Um texto de Jorge Martins (*)

O primeiro post desta série pode ser lido aqui , o segundo aqui e terceiro aqui.

 
Há um mito muito divulgado acerca dos nomes de origem judaica, que consiste em considerar os apelidos com nomes de árvores como prova da ascendência judaica. Na verdade, a generalidade dos estudos e dos estudiosos da questão têm concluído que isso não corresponde aos casos conhecidos. Os apelidos dos réus do Sabugal (naturais ou/e residentes) vêm confirmar esta desmistificação.

O estudo dos apelidos dos processos inquisitoriais dos réus naturais ou residentes no concelho do Sabugal desmistificam cabalmente esta ideia generalizada entre nós. Os nomes de plantas ou árvores dos réus sabugalenses com processo aberto são apenas 8 no conjunto dos 143: Carvalho: 2, Pereira: 2, Sabugueiro: 1, Silva: 2, Silveira: 1. Coisa pouca, se compararmos com os apelidos com mais referências que encontrámos nos processos em análise.

A situação ficará melhor esclarecida se nos concentrarmos nos doze apelidos predominantes, com destaque para os 4 primeiros, que, em conjunto, representam 65 réus acusados de judaísmo: Rodrigues (24), Henriques (21), Mendes (10) e Nunes (10). Se observarmos a situação social desses réus, dos 26 Rodrigues, 20 são homens e 6 são mulheres, dos quais 23 são cristãos-novos e 3 são de estatuto social desconhecido; dos 21 Henriques, 6 são homens e 15 são mulheres, dos quais 16 são cristãos-novos, 1 cristão-velho e 4 desconhecidos; dos 10 Mendes, 3 são homens e 7 são mulheres, todos cristãos-novos; e dos 11 Nunes, 7 são homens e 4 são mulheres, sendo 9 cristãos-novos e 2 de estatuto social desconhecido. Finalmente, dos 68 processos referentes aos réus com esses quatro apelidos, 85% eram cristãos-novos e 96% estavam acusados de judaísmo. Não há dúvidas, portanto, quanto à ascendência judaica destas famílias sabugalenses.

Os apelidos constituem mais um contributo para a construção do perfil do judeu sabugalense, a juntar aos anteriores, a saber: homem ou mulher com uma média de 37 anos de idade, com o estatuto social de cristão-novo, o estatuto profissional de mercador ou similar e o apelido de Rodrigues para os homens e de Henriques para as mulheres.

Contudo, é preciso ter em conta que nos estamos a referir apenas aos apelidos dos réus e não aos dos seus pais e até dos avós. Através dos processos inquisitoriais que estamos a analisar, conhecemos a quase totalidade dos pais dos réus e apenas alguns avós, mas será o suficiente para estabelecermos as redes familiares dos cristãos-novos sabugalenses e poder, em consequência, conhecer melhor a genealogia do judaísmo sabugalense ao longo de mais de dois séculos de persistência criptojudaica, quer dizer, do judaísmo praticado no segredo das famílias perseguidas pelos tribunais das Inquisições de Lisboa, Coimbra e Évora.

 
(*) Biografia de Jorge Martins

(Publicado originalmente em Capeia Arraiana)

 
Um texto de Jorge Martins (*)

 
Uma das formas de dinamizar o Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA (NMPC) é fazer jus à simbologia daquele espaço, implementando a realização anual de um ciclo de conferências sobre a ditadura (1926-1974), a resistência antifascista e das oposições democráticas e o 25 de Abril de 1974. A censura, a guerra colonial, a PVDE/PIDE/DGS são alguns dos temas incontornáveis para que não se apague a memória do Salazar-marcelismo, pois as novas gerações correm o risco de não fazerem a mínima ideia do que era viver em ditadura e assim estarem avisadas para que não permitam que volte a acontecer.

As comemorações do Centenário da República, que no próximo ano inundarão a sociedade portuguesa com múltiplas iniciativas, seriam um óptimo pretexto realizar o 1º Ciclo de Conferências do Posto de Comando do MFA. Que melhor começo do que promover o debate sobre a República Democrática e a sua substituição por uma ditadura militar?

O NMPC tem um belíssimo auditório para lá se realizarem essas conferências. Cabe à Câmara Municipal de Odivelas a responsabilidade de as promover e organizar. Desta forma, para além de estar a contribuir para a formação cívica das novas gerações, poderia proporcionar o diálogo de historiadores e protagonistas da resistência antifascista e dos Capitães de Abril com a população do nosso concelho, designadamente com os nossos estudantes.

Para o convite aos conferencistas, não seria difícil a proposta de parcerias com os centros de estudos históricos das universidades, com o Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra, com a Associação 25 de Abril, com associações cívicas como o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória e a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses.

 
(*) Biografia de Jorge Martins

  
Um texto de Jorge Martins (*)

O primeiro post desta série pode ser lido aqui e o segundo aqui.

 
O Estatuto profissional dos réus

O estatuto profissional dos réus dos 143 processos da Inquisição referentes ao actual concelho do Sabugal não é conhecido para cerca de metade deles. Com efeito, 72 processos identificam a actividade profissional dos réus e 71 não identificam. Sublinhe-se que estamos a falar apenas das descrições divulgadas pela Torre do Tombo, situação que pode alterar-se após a consulta detalhada dos processos. Contudo, já temos dados suficientes para caracterizar as profissões dos réus acusados de judaísmo, que é a questão mais importante para o presente estudo.

Dos 72 processos com identificação das actividades profissionais dos réus, 69 referem-se a homens e apenas 3 a mulheres. Estas últimas estavam todas acusadas de práticas judaicas e uma era tendeira, outra vendedora e a última sem ofício. Quanto ao estatuto social dos réus desses 72 processos, 51 (70,8%) eram cristãos-novos, 9 (12,5%) eram cristãos-velhos e 12 (16,7%) eram de estatuto desconhecido. Dos réus com estatuto profissional conhecido, 56 (78%) estavam acusados de judaísmo. Estes valores permitem-nos ter uma ideia aproximada das profissões dos réus sabugalenses acusados de práticas judaicas. É disso que trataremos de seguida.

Das actividades profissionais destaca-se a de mercador com 18 réus (25%), seguida da de tendeiro com 5 réus, das de clérigo e lavrador com 4 cada e da de almocreve com 3. Todas as restantes profissões têm apenas 1 ou 2 réus a exercê-las.

A primeira conclusão que pode tirar é que se confirma aqui a actividade mais praticada pelos judeus. Se agruparmos algumas actividades similares dos acusados de judaísmo teremos uma perspectiva mais detalhada da sua realidade profissional: 31 dedicavam-se a actividades comerciais e 6 a actividades artesanais.

Ainda assim, temos quatro lavradores, actividade pouco habitual nos judeus, por imposição legal desde a Idade Média. Quanto a profissões socialmente mais conceituadas temos: estudante de leis, farmacêutico, feitor de alfândega, juiz de órfãos, mordomo, ourives, e rendeiro. Repare-se no facto de haver um único ourives, uma profissão associada ao estigma do judeu rico e poderoso.

Se tivermos em conta que os réus acusados de judaísmo têm habitualmente um elevado grau de probabilidade de se tratar, de facto, de praticantes da religião judaica (apesar de todos os perigos que isso implicava), através dos dados já obtidos, podemos definir o perfil do judeu sabugalense vítima da Inquisição: era um homem ou uma mulher, com 37 anos de idade, estatuto social de cristão-novo e estatuto profissional de comerciante.

(*) Biografia de Jorge Martins

(Publicado originalmente em Capeia Arraiana)

 
Um texto de Jorge Martins (*)

Na sequência das crónicas que tenho publicado sobre o Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA e considerando que aquele espaço de memória está subaproveitado, pois continua a fazer as mesmas coisas desde que foi criado há 8 anos, a saber: visita de estudo com passagem pela exposição e visionamento do mesmo excerto do filme da SIC “A Hora da Liberdade”, resolvi, entre outras propostas organizativas, programáticas e dinamizadoras, elaborar um conjunto de fichas de trabalho, destinadas aos professores (principalmente os de História).

Este tipo de projectos sempre esteve na mente da direcção da Associação «Não Apaguem a Memória», pelo que é sob os seus auspícios que são lançadas no «Caminhos da Memória», que passa a disponibilizar um modelo de ficha para o 4º,  6º, 9º e 12º anos, em PDF, que se pode descarregar livremente e ser aplicada aos alunos desses anos curriculares em que o 25 de Abril é estudado nas escolas.

As fichas foram concebidas para que cada aluno faça o seu próprio estudo da importância do Posto de Comando no 25 de Abril e conheça factos e personalidades decisivas para o sucesso da revolução. Procurou-se aumentar o grau de dificuldade, à medida que a ficha se destinava aos níveis curriculares mais elevados. Mas, somo os alunos, as turmas e as escolas não são todos iguais, qualquer professor pode usar questões das fichas previstas para os outros anos, retirar ou acrescentar perguntas. Obviamente, os alunos também podem descarregar as fichas e usá-las autonomamente, assim como qualquer visitante.

Estas são as primeiras fichas, pois já estão a ser concebidas outras fichas complementares, com sugestões de trabalho de pesquisa individual (designadamente na Internet) e trabalhos de grupo (por exemplo, apresentações em PowerPoint). Os anos curriculares estão identificados do seguinte modo: 1- 4º ano; 2- 6º ano; 3- 9º ano; 4- 12º ano.

Sugestões e críticas são bem-vindas.

 
(*) Biografia de Jorge Martins

 
Um texto de José Augusto Rocha (*)

Deixo aqui exarado o meu testemunho breve de algumas circunstâncias que experienciei ligadas ao desmantelamento da PIDE/DGS e ao frustrado julgamento dos seus crimes, no caso, o das escutas telefónicas. Esta memória ganha actualidade pela dupla razão da ocorrência de duas circunstâncias actuais. Por um lado, a tentativa da eliminação da lápide que lembra os crimes da Pide e procura o apagamento da memória desta polícia política. Por outro lado, porque num momento em que a vida dos portugueses conhece, de novo, escutas ilícitas que ferem elementares princípios constitucionais de protecção da vida íntima e privada dos cidadãos, e em que parte da opinião pública, açulada pela fúria punidora de oportunistas políticos travestidos de novas Erínias, pressiona pela publicidade das conversas privadas, é oportuno lembrar o passado negro e o crime sem castigo da afronta aos direitos humanos e dos direitos fundamentais das escutas telefónicas da PIDE e reflectir um pouco sobre o hodierno tempo incerto e problemático do direito à intimidade da vida privada e do direito à confidencialidade das comunicações.

Um dos crimes sistematicamente cometidos pela PIDE e que ficou sem julgamento, foi o das escutas telefónicas. Logo após o 25 de Abril, reuniu-se a Assembleia Plenária dos advogados portugueses, no sentido de colaborar no desmantelamento do aparelho repressivo do Estado Novo e, em especial, da polícia política, e contribuir para a investigação dos crimes por ela praticados. Uma das deliberações tomadas foi a eleição de quarenta e sete advogados que vieram a distribuir-se por três secções: a de coordenação, a de análise de documentos e a de investigação. Mais tarde, quando foi criada a “Secção de Justiça” da Comissão de Extinção da PIDE/DGS, foram escolhidos dez dentre eles para fazerem parte da “Comissão Consultiva” dessa Secção, que integrei. Em 18 de Maio de 1974, recebi um ofício do Senhor Bastonário Ângelo de Almeida Ribeiro a “… solicitar a comparência do Colega no edifício que foi sede da extinta DGS, na Rua António Maria Cardoso, pelas 15 horas do próximo dia 21, para uma primeira sessão de trabalhos”. Resolvi fazer uma acta dessa reunião, bem assim das subsequentes, que guardo nos meus arquivos. Tive, então, a oportunidade de conhecer os arquivos das escutas telefónicas na sede da Rua António Maria Cardoso e tomar consciência da extensão dos crimes de escuta cometidos por aquela polícia.

(mais…)


  (Fundação Mário Soares)

 
Bem a propósito do 48º aniversário do Golpe de Beja (ontem), este texto de JHS e os excertos do documento agora divulgados.

 
Um texto de José Hipólito dos Santos (*)

 
Há dias, remexendo em velhos papéis guardados no fundo dum armário, saltou aos meus olhos um conjunto de folhas agrafadas tendo como título “Viagem Secreta a Portugal”. Era um texto de que não mais me lembrara, ou que tinha considerado definitivamente perdido, que me fora dado por Arajaryr Campos a secretária/companheira do General Humberto Delgado.

Um dia, em Julho de 1964, em Argel, recebi um recado do General Delgado convidando-me a ir tomar um refresco na sua vivenda, no interior do Palais du Peuple, residência oficial do Presidente da Argélia Ben Bella.

Eu fora um dos cinco promotores da sua ida para Argel, além de ser o presidente da JAPPA – Junta de Acção Patriótica dos Portugueses da Argélia, mas pretendia sobretudo conversar comigo como participante no Movimento de Beja.

Falámos um pouco sobre as tensões na Oposição portuguesa na Argélia e das dificuldades dos portugueses exilados. Nenhum de nós estava interessado, então, em aprofundar a natureza dessas tensões que viriam, algumas semanas depois, a transformar-se em rupturas graves.

O que se passara com o assalto ao quartel de Beja, que fazia parte dum projecto seu de carácter insurreccional com militares e civis que adeririam em cascata, continuava a estar no centro das suas reflexões.

Interessou-se particularmente pela maneira como eu tinha estabelecido a ligação entre os civis de Manuel Serra e os militares de Varela Gomes, ligação essa que constituía a base de todos os seus projectos.

Mas o General, sem esconder a grande decepção com o falhanço daquela tentativa revolucionária, atrasando o seu desejo de libertar Portugal da ditadura, pôs-se a contar como entrara em Portugal, para dirigir o Movimento de Beja, como se escondera, depois de constatar que tudo estava perdido, e como finalmente saíra de Portugal, rompendo as malhas duma repressão sem precedentes, em todo o país. Arajaryr tinha sempre um complemento na evocação desses episódios e um comentário picante contra a PIDE que se deixara ludibriar várias vezes. O General teatralizava alguns episódios, como quando fora obrigado a sair do comboio, em Barca d’Alva, para mostrar o passaporte ao PIDE. Fingindo sofrer de perturbações nervosas que lhe provocavam esgares fisionómicos e algum descontrole de mãos e braços, postou-se face ao agente da PIDE que não tinha coragem para o encarar e carimbou o passaporte com a maior rapidez!

Relatavam tudo isso com uma certa satisfação, por vezes, dando umas gargalhadas e consideravam que a PIDE era menos competente do que se pensava, nomeadamente os activistas políticos da Oposição.

A festa do reencontro do General e de Arajaryr, que viajara por Vilar-Formoso, fez-se em Madrid, sancionado por uma fotografia que depois exibiram publicamente.

Entretanto, Arajaryr levantara-se para ir buscar um documento, escrito por si, que intitulou VIAGEM SECRETA A PORTUGAL, o tal documento que reencontrei.

O que a seguir se transcreve são trechos desse texto, que traz elementos de reflexão sobre a personalidade do General e sobre erros cometidos, de que viria a pagar uma pesada factura. Mas a responsabilidade da Oposição, toda ela, foi muito grande no pagamento dessa factura.

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Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

 
Exmos. Senhores,

Na sequência da notícia sobre a forma como a vossa empresa tratou o compromisso, estabelecido com o movimento «Não Apaguem a Memória!», de manter, no prédio da Rua António Maria Cardoso que foi sede da antiga PIDE-DGS, a placa evocativa das últimas vítimas da corporação que serviu de braço repressivo ao regime autoritário derrubado em Abril de 1974, venho exprimir o meu mais veemente protesto pela decisão de colocarem em local praticamente imperceptível a referida placa. Para além de uma grande falta de respeito para com a memória de pessoas que sofreram ou deram a vida pela democracia, esta atitude traduz também um claro menosprezo pela essência de um regime democrático que permite hoje, justamente a empresas como a vossa, exercerem a sua actividade num país sem medo e, para muitos, com uma qualidade de vida sem a qual a actividade imobiliária e de lazer que invocam seria impossível.
Aguardando atentamente que o compromisso seja honrado, envio os meus cumprimentos.
Rui Bebiano

 
Ex.os Senhores.

Acordei tarde para este problema, quando o vosso condomínio de luxo está pronto, ou poderia ter sido o último combate da minha vida, mas tudo faria para que não existisse.
Agora é facto consumado e ainda assim escondem não só o passado mas uma mísera placa que tenta recordá-lo. Reponham-na onde estava ou terão muitos amargos de boca.
Cumprimentos
Teresa Salvaterra

Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

 
Ex.mos Senhores,

Indignação é a primeira mas infíma palavra para o que sinto e penso.
Se o esquecimento é inadmissível, a sobranceria e a brutalidade implícitas na localização actual da placa fazem-me pensar que o vocabulário escasseia para qualificar a situação.
Não se pode permitir que a placa que um “grupo de cidadãos” mandou fazer seja assim retirada e assim colocada!
É preciso dar a conhecer o que se passou!
O mínimo que podem fazer, para já, é recolocá-la no local de onde a tiraram
Luísa Tiago de Oliveira

 
Exmos senhores:

Acabo de deixar no endereço que abaixo refiro uma carta aberta que vos é dirigida, de que extraio apenas algumas poucas palavras que vos envio neste mail. Escrevi-a com indignação pelo acontecido, sob a vossa responsabilidade, num espaço simbólico da memória recente do nosso País. Sendo embora pesada a sua história, deve ser recordada. O Paço do Duque foi erguido sobre escombros da ditadura. Os quatro jovens mencionados na placa nunca chegaram a saber o que era viver em Democracia. Foram muitos milhares os portugueses que ali foram interrogados e torturados, que permaneceram noites e noites submetidos a espancamentos e a torturas. Alguns deles ainda se emocionam quando passam naquele local. Estou entre esses. Não evoco o meu passado de resistente anti-fascista para reclamar a reposição imediata da placa em lugar condigno, ou para reclamar a edificação de um memorial. Mas lembro-me daqueles que já partiram e penso que a sua memória assim o exige. E exige respeito. Respeito que passa, também, pelo recato, pela discrição: a empresa imobiliária do “Paço do Duque” devia ter tido o bom senso do recato na publicidade que faz dos apartamentos de luxo. Não teve. Devia, ao menos, respeitar o compromisso assumido com o NAM e colocar a placa em sítio visível. Vamos esperar.
P.S. O endereço referido é este
Com cumprimentos
Maria Helena Pato

 
Um texto de Jorge Martins (*)

 
A placa voltou à fachada da ex-sede da PIDE/DGS e não voltou! Na verdade, se olharmos com alguma atenção (ver fotos), reparamos que há detalhes que estarão na origem deste gesto da imobiliária. Quer dizer, decidiu devolver a placa ao edifício, mas não foi ingénua a sua localização. Assim, tentou evitar um mal maior para o condomínio (que não está descartado) e colocou a placa de forma invisível e inócua.

Esclarecendo: a placa foi estrategicamente colocada num local onde não se vê, longe da porta principal. Vêem-se na foto os botões de chamada dos residentes, mesmo ao lado da coluna onde estava originalmente a placa. Sendo colocada na coluna ao lado, distante da porta principal (nº 20), procurou evitar-se o incómodo dos residentes e seus visitantes de depararem com a placa frente aos seus olhos. Já imaginaram o “incómodo” dos residentes que entrassem por aquela porta e tivessem que recordar que vão entrar naquele tenebroso local de outrora, sem duques nem princesas? Pois é isso mesmo que queremos: que quem lá venha a viver não esqueça o sítio onde vai dormir todas as noites!

Já aqui foi sublinhado que a placa está abaixo do nível dos olhos. Ninguém, que não lá vá com esse propósito expresso, descobrirá a placa. Ora, justamente, a placa está lá para quem não sabe que ali funcionou a sede da polícia política e não para agrado dos que já sabem. A placa precisa ser descoberta pelo vulgar turista, pelo descuidado transeunte, pelo cidadão interessado pela história do seu país. Onde está neste momento só a vê quem a quer ver!

Finalmente, um detalhe de importância maior. A placa foi restaurada, mas “esqueceram-se” de um pormenor decisivo: as letras não foram pintadas, pelo que se tornaram invisíveis. Só mesmo em cima da placa (com ela pela cintura, por isso de difícil leitura) é que se consegue ler a inscrição.

Tudo muito bem “resolvido” pela imobiliária, que, depois de se ter “esquecido” de a recolocar, a colocou de forma invisível. Em consequência, a placa, de facto, não está lá!

As fotos antigas mostram inequivocamente o local onde estava a placa quando a imobiliária a retirou. Há duas exigências a fazer à imobiliária: a sua restauração completa, pintando as letras para que sejam legíveis e a sua recolocação no seu devido lugar. Em último caso, se a imobiliária achar que não tem a obrigação de a repintar, não faltará certamente quem o queira fazer.

Infelizmente, a Câmara Municipal de Lisboa parece não se querer envolver no assunto. Faz mal! É em momentos como este que os poderes públicos devem dar a cara. É isso que esperamos dos políticos que elegemos. Já passou tempo suficiente para que a CML se pronunciasse sobre a questão. Depois de resolvida a questão, não nos serve para nada.

 

(*) Biografia de Jorge Martins

Iniciamos hoje a publicação de cópias que nos foram enviadas, de mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

 
Ex.mos Senhores,

Sou um dos muitos milhares de cidadãos que atravessaram os portões do agora condomínio de luxo quando esse edifício, no tempo da ditadura, servia de antro policial onde se prendiam, torturavam e assassinavam os que lutavam para que a liberdade e a democracia fossem bens comuns e vulgares no nosso país. Para um povo adulto, com história e memória, para qualquer cidadão decente, esse espaço, marcado pela ignomínia do livre arbítrio de criminosos que então faziam lei, devia merecer, no mínimo, respeito para com as vítimas dos esbirros da ditadura.
A vossa atitude de primeiro retirarem a placa evocando as últimas vítimas da PIDE e depois, acintosamente, a recolocarem “discretamente” de forma imperceptível, é um acto gratuito e ofensivo de prolongarem, agora ferindo a memória das vítimas, a acção da PIDE contra os combatentes pela liberdade. Nós, os que fomos vítimas da PIDE e todos os que não querem que Portugal seja habitado por um povo sem história nem memória, não vamos ficar calados nem inactivos. De todas as formas pacíficas e cívicas, mas decididas, não calaremos o nosso protesto nem a denúncia sobre as forma cínica como hoje pretendem fazer esquecer e branquear a PIDE e os seus crimes. Contem com isso, para vossa reflexão. A vossa ganância pelo lucro não pode, não vai, quebrar a defesa da história da liberdade neste país que implica a recordação para as gerações mais novas, do terror e da opressão que, durante décadas, nos oprimiu.
Com os melhores cumprimentos.
João Tunes

 
Em virtude do assunto em apreço dizer respeito à GEF – Gestão de Fundos Imobiliários, SA, sugiro uma visita ao link abaixo.
Com os melhores cumprimentos,
Miguel Cardina
(mais…)

 
Um texto de Jorge Martins (*)

Um dos problemas com que sempre se debateu o projecto do Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA foi o da inexistência de uma pequena equipa da Divisão de Cultura da Câmara Municipal de Odivelas que se dedicasse exclusivamente à programação e coordenação das actividades daquele espaço privilegiado do património histórico do concelho (e do país). Bastava destacar dois dos técnicos da Divisão de Cultura da CMO, que têm estado há muito ligados ao projecto, para que tudo fosse diferente. Destinar-lhes o trabalho de acompanhamento das visitas ao Posto de Comando, designadamente das escolas, não chega.

Obviamente, a tutela militar do espaço não facilita a movimentação desses técnicos, mas toda a gente sabe que o Regimento de Engenharia 1 tem tido comandantes muito dialogantes com a autarquia e que, sempre que a CMO precisa, as portas estão abertas. Falta à câmara apostar no Posto de Comando como elemento de superior importância estratégica cultural do concelho.

Nada impede a CMO de dar esse passo. A forma organizativa da intervenção autárquica no Posto de Comando só depende da própria câmara. Para o RE-1, tanto faz que haja dois técnicos que lá vão quando há visitas de estudo, como que haja dois técnicos que têm responsabilidades maiores na programação de actividades regulares, na articulação com as escolas, na produção de materiais didácticos, enfim, na dinamização do Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA.

Será que a nova vereação vai olhar com outros olhos para o Posto de Comando e tem a coragem de assumir uma responsabilidade maior, ou vai deixar tudo como nos últimos oito anos? Espero, sinceramente, que pense no Posto de Comando como uma prioridade cultural do concelho de Odivelas.

(*) Biografia de Jorge Martins

Um texto de Jorge Martins (*)

Um povo sem memória é um povo sem identidade. Uma comunidade que não cuida do seu património histórico é uma comunidade que não o merece. O Posto de Comando do MFA é, sem qualquer sombra de dúvida, o local mais emblemático do 25 de Abril. Foi daquele barracão (há 8 anos transformado em núcleo museológico), que os Capitães de Abril comandaram as operações vitoriosas de 1974. Que mais fazer para dignificar aquele espaço, preservar a memória do 25 de Abril e projectar a imagem do Concelho de Odivelas?

 
Agora, que temos nova vereação na Câmara Municipal de Odivelas e novo Vereador da Cultura, abrindo um novo ciclo autárquico, não se pode perder a oportunidade para dar um novo impulso ao Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA (NMPC).

Temos que reconhecer que, desde a sua inauguração em 24 de Abril de 2001 pouco se acrescentou ao legado de há oito anos e meio. Do balanço positivo, pode destacar-se o projecto “O Dia 25 no Posto de Comando”, que permitiu levar lá figuras públicas e protagonistas do 25 de Abril ou da resistência à Ditadura, em diálogo com os alunos das escolas do concelho. Pena é, que tenha tido uma vida intermitente. A reutilização de uma das salas (prevista inicialmente para ser uma sala de estudo do 25 de Abril), que tem alojado exposições temporárias, também constituiu um acréscimo às potencialidades do NMPC. O esforço junto das escolas para levar os alunos do concelho a visitar o Posto de Comando também tem sido uma preocupação dos responsáveis, mas não chega. Finalmente, e em abono da verdade, deve reconhecer-se a competência e a acção, desde 2001, dos técnicos da Divisão de Cultura, com destaque para o Dr. Miguel Ferreira.

Mas, se olharmos objectivamente para estes últimos oito anos, o essencial pouco mudou. O NMPC não deu nenhum passo significativo no sentido da criação de um serviço próprio que dinamizasse aquele espaço, que o dotasse de recursos diversificados (o filme que lá se vê é o mesmo de há oito anos), que produzisse os seus próprios materiais, que adoptasse um plano de actividades que passasse pelas escolas do concelho e de fora dele (a projecção exterior do NMPC não se consolidou). Em suma, tal como se adivinhava há oito anos, é indispensável disponibilizar dois ou três técnicos para organizar, programar, produzir e divulgar as actividades regulares do NMPC.

Tal como fiz há cinco anos junto do Vereador da Cultura de então, deixo aqui algumas sugestões sobre o que se podia fazer em prol da dignificação de um dos mais nobres recursos patrimoniais do Concelho de Odivelas:

1)      A Divisão de Cultura deveria destacar dois técnicos seus para se dedicarem ao Posto de Comando. Como o espaço é da tutela do Regimento de Engenharia nº 1, não se pode dar autonomia ao NMPC, o que seria o ideal.

2)      Elaboração de um Plano Anual de Actividades, por esses técnicos, que passe pelos seguintes aspectos:

a)      Instituição de um serviço educativo, que estabeleça contactos permanentes com as escolas, com ofertas e projectos renovados;

b)      Gravação, no Posto de Comando, de entrevistas em vídeo sobre os acontecimentos ali ocorridos, aos operacionais que lá estiveram em 25 de Abril, aos Capitães de Abril que por ali passaram e a protagonistas da Resistência e do 25 de Abril. O registo das sessões já realizadas constituiria um recurso importante;

c)      Produção de novos recursos, designadamente para os alunos que lá vão mais de uma vez em anos diferentes. Os alunos podem visitar o NMPC no 1º Ciclo, no 6º ano, no 9º ano e no 12º ano, pois os programas de História tratam o tema. As entrevistas acima referidas dariam óptimos filmes para ali passar.

d)     Diversificação dos recursos, de acordo com os níveis etários e curriculares dos alunos que visitam aquele espaço. Não se pode insistir em dar aos alunos do 1º Ciclo o mesmo que se dá aos do ensino superior;

e)      Criação de uma linha editorial para publicação de pequenos episódios e biografias de protagonistas da Resistência e do 25 de Abril, assim como outros materiais didácticos, para distribuição pelas escolas do concelho e destinados a trabalhar com os seus professores, designadamente os de História, nos anos em que os temas são abordados pelos programas escolares;

f)       Organização, no auditório do NMPC, de um ciclo anual de conferências em torno da Ditadura (polícia política, repressão, guerra colonial, resistência, censura, subdesenvolvimento) e do 25 de Abril (revolução, liberdade, descolonização, PALOPSs, União Europeia).

3)      Outro aspecto importante quanto ao NMPC é o seu reconhecimento e classificação enquanto património nacional. Um primeiro passo significativo, seria a classificação, pela Câmara Municipal de Odivelas, do Posto de Comando como Imóvel de Interesse Municipal, tal como fez para o Velho Mirante, também da Pontinha.

Aqui fica o desafio à Presidente da Câmara Municipal de Odivelas e ao Vereador da Cultura.

(*) Biografia de Jorge Martins

Um texto de Jorge Martins (*)

O primeiro post desta série pode ser lido aqui.

De um total de 143 processos das Inquisições de Lisboa, Coimbra e Évora referentes a naturais ou/e residentes no actual território do concelho Sabugal entre os séculos XVI e XVIII, apenas 81 (57%) exibem a idade dos réus na descrição elaborada pela Torre do Tombo. É com aqueles em que estão identificadas as idades que vamos trabalhar estatisticamente. Dos 81 processos, 72 (88,9%) referem-se a réus acusados de judaísmo e 9 (11,1%) a outras acusações. É uma proporção compatível com a percentagem de processos de acusação de judaísmo (81,1%) no total dos 143 processos em estudo, como mostrámos na crónica anterior.

Quanto às idades dos réus, o mais novo tinha 14 anos quando foi preso nos cárceres da Inquisição e o mais velho tinha 80 anos (ambos estavam acusados de judaísmo). Eis a lista completa das idades: 14 anos: 1 processo; 15A: 2P; 17A: 1P; 18A: 3P; 19A: 4P; 20A: 1P; 21A: 1P; 22A: 1P; 23A: 2P; 24A: 2P; 25A: 2P; 28A: 5P; 30A: 7P; 31A: 3P; 32A: 1P; 33A: 6P; 34A: 1P; 35A: 3P; 37A: 1P; 38A: 2P; 40A: 5P; 41A: 1P; 42A: 1P; 43A: 1P; 44A: 1P; 45A: 1P; 46A: 1P; 47A: 2P; 50A: 3P; 55A: 1P; 56A: 3P; 60A: 6P; 64A: 1P; 65A: 1P; 68A: 1P; 70A: 1P; 75A: 1P; 80A: 1P.
Se hierarquizarmos as idades mais frequentes, obtemos a seguinte lista:

Para se tornarem mais claras as faixas etárias com maior incidência, atentemos no seguinte gráfico:

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Um texto de Jorge Martins (*)

 
A presença de uma comunidade judaica no Sabugal está documentada (pelo menos) desde o início do século XIV. Os reconhecidos estudos medievais da historiadora Maria José Ferro Tavares incluem a comuna judaica do Sabugal entre as três dezenas que identificou para o período de 1279-1383, tendo confirmado documentalmente a sua existência em 1316, através de uma dívida dos judeus do Sabugal ao rei D. Dinis em 16 de Agosto desse ano.

Mas a comunidade judaica do Sabugal manteve-se até ao final do século XV. Com efeito, a menos de um ano da expulsão dos judeus, que D. Manuel I decretou em Dezembro de 1496, também há prova documental da persistência da judiaria do Sabugal, como o atesta uma carta de D. Manuel datada de 12 de Janeiro de 1496. O resto da infeliz história dos judeus portugueses dessa época é conhecido: depois do decreto de expulsão de 1496, seguiu-se o baptismo forçado de 1497, com a consequente proibição do judaísmo e a destruição das comunidades judaicas de todo o reino, sobretudo a partir da introdução da Inquisição, que existiu legalmente entre 1536 e 1821.

Mas, se desapareceram as comunidades judaicas, não aconteceu o mesmo ao judaísmo que, de forma secreta ou disfarçada, sobreviveu a quase três séculos de acção criminosa dos tribunais da Inquisição de Lisboa, Évora e Coimbra (e Goa, na Índia). De entre os cerca de 45.000 processos das Inquisições, existentes na Torre do Tombo, alguns narram a resistência dos judeus do Sabugal. Por isso, fomos à procura deles e encontrámos 143 processos relativos a pessoas que viviam ou/e haviam nascido no actual território do concelho do Sabugal quando foram parar aos cárceres do Santo Ofício.

A partir de hoje, daremos aqui, no Capeia Arraiana, conta dos resultados preliminares da análise desses processos. A primeira conclusão que podemos tirar é que, dos 143 processos, 102 foram identificados como cristãos-novos (descendentes de judeus), representando 71,3%, enquanto apenas 15 se referem a cristãos-velhos (descendentes de cristãos) e representam 10,4%. Se tivermos em conta que 26 processos (18,3%) não identificam o estatuto social dos réus, restam-nos 127 processos com estatuto social conhecido, aumentando para 80% a percentagem de cristãos-novos contra 20% de cristãos-velhos. Em consequência, podemos concluir que os judeus eram a vítima predilecta dos inquisidores.

Continuando a analisar os processos do Sabugal, temos 116 (81,1%) acusados de judaísmo, 5 (3,4%) acusados de blasfémia, 5 acusados de heresia (3,4%), 4 acusados de bigamia (2,7%), 2 acusados de visões (1,3%) e 11 (8,1%) julgados por várias acusações, com 1 processo cada um: sacrilégio, luteranismo, sodomia, perjúrio, pacto com o demónio, impedimento do ministério do Santo Ofício, violação de Ordens religiosas, abuso da função de padre, feitiçaria, intitular-se abusivamente oficial da Inquisição e molinismo (seita religiosa).

Finalmente, dos 102 processos a cristãos-novos, 97 (95%) foram acusados da prática da religião judaica. Os restantes 5 (5%) foram acusados de blasfémia, bigamia, heresia, de impedir o ministério do Santo Ofício e violação de Ordens religiosas. Também se pode concluir que a acusação de judaísmo era esmagadoramente maioritária. Em suma: a Inquisição foi, efectivamente, introduzida em Portugal para perseguir os judeus e o judaísmo e o caso do Sabugal confirma plenamente essa tese.

 
(*) Biografia de Jorge Martins

(Publicado originalmente em Capeia Arraiana)


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Um texto de Jorge Martins (*)

 
Tal como eu previa em 4 de Março deste ano, num alerta publicado nos «Caminhos da Memória», a placa de homenagem às últimas vítimas da PIDE foi discretamente retirada no decurso das obras do condomínio de luxo do Paço do Duque. A ideia era fazer que caísse no esquecimento. E caiu. Já lá vão alguns meses e o “esquecimento” pegou.

Corrijo, cairia no esquecimento se alguém com memória, que por lá passasse, não se indignasse com a surpresa do desaparecimento do derradeiro sinal da existência daquela tenebrosa polícia política. Com efeito, em visita ao local para recordar a sua intervenção de ocupação da sede da PIDE/DGS no dia 25 de Abril de 1974, os comandantes Carlos de Almada Contreiras e Luís da Costa Correia, acompanhados pela professora Luísa Tiago de Oliveira, historiadora do ISCTE, nem queriam acreditar no que (não) viam: a placa desaparecera sem deixar rasto. A professora, fundadora do NAM, contactou com a direcção desta Associação, que reuniu e desencadeou algumas acções no sentido de saber o que se está a passar.

Não podemos ficar calados e quietos! Há que exigir, a quem de direito, que a placa regresse ao seu lugar. E, quanto a este, há que verificar se foi sempre o mesmo que se vê na foto acima. Em todo o caso, não há dúvidas quanto ao local onde estava quando as obras do Paço do Duque se iniciaram. E, como se pode constatar, não foi recolocada.

Para além das diligências junto de entidades inquestionavelmente interessadas na preservação da memória da PIDE, a acção cívica é indispensável para as pressionar. Que a “vida nova” prometida pela publicidade do Paço do Duque não faça esquecer a “vida velha” daquele edifício. Não há que temer a assunção das nossas memórias colectivas. Mesmo (ou sobretudo) as nossas piores memórias. Quem estiver disposto a habitar um daqueles apartamentos onde ecoam os gritos dos antifascistas torturados durante décadas, não se importará com uma mera placa evocativa das últimas vítimas dos seus carrascos, colocada à entrada do condomínio.

Não vamos baixar os braços e deixar passar mais este atropelo à dignidade de quem nos proporcionou a capacidade de nos indignarmos em liberdade. Vamos ganhar esta batalha contra o esquecimento. Em nome do futuro, não apaguem a memória!

 
(*) Biografia de Jorge Martins


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Um texto de José Augusto Rocha (*)

 
No final do calendário do ano em curso, bailam na nossa memória duas datas incontornáveis, ligadas aos direitos humanos. Uma – 12 de Dezembro – refere-se à passagem de mais um ano sobre a Declaração Universal dos Direitos do Homem; outra – há pouco passada – assinalou mais um ano sobre a publicação de dois dos mais importantes diplomas legislativos ligados à repressão dos direitos humanos e das liberdades fundamentais no Estado Novo: a criação dos Tribunais Plenários, em substituição dos Tribunais Militares Especiais e a criação da PIDE, em substituição da predecessora PVDE, pelos Decreto-lei, respectivamente, nº 35 044, de 20 de Outubro de 1945 e nº 35 046, de 22 de Outubro do mesmo ano.

Estas datas são o claro-escuro de um tempo histórico que merece um pouco da nossa reflexão.

A 12 de Dezembro de 1948, ”considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo (…) a Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos do Homem como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações”.

Esta Declaração solene, filha do pesadelo de uma situação que confrontou a consciência dos povos com os abismos mais profundos de uma indústria do extermínio, erigida em desígnio colectivo, foi um marco decisivo para o reconhecimento dos direitos humanos e para a sua protecção, desde 1948, face à dimensão dos crimes nazis.

Foi também o início de um longo caminho que veio a aprofundar e a reconhecer, como consta da Resolução da Assembleia Geral 32/130, de Dezembro de 1977, ”que todos os direitos humanos e liberdades fundamentais são indivisíveis e interdependentes e que deve ser dada igual atenção e consideração urgente à implementação, promoção e protecção tanto dos direitos cívicos e políticos, como também dos económicos, sociais e culturais”.

Preocupação bem patente na posterior “ Declaração do Millenium”, que estabeleceu objectivos em matéria de direitos humanos e fixou prazo até 2015 para que sejam cumpridos. Ela veio aprofundar uma viragem para os problemas concretos, ao tratar nomeadamente da erradicação da fome e da miséria, promover a educação básica para todos, promover a igualdade entre os sexos, reduzir a mortalidade infantil, combater as doenças crónicas, garantir a qualidade de vida e o respeito pelo ambiente, trabalhar pelo desenvolvimento, questões que são tratadas em emblemáticos capítulos como “ Desenvolvimento e Erradicação da Pobreza”, “ Protecção do Ambiente Comum”, “Direitos Humanos, Democracia e Bom Governo”, “Protecção dos Vulneráveis”.

O espírito desta Declaração significa que o debate dos direitos humanos não pode restringir-se ao campo da teoria, à sua proclamação ou contemplação, mas que é necessário mobilizar todos para que, no seu dia a dia, cumpram o seu dever activo de cidadania de por eles lutar.

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Um texto de Helena Cabeçadas (*)

 
Em Fevereiro de 1967 fui convidada pela União Internacional de Estudantes, sedeada em Praga, a participar num encontro sobre imprensa estudantil na República Democrática Alemã (RDA). Eu tinha 19 anos, era estudante de Ciências Sociais na Universidade Livre de Bruxelas, e ocupava-me, entre outras actividades, do jornal do Secretariado dos Estudantes Portugueses no Estrangeiro (SEEPE) – daí, a razão deste convite.

Aceitei a proposta com entusiasmo. Sentia um enorme desejo de conhecer o outro lado da “cortina de ferro”, como então era designada a fronteira que separava a Europa Ocidental da Europa de Leste, dos países do “socialismo real”, que eu idealizava como as sociedades igualitárias pelas quais valia a pena lutar, arriscar a prisão, a tortura ou o exílio. A minha militância no Partido Comunista Português, em Bruxelas, era discreta, pois procurava preservar a possibilidade de regresso legal a Portugal, de cujas escolas fora expulsa no final do Liceu, em 1965. Iria pois com papéis e identidade falsa, para que não ficassem vestígios dessa viagem proibida no meu passaporte português.

Estava um Fevereiro glacial. Escolhi levar roupa quente, prática e feiosa – calças, botas, gorro, um velho casaco de pele de gazela mal curtido, que deixava pelo por todo o lado e com o qual enfrentava os Invernos tristes da Bélgica – não fosse vir a ser acusada de “tendências pequeno burguesas”…

Parti do Aeroporto de Bruxelas num pequeno avião quase vazio, só dois ou três indivíduos com ar soturno, em direcção a Praga. Aí, fui conduzida ao Hotel e a primeira surpresa foi o encontro com os “estudantes” da U.I.E. (União Internacional de Estudantes), que eu imaginava jovens e que eram já de meia-idade, com ar de funcionários, vestidos de modo formal: gravata, fato completo, sobretudo… levaram-me a um bar, beber whisky (não, não era vodka!), com uma música horrível e ambiente pesado, desagradável. A minha primeira estadia em Praga foi rápida e chata, com os estudantes quarentões da UIE. Apercebi-me, de relance, da espantosa beleza da cidade mas, com tais companhias, não era entusiasmante descobri-la.

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9-A Lanterna-1913     10-Zé,-1913
   Árbitro no Senado violento, A Lanterna,1913                       Justiceiro implacável, O Zé,1913

  
11-O Moscardo-1913   12-Zé-1913
   Líder ineficaz no Parlamento, O Moscardo, 1913              Árbitro parlamentar, O Zé, 1913

 
Um texto de Jorge Martins (*)

 
Republicano não alinhado

O facto de Braamcamp Freire ser um neo-republicano e ter preservado toda a sua relutância em se envolver nas dissidências republicanas pós-República, não se colocando ao lado de nenhuma das facções, valeram-lhe algumas agruras. Começou por ter que abandonar a corrida presidencial em 1911 (ganha por Manuel de Arriaga), em consequência da campanha de insinuações de não ser um republicano da primeira hora.
Contudo, Braamcamp Feire mereceu os maiores elogios de figuras gradas do republicanismo quando aderiu ao PRP, em 1907, numa altura em que o fenómeno da «adesivagem» ainda não emergira. Para além dos já citados anteriormente, valerá a pena juntar este, de Bernardino Machado, que coloca o futuro presidente da Câmara de Lisboa, numa linhagem de inequívocas tradições liberais: «Ora o nome de V. Exª. é um nome histórico. Seu avô, o sr. Anselmo Braamcamp d’Almeida, punha-se ao lado da revolução de [18]20 com todos os cabedais, e acompanhava-o a esposa, oferecendo aos revolucionários todas as suas jóias. Seu tio, meu venerando amigo, o sr. Anselmo José Braamcamp, foi patuleia, pegando em armas para defender a liberdade nas lutas de [18]46 e [18]47. Um combateu o absolutismo sob a forma miguelista, o outro sob a forma cabralista. V. Exª. combate-o sob a forma franquista.»

Sete meses antes da proclamação da República, já na vereação republicana de Lisboa, Braamcamp Freire, reafirmava a sua decisão de 1907: «O que penso hoje, já então pensava; a coerência é perfeita e apenas dei um passo para diante quando, em Novembro de 1907, me declarei republicano.»
Afastado da vida política por decisão pessoal, depois de ter sido presidente da Câmara Municipal de Lisboa, da Assembleia Nacional Constituinte e do Senado, viria a dedicar-se com afinco aos estudos históricos, de que falaremos em próximo artigo. Nessa época, precisamente em 3 de Janeiro de 1915, escreveu uma carta a João Chagas, em Paris, demonstrando alguma amargura pela evolução do regime republicano: «Não sei se lhe chegou lá o desânimo, mas isto por cá está deplorável; não vejo remédio e receio um muito rápido e fatal desfecho.»

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Um texto de António Marquês (*)

Faz hoje precisamente 45 anos. 19 de Novembro de 1964. Nos dias antes, o meu pai tinha-me avisado várias vezes: “Toino, olha que isto do trabalhar não custa nada, temos que respeitar os mais velhos, eles sabem mais do que tu”; “não te deixes levar por aqueles que te vão dizer que os que ganham mais é que devem trabalhar, tu só vais como aprendiz, vais para aprender”. Tinha eu os meus 14 anos, feitos em Março, no mês dos burros. Ia começar a trabalhar, ia entrar nesse novo mundo. Os estaleiros da Parry & Son, em Cacilhas, eram o local laboral escolhido para a minha iniciação no mundo do trabalho.

Já sabia que tinha que apanhar a camioneta da Beira-Rio que passava no centro da Cruz de Pau às 7 e vinte. Nesse tempo, o percurso até Cacilhas, livre das centenas de automóveis e do comboio que hoje o mortificam, ainda se fazia em 15 minutos, vá lá 20 minutos, no máximo. Até Corroios aquilo era limpinho: 2 minutos. A partir do Laranjeiro já começava a parar mais, de vez em quando uma entrada de 4 ou 5 passageiros, um ou outro que acabava a viagem e, porque estava mais perto da porta da frente, era por aqui que saía e logo atrapalhava um pouco. Na Cova da Piedade é que se perdia mais uns momentos, que eram recuperados com uma aceleração até Cacilhas, ainda sem a Lisnave, que nesse tempo o motorista era só isso: condutor. Sem ser preciso sorte, aos vinte para as oito eu entrava na Parry e tinha 17/18 minutos para trocar de roupa. A chapa tinha que estar no chapeiro da oficina até às 8 h, quando o Sr. Cleto, o encarregado, a fechava. Quem viesse depois…

Mas o São Pedro não esteve comigo nesse dia e o meu planeamento saiu todo furado. Novembro já a mais de meio, nesse dia estava, às 7 horas da manhã, quando saí de casa, um nevoeiro dos diabos. Chegado à paragem dos autocarros, havia um monte (nesse tempo ainda não se formavam filas) de gente que dava para dois autocarros, pois estes andavam atrasados. E agora, que fazer? Os meus pais já tinham saído para a fábrica ainda mais cedo do que eu. Já não podia dispor das suas palavras. Restou-me aguardar e pensar como é que iria ser recebido, a chegar atrasado logo no primeiro dia.

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1000 anos Liceu Camões

Um texto de Cecília Cunha (*)

O que vos proponho é a leitura de um livro, Liceu de Camões. Cem Anos. Cem Testemunhos, título que nos chama, literal – como se verá.

Afinal dois títulos, dois painéis, dois autores, estes em estado de graça: José Luís Falcão de Vasconcellos dá-nos o essencial que a sua erudição autoriza e entramos na História e na Cidade. Comprova a colagem dum liceu a Cem Anos com memórias, tal como prefaciou António Nóvoa. Sarah Adamopoulos encarrega-se do fio condutor que integra cada testemunho e fala da escola na perspectiva dos que nela viveram ou por ela passaram.

Os cem anos são revistos num capítulo que é Das «Origens» aos «anos fundadores», e apresenta um manancial de informação, a partir de documentos e sua inscrição na diacronia. Por exemplo: a fotografia das crianças que plantam uma «árvore da liberdade» na Praça José Fontana, em 1910, transporta-nos para uma época e para um ambiente, poucos meses antes da Revolução Republicana. Já construído, o Lyceu Camões sofreu danos originados pelos violentos combates entre republicanos e monárquicos – «Numa relação nominal dos credores do Estado (…) por despesas efectuadas no mês de Novembro de 1910 pode ler-se:”A José Passos Mesquita, pelas reparações feitas nas salas d’este lyceu provenientes dos estragos causados nos dias 4 e 5 de Outubro,……….36 400 (réis)”.» (páginas 40-41).

O leitor apreende todos os factores que confluíram para o aparecimento do edifício de Ventura Terra. Tem a apoiá-lo uma excelente cronologia e é-lhe permitido reconhecer o aparecimento do edifício no contexto duma época de transição política, mas de aposta na instrução pública. O capítulo contém uma escrita de sabor original e sustentada por estilo sóbrio. Muito recomendável e à disposição de vários tipos de leitores.

Sarah Adamopoulos apresenta-nos 100 anos/100 testemunhos, visões da escola ao longo de um século. Capítulo sinalizado por uma fotografia tirada duma galeria para um dos dois pátios gémeos, marca para uma abordagem mais «intimista». Atente-se, também, à fotografia da capa, imagem ilustrativa doutro ângulo do pátio, com um tronco de plátano no primeiro plano: qualquer um que tenha passado por aquela escola, reconhece o pátio e o significado dessa imagem. Ninguém fica indiferente, porém.

Os autores souberam criar um conjunto de efeitos, a começar pela consciência de uma comunidade dentro doutra(s) comunidade(s): podemos conhecer períodos e personagens notáveis, misturadas com os anónimos que foram professores, alunos e funcionários. As fotografias dos primeiros tempos ilustram a época anterior à ditadura – correm imagens, a par do texto, documentos preciosos que «as fadas e os duendes» trouxeram à luz do dia (e parafraseando a ideia que Margarida Sérvulo Correia nos trouxe, em plena sessão solene, no dia do centenário).

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guerra

 
Um texto de José Pedro Barreto (*)

 
Porque é que naquele momento eu desisti de fazer uma coisa e fiz outra? O que comanda as nossas vidas? O que é que nos faz tomar uma decisão súbita num determinado segundo? O destino? O simples acaso?

O que me fez, naquele dia tórrido de 1973, decidir repentinamente não subir para a pesada Berliet atascada nas margens do rio Nango? A verdade é que cheguei a colocar a espingarda sobre a caixa e a pôr um pé na roda para subir. Lá em cima, o Gil, impante como de costume ao sol do meio-dia, mãos nas ancas, chamava-me: “Anda para aqui, daqui é que se vê bem.”

Não sei o que ele queria ver, a não ser a largueza da mata em redor, as clareiras de capim ressequido. Mas ele era assim: o cabelo loiro quase rapado, os olhos azuis que cintilavam, a boca fina num ricto de desafio e basófia. Ele adorava aquilo, adorava a jactância, o combate, a dureza e a glória da guerra. Era homem de poucas palavras e riso escarninho, que imprimia aos seus soldados um ritmo infernal e uma mística arrogante que apelava à mais masculina das auto-estimas, quase ascético de hábitos, despojado nas exigências diárias, admirador dos grandes feitos. Judeu beirão, idolatrava o general Moshe Dayan e a sua condução fulgurante da guerra dos Seis Dias: costumava encher o peito de ar, arrotar a cerveja e gargalhar tapando um olho com a mão espalmada: “O zarolho! O zarolho é que os topava a todos!”

Porque não ir também para cima da camioneta, juntar-me ao espectáculo? A tensão, o cansaço e o tédio das longas jornadas militares pedem por vezes gestos simbólicos que dêem algum sentido e alento ao que fazemos, nem que sejam de pura encenação. Não há nada de heróico em desatascar uma camioneta presa na lama, mas um pouco de basófia não faz mal a ninguém. Oferecer o peito às balas de algum atirador que andasse por ali era coisa que o Gil adorava fazer.

Mas de repente, resolvi não subir. Estava calor, e a água aquece nos cantis. Decidi que era mais interessante ir mergulhar o meu na corrente do Nango, de água leitosa mas fresca – uma espécie de frappé de campanha. E foi assim que retirei a G3 da caixa da Berliet e me fui agachar na orla do rio, dez metros ao lado.

Tínhamos saído de manhã de Nambude, dois pelotões sob o comando do Gil, como de costume ao raiar da aurora. A coluna mensal de reabastecimento vinha de Mocímboa da Praia, ofegando penosamente pela picada, a passo de homem, seguindo a vanguarda apeada de “picadores” em busca de minas. Como de costume, limparíamos a picada de eventuais engenhos, encontrá-la-íamos a meio do caminho e regressaríamos com ela a Nambude, já montados nos carros. Era a forma de se abreviar uma jornada de apenas 40 quilómetros mas que, naquele caminho aberto na mata, por vezes nada mais que rodados lamacentos, chegava a durar um dia inteiro.

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capa história

Pré-publicação de um excerto do artigo A ocupação da sede da PIDE/DGS em 1974, de Luísa Tiago de Oliveira e Isabel Gorjão Santos, incluído no próximo número da revista «Ler história».

 
«Num contexto geralmente marcado por uma forte pressão da população que ocupava as ruas próximas, a tomada da sede da PIDE/DGS foi o culminar de um trajecto com várias etapas. Primeiro, na manhã de dia 25, a operação inicial dos fuzileiros, mal sucedida. Depois, o cerco mantido sobretudo por forças do Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz, cujos efectivos orçavam pelos 100 homens. Em seguida, o substancial reforço de 230 fuzileiros, organizados em duas forças, uma das quais já lá havia estado. Finalmente, a ocupação e rendição da PIDE/DGS.

No momento libertador, na manhã do dia 26, são indiscutíveis as presenças de Costa Correia, oficial de Marinha, pelo menos à frente de 230 fuzileiros, bem como de Campos Andrada, oficial de Cavalaria do Exército, às ordens de Spínola, também de Cavalaria, munido da autoridade emanada do general mas sem efectivos militares próprios. As presenças destes militares e os seus modos de acção bem como a memória que transmitem são significativas das contradições que caracterizaram este momento, das tensões entre ramos das Forças Armadas, entre correntes políticas e personalidades, nomeadamente entre sectores do Exército e da Marinha, entre spinolistas e não-spinolistas.

Através da descrição densa destes eventos, é possível perceber como, em tempos de grande aceleração da História (como o 25 de Abril e os processos revolucionários), se cruzam acções previstas para grupos organizados com outras desencadeadas por decisões pessoais, não programadas, ou com movimentações espontâneas, entrelaçando-se projectos amadurecidos com circunstâncias imponderáveis. Ao estudá-las, pode-se entender como os homens lidam com as “janelas de oportunidades” e quais os riscos que correm em momentos em que ainda não se sabe quem vai vencer. No fundo, trata-se de tentar perceber aquilo por que os homens agem e como o fazem, o grande propósito da História.»

velho no muro de Berlim

 
Um texto de José Pedro Barreto (*)

 
Era uma figura trágica e ao mesmo tempo grotesca. De boina e casacão coçados, cabelos brancos compridos, esbracejava de bengala na mão e vociferava sem cessar. A névoa gelada abafava-lhe os gritos dirigidos ao «outro lado». O velho soltava imprecações na direcção de Berlim-Leste, do alto de um palanque nas imediações da Friedrichstrasse. Por vezes calava-se e ficava de olhos fechados, braços abertos, como quem espera acolher alguém. Perdera o tino há anos, disseram-me, quando lhe mataram o filho que tentava fugir para o Ocidente, naquele mesmo local. E agora estava ali todos os dias, arengando a sua revolta enlouquecida.

Vi Berlim pela primeira vez nesse Inverno de 1977. Estava muito frio. O Muro tinha 16 anos, e era uma atracção turística. A plataforma no alto do qual se encontrava o velho louco era uma das várias que foram erguidas do lado de cá, e das quais se podia ver por cima do muro. Os autocarros de turistas paravam regularmente junto delas, despejando hordas tagarelas que subiam, excitadíssimas, para espreitar «o comunismo» ao vivo. Pouca coisa se via além de ruas desertas e casas cinzentas, para lá das fiadas de arame farpado e obstáculos da terra-de-ninguém. Mas isso só reforçava a ideia de que para lá do Muro era o Inferno, e os turistas voltavam a entrar nos autocarros consolados por terem nascido do lado certo. Alguns até choravam com a história do velho.

Em 1961, Kruschev dissera: «Vamos fazer um muro em Berlim, e o Ocidente vai ficar a olhar para ele como uma ovelha estúpida.» Tinha razão. Mas que poderia o Ocidente fazer, sem arriscar, julgava-se na altura, uma guerra medonha? A ovelha ficou a olhar e fez de Berlim uma espécie de montra do chamado «mundo livre», regada com o sangue de centenas de alemães apanhados pelo muro no lado errado à hora errada, cujos nomes estão gravados em cruzes que se perfilam acompanhadas de coroas de flores. Den Toten der Mauer. Aos mortos do Muro.

Um dos mortos fora o filho daquele velho tonto. Ele vira tudo, disseram-me, enquanto lhe gritava e estendia as mãos do lado de cá: o rapaz a correr desvairado, depois as rajadas, e o corpo que se abate como um boneco atirado ao chão. Como aconteceu a outros, ficou ali vários dias antes que o fossem buscar.

Não deve haver dor pior. Em Novembro de 1989, quando, a golpes de picareta, os alemães começaram a destruir o Muro, eu lembrei-me daquele velho cujo filho podia ter esperado 28 anos. Uma eternidade.

 
(Publicado originalmente no blogue Janelas.)

(*) Biografia de José Pedro Barreto

Feminismo

Um texto de Adriana Bebiano (*)

O feminismo permanece estranho, mesmo para a esquerda. Da sua história destacam-se muitas vezes os clichés, e das questões que são hoje objecto de lutas e debate interno pouco passa para o público em geral, para além das mediáticas «quotas» ou dos casos de «violência de género». Foi por isso particularmente importante que a Ágora: O Debate Peninsular tenha incluído na sua 10ª edição, que acaba de ter lugar aqui ai lado, em Cáceres, um curso de dois dias designado «A Agenda Feminista: Chegar e Ficar». A Ágora é um evento anual, da responsabilidade da Junta da Estremadura espanhola, que tem por objectivo promover o conhecimento mútuo e o intercâmbio entre Portugal e Espanha. Apesar de habitarem espaços contíguos e de terem um passado em larga medida partilhado, sob o franquismo e o salazarismo, como ficou claro das conferências inaugurais de Amelia Valcárcel e Manuela Tavares, as feministas de ambos os lados da fronteira têm vivido, até certo ponto, no desconhecimento mútuo, que procuram agora superar.

A convite das coordenadoras do curso, Joana Amaral Dias e Monserrat Boix, e perante um público sempre numeroso, um grupo de activistas, académicas, jornalistas e políticas portuguesas e espanholas debaterem, por vezes calorosamente, questões como a história comum, as novas tecnologias, a educação, as representações, a pobreza, a migração e a exclusão social das mulheres. Se a história e os problemas presentes atravessam a fronteira, há, no entanto, diferenças notáveis entre os dois lados, que resultam tanto de realidades como de posições teóricas e políticas diversas, as quais se fizeram sentir com grande impacto no decorrer do encontro.

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Desenho de Cláudia Santos Silva

(Desenho publicado originalmente em Blue Moleskin)

Biografia de Cláudia Santos Silva

Colóquio Tarrafal 2008

Este é o texto de uma comunicação feita em 29/10/2008, no Colóquio Internacional «Tarrafal: uma prisão, dois continentes».

 
Um texto de José Augusto Rocha (*)

 
Passa hoje mais um aniversário sobre a criação do Campo do Tarrafal e logo uma pergunta se coloca: tem sentido e actualidade recordar esta data? Como já alguém disse, «os que não são capazes de recordar o passado estão condenados a repeti-lo». Nós, não o queremos repetir, pelo contrário, diremos sempre «nunca mais, isto nunca devia ter acontecido» e propomo-nos reflectir neste colóquio sobre questões simples e incontornáveis, onde o homem, na angústia dramática de si próprio, se pergunta: O que se passou? Porque aconteceu? Como foi possível?

Na economia do pouco tempo de que disponho, queria telegraficamente dar conta duma curta investigação e reflexão que fiz sobre a realidade do Tarrafal, no sentido de a compreender e de hoje aqui a apresentar.

A deslocalização de seres humanos das suas regiões de origem ou local de residência tem antigas tradições nas figuras jurídicas do degredo ou do desterro, dando origem aos degredados ou desterrados e, num sentido mais amplo, já político, conforme os casos, aos expatriados, aos deportados, aos proscritos, aos banidos e até aos «desnaturalizados». Hoje, como se sabe, em linguagem já global, temos os combatentes inimigos do império do mal.

No campo restrito que nos traz a este colóquio, a deslocalização tem origem, desde logo, na pena de expulsão do reino, definida no art. 36 do Código Penal de 1852, importando a obrigação de o condenado sair do território português, com a proibição de a ele não voltar. Esta pena, na prática só aplicada a opositores políticos, aparecia com o significativo nome de pena de «desnaturalização» e consistia em remeter para outros países ou lugares os chamados maus cidadãos. Assim se criava a figura do apátrida.

É ainda o legislador do Código Penal de 1852 que fixa que a pena de morte é substituída pela pena fixa, de degredo, por vinte e oito anos, com prisão no lugar do degredo por oito a dez anos.

Em face dos protestos das colónias, o degredo foi proibido por Despacho do Ministro das Colónias, de 24 de Dezembro de 1931, e tomadas as providências que constam do decreto no 20 887, de 13 de Fevereiro de 1932.

Mas verdadeiramente o degredo foi, em definitivo abolido pela Lei Orgânica do Ultramar, de 1953 (Lei nº 2066, de 27 de Junho), que na sua base LXIX, III, estabelecia que a pena de degredo não se ordenará nem cumprirá mais nas províncias ultramarinas.

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Um texto de Jorge Martins (*)

 
A vereação republicana de Lisboa em 1908

Após a ruptura com a monarquia, em Novembro de 1907, Braamcamp Freire justifica a sua adesão ao Partido Republicano, em declaração ao jornal O Mundo: «O que se tem passado enoja-me, mas não só me enoja: irrita-me, obriga-me a romper». Se com esta sua atitude incomodou os seus amigos monárquicos, pelo contrário, originou dezenas de cartas e telegramas de solidariedade da parte de figuras gradas do republicanismo: Afonso Costa, Manuel de Arriaga, João Chagas, José Relvas, Bernardino Machado, Alexandre Braga, Francisco Grandela, França Borges, Augusto Vasconcelos, Alves da Veiga.

Atentemos em alguns exemplos. Afonso Costa: «Saúdo entusiasticamente novo correligionário prestando homenagem seu carácter». França Borges: «Em nome do [jornal] Mundo, do meu, saúdo respeitosa e entusiasticamente V. Exª uma nobreza de ideias e sentimentos que não pode deixar indiferente um português que ama sinceramente o seu país e que antepõe a todas as considerações o ideal de uma pátria feliz: respeitada e servida por homens de grande bondade e provada inteligência!». Francisco Grandela: «Feliz país que tais filhos possui!». Um militar do 31 de Janeiros de 1891: «António José Carlos Silva Sargento demitido suspeita implicado revolta 31 de Janeiro Porto na impossibilidade felicitar V. Exª pessoalmente por estar bastante doente fá-lo por este meio fazendo votos que a vossa nobre atitude de carácter seja seguida por outros que há muito deviam estar no outro partido do povo e que trabalha para a emancipação do nosso infeliz país». Um cidadão anónimo de Grândola: «Espero que V. Exª não levará a mal que eu, um obscuro cidadão português, o felicite pelo seu procedimento altivo e nobreza de carácter em face do poder absoluto que actualmente oprime e vexa a nossa pátria».

Perante esta calorosa recepção republicana à adesão de Braamcamp Freire, não causou nenhuma admiração o facto de se ter candidatado às eleições municipais para a Câmara de Lisboa no ano seguinte. O desânimo e a desorganização impossibilitaram os monárquicos de sequer se submeterem a votos. A lista republicana, liderada pelo «cidadão Freire», ganhou naturalmente. Eis os nomes dos dez vereadores que o acompanharam nesta importante vitória dos republicanos, como se veria dali a dois anos: Francisco Grandela, Ventura Terra, Tomás Cabreira, Veríssimo de Almeida, José Miranda do Vale, Luís Filipe da Mata, Cardoso de Oliveira, Carlos Ferreira Alves, Cunha e Costa e Augusto José Vieira. Os nomes dos onze suplentes também incluíam republicanos proeminentes: Barros Queirós, Afonso de Lemos, Agostinho José Fortes, Nunes Loureiro, Dias Ferreira, Aurélio da Costa Ferreira, Pimentel Leão, Alberto Marques, Inácio Costa, Ramos Simões e Manuel Caetano Alves.

Claramente, o Partido Republicano apostava forte nesta candidatura. Se demonstrasse ter capacidade para governar bem a capital, também poderia ambicionar o governo do país.

 
(*) Biografia de Jorge Martins

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Por ocasião do 40º aniversário das eleições legislativas de 1969, decidimos fazer esta pergunta a nós próprios – os nove redactores deste blogue. As respostas revelam bem a variedade dos nossos passados.

Artur Pinto – Nas «eleições» de 1969 estava a cumprir o serviço militar. Participei tão activamente quanto pude, uma vez que já tinha uma prisão atrás de mim, em 1965, e a informação da PIDE foi-me acompanhando. E, como já tinha tido sido castigado por duas vezes, não me podia permitir grandes aventuras. Mas participei dando o meu apoio logístico em serviço nocturno na sede, ali ao Campo Pequeno. E é curioso referir que enquanto eu e a minha Mãe militávamos na CDE, o meu Pai, fiel às suas amizades, em particular com Soares e Zenha, apoiou a CEUD. Mas mais curioso é o facto de se ter afastado de Soares após o 25 de Abril, para virar à esquerda. A minha actividade e aprendizagem política prática tinham começado nas «eleições» do Delgado, tinha eu 16 anos, continuado na Crise de 1962, até à prisão em 1965. Mas a experiência da CDE foi particularmente importante pelo convívio que tive com figuras destacadas da Oposição. E lembro com saudade Sottomayor Cardia, que eu já conhecia da Crise Académica, um homem de grande cultura, saber e, até, coragem, sobretudo atendendo à sua fraca compleição física. Uma noite em que houve algumas provocações pidescas à porta da CDE, ele não hesitou em vir à rua comigo e defender os companheiros vítimas da provocação. Queria mesmo apresentar queixa, do que foi dissuadido. Como lembro o andar pelas casas dos amigos, noite dentro, a entregar propaganda para estes distribuírem. E dizer que foi com alguma surpresa que dois ou três oficiais do quadro, sabendo das minhas ideias, me abordaram para colher informações e propaganda. Um deles viria a ser um participante activo ao comando de uma das colunas militares em Abril de 1974. Afinal, ao fim de cinco anos, acabámos por ganhar mesmo as eleições.

Diana Andringa – Sendo Domingo, estava, provavelmente, em Peniche, a visitar o Alexandre. Teria provavelmente ido na véspera, como a Lena, a Graça e a Manuela, habituais companheiras desses fins de semana de «turismo prisional» e encontrado a Maria Emília Brederode, a Nita Feronha, a Zé Catanho, que visitavam no Forte os seus irmãos. Terei quase certamente desabafado com o Alexandre o desgosto pelo meu recente trabalho como copy-writer na Ciesa NCK, depois da demissão colectiva da Vida Mundial, onde fora tão exaltante trabalhar. Teremos voltado a falar dessa demissão que me ensinara tanto sobre solidariedade, e cuja razão sentia ligada às eleições e às disputas entre CEUD e CDE. Teremos talvez discutido, na vigiada conversa no Parlatório, a forma como as candidaturas de Oposição tratavam a questão colonial – e a exigência de um corte radical com a ideologia colonialista. Faltavam três meses para ser presa, Angola estava-me mais próxima que Portugal.
Em frente da porta, do lado de fora, terei talvez comprado uma batata-doce assada ao vendedor de castanhas. Afinal, era esse o sabor do Outono em Peniche.

Helena Pato – Lembro-me tão bem do 26 de Outubro de 1969! Durante o dia, sentada na mesa de voto da freguesia de Santa Maria dos Olivais, eu não tirava os olhos da urna dos votos e o grupo de velhos pidescos e ranhosos da União Nacional, que constituía a mesa, não tirava os olhos de mim – um olhar que parecia de nojo por eu ser mulher, uma garota, e estar ali delegada de uma lista da oposição. À noite, na sede nacional da CDE, no Campo Pequeno, troquei reflexões, notícias e nervoso, muito nervoso, com os companheiros da Comissão Política com quem reuni. Do Lindley Sintra e do Pereira de Moura tenho uma saudade imensa. Não me esqueço do arguto e obstinado Sottomayor Cardia remando contra a nossa maré. Já os outros, mal eu sabia que, um dia, haveria de os ver quase todos pela Assembleia da República interpelando-se na «defesa da honra da bancada» – e todos em diferentes bancadas, da esquerda claro está… –, ou passando revista às tropas num quartel, ou dando brilho a um governo, ou falando em Belém ao Povo, com a bandeira portuguesa de um lado e a da Comunidade Europeia do outro. Enquanto isso, eu ficava cada vez mais mulher e cada vez mais mãe. O eterno desgraçado destino de quem nasce no feminino. Porém, irremediavelmente apaixonada pela vida política e cegamente enterrada na profissão que, por maus motivos, agora mais brado dá neste país.

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  Candidatos da CDE de Coimbra em 1969

 
Para evocar o 40º Aniversário da CDE de Coimbra, convidamo-lo a participar e a divulgar o Acto Cívico, que vai decorrer no Auditório da Agência de Coimbra da Fundação Inatel, Rua Dr. António Granjo 6, no próximo dia 26 de Outubro, segunda-feira, das 21h15 às 23h30, com o seguinte Programa:

Parte Política
. Cidadão José Dias
. Dr. Louzã Henriques
. Dr. António Arnaut

Parte Cultural
Choral Poliphonico de Coimbra Canta Zeca Afonso

Iniciativa: Fundação Inatel – Agência de Coimbra e Movimento Cívico de Coimbra para as Comemorações do Centenário da República. Insere-se nos
Actos Cívicos Preparatórios do Centenário da República.

 
Está disponível neste blogue um comunicado da CDE de Coimbra, de Julho de 1969: «Ao Povo do Distrito de Coimbra».

(Documento cedido pelo Centro de Documentação 25 de Abril)

cartaz cde 1969

A propósito do 40º aniversário das eleições legislativas de 1969, no próximo dia 26, iniciamos hoje a publicação de alguns documentos, textos e imagens.

Pode ler aqui o «Resumo do programa político da Comissão Democrática Eleitoral do Distrito de Lisboa»

(Documento cedido pelo Centro de Documentação 25 de Abril)

melo antunesEstá neste momento em curso um conjunto de iniciativas para assinalar o 10º aniversário da morte de Melo Antunes, a primeira das quais é a exibição, na RTP Memória, de «Melo Antunes: um sonhador pragmático»

23 de Outubro, 22:26
24 de Outubro, 08:30

Serão entrevistados Joana Melo Antunes, Manuela Cruzeiro e Vasco Lourenço e poderão ser vistas duas significativas intervenções de Melo Antunes, nomeadamente a que o marcou para o resto da vida, quando em 25 de Novembro de 1975 defendeu que o PCP não podia ser excluído da construção da democracia em Portugal.

Guiné 1964

 
Um texto de José Augusto Rocha (*) 
 
A 25 de Novembro de 1963, embarquei no cargueiro «Ana Mafalda», (1) adaptado à pressa para transportar outra e nova carga – homens soldados – rumo à guerra colonial da Guiné.  A partir desta data, como que começou outro tempo na minha vida e, tantos anos passados, vem dar testemunho breve da memória daquela guerra o ex-tenente miliciano, José Augusto Rocha.

Fá-lo em condições privilegiadas de um amadurecimento de tempo passado, ou seja, potenciado por aquilo que um dia tão bem recordou Eduardo Lourenço, citando Teixeira de Pascoais: «o futuro é a aurora do passado». Na verdade, desde aquela longínqua data de 1963 até aos dias de hoje, já lá vai muito futuro, o suficiente para re-iluminar uma vivência pessoal que agora transmito pela primeira vez e que sei comporta elementos desconhecidos daquela guerra.

Nos anos sessenta, a ordem de incorporação e a ida para a guerra colonial estava indisfarçavelmente ligada à repressão política e à PIDE. Esta articulação era particularmente visível em relação ao movimento estudantil e em especial aos seus dirigentes. As medidas de repressão do aparelho do Estado, ao nível das forças armadas, eram várias e diversificadas e iam desde a incorporação em  estabelecimentos militares disciplinares de correcção, como o de Penamacor, onde foi internado, por exemplo, o Hélder Costa e o João Morais, até incorporações antecipadas e transferências arbitrárias de quartéis, de acordo com estritas ordens da polícia política (PIDE).

No meu caso, libertado do Forte de Caxias, em Julho de 1963, fui incorporado logo em Setembro, para minha total surpresa, no «Regimento de Lanceiros 2», conhecido como o quartel da polícia militar, unidade de confiança do regime político do Estado Novo. Vim a encontrar aí outro dirigente associativo, da Associação dos Estudantes da Faculdade de Letras, o João Paulo Monteiro, filho do exilado político Adolfo Casais Monteiro. A surpresa de imediato foi esclarecida. O treino militar do 1º ciclo, naquele Regimento, era muito duro e de verdadeiro castigo e, logo que terminou, ambos fomos transferidos para a Escola Prática de Infantaria de Mafra, por despacho do então Ministro da Defesa Nacional, General Mário Silva.

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