Data: 5 e 6 de Março de 2010
Local: Centro de Estudos Sociais-Lisboa, Picoas Plaza (metro: Picoas)

Entrada livre

Organização:
«Não apaguem a memória!» / Centro de Estudos Sociais

 
Programa

Sexta-feira, 5 de Março
9:30 – 10:30 Abertura – Porquê um Seminário Lusófono sobre Tortura e Memória?
José Manuel Pureza, Representante do Centro de Estudos Sociais – Lisboa
Raimundo Narciso, Presidente da Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória
Cecilia Coimbra*, Representante do Movimento Tortura Nunca Mais (Brasil)
Simonetta Luz Afonso, Presidente da Assembleia Municipal de Lisboa
10:30 – 12:00 Projecção do filme “48”, de Susana Sousa Dias
12:00 – 12:30 Comentário pelo Dr. Afonso Albuquerque (Médico psiquiatra, autor de um livro sobre o impacto da tortura sobre presos políticos portugueses)
12:30 – 13:30 Debate sobre o filme, com a presença da realizadora Susana Sousa Dias
13:30 – 15:00 Pausa para almoço
15:00 – 16:30 Projecção do filme “Memória para uso diário”, de Beth Formaggini
16:30 – 17:30 Comentário pelo Dr. Carlos Martin Beristain (Médico especialista em Saúde Mental, Universidade de Deusto, Bilbao) e por Alípio de Freitas (português, preso e torturado no Brasil.)
17:30 – 18:30 Debate sobre o filme, com a presença da realizadora
Sábado, 6 de Março
10:00 – 11:30 Projecção do filme “ Tarrafal: Memórias do Campo da Morte Lenta”, de Diana Andringa
11:30 – 12:00 Comentário por Miguel Cardina, historiador, investigador do CES e Victor Barros, investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20).
12:00 – 13:00 Debate sobre o filme, com a presença da realizadora
13:00 – 13:30 Sessão de encerramento: Como fazer da memória partilhada da tortura uma alavanca pela defesa da Cooperação e dos Direitos Humanos?, Secretário Executivo da CPLP, Eng. Domingos Simões Pereira*.
* A confirmar

Alguns posts que encontrei na blogosfera e que estão relacionados com os objectivos deste blogue. Notícias ou textos mais descomprometidos (ou não…) do que os habituais e que talvez ajudem alguns a navegar por outras paragens.

 

* * * Mário Beja Santos – Guerra Colonial – Angola – Guiné – Moçambique, Edição Diário de Notícias

 

* * * Almanaque republicano – Os Debates

 

* * * Luís Graça – PAIGC: um curioso croquis do Sector 2, área do Xime, desenhado e legendado por Amílcar Cabral

 

* * * José M. Martins – Henrique Galvão – Carta aberta a Salazar

Segundo o Público de hoje, «A documentação produzida entre 1930 e 1974 no âmbito da acção do Ministério do Ultramar está desde agora disponível para consulta (…). O projecto foi lançado em 2006 pelo historiador José Mattoso, com o objectivo de preservar e simultaneamente dar a conhecer aos investigadores e demais interessados a história da presença portuguesa nas ex-colónias durante o Estado Novo. O trabalho foi financiado pela Fundação Gulbenkian em colaboração com três ministérios.»

Arquivos acessíveis aqui.

No Público de hoje, um interessante artigo sobre as vidas e as humilhações sofridas pelos filhos de soldados alemães, que nasceram durante os quatro anos da ocupação nazi na Europa – 800.000, dos quais um quarto em França.

Alguns posts que encontrei na blogosfera e que estão relacionados com os objectivos deste blogue. Notícias ou textos mais descomprometidos (ou não…) do que os habituais e que talvez ajudem alguns a navegar por outras paragens.

 

*** A Questão Colonial (I), Colonização portuguesa – particularidades, por José Brás

 

*** O Carisma de Manuel Serra, por Manuel Bidarra

 

*** Nos 45 anos do assassinato de Humberto Delgado e de Arajaryr Campos, por Irene Pimentel

 

*** António Lopes de Almeida: A coragem e o medo, por Júlia Coutinho

 

*** Clara Schwarz da Silva, 95 anos, uma grande senhora, viúva de Artur Augusto da Silva&l, por Luís Graça

O juiz Baltasar Garzón ficou mundialmente conhecido desde que, em 1990, ousou pedir a prisão de Augusto Pinochet, mais tarde acusar de genocídio a ditadura argentina, solicitar ao Conselho da Europa autorização para processar Berlusconi, criticar os Estados Unidos por detenções ilegais em Guantanamo.

Em Espanha, para além de muitas outras intervenções, destacou-se pelo envolvimento em processos contra as actividades da ETA e, desde 2008, na luta pela memória das vítimas da Guerra Civil, ao promover a investigação dos crimes do franquismo e ao ordenar a abertura de dezanove fossas espalhadas por toda a Espanha, com cadáveres de republicanos ainda hoje procurados pelas famílias.

A direita nunca lhe perdoou esta última intervenção e, quase dois anos e mil peripécias depois, Lucio Varela, juiz do Tribunal Supremo, considera que há motivos para que seja instaurado um processo a BG por este ter aberto uma causa penal contra o franquismo. O objectivo é conseguir a suspensão das suas funções.

As reacções não se fizeram esperar, entre elas a de um grupo de intelectuais (José Saramago é um deles), que lançou um Manifesto em defesa de BG, agora aberto à subscrição do público em geral. Aqui fica o texto, bem como um veemente apelo para que a ele nos juntemos, conforme expressamente pedido.

 

Manifesto: HEMOS CONOCIDO LA NOTICIA

 
Hemos conocido la noticia de las 114.266 detenciones ilegales de desaparecidos del franquismo, hombres y mujeres marginados durante muchos años del discurso oficial de nuestra democracia, que son rehabilitados ante nosotros gracias a las asociaciones para la Recuperación de la Memoria Histórica, los investigadores y familiares.

Sus vidas conmovedoras y su sacrificio a favor de la libertad y la democracia, junto a las de sus compañeros represaliados, deben ser reconocidos sin distinción por quienes se consideran sensibles y demócratas como parte inolvidable del sacrificio español del siglo XX. Les debemos reconocimiento a su esfuerzo y esperanza por un mundo mejor en los años más terribles de la historia europea.

Por ello, sin entrar en la causa “sub judice” que respetamos, es motivo de celebración el trabajo encomiable del titular del Juzgado de Instrucción número 5 de la Audiencia Nacional Baltasar Garzón de tramitar este sumario de la época franquista tras la aprobación de la Ley de Memoria histórica, por lo que implica de reparación pendiente por nuestra democracia. Por ello lamentamos el desproporcionado ataque a su labor desde ámbitos determinantes que han creado alarma en nuestra sociedad e indefensión en los demandantes.

Quienes dignificaron la democracia con la inmolación de sus vidas forman parte de uno de los capítulos más generosos de la memoria española del siglo XX y por ello no queremos permanecer impasibles ante la evidencia de este crimen contra la humanidad que se perpetró contra ellos en nombre de un Estado golpista, ni ante las maniobras para separar del Juzgado competente este caso.

Si quieres apoyar este manifiesto envía tus datos personales a esta dirección de correo electrónico.
hemosconocidolanoticia@gmail.com

PROMOTORES DEL MANIFIESTO:
• ERNESTO SABATO
• ANTONIO GAMONEDA
• JOSE SARAMAGO
• JUAN GOYTISOLO
• JOSE MANUEL CABALLERO BONALD
• JOSE LUIS SAMPEDRO
• EMILIO LLEDÓ
• PACO IBÁÑEZ
• JOSÉ VIDAL BENEYTO
• IAM GIBSON
• BERNABÉ LÓPEZ GARCÍA
• CRISTINA ALMEIDA
• MANUEL RIVAS
• JORDI DAUDER
• JUAN CARLOS MESTRE
• SUSO DEL TORO
• PILAR DEL RIO
• OLGA LUCAS
• JULIA SANJUÁN
• FANNY RUBIO
• FERNANDO DELGADO
• JOAN OLEZA
• RAMÓN IRIGOYEN
• LIDIA FALCÓN O’NEILL
• JUANA VÁZQUEZ
• MONCHO ALPUENTE
• LUIS PASTOR
• ELISA SERNA
• MIGUEL GARCÍA POSADA
• MARIA BARRANCO
• SANTIAGO DE CÓRDOBA
• MATÍAS ALONSO
• PILAR BARDEM

APOYA IGUALMENTE

 

Alguns informação recente sobre o assunto (em parte já referenciada neste blogue):
* Proceso exprés para suspender a Garzón
* La izquierda política y judicial se moviliza para apoyar a Garzón
* Ni leyes ni justicia (José Saramago)
* Justicia abierta al fascismo y cerrada a sus víctimas

Toda a informação em Asociación para la Recuperación de la Memoria Histórica

Inicio hoje esta rubrica que, em princípio numa base semanal, apontará para alguns posts que encontrei na blogosfera e que estão relacionados com os objectivos deste blogue. Notícias ou textos mais descomprometidos (ou não…) do que os habituais e que talvez ajudem alguns a navegar por outras paragens.

 

*** Mais Memória, por Ana Gomes

*** Naquela noite no Cineclube, por Jorge N. Fernandes

*** Os netos republicanos, por João Tunes

*** Centenário na estrada, por Rui Bebiano

*** Oposição, por CCTM

A seguir com muita atenção:

* Proceso exprés para suspender a Garzón
* Un grupo de intelectuales firma un manifiesto de apoyo a Garzón

Actualização (13/2):
* La izquierda política y judicial se moviliza para apoyar a Garzón
* Ni leyes ni justicia (José Saramago)

Foi liberto nesta data, depois de 27 anos de prisão.

A ler: “Nelson Mandela ha evitado la desintegración de Suráfrica”

(imagem via jpt no ma-shamba)

Em El País:

«La aberración histórica de que herederos ideológicos del franquismo sienten en el banquillo al juez que intentó investigar los crímenes de aquel régimen, a demanda de familiares de víctimas que todavía yacen en fosas comunes, lleva camino de consumarse. Como si entráramos en el túnel del tiempo o el pasado más oscuro retornara, el juez del Tribunal Supremo Luciano Varela, instructor de las querellas por prevaricación formuladas por el sindicato Manos Limpias y la asociación Libertad e Identidad, ha concluido que hay motivos para enjuiciar a Baltasar Garzón por abrir una causa penal contra el franquismo. Ironía máxima: está pendiente de resolver otra del mismo tenor nada menos que de Falange Española.(…)
Sólo faltaba que en este asunto Garzón quedara como un intérprete falsario de la voluntad democrática de los españoles, y quienes se han querellado contra él como los auténticos intérpretes de esa voluntad.»

Este documento encontra-se agora online no site do Fórum Abel Varzim e data de Fevereiro de 1959 – tem portanto 51 anos – e foi assinado por quarenta e três pessoas, entre as quais seis padres. Se já são minimamente conhecidas as actividades de católicos contra a cumplicidade entre a Igreja e o salazarismo em décadas mais tardias, convém assinalar que elas começaram bem mais cedo. Convém recordar que, em Fevereiro de 1959, se estava ainda no rescaldo da campanha presidencial de Humberto Delgado e que se sentiam os efeitos da célebre carta que o bispo do Porto escrevera a Salazar em Julho de 1958. Joana Lopes

 
Assinantes:
Pe. Abel Varzim, Pe. Adriano Botelho, Alberto de Carvalho Martinho Abranches, Alberto Vaz da Silva, Amândio de Oliveira Filipe Duarte, António Alçada Baptista, António Duarte Arnaut, António Esteves Ladeira, Pe. António Jorge Martins, António Marino e Silva, António Pedro Coelho d’ Aça Castel-Branco, Asdrúbal Teles Pereira, Carlos Manzanares Abecasis, Pe. César Teixeira da Fonte, Domingos Manuel Mégre, Eduardo Achiles d’Orey, Edmundo de Jesus Costa, Fernão Forjaz Pacheco de Castro, Francísco Lino Neto, Francisco de Sousa Tavares, Gonçalo Ribeiro Teles, João Benard da Costa, João Camossa, João Gomes, Pe. João Perestrelo de Vasconcelos, Jorge de Portugal da Silveira, Pe. José da Costa Pio, José Escada, José Paulo de Almeida, Monteiro, José de Sousa Esteves, José Vieira da Luz Júnior, Manuel Fernandes de Mansilha, Manuel de Lucena, Manuel dos Santos Lourenço, Manuel Serra, Maria Manuela Brito Bio, Mariano Fernando Rasteiro Calado Mateus, Mário Brás António Santana de Menezes, Nuno Teotónio Pereira, Nuno Vaz Pinto, Orlando de Carvalho, Sophia de Mello Breyner Andresen, Victor Coimbra Torres.

 
O problema das relações entre a Igreja e o Estado, ou, mais genericamente, do comportamento dos católicos perante a política, foi recentemente posto em foco por vários acontecimentos e afirmações de individualidades altamente responsáveis da Hierarquia e do Governo.

O sr. Presidente do Conselho, em discurso recente, parece querer acusar a Igreja por haver «alguns católicos» que «romperam a frente nacional», e considera que o «assunto oferece graves implicações no que respeita à Concordata e mesmo ao futuro das relações entre o Estado e a Igreja», para, em seguida, se propor basear-se no «conhecimento da doutrina da Igreja» para «apresentar reparos», se «as autoridades competentes» a «não fizerem seguir com inteira fidelidade». Sua Ex.a, como representante do Estado, poderá evidentemente discutir de igual para igual com a Igreja a aplicação jurídica da Concordata, mas nunca poderá invocar o seu conhecimento da doutrina da Igreja para se sobrepor à interpretação, dessa mesma doutrina, pelas «autoridades competentes».

De qualquer maneira, pela primeira vez desde há muitos anos, o problema põe-se em público com alguma acuidade; a atestá-lo está o facto do sr. Cardeal Patriarca de Lisboa ter escolhido o assunto para tema da sua mensagem de Natal de 1958, e o Episcopado o ter tratado na recente pastoral colectiva. Em ambos os casos, foram lembrados os grandes princípios da Igreja. Se muitos desejavam um esclarecimento mais concreto sobre pontos precisos, temos de compreender que S. Eminência e o Episcopado não quisessem, com a sua elevada autoridade, intervir numa polémica ao nível das questões debatidas: não quisessem, e, possivelmente, não pudessem, dados os condicionamentos de toda a ordem a que o seu alto magistério está, por vezes, sujeito.

Na imprensa periódica saíram vários comentários, alguns nitidamente tendenciosos. No entanto, os comentários da imprensa e os esboços de esclarecimentos, que aqui e ali surgiram não permitiram aquele debate amplo e livre, com igualdade de condições para todos os contendores, que convém para esclarecer um problema complexo.

Por tudo isto, os signatários consideram oportuno estabelecer, entre simples católicos, um diálogo, alheio aos condicionamentos da imprensa, libertado das preocupações de compromissos, com muito menos autoridade do que a Hierarquia ou os organismos oficiais, mas também com aquele grau de incerteza e de risco doutrinário que permite normalmente aclarar uma questão concreta, no emaranhado dos acontecimentos de todos os dias.

 
(mais…)

Recebi este texto de Marinela Coelho, viúva de Manuel Serra, com pedido de publicação neste blogue e no Entre as brumas da memória. Não esquecerei a força e o sorriso que nunca a largaram, nem depois do fim. Joana Lopes

 
Obrigada, em meu nome e do Manel Serra, a todos os amigos, companheiros, camaradas e também às pessoas anónimas que o admiravam, que nos acompanharam nesta hora triste que é a da partida.

Prestou-se tributo a um lutador que em toda a sua vida nunca abdicou, nem nas horas mais perversas de antes e depois do 25 de Abril, dos seus princípios políticos, ideológicos, morais e cristãos.

Que seja lembrado, enquanto houver memória!
Marinela

A ler: um artigo de Antonio Muñoz Molina, no Babelia de hoje, a propósito da abertura ao público de dezasseis volumes de documentos sobre os anos da Revolução Cultural.

No próximo dia 19 de Fevereiro, sexta-feira, pelas 17h00, nas instalações da Fundação Inatel em Setúbal (Casa Carlos César – Praça da República), o Governador Civil do Distrito de Setúbal, Dr. Macaísta Malheiros, vai atribuir quatro Medalhas de Mérito Distrital, uma das quais a Vítor Wengorovius que nasceu naquela cidade.

Morreu ontem à noite mais um grande lutador antifascista em Portugal.

É na Juventude Operária Católica, aos 17 anos, que Manuel Serra toma consciência da pobreza, repressão e injustiças que o rodeiam – o motor de arranque para uma longa e agitadíssima caminhada.

Já como oficial da marinha marcante, integra-se na corrente mais extremista da campanha de Humberto Delgado para a presidência da República, em 1958, onde defende o recurso à luta armada para o derrube do regime.

Na noite de 11 para 12 de Março, chefia os civis no falhado Golpe da Sé, sendo detido e levado para o Aljube onde permanece seis meses, depois de cinco dias de tortura de sono. Numa primeira fuga espectacular, sai pelo seu pé do Hospital Curry Cabral onde se encontrava internado: vestido de padre, segue directamente para a embaixada de Cuba em Lisboa, onde pede asilo. Apesar de vigiado em permanência por quatro agentes da PIDE, chefiados por Rosa Casaco, estuda um novo plano de fuga, muda de visual muito rapidamente, cortando o cabelo e a barba, e aproveita uma mudança de turno para, uma vez mais, sair em pleno dia para a embaixada do Brasil, já que o seu objectivo era precisamente juntar-se a Humberto Delgado naquele país.

Parte em Janeiro de 1960 e começam então os preparativos para o que viria a culminar no golpe de Beja, em 1 de Janeiro de 1962. Depois dos factos que são do conhecimento público, Manuel Serra tenta esconder-se no sul do país, mas acaba por ser detido em Tavira. Segue-se então um mês de grande violência, com tortura de sono e espancamentos, um julgamento com condenação a dez anos de prisão e longas estadias em Peniche e em Caxias. Liberto no início de 1972, é ainda detido por um curto período em Novembro de 1973.

Tudo somado, quase doze anos passados em prisões da PIDE.

A seguir ao 25 de Abril, é um dos fundadores do MSP (Movimento Socialista Popular) que mais tarde se integra no Partido Socialista com grupo autónomo, mas divergências internas precipitam a saída, em Janeiro de 1975, para a criação da FSP (Frente Socialista Popular). No quadro deste pequeno partido, participa nas campanhas de Otelo Saraiva de Carvalho para a presidência da República. Em 1980, foi um dos fundadores da FUP (Força de Unidade Popular).

Ontem, tudo acabou. Ficará na história dos belos lutadores da resistência em Portugal, que aliaram a coragem à aventura e até ao prazer do risco. Na memória dos que o conheceram pessoalmente, restará um enorme sorriso e um coração do tamanho do mundo – será sempre assim que o recordarei.

   
(Fotografia e fonte para a elaboração deste texto: Rui Daniel Galiza e João Pina, Por teu livre pensamento. Histórias de 25 ex-presos políticos portugueses, Assírio & Alvim)

Esta carta foi hoje enviada ao presidente da CML, António Costa, a cada um dos vereadores – Helena Roseta, Manuel Salgado, José Sá Fernandes, Catarina Vaz Pinto, Manuel Brito, Fernando Nunes da Silva, Maria João de Azevedo Mendes, Graça Fonseca, Pedro Santana Lopes, João Navega, Lívia Tirone, Gonçalo Reis, Dina Vieira, Victor Gonçalves, António Carlos Monteiro e  Ruben de Carvalho – e à presidente da Assembleia Municipal, Simonetta Luz Afonso.

   
Exmº  Senhor
Presidente da Câmara Municipal de Lisboa

Dr. António Costa:
Como é  certamente de seu conhecimento, a placa que recordava os quatro jovens ali assassinados no dia 25 de Abril de 1974, afixada por um grupo de cidadãos na ex-sede da PIDE/DGS, na R. António Maria Cardoso, foi retirada no início das obras visando a transformação da sede da antiga polícia política em condomínio de luxo.

Recentemente, e após alguns protestos – entre os quais o da Associação – Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! – veio a ser colocada em local envergonhado e de pouca visibilidade, no que consideramos um profundo desrespeito pela memória dessas vítimas, pela vontade dos cidadãos que ali a tinham colocado e pelo povo de Lisboa e seus representantes, que ali a tinham preservado.

Em outros países, honra-se a memória dos que lutaram pela Liberdade, os seus nomes tornam-se nomes de ruas, antigas prisões e sedes das polícias políticas são mantidas como Museus. Choca-nos ver que em Portugal, pelo contrário – e com a prometida excepção da cadeia do Aljube, prevista para albergar o futuro Museu da Resistência – se permite que essa memória seja assim desrespeitada.

Dir-se-á  que exigir o regresso da placa ao seu local de origem é prender-se demasiado a um símbolo. Mas, sobretudo neste ano em que se comemora o Centenário da proclamação da República, vale a pena lembrar a importância de um outro símbolo na manutenção da memória dos heróis dessa República tão vilipendiada pelo Estado Novo, a estátua a António José de Almeida junto à qual os antifascistas se manifestavam, enfrentando a repressão, em cada 5 de Outubro.

Por isso, vimos solicitar a sua intervenção para que a placa com os nomes de Fernando Gesteira, José Barrento, Fernando Barreiros dos Reis e José Guilherme Arruda volte ao lugar de onde foi retirada, permitindo aos que ali passam recordar não apenas esses mortos pela Liberdade no dia 25 de Abril de 1974, mas também todos aqueles que, no mesmo local e ao longo de anos, enfrentaram a prisão e a tortura, armados apenas pela força das suas convicções.

Melhores cumprimentos.

Pel’ A Direcção da Associação – Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!
Lúcia Ezaguy Simões
Vice Presidente da Direcção

A ler: um interessante artigo, publicado hoje no suplemento Babelia de El País.

«La igualdad que los revolucionarios consagraron como principio universal ha inspirado las luchas de los individuos que fueron inicialmente excluidos de ella, en un largo recorrido que ha llevado desde la abolición de la esclavitud al reconocimiento de los derechos de las mujeres. Los derechos humanos fueron (…) una invención; pero una invención que sigue surtiendo efectos tres siglos después.»

Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

As atitudes da administração dessa empresa em todo o processo da placa evocativa da morte de cidadãos às mãos da PIDE/DGS revelam uma total falta de respeito e um humilhante desprezo não só por aqueles que foram assassinados na tarde de 25 de Abril, os únicos, aliás, como por todos os que passaram pelas salas de interrogatório da sede da PIDE. E não foram poucos os que por aí passaram, de intelectuais a camponeses, de operários a estudantes, homens e mulheres. Esse edifício tem uma longa e triste memória ao serviço da morte, da tortura e da humilhação daqueles que lutaram para que em Portugal houvesse um regime democrático. Mas nós, e digo nós porque fui dos que por aí passaram, apesar de conscientes de que desse regime viriam a beneficiar indivíduos como os que ocupam a administração dessa empresa, não desistimos dessa luta. Como não desistiremos de vos lembrar que nos mesmos locais que agora são salões, salas e quartos, se faziam interrogatórios onde se praticava a tortura do sono e da estátua. E não deixaremos que queiram agora apagar a memória desses dias, escamoteando a verdade sobre o antigo condomínio privado da PIDE, agora condomínio habitacional. Junto o meu protesto ao de todos os cidadãos que requerem dignidade para a placa evocativa dos acontecimentos do dia 25 de Abril.
Artur Pinto
ex-preso político

Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

 
Exma. Administração do GEF:

Em primeiro lugar, peço-vos desculpa pelo clássico “Exma.”, mas ainda fica bem, independentemente do nível de excelência ser inexistente.
A atitude do GEF traduz não uma ígnara provocação política mas aquela pertinaz ignorância da História e cobarde alinhamento com as chamadas forças dominantes que caracterizou e caracteriza a esmagadora maioria dos pequeninos gestores portugueses. Por isso estamos na posição em que estamos no espaço europeu.
Creio que estão à espera que todos os recursos legais, das (demasiadas vezes tão lamentável) governações local e central e da mobilização popular (bem difícil de induzir, V.V.Exas. sabem) sejam utliizados.Fica por mim assinalada a vossa inteligência.
Espero que um assomo de decência e bom senso, coisa indisponível mesmo nos melhores centros comerciais, seja introduzido no precioso tempo das vossas decisões, no caso de considerarem a sua vantagem, sei que meramente táctica.
As maiores felicidades para os vossos bons empreendimentos.
Maximiano Gonçalves

O Jorge Martins divulgou agora uma curta versão sonora dos acontecimentos. Aqui fica outra.

 

 
Habituados que estamos a imagens, OUVIR coloca-nos num outro patamar de indignação – pelo menos no que me toca.

Sobretudo quando, em Janeiro de 2010, ainda não se conseguiu que a GEF, empresa imobiliária responsável pelo actual condomínio de luxo, reponha a placa com os nomes dos mortos do dia 25 de Abril no seu local de origem – aparentemente, porque este se encontra perto da porta principal por onde entrarão os moradores e as suas ilustres visitas.

 
Um texto de Jorge Martins (*)

 
Aconteça o que acontecer, a história que originou a famigerada placa da sede da PIDE está bem documentada. Não há meio de apagar a memória do último acto daquela criminosa polícia política, perpetrado no próprio dia da conquista da Liberdade.

O registo sonoro da manifestação popular na rua António Maria Cardoso e da tomada das instalações da PIDE pelo MFA aí está para memória futura. O assassinato dos quatro manifestantes e o grito uníssono de “Morte à PIDE!” não deixam dúvidas do que foi aquela polícia e do legítimo ódio que gerou na população.

Brevemente, vamos comemorar o 36º aniversário do 25 de Abril e o que se tem feito pela memória da ditadura é incomparavelmente menos do pouco que se tem prometido. Como de costume, os bons exemplos estrangeiros não sensibilizam os nossos governantes. Quando será que o Ministério da Cultura assume a memória dos crimes da ditadura e da pertinaz resistência antifascista? Será politicamente incorrecto recordar o nosso passado negro? Será que se contenta com umas encomiásticas comemorações do centenário da República?

E o Ministério da Educação, o que tem feito? Substancialmente, nada mais do que o Ministério da Cultura. Já não bastava a pouca importância que se dá ao estudo da ditadura nos nossos programas escolares de História do ensino básico e secundário, como nos confrontamos com o alheamento face à opinião pública sobre as últimas questões relacionadas com a memória da ditadura: a desonrosa transformação do edifício da PIDE num condomínio de luxo, em vez de um museu da PIDE e da resistência; o silêncio e a inércia quanto à construção de uma pousada na Fortaleza de Peniche, em vez da edificação de um exemplar espaço de memória das prisões do regime; o desinteresse por qualquer iniciativa em relação aos Tribunais Plenários.

Aconteça o que acontecer à placa da sede da PIDE, aqui fica o registo sonoro dos acontecimentos ocorridos na rua António Maria Cardoso no dia 25 de Abril de 1974. E para que não se apague a memória da PIDE, afixem a vossa placa na blogosfera, porque, como cantava Francisco Fanhais: “É preciso avisar toda a gente!”.

 

 

(*) Biografia de Jorge Martins

Um excelente dossier:
Viaje al Holocausto

Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

  
Exmos Senhores
A construção dum condomínio no prédio da R. António Maria Cardoso, que foi sede da P.I.D.E, constitui, objectivamente, um desafio à memória e à inteligência de todos os anti-fascistas . Noutras geografias, noutras arenas políticas, essa construção já estaria reduzida a cinzas! As cumplicidades que tornaram possível esta existência não lhes confere, a uns e a outros, a prerrogativa de provocarem, indefinidamente, as pessoas decentes deste país. Queria apenas recordar-lhes que nesta indignação estão incluídos cidadãos que sofreram na carne a repressão fascista e que não permitirão, seguramente, que um punhado de saudosistas agite a bandeira da provocação pidesca.
Cumprimentos
Agripino Almeida

Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

  
Exmºs Senhores,

Associo-me a todos os cidadãos que têm demonstrado a sua preocupação pela colocação no prédio V propriedade, da placa, em lugar e de forma bem visível, respeitante à identificação do prédio como o local da sede da antiga polícia política, assinalando, para além desse facto, os acontecimentos ali ocorridos no 25 de Abril.

É o mínimo para respeitar a memória dos resistentes que por ali passaram e dos que morreram ao celebrar a Liberdade.
José Vera Jardim

  
Exmos. Senhores,

Junto-me aos inúmeros cidadãos indignados pela vossa atitude de procurar, embora de uma forma fugidia e digna de Tartufo, esconder a placa de homenagem às últimas vítimas da PIDE.
A vossa empresa sentir-se-à, talvez, temerosa de que a exibição desse lembrete dos tempos pesados da ditadura prejudique a a sua imagem; não seria o caso, uma vez que julgo muito difícil associar o vosso aos nomes das vítimas dos estertores do fascismo moribundo. Pelo contrário, a divulgação pública da vossa rasteira tentativa e da eventual recusa em a corrigir é que redundarão em desprestígio.
Exorto-vos, por isso, a recolocar a placa em local bem visível e digno da memória que teimamos em preservar.
António Russo Dias
Diplomata

Este post foi publicado originalmente no blogue do Centro Nacional de Cultura, em 19/1/2009.

   
«Lusitania, Quo Vadis?». Foi este o título de um ciclo de conferências organizado pelo Centro Nacional de Cultura em Março de 1969. Nenhuma pergunta poderia exprimir tão bem o que nos perguntávamos a nós próprios no final dos anos 60.

O Centro Nacional de Cultura era um das peças de um complicado puzzle que constituía então a oposição ao salazarismo e, em 1968-1969, foi dirigido por um grupo de pessoas a que pertenci. Mais concretamente, em 27 de Novembro de 1968, realizaram­­-se eleições para os corpos gerentes e, para além de José Manuel Galvão Teles (presidente) e de mim própria (vice-presidente), passaram a fazer parte da Direcção: Teresa Amado, Manuel Moita, Sebastião José de Carvalho, António Reis e Nuno Portas. Éramos todos muito jovens, católicos ou já ex­‑católicos. À Mesa da Assembleia Geral presidiu Henrique Martins de Carvalho, tendo com vogais Gonçalo Ribeiro Teles e Augusto Ferreira do Amaral e o Conselho Fiscal ficou constituído por José Ribeiro dos Santos, Francisco de Sousa Tavares e Francisco Lino Neto. A Direcção reflectia uma renovação total, a continuidade era assegurada nos outros corpos gerentes.

A nova Direcção começou imediatamente a organizar debates e reuniões na sede do Centro e procurou angariar fundos e novos sócios.

Entretanto, a oposição pensava já nas eleições legislativas do ano seguinte. Em 20 de Janeiro de 1969, foi criada a Comissão Promotora de Voto, por carta enviada ao Presidente do Conselho e, entre os quarenta e três subscritores, seis eram membros dos corpos gerentes do Centro Nacional de Cultura.

Era importante tirar partido de todas as ocasiões de debate, tão alargado quanto os condicionalismos o fossem permitindo. O Centro planeou então uma iniciativa de grande vulto, consubstanciada em três sessões a serem realizadas em Março de 1969, sob o tal nome genérico de «Lusitania, Quo Vadis?». Política Económica, Acção Cultural e Perspectivas Políticas foram os grandes temas escolhidos, a sede da Sociedade Nacional de Belas Artes o local conseguido para a realização.

Embora se previsse uma grande afluência de participantes – o que, de facto, aconteceu –, foi decidido evitar o modelo clássico, e já explorado até à exaustão, de «conferência, seguida de debate» e adoptar um formato relativamente informal: para cada uma das sessões, foi previsto um painel com duas pessoas encarregadas de formular perguntas e três que tinham a missão de lhes responder. Foi elaborado e divulgado o seguinte programa, recheado de nomes sonantes:
(mais…)

«Foi inaugurado no Chile o Museu da Memória, onde são lembrados os crimes cometidos durante a ditadura de Augusto Pinochet, entre 1973 e 1990, em que morreram ou desapareceram 3200 pessoas e mais de 28 mil foram torturadas. Uma inauguração a poucos dias das eleições que, no domingo, deverão marcar o regresso da direita ao poder no Chile.»

Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

  
Exmos Senhores:

O regime democrático em que vivemos, se por um lado é campo de oportunidades para livre desenvolvimento de actividades lucrativas como a vossa, é também um quadro de valores de que ninguém está dispensado. A preservação da memória e da história que possibilitou esta mesma democracia é um deles e, seguramente, dos mais desprezados e negligenciados.
Não vamos exigir de uma empresa de construção que se substitua às entidades oficiais no cumprimento desse ‘dever de memória’, o que seria tão louvável e meritório quanto inédito! Mas podemos e devemos exigir, em nome da mais estrita ética democrática que a vossa empresa cumpra os mínimos, isto é, respeito por um compromisso: o da colocação de uma simples placa evocativa do último de uma negra lista de crimes da PIDE.
O vosso comportamento, contudo, denota um entendimento oportunista e hipócrita desse mesmo compromisso, o que só nos pode causar a mais viva revolta e indignação. Por isso me junto aos muitos cidadãos que exigem a recolocação da referida placa no local inicial.

Maria Manuela Cruzeiro

Investigadora do Centro de Documentação 25 de Abril e do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

Por ocasião da morte de Daniel Bensaïd, a revista «Mouvements» republicou uma longa entrevista que teve lugar em 2006: Quand l’histoire nous désenchante

(Via Sandra Monteiro no Facebook)

Daniel Bensaïd participou num colóquio organizado em Lisboa pelo Instituto Franco-Português, em Abril de 2008, a propósito do 40º aniversário dos acontecimentos de Maio 68.

No próximo dia 13 de Janeiro, a UMAR celebra os 35 anos da primeira manifestação feminista, em Portugal, convocada pelo MLM (Movimento de Libertação das Mulheres) com uma concentração no Parque Eduardo VII.

A UMAR apela à participação de todas as pessoas que querem lembrar um feminismo silenciado no passado e celebrar os feminismos que nos ajudarão a fazer as revoluções do presente!

Esta iniciativa recordará este momento histórico e assinalará o local como um dos futuros pontos dos Roteiros Feministas na cidade de Lisboa.

Às 12.30h juntemo-nos às feministas no canto superior direito do Parque Eduardo VII, frente ao n.º 28 da Av. Sidónio Pais.

Vamos levar uma peça de roupa roxa, colorir o Parque de feminismos, ouvir as histórias das feministas que se manifestaram naquele local, em 1975, e conviver ao som de música feminista!

A ler aqui.

Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

  
À Administração da GEF
Ex.mos Senhores

Não aprecio excessivamente as placas comemorativas, mas aprecio muito menos as construções imobiliárias, por mais belas e confortávies que sejam, destinadas a uns quantos, nos sítios mais significativos das cidades, onde todos os que fazem essas cidades, se quisessem, poderiam viver, mas não podem.

Acho que a memória se constrói e destrói todos os dias de forma digamos que «natural», mas que há formas de a destruir ou reduzir) prepotentemente, o que só podem fazer aqueles que têm ou julgam ter poder, em nome de um futuro fabricado para esses mesmos «uns quantos» que poderão viver, se quiserem, nas zonas a que só uns podem ter acesso, e não todos, como o dia indicado na placa em questão parecia apontar  – e apontava mesmo.

Por isso me indigno quando acontece que, para uns quantos terem lucros que não consigo avaliar, e uns quantos (os mesmos ou outros) terem vidas que julgam melhores (e que não o serão necessariamente), isso se faça à custa do esquecimento (ou desvalorização) de coisas que houve (e não foram inventadas), bem diferentes das lembranças obrigatórias das dívidas aos bancos e ao fisco, mais ou menos necessárias para habitar nos lugares melhores.

Ou seja, que, neste caso, se passe um risco fácil sobre mortes (retirando ou deslocalizando uma placa), mortes que não aconteceram por acaso. Mortes de gente que queria que a História desse um salto e, com a morte, deixou de o poder querer. Mortes com autor, feitas por gente que não queria mudar a direcção da História passada, que era indubitavelmente a da opressão, do silêncio, do martírio, da pobreza.
De que parecia termo-nos vistos livres. Mas que, com gestos «ligeiros» como este, parece tentar regressar.

Será que os lucros (de quem vive disso) diminuem necessariamente só porque se «alivia» a via pública, mudando de lugar uns nomes e uns factos, que para muitos outros (que não vivem dos lucros) são determinantes do que vivem há mais de 30 anos e do que outros (mais novos) começaram (com dificuldades várias) a viver?
Eduarda Dionísio