusão regionalista, foi particularmente castigado pela Censura. Até porque, pela colaboração naquele Semanário, passou muita gente do jornalismo, da crítica, da acção política e da opinião antifascista, gente «perigosa» a pensar que tendia a piorar as coisas quando escrevia.

Segundo um apanhado feito por este periódico, entretanto desaparecido, o «lápis azul» dos censores entre 1958 e 1974, cortou ou retalhou, 2.776 artigos ou notícias (2.108 tiveram cortes parciais, 668 foram cortados na íntegra), 502 autores e autoras viram escritos seus objecto da sanha censória.

Curioso é, à distância, lembrar o ranking dos 43 autores e autoras mais visados e visadas pela censura (com mais de 5 artigos censurados) nos seus escritos para o Notícias da Amadora:

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A eleição de Humberto Delgado é a minha memória política mais antiga. Tão que posso dizer que foi o início da minha formação cívica e política que assim, apesar de o regime não me querer outra que a da Mocidade Portuguesa, simples e escorreita como a letrinha da fivela do cinto, foi precoce, pois tinha então apenas treze anos que acumulavam jogos, descobertas, patifarias também, mas sobretudo preparação intensa e afincada para passar no exame de admissão à perda da inocência.

Morava então no Barreiro “velho”, perto da marginal junto ao Tejo, onde a vista para Lisboa trazia um deslumbramento de mistério opressor de grandeza poderosa que transformava o rio, dando-lhe a majestade imaginada de um oceano, um daqueles que ainda só navegara por livros. Essa marginal, hoje em ruínas (li que a vão recuperar, o que me alivia no desconjunto dos tijolos da memória da minha infância), era o meu campo de liberdade, aquela lúdica e simplória fruição que, naquela época, era uma forma realizada do sonho próprio. Que, além disso, era também terreiro largo, mais comprido que largo diga-se em abono do rigor, para guerrear, competindo entre bandos, o “meu” e os dos “outros”, todos disputando ao metro quadrado terrenos de tribos, pelejas que se resolviam em disputa de bola ou, quando calhava, e por impulsos delinquentes quando os azeites se entornavam, à pedrada. Politicamente, até ali, eu só marchara com camisa verde de “lusito”, e não imaginava que aquilo fosse política. Na altura, pensava a minha militância obrigatória na MP mais como castigo, tamanhas eram as piadas e os risos de escárnio e mal dizer que suportava na rua quando era dia de ter de me enfeitar de fardado pelo regime. E a campanha de Humberto Delgado passou por mim sem nada me dizer. Nem o seu nome sabia.

No dia da eleição, uma espécie de electricidade sentia-se nas pessoas pela forma mais nervosa (e silenciosa) como se moviam e sussurravam, mas isso não evitou que, ganha a rua em dia livre de escola, galgasse com a ânsia costumeira a descoberta e ocupação da marginal do Barreiro, o meu terreiro, a minha companhia com o oceano Tejo. Os “meus” não estavam lá, os “outros” também não. Nem os pescadores de ocasião e do costume, incluindo os que, encostados à muralha, tentavam capturar caranguejos com um fio terminado numa cabeça de peixe-espada. No lugar destes, da “minha” gente, da gente “inimiga” e mais dos “neutros”, uma longa coluna de auto-blindados da GNR fazia uma fila belicamente escura e sinistra que vinha desde os limites das fábricas da CUF e se estendiam ao longo da marginal, da minha marginal. Não entendi que guerra era aquela, menos ainda a razão porque a nossa guerra breve de pedrada dera lugar a que os adultos nos quisessem imitar usando materiais de susto que só do cinema conhecia. Senti o aparato como uma profanação e recolhi a casa. Perguntando o que estava a acontecer, responderam-me baixinho “deixa-te estar em casa que hoje é o dia de se votar no Humberto Delgado”. Mais não perguntei, nem foi necessário para aprender a minha primeira aula política: aquela ocupação, à bruta, do meu “campo de batalha” não a ia perdoar e merecia retaliação: à pedrada ou como quer que fosse. E o tal Delgado, fosse quem fosse, logo ali enfileirando no meu altar de ídolos onde pontificava Sandokan, devia ser bem teso para que, contra os votos, merecesse tamanho aparato de meter medo. Por isso, quando recordo Delgado, penso sempre no seu parceiro no meu heroísmo imaginado, o bravo Sandokan.

Biografia de João Tunes