Faleceu este sábado, vítima de um acidente aéreo, José Inácio da Costa Martins, militar de Abril e ministro do Trabalho nos governos de Vasco Gonçalves. Oiça aqui o comentário de José Pedro Castanheira sobre  o papel de Costa Martins na vida política desses anos.

Anúncios

Giovanni de Luna é professor de História Contemporânea na Universidade de Turim e acaba de publicar Le ragioni di un decennio, um livro sobre os anos setenta em Itália e as dinâmicas combativas da esquerda extra-parlamentar no país. Como se anuncia na introdução, este é um livro «muito particular», não só porque se propõe abordar os ainda fumegantes «anni di piombo», mas também porque Giovanni de Luna foi militante da Lotta Continua, uma das organizações mais activas da extrema-esquerda italiana daqueles anos, e esse traço é voluntariamente assumido. A contracorrente das visões mais comuns da tarefa historiográfica, cultoras do distanciamento e da neutralidade, o autor elabora uma narrativa que assume ser feita a partir de um lugar de observação, sem contudo reduzir o texto a um ajuste de contas individual ou geracional ou a abdicar da análise crítica do período. Nem a exterioridade asséptica, nem a interioridade prosélita, poder-se-ia dizer. Estamos nas proximidades daquilo que já foi definido como «ego-história» ou, nas palavras de Giovanni de Luna, como uma historiografia «vivida como autobiografia».

Isto é particularmente claro na escolha das fontes, entre as quais encontramos panfletos, jornais ou relatórios como canções, filmes e fotografias. Para além das reflexões sobre a violência no movimento, que o autor observa sob múltiplos ângulos, a recorrência da palavra «memória» demonstra bem o modo como De Luna se relaciona com um passado que lhe é, em certa medida, inescapável. O capítulo que situa o objecto «entre a memória e o esquecimento» critica o modo como a recusa do próprio passado foi assumida por vários antigos activistas e a forma perversa como desde a década de 1980 as visões dos «arrependidos» se tornaram hegemónicas, provocando uma espécie de «sequestro judiciário» do passado. Sobretudo a partir do assassinato de Aldo Moro, sobreveio uma narrativa sobre o período que «comprimia um decénio inteiro sobre a sua segunda metade e reduzia o tempo a um único trágico momento no qual todo o mal confluiu». Acossados pelo anátema da cumplicidade, muitos antigos militantes preferiram ficar «prisioneiros de recordações que não podem contar».

(mais…)


O mito da ditadura «branda» do Estado Novo – desmentido em inúmeros episódios de assassinato e tortura aos opositores – torna-se verdadeiramente anacrónimo se nos confrontarmos com algumas descrições do que foi a brutalidade da actuação policial em África. Tortura na Colónia de Moçambique. 1963-1974, publicado pela editora Afrontamento em 1977, traz-nos o relato dessa realidade pela voz das vítimas. Segundo é informado no prefácio, a sua recolha deriva de um inquérito «promovido pelos juristas que, logo após o 25 de Abril, se integravam no grupo conhecido pelo nome de Democratas de Moçambique e que se propunha, dentro da então ainda colónia, divulgar os princípios da Frelimo.» Detive-me na história de Beatriz Jorge Cossa, de 23 anos, que transcrevo tal qual vem no livro. Não é fácil, mas vale a pena ler.

(mais…)

Em 2003, o Estádio Chile foi rebaptizado com o nome de “Estádio Victor Jara”. A razão é simples: a 16 de Setembro de 1973, o cantor chileno Victor Jara fora barbaramente assassinado nesse local, onde as tropas afectas ao general Augusto Pinochet mantinham cativas cerca de 5.000 pessoas.

Dias antes, o assalto ao Palácio La Moneda havia terminado com o governo socialista de Salvador Allende. Sabendo da notícia, Victor Jara dirigira-se à Universidade Técnica do Chile, na qual trabalhava. Após uma madrugada de confrontos, os militares invadem as instalações universitárias e prendem os manifestantes, encaminhando-os depois para o Estádio. Reconhecido por um oficial, Jara é violentamente espancado a seu mando. Depois de algumas horas de tortura, e com as mãos amarradas a arame farpado, é atirado para um canto do Estádio, onde permanecerá – ferido, sem água e sem comida – até à tarde do dia seguinte. Acabará por ser arrastado para o centro do recinto, ordenando o oficial que lhe tragam uma guitarra. Enquanto era instado a cantar, soldados golpeiaram-lhe as mãos até se tornarem irreconhecíveis. Foi a última vez que foi visto com vida. Três dias depois o seu corpo foi encontrado junto a um cemitério.

Em 2006, um dos oficiais envolvido no sádico assassinato de Victor Jara – conhecido como “El Principe” – já havia sido “funado” pelo movimento que se dedica a lutar contra a impunidade no Chile de hoje.* Há alguns meses atrás, em Maio de 2009, começara finalmente a investigação sobre os assassinos do cantor, e que prossegue sem grandes resultados. Soube-se agora que no próximo dia 5 de Dezembro, 36 anos depois da tragédia, os familiares e o Chile irão fazer a Victor Jara o funeral que faltava.

*Aqui, em três partes, o documentário sobre “La Funa de Victor Jara” [123]

** Texto publicado inicial no blogue Minoria Relativa

Untitled-1Comunicação apresentada no dia 31 de Outubro no colóquio «As eleições de 1969 e as oposições. 40 anos depois», organizado pelo Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

1. Esta intervenção procura relatar o modo como as eleições foram perspectivadas pelo ambiente político-ideológico que se costuma chamar de «esquerda radical» ou «extrema-esquerda». Note-se, antes de mais, que este campo plural ainda se encontrava em processo de definição e estruturação nessa altura. Fazendo uma leitura algo esquemática da sua evolução, diríamos que em 1968 e 1969 se está na antecâmara de uma segunda fase. Se três ou quatro anos depois já existirá um conjunto vasto e hiper-ramificado de grupos maoístas, trotskistas, guerrilheiristas e socialistas de esquerda, uma boa parte destas futuras organizações ainda se encontrava em estado embrionário ou latente na altura em que o Estado Novo promove as suas eleições para a Assembleia Nacional.

(mais…)

muro

Em Novembro de 1989, após um êxodo intenso de alemães de leste para oeste e um conjunto crescente de manifestações populares, começou a ser derrubado o muro que dividia a Alemanha em duas. A queda do muro simbolizou a derrota histórica do socialismo soviético, mas  a transição não foi simples e indolor. Basta ver Goodbye Lenin, de Wolfgang Becker, para se perceber como a voragem da mudança levou a modos impressionantes de recusa e desnorte, que o filme ilustra magnificamente no episódio do telejornal forjado. Pese embora todo o esforço da reunificação, a antiga cortina mantém-se ainda hoje esvoaçante, ora na taxa de desemprego duas vezes maior no leste, ora nas diferenças culturais que persistem mesmo entre os mais jovens, ora em pormenores deliciosos como os distintos semáforos em Berlim – uns bonecos com chapéu ou sem chapéu –, que evocam nessa diferença a perturbante memória recente da cidade.

O número deste mês da revista L’Histoire traz-nos um dossier que ajuda a compreender e a situar essa cicatriz de betão de 155 quilómetros de comprimento e 28 anos, 2 meses e 27 dias de vida. Edgar Wolfrum alinha «sete questões sobre um muro», explicando o contexto em que foi erguido e as razões da sua queda. Étienne François, por sua vez, esclarece numa entrevista algumas das especificidades da ex-RDA. Ao mesmo tempo que considera que a organização política dessa «ditadura pedagógica» – como lhe chama mais à frente Emmanuel Droit – permanece ainda hoje visível, François nota que «é porque a RDA está efectivamente morta que pode existir o luxo da nostalgia».

Para além da reflexão colectiva de alguns historiadores sobre a Europa e a Alemanha pós-muro, destaque-se ainda um texto de Guillaume Mouralis sobre a vaga de processos e condenações de responsáveis da RDA na década de noventa, bem como o interessante artigo de Droit dedicado ao «comunismo no quotidiano». Na verdade, um óptimo aperitivo a anteceder a leitura de O Mundo Perdido do Comunismo. Uma História Oral da Vida Quotidiana do Outro Lado da Cortina de Ferro, de Peter Molloy, acabado de lançar pela Bertrand, e que procura narrar os diferentes quotidianos na Alemanha Oriental, Checoslováquia e Roménia.

(mais…)

eleiçoes1eleicoes2

  [Clique para abrir em tamanho legível]

“Documentos do Comando Distrital de Setúbal da Legião Portuguesa referentes à eleição para deputados em 1969”. In: Eleições no regime fascista. Presidência do Conselho de Ministros. Comissão do Livro Negro sobre o Fascismo. 1979.