Conceição Neuparth (Centro de Documentação 25 Abril)

Falar do 25 e Abril é um impulso individual inevitável em quem, como eu, fez deste acontecimento o seu objecto de estudo mais persistente e apaixonante, mas também uma imposição a que, naturalmente, se compromete o colectivo dos «Caminhos da Memória», consagrado aliás no seu estatuto editorial. Ou seja: a nossa condição de caminhantes da memória não nos obriga só a percorrer esforçadamente os atalhos e veredas dos territórios mais sombrios da ditadura; também nos concede o supremo júbilo de passear pelas avenidas ensolaradas que a Revolução rasgou. Se essas largas avenidas acabaram em congestionadas rotundas em que, em constante pára-arranca, procuramos sem êxito as saídas, isso é já outra história, ou melhor, outro andamento da história.

Neste primeiro andamento, fatalmente breve, dadas as circunstâncias, mas que me pareceu oportuno como abertura ao tema (obrigada Rui, pelos teus magníficos textos sobre Outubro de 1917!) tentarei falar de revolução em geral, para depois passar à nossa, em particular.

Falar de revolução não está na moda. Nos nossos dias, um padrão hegemónico de análise e prática social proclama que a ideia de revolução entrou em crise. Na verdade, o século XX que se iniciou com a própria ideia de revolução no exacto sentido de que o mundo ia mudar de base, terminou com a solene proclamação da sua radical impossibilidade.

Vista como um anacronismo ou uma impossibilidade histórica, face ao processo económico e social do capitalismo – considerado objectivo e fatal, portanto de acordo com a ordem natural das coisas – ela é anatemizada com a marca do voluntarismo, da violência e do totalitarismo.

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O género biográfico está a conhecer entre nós um interesse surpreendente e tem despertado nos meios de comunicação social (imprensa sobretudo) um acolhimento particularmente carinhoso. É óbvio, para quem tenha um conhecimento mínimo do funcionamento do chamado quarto poder, que a relação copulativa deve substituir-se pela causal. Assim, a aceitação do público é grande porque é grande a divulgação mediática.

Neste círculo aparentemente aberto às necessidades e gostos de leitura, mas na verdade rigorosamente fechado nas quatro linhas do jogo do mercado, as editoras de sucesso têm que ter os seus olheiros (como no futebol), para sondar quais as tendências da estação (como na moda) e quais os criadores que melhor as podem concretizar. Vemos assim biografias para todos os gostos, saídas da pena de cultores das ciências humanas (para além da história, seu terreno tradicional), mas também de escritores em geral, jornalistas, ou mesmo pessoas sem qualquer experiência de escrita que, bem ou mal, os próprios ou alguém por eles, consideram ter um percurso digno de ser conhecido e divulgado.

Nesta variedade de oferta, é obvio o enorme desequilíbrio na qualidade do produto, porque os olheiros, sujeitos à pressão dos dirigentes contratadores, tanto recrutam na Liga de Honra, como visitam os campos de chão batido da Liga dos Últimos. No fundo eles sabem que, com a ajuda da publicidade em horário nobre, se podem transformar lances (de) duvidosos em magníficas jogadas de golo feito. Carolina Salgado, por exemplo, marcou bem, embora por falta de preparação não tenha aguentado o jogo todo. Porém o marchandise rendeu, o público comprou,  como comprou Jardel, Mantorras, Cristiano Ronaldo (obviamente!…) e compra agora o inenarrável Octávio Machado…

E comprará tudo o que, aparentemente, nada tenha a ver com o desporto-rei – mas na verdade tem tudo, porque a metodologia de treino já impôs as suas regras ganhadoras no vasto e moderno estádio democrático.

Como exemplo, basta ver o catálogo de uma jovem editora de sucesso (segundo o seu site oficial vendeu no primeiro ano de existência 300.000 exemplares!): a Esfera dos Livros. Apostando forte na linha biográfica, publicou já um número muito significativo de títulos, que só a enorme abrangência do género permite chamar biografias. Assim, desde a excelente biografia com todas as letras de Humberto Delgado, de Frederico Delgado Rosa (só comparável ao trabalho de Pacheco Pereira sobre Cunhal), aos trabalhos académicos de um muito institucional (à beira de um curriculum oficial) Costa Gomes no Centro da Tempestade de Luís Nuno Rodrigues, ou de uma mais atrevida e espontânea Cecília Supico Pinto, o Rosto do Movimento Nacional Feminino de Sílvia Espírito Santo, a oferta é variada. Mas não fica por aqui. Alarga-se grandemente, passando pela apologético-panegírica «vie en rose» de Sócrates, O Menino de Oiro do PS de Eduarda Maio, pelas ternurentas memórias de Micas (ajudada por Joaquim Vieira) Os Meus 35 anos com Salazar, para só parar nos picantes Amores de Salazar, com direito a réplica em As Mulheres de Salazar, da incontornável Felícia Cabrita que assina ainda na mesma editora Pinto da Costa- Luzes e Sombras de um Dragão.

Ora bolas, lá estou eu a falar de futebol, quando o que queria mesmo era falar de biografias. E, se possível, de pessoas que mereçam ser biografadas.

Filha de várias gerações de militares, quer por parte da mãe, quer por parte do pai, contrariando o horror à política, cultivado por tradição de família, descobriu por si própria a sua dimensão mais nobre: a preocupação com as pessoas, sobretudo as mais desfavorecidas. Por elas desceu ao inferno dos bairros mais miseráveis de Lisboa, onde os operários vendiam o próprio sangue para pagar a renda da barraca que lhes servia de casa, forçou burocracias, escancarou portas para acompanhar e apoiar doentes e famílias no hospital de Santa Maria, fez seu o quotidiano dos operários qualificados da BP em Cabo Ruivo.

Por onde passou procurou pessoas, vítimas de injustiças e flagelações iníquas, inscreveu o seu nome na PIDE, pela recusa activa e militante em ser o que a ditadura pedia a uma assistente social: «a gota de óleo na engrenagem», teceu uma rede apertada de causas e de afectos que sempre a acompanhou, mesmo quando outras vozes a chamavam para uma outra frente de combate, como aconteceu nas campanhas eleitorais de 1958, 62, 69 e 73. Contudo, nesta nova frente, mais visível e convidativa ao protagonismo pessoal, sempre deixou para outros (sempre muitos, sempre demais…) esse estatuto, porfiando no seu combate discreto mas eficaz.

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Vivemos tempos em que o combate pela memória exige doses suplementares de lucidez e coragem, não só para derrubar muros de ignorância, mediocridade e indigência mental, mas também para resgatar a densidade humana e ética de quantos no passado, mais distante ou mais próximo, fizeram das suas vidas lições de resistência e dignidade.

Desse imenso rosto colectivo, recortam-se vidas admiráveis de mulheres, sobre as quais o silêncio de hoje mais não é do que o perverso sucedâneo das circunstâncias inimagináveis (agravadas pelos gritantes constrangimentos da condição feminina e dos seus esteriótipos sociais dominantes) em que deram o seu contributo a um combate comum.

Sabemos todos disso, e até nomearemos sem dificuldade, alguns nomes de grandes portuguesas antifascistas. Mas será que alcançamos, por detrás de cada rosto público, as lutas interiores, as escolhas dilacerantes mas irreversíveis, a devastação humana provocada pela dor e pelo sacrifício extremos que suportaram anos a fio?

Não é possível olhar o «retrato» de qualquer dessas heroínas, sem a pergunta que nos conforta e inquieta ao mesmo tempo: «Que força é essa?»

Só acrescentando memória à história, nos aproximaremos da resposta. Memória que é, segundo Baptista Bastos, «relembrar, acaso com emoção e sempre com orgulho, aqueles que, antes de nós, ambicionaram mudar a irracionalidade das coisas, e atribuir à pátria uma fisionomia moral».

Por outras palavras, por distantes e já historiadas que sejam tantas lutas, e anacrónicos que pareçam os seus heróis, não será possível vislumbrar uma qualquer utilidade nessa pequena epopeia?

A nova rubrica de Caminhos da Memória, em que traçamos alguns percursos de mulheres de diferente notoriedade, mas de igual coragem e dignidade com que atravessaram esses tempos sombrios, é já uma resposta. Não obstante o destino trágico das suas vidas, elas permanecem como verdadeiro manual de sobrevivência contra o compromisso, a desmoralização e a apatia da conjuntura presente. É mais que uma lição de história. É o triunfo da memória.

  
TEXTOS PUBLICADOS:

Maria Eugénia Varela Gomes

Maria Ângela Vidal Campos

Maria Natália Teotónio Pereira

Fernanda Paiva Tomás

Sofia de Oliveira Ferreira

Aida Magro

Julieta Gandra

«Se ninguém fotografou, nem escreveu o que aconteceu durante a noite,
acabou com a madrugada. Não chegou a existir.»

Lídia Jorge, A Costa dos Murmúrios

«Dizem que os reis não têm memória. Parece que os povos têm muito menos ainda», proclamava Salazar em 1930. E se houve um traço genialmente perverso na ditadura que nos dominou durante quase meio século, foi a sábia gestão do silêncio; um silêncio que Marcelo Caetano preferia chamar de «seriedade e honestidade», em contraste com o «teatro» do congénere regime fascista italiano.

Eduardo Lourenço, numa obra  de referência – O Fascismo Nunca Existiu -, considera que «impensado enquanto presente», durante os quarenta e oito anos da sua real e concreta existência, o Fascismo passou a «impensável enquanto passado», para um povo com uma dificuldade proverbial em inscrever na sua história os episódios mais sombrios.

Impensado enquanto presente, pelo silêncio imposto através de uma muito eficaz subtracção ou privação do direito à palavra, espaço público da cidadania em que os homens se reconhecem como iguais, discutem e decidem em comum, com vista a decisões que concernem a todos. Sem a palavra livre não há política. Salazar delimitou com rigor e método esse deserto da palavra que era o seu Estado Novo:

«Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a Pátria e a sua História. Não discutimos a Autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a Família e a sua moral, não discutimos a glória do trabalho e o seu dever» (1).

Sem direito à palavra, a política passa a fenómeno marginal e dissonante, promotor de ruído, enquanto a ideologia penetra e configura todas as instâncias da sociedade, através da transformação de um corpo social anti-político num organismo vivo. Viver Naturalmente o Fascismo foi o grande desígnio que Salazar traçou para este pais. País de costumes brandos e hábitos morigerados, país pobre, mas rico na projecção de uma imaginária grandeza. País «orgulhosamente só», protegido dos desvarios da civilização, do desconhecido e do estrangeiro. País inculto, mas feliz no respeitinho, no recato e no receio. País em inho… (Manuel Alegre)

Impensável enquanto presente pelo silêncio consentido e cultivado, paradoxalmente, na vertigem discursiva que a democracia inaugurou.

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Tem sido um filão muito explorado, e de grande popularidade, a recuperação de figuras históricas, através da sua dimensão humana, numa conjugação de dados históricos com ficção literária. Quando essa operação se faz através das relações amorosas mais ou menos conhecidas, de preferência infelizes, o sucesso está garantido, independentemente do real valor de muitas dessas obras.

Também o amor funesto de Sá Carneiro e Snu Abecassis tem inspirado despretensiosas revisitações um pouco por toda a imprensa escrita ou falada. Deste conjunto uniforme e pouco exigente, destaca-se o livro de Miguel Real O último Minuto na Vida de S., apresentado na própria capa como «o último grande amor português visto pela imaginação romanesca e pelo talento de um dos mais importantes ficcionistas nacionais da actualidade». Contudo, da leitura das breves 125 páginas conclui-se pelo manifesto exagero da avaliação (de quem? onde?). Não que a ideia não fosse boa: uma narrativa no feminino, acção desenrolada numa fracção de 50 segundos em tempo real, em constantes flashbacks, um cenário que invoca a realidade portuguesa das décadas de 60 e 70.

O resultado, pelo contrário, é decepcionante: através de intermináveis tiradas ora de lirismo extremo, ora de crítica social sardónica e jocosa, alternando com sínteses rápidas, a pretensa busca estilística, com neologismos de duvidoso gosto, surge totalmente desajustada aos objectivos anunciados. Aquele país, aquele Sá Carneiro e sobretudo aquela Snu não têm qualquer consistência dramática, são puras abstracções, pois nem por um momento o autor consegue captar-lhes a alma, e fazer o que faz qualquer escritor: caminhar até onde eles o possam levar. Compensa o vazio das personagens com o longo monólogo feminino, tão improvável quanto absurdo, naquela situação-limite (a morte eminente) e na boca daquela heroína. A realidade portuguesa que o autor pretende vista pelo olhar de uma mulher «bela, escandinava, independente, culta, desinibida, divorciada» não passa no filtro do próprio olhar de Miguel Real, cuja «erudição» gratuita e dispersiva, característica da sua obra ensaística, se torna numa obra literária descabida e insuportável.

Ficamos, pois, por visões exteriores, sínteses simplistas, muito à beira do cliché e da caricatura. Sá Carneiro e Snu ficaram assim mais longe da imortalidade que aquele grande amor lhes prometia.

Miguel Real (2007), O último minuto na Vida de S., Edições QuidNovi, 130 págs.

Sous l`histoire, la mémoire et l´oubli.
Sous la mémoire et l´oubli, la vie.
Mais écrire la vie est une autre histoire.
Inachévement.
Paul Ricoeur

O que é um homem no infinito? A angustiante e radical questão de Pascal não terá nunca resposta satisfatória. Sabemo-lo bem. Mas a História Oral (HO) tem, pelo menos, o mérito de aceitar o apaixonante e arriscado desafio de recentrar o papel do indivíduo na história. Através justamente da memória, a mais épica das suas faculdades, segundo Benjamim. A HO, mais do que qualquer outro ramo da história, vive, portanto, numa estrita (quase total) dependência da memória. É claro que a memória (mental, escrita ou oral) é a matéria principal da história, o que a obriga a um confronto em permanência com o imenso processo dialéctico da memória e do esquecimento, que vivem quer indivíduos, quer sociedades. No caso concreto da HO o indivíduo que rememora ou evoca o tempo vivido, fá-lo sempre de forma selectiva, o que significa que se há lembranças resgatadas, em contrapartida há outras esquecidas e excluídas de forma consciente ou inconsciente. Como escreve Fernando Catroga, «a memória individual é formada pela coexistência, tensional e nem sempre pacífica, de vária memórias (pessoais, familiares, grupais, regionais, nacionais) em permanente construção devido à incessante mudança do presente em passado e às consequentes alterações ocorridas no campo das representações do presente» (Catroga, 2001:16).

Mas a memória oral, porque pessoal e directa, tem o inegável fascínio de ser mais próxima e mais viva, se comparada com qualquer das outras modalidades da memória, além de ser absolutamente indispensável para todos aqueles acontecimentos que de uma forma ou outra surpreendem o normal curso da história de longa duração, mais preocupada com as impessoais estruturas económicas e sociais e a suas permanências seculares, do que com o tempo de curta duração do acontecimento, que subverte essas estruturas, de alguma forma curto-circuitando esse processo e invadindo a cena com protagonistas que improvisam e não são apenas figurantes que debitam um papel já conhecido. São os momentos de crise como as revoluções em que a pura racionalidade abstracta dos conceitos e dos sistemas, cede face à invasão de elementos supra ou infra racionais, como as paixões políticas, a fidelidade aos valores e aos ideais, a coragem, a honra, o respeito ou desprezo pelas instituições, os sentimentos altruístas, a sensibilidade democrática.

Mas, como lembra Jacques le Goff, «tal como o passado não é a história mas o seu objecto, da mesma forma a memória não é a história, mas sim um dos seus objectos, sendo também um nível elementar de elaboração histórica» (Le Goff, 1988: 221). O autor pretende assim chamar a atenção para ingénuos entusiasmos em relação à importância do testemunho oral, sublinhando que «se se pretende dizer que o recurso à história oral, às autobiografias, à história subjectiva, amplia a base do trabalho científico, modifica a imagem do passado, dá a palavra aos esquecidos da história, tal é perfeitamente razoável» (Le Goff, 1988: 221). Mas acrescenta também que não se pode colocar no mesmo plano «produção autobiográfica» e «produção profissional».

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