Hitler e o povo

Continua a imperar a interpretação da ascensão e da apoteose do nacional-socialismo como resultado da iniciativa tenaz e carismática de Adolf Hitler, combinada com a actividade de alguns companheiros de missão que o secundaram na direcção infalível de uma política externa belicista e de uma actuação interna ultra-autoritária. Outras explicações associam também a ascensão do nazismo e a afirmação do seu lado mais odioso a uma política de anti-semitismo sistemático que conduziu à Solução Final e à consumação do Holocausto. Pode por isso dizer-se que a historiografia do nazismo e da Segunda Guerra Mundial tendeu a produzir interpretações que de alguma forma foram reduzindo a responsabilidade colectiva da maioria do povo alemão, muitas das vezes apresentado como vítima de um logro arquitectado por uma minoria de delirantes inflexíveis. Aliás, terá sido este princípio, rapidamente fixado após o final da guerra, que fez com que um grande número de responsáveis do aparelho nazi ou seus colaboradores pudesse ter ficado isento de qualquer processo formal de culpabilização, vivendo o resto dos seus dias como respeitáveis e intocáveis cidadãos do regime democrático.

Foi o facto desta leitura dominante ter sido questionada pelo historiador e jornalista alemão Götz Aly que de imediato transformou O Estado Popular de Hitler, quando da sua saída na Alemanha, em objecto de comoção pública e de intensa polémica. Desde logo, porque Aly se esforça por provar que foi uma articulação entre os interesses materiais da maioria dos alemães e as políticas agressivas do regime que permitiu a este erguer-se e afirmar-se. Mas também porque, de um modo algo paradoxal, esta atitude pôde desenvolver-se mais em função da aplicação da vertente «socialista» do Nacional-Socialismo do que do seu programa «nacionalista», aparentemente mais visível. Apoiado em fontes procedentes de organismos estatais de gestão económica e militar, este estudo detalha o modo como o governo nazi instaurou uma relação de cumplicidade entre a promoção dos interesses materiais da maioria dos alemães e a aceitação, por parte destes, da política antijudaica (os bens nacionalizados ou pilhados dos judeus financiaram em larga medida o esforço militar germânico), da agressão contra outros países (transformados em áreas de colheita de bens roubados ou produzidos a baixo custo) e do ataque sistemático contra as populações conquistadas (em larga medida transformadas em mão-de-obra barata destinada a alimentar as necessidades do alemão comum). Neste sentido, Aly cria uma nova associação entre nazismo e práticas sistemáticas de pilhagem. E mostra também de que modo o povo alemão retribuiu, com o seu entusiasmo pelo projecto hitleriano e um elevado empenho no esforço de guerra, o estado de prosperidade que lhe foi oferecido de mão-beijada.

Publicado na revista LER de Abril

Götz Aly, O Estado Popular de Hitler. Roubo, Guerra Racial e Nacional-Socialismo. Trad. de Ana Schneeberger. Texto, 464 págs.

Angola

Existe uma «falha de memória» no que respeita à vida dos portugueses que retornaram à «Metrópole» – muitos deles pisando pela primeira vez solo europeu – nos anos quentes da descolonização. Uma falha de memória processada em duas direcções: de um lado, esse passado foi praticamente apagado pela maioria dos «portugueses de Portugal», envolvidos na culpa e no remorso da dominação colonial e desejosos de se penitenciarem exorcizando-a; do outro, os próprios ex-colonos foram silenciando o que tinham vivido, esperando talvez, por essa forma, obter uma mais rápida adaptação à sua nova vida europeia. A própria historiografia participou deste processo, aplicando-se a partir de dada altura em conhecer a realidade da guerra ou a emergência das novas nações, mas omitindo uma parte importante da vida «branca» que ficara para trás. Quanto aos ex-colonos, o seu emudecimento contribuiu, imperceptivelmente, para a construção de mitos e fábulas a propósito da experiência passada, sublinhando as boas recordações de uma «vida maravilhosa» que se perdera, mas geralmente abafando as más.

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Poster nazi

Não se trata de mais uma daquelas sinopses destinadas a difundir detalhes biográficos dos dirigentes do Terceiro Reich. Ferran Gallego, professor de história do fascismo na Universidade Autónoma de Barcelona, dirige-se aqui a quem já conhece os factos essenciais, procurando principalmente «compreender um movimento de época através da experiência pessoal que se cruza com o espaço público» e descortinar as motivações e os caminhos que levaram um certo de homens a materializar o compromisso activo de importantes sectores da sociedade alemã com o programa nacional-socialista. Enquanto experiência assente num poder absoluto de uma magnitude até então desconhecida, o nazismo é aqui apresentado como um caudal de energias que resulta da confluência de determinadas condições históricas com a acção decisiva de um conjunto de personalidades fortes próximas de Adolf Hitler.

Gallego ocupa-se de um grupo de destacados colaboradores do Führer constituído por combatentes da primeira hora, todos eles com um lugar proeminente na construção do Partido Nacional-Socialista, e de um outro, formado por homens mais jovens que se mostraram particularmente preparados para assumirem um papel activo na direcção do partido e do Estado. Do primeiro fizeram parte Anton Drexler, pioneiro do nazismo e porta-voz de um nacionalismo popular, Julius Streicher, anti-semita convicto instrumental na ascensão de Hitler, Gregor Strasser, representante da esquerda nazi e «estratega pragmático», Ernst Röhm, instrumental na organização das forças paramilitares das SA, Hermann Göering, o criador da Gestapo e chefe da Luftwaffe, um conservador vinculado aos grandes interesses económicos, Robert Ley, responsável máximo pelo controlo do trabalho operário, e Alfred Rosenberg, o teórico aristocrata que fez dos factores raciais o núcleo do projecto utópico nazi. Alguns destes, como Drexler, Strasser e Röhm, viriam a ser eliminados ou marginalizados para que o antigo cabo pudesse emergir como líder irrefutável. No segundo grupo incluem-se Joseph Goebbels, o nacionalista nihilista, esteta criador do mito de Hitler e ministro da Propaganda, Baldur von Schirach, o organizador da poderosa Juventude Hitleriana, Heinrich Himmler, líder das SS, administrador do Terror de Estado e responsável por «uma duplicidade de protecção e de repressão» que acostumou a sociedade à violência de massas, Alber Speer, o tecnocrata cínico e vaidoso do qual o historiador se serve para abordar a arquitectura no Terceiro Reich, e Martin Bormann, o burocrata eficaz que se transformou na «sombra do Führer».

O livro abre e encerra com a evocação dramatizada do discurso de Thomas Mann pronunciado em Berlim em 17 de Outubro de 1930, no qual, confrontado já com a ascensão fulgurante do nazismo, o escritor pedia um compromisso salvador entre a democracia liberal e a social-democracia. Uma proposta destinada ao fracasso no momento em que, como recorda Gallego, tinha ganho já enorme peso uma percepção estética do «poder da Comunidade» que iria destruir a República de Weimar e riscar do mapa o jogo partidário.

Publicado na revista LER de Março

Ferran Gallego, Os Homens do Führer. A elite do nacional-socialismo. 1919-1945. Trad. de Carlos Aboim de Brito. A Esfera dos Livros, 528 págs.

Typewriter

O nome de Michel de Montaigne permanece ligado à arte do ensaio por ter dado a esta forma de escrita as características essenciais que, quatrocentos e tantos anos depois, ela conserva ainda. Se o francês do Périgord tem sobrevivido como escritor «para todas as épocas», tal não se deve necessariamente às suas opiniões, muitas das quais hoje já ninguém levará a sério, mas à forma intemporal como se relaciona com o leitor. Em A Arte do Ensaio Fernando Savater define com clareza o género que Montaigne inventou e «levou ao seu mais alto grau de perfeição»: experimentações literárias, autobiográficas, filosóficas e eruditas que jamais pretendem esgotar ou delimitar um campo de estudos. Visam antes o inverso, que é corromper esse campo e convertê-lo num lugar de passagem, rumo a outros que, de momento, permanecem ainda longínquos. Nesta direcção, o ensaísta é necessariamente um céptico e um «perito em divagações», uma vez que o seu esforço exclui a certeza e a convicção de se encontrar na posse da verdade.

Esta atitude é comum ao conjunto de autores e de textos fundamentais do pensamento do século XX propostos neste texto sobre «a arte de ensaiar» do filósofo e escritor de San Sebastián, servindo ao mesmo tempo como um convite à descoberta ou ao reencontro com obras-chave, todas elas intensamente inquietantes, e sob muitos aspectos arrojadas e incompreendidas no momento em que foram escritas. Sartre, Camus, Bertrand Russell, Foucault, Freud, Adorno, Ortega y Gasset, Lévi-Stauss, Miguel de Unamuno, Marshall McLuhan, Octavio Paz, Elias Canetti, María Zambrano ou Hannah Arendt são alguns dos 25 pensadores seleccionados por Savater, todos eles capazes de dar esse passo na direcção do que não sabiam, nem podiam ainda saber, mas em relação ao qual possuíam uma forte capacidade de questionamento e um desejo de superação.

Aliás, o acento colocado em cada um dos capítulos, dedicados sempre a um autor e a uma obra, não é o da procura da sistematização, ou da «síntese» catequética da mesma, mas antes o esforço para mostrar como a sua escrita resultou sempre de uma pergunta incómoda para a qual não existia resposta e, por isso mesmo, derivou de um acto solitário. Ao mesmo tempo, a sua escrita emergiu como prova de um pioneirismo criador, aberto à novidade. Na realidade, e de acordo com Lukács, o autor da Teoria do Romance aqui evocado, se o ensaísta carece dos instrumentos científicos capazes de o ajudarem a resolver os problemas da sua época, «tem a audácia suficiente para examiná-los». Foi aquilo que fizeram, para pegar apenas em dois dos casos escolhidos, autores como Albert Camus em O Homem Revoltado, uma «meditação histórica de um inconformista perplexo», ou Michel Foucault em As Palavras e as Coisas, um texto inovador não tanto pelo que trouxe de objectivo mas «por ter assinalado que havia novas áreas a descobrir». A Arte do Ensaio pode servir, em simultâneo, como elogio da ousadia e um notável mapa do tesouro.

Publicado na revista LER de Fevereiro

Fernando Savater, A Arte do Ensaio – Ensaios Sobre a Cultura Universal. Trad. de Francisco Telhado e Pedro Vidal. Temas e Debates / Círculo de Leitores, 152 págs.

Passado

No início do ensaio «Um dois, esquerda ou direita – o meu país», de 1940, integrado na antologia Livros & Cigarros agora editada pela Antígona, George Orwell escreveu o seguinte:

«Ao contrário do que muita gente julga, o passado não era mais fértil em acontecimentos do que o pre­sente. Se assim parece, é porque, ao recordarmos os tempos idos, amalgamamos coisas que sucederam com vários anos de intervalo, e porque são bem escassas as memórias que nos chegam genuinamente virgens. É em grande medida devido aos livros, filmes e remi­niscências vindas a lume entretanto que prevalece agora a ideia de que a guerra de 1914-18 possuiu um carácter tremendo, épico, que falta à guerra actual.»

De facto, a memória que reconhecemos como construída é frequentes vezes mais forte, e aparentemente mais sólida, do que os vestígios materiais que nos chegam do passado. Aquilo que me atrai é ver como essa memória construída ganha força, se autonomiza, e produz em nós certezas e percepções de experiências que jamais vivemos. Para o historiador profissional essa é uma dificuldade: a imaginação tolda a consciência e inventa ilusões, obrigando a um esforço suplementar, muitas vezes inglório, de busca da objectividade possível. Já para o cidadão comum essa dificuldade deixa de o ser, tornando-se até um factor adicional de enriquecimento do imaginário. O ideal, no limite, será podermos cruzar as duas perspectivas e perceber que a História não é apenas «o que foi» mas de igual forma aquilo que outros nos disseram que foi e nós próprios fomos construindo e interiorizando, sujeitos a múltiplas influências e leituras, como representação.

«Mas caso tenhamos vivido durante essa guerra e sejamos capazes de separar as nossas memórias genuínas dos acréscimos posteriores, verificamos que não eram habitualmente os acontecimentos grandio­sos que nos faziam vibrar. Não creio que a Batalha do Marne, por exemplo, se tenha revestido, para o público em geral, da natureza melodramática que mais tarde lhe foi conferida. Nem sequer me recordo de ouvir a expressão ‘Batalha do Marne’ até se terem passado vários anos.»

O trabalho de construção ficcionada do passado produz também esse efeito. Quanto mais nos distanciamos temporalmente dos acontecimentos, mais deles emergem os grandes momentos, os grandes movimentos, os campos magnéticos. Mas quanto mais os estudamos, quanto melhor lhes observamos os detalhes, os ampliamos, mais deles se destacam os pormenores irrepetíveis, da vida comum, de todos os dias. Sem filtros ou grandes explicações. A «verdade» está assim em todo o lado: no passado e nos sucessivos presentes que o foram remodelando. Está em toda a parte e ao mesmo tempo em parte alguma. Por isso jamais tem fim o trabalho do historiador e por isso a História é sempre parcialidade e incerteza. O que só enriquece o seu poder de questionamento e de atracção.

Dia-D

Depois dos aclamados Estalinegrado (1998) e A Queda de Berlim (2002), neste Dia D – A Batalha da Normandia, lançado já em 2009, Antony Beevor ocupa-se da frente ocidental da Segunda Guerra Mundial. Não se refere, porém, apenas ao desembarque aliado previsto pela Operação Overlord, pois acompanha também o rápido avanço das forças aliadas pelo interior da Normandia, as vicissitudes experimentadas na retaguarda pelo regime nazi – que passaram pelo atentado contra Hitler e pelas pesadas consequências que este teve na capacidade de resposta ao avanço aliado –, e depois o progresso rápido, pontuado por duros combates e um volume impressionante de vítimas, até Paris. Beevor retoma aqui, no seu estilo próprio, sempre atento à intervenção dinâmica do episódico e do comportamento individual no evoluir dos acontecimentos, a tradição da historiografia militar britânica, quase perdida no continente durante boa parte da segunda metade do século XX, que se apoia numa narrativa capaz de combinar o depoimento dos sobreviventes – sempre emotivo ou nostálgico – com a sequência dos factos e das decisões comprováveis, obtidos através de um trabalho minucioso de pesquisa dos arquivos. Neste caso, o Eisenhower Center de Nova Orleães, o Imperial War Museum de Londres, e ainda os centros de documentação de Leeds e de Caen, na própria Normandia, asseguraram material inédito de grande interesse documental.

Raramente a descrição surge neutra, vendo-se o leitor permanentemente impelido para situações nas quais o humor, a ironia, a raiva ou a cobardia, combinados de modo cinematográfico, mantêm a sua carga de autenticidade graças ao relato testemunhal. Nesta direcção, surge como particularmente notável o acesso a um retrato vívido de uma «barbarização da guerra» – que inclui uma certa visualização do sofrimento e da morte dos militares de ambos os lados e das populações apanhadas entre dois fogos – mostrando de que modo, ao contrário daquilo que outras obras sobre a Segunda Grande Guerra fizeram crer, os horrores vividos em território francês não ficaram muito atrás daqueles que tiveram lugar na Frente Leste.

Particularmente interessante também, sendo este de certa forma um factor de inovação trazido pelo historiador, é o papel atribuído à personalidade e às pequenas peculiaridades dos principais chefes militares – de Eisenhower e Patton a Montgomery, de Rommel a Von Rundstedt – e aos permanentes conflitos estratégicos e políticos que protagonizaram, como parte integrante na definição do caminho que as operações militares vieram a tomar e das vicissitudes pelas quais passaram. Na última parte do livro, é a libertação da capital que se configura no horizonte dos militares em movimento, e agora do leitor que o acompanha, emergindo num relato cuja intensidade, aqui associada a uma série de pequenos episódios invocados a partir da experiência individual, amplia as conhecidas imagens da euforia colectiva, da vingança e da apoteose vividas no dia da entrada triunfal em Paris.

Publicado na revista LER de Fevereiro

Antony Beevor, Dia D – A Batalha da Normandia. Trad. de Fernanda Oliveira. Bertrand Editora, 688 págs.

Bulgakov e Zamiatine

Acaba de sair em Espanha uma colectânea de cartas dirigidas a Estaline pelos escritores Mikhail Bulgakov (1891-1940) e Evgueni Zamiatine (1884-1937). Resultando de investigações feitas nos arquivos da Lubianka, a sede moscovita do KGB, após o fim da URSS, elas trazem de volta o terror puro de quem vivia diariamente entre o silêncio imposto e a possibilidade da prisão ou do fuzilamento, o destino definitivo de tantos outros. Falam pois da morte em vida. As vítimas omitem aqui a pobreza, o frio, as privações que lhe foram destinadas pelo facto de não serem autores alinhados com a política e a estética do regime, e apelam tão-somente a que lhes seja concedida a possibilidade de sobreviverem como autores e como pessoas. Zamiatine conseguiria ir morrer em Paris. O autor de Margarida e o Mestre viveu até ao fim silenciado e na miséria.

Nós, a mais conhecida obra de Zamiatine, precursora do Admirável Mundo Novo (1930) de Huxley e de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1948) de Orwell – concluída em 1921 mas cuja primeira edição em russo só pôde sair perto de sessenta anos mais tarde –, abre assim:

«Limito-me a transcrever textualmente o que hoje mesmo veio publicado na Gazeta do Estado:

Dentro de cento e vinte dias ficará completo o Integral. Aproxima­-se a hora insigne, histórica, em que o primeiro Integral se levantará no espaço cósmico. Há mil anos, os nossos heróicos antepassados submeteram todo o globo terrestre ao domínio do Estado Único. Hoje assistiremos a um feito ainda mais glorioso: a integração, por meio do Integral, feito de vidro, eléctrico, ígneo, da eterna igualização de tu­do o que existe. Ficarão sujeitos ao benéfico jugo da razão todos os seres desconhecidos, os habitantes doutros planetas que porventura vivam ainda no estado selvagem de liberdade. Se acaso não percebem que nós lhes levamos a felicidade matemática e exacta. É nosso dever forçá-los a serem felizes. Mas, antes de puxarmos das armas, tenta­remos recorrer à palavra.

Em nome do Benfeitor, todos os números do Estado Único ficam notificados do seguinte:

Todos os que se sentirem capacitados deverão compor tratados, poemas, odes e outras composições sobre a beleza e a grandeza do Estado Único.

Eles constituirão o primeiro carregamento do Integral.

E viva o Estado Único. Vivam os números. Viva o Benfeitor!

Escrevo estas coisas e sinto o meu rosto a arder. Sim… há que levar a cabo a integração, proceder à grandiosa e infinita igualização de tudo o que existe. Sim, há que distender a curva selvagem, redu­zi-la a uma tangente… a uma assímptota… a uma linha recta! E isso porque a linha do Estado Único é uma linha recta. A grande, a divinal. A exacta, a sábia linha recta – a mais sábia de todas as linhas!»

Trad. a partir do inglês por Manuel João Gomes (Edições Antígona, 1990)

Orwell em Huesca
    Em Espanha, na frente de Huesca (Março de 1937)

A memória pesa, mesmo quando ela é a memória da mentira e da calúnia. Como aquela, ecoada desde há anos, que refere um George Orwell «traidor», «bufo», cujo delito – a suposta denúncia ao governo britânico de 38 compagnons de route comunistas – foi forjado pelos neo-estalinistas, seus acusadores públicos, na tentativa de desacreditar um dos intelectuais europeus que, no campo da esquerda, mais cedo e de forma pública divergiu das posições do Kremlin e do seu sistema de terrorismo de Estado. Mais de setenta anos depois, esta gente continua a replicar o modelo insidioso e bárbaro, utilizado nos anos trinta durante os Processos de Moscovo, que manipula, descontextualiza ou fabrica informação com vista a denegrir o acusado e a abatê-lo sem piedade.

A verdade, porém, conta-se em poucas palavras. Celia Kirwan, funcionária do Foreign Office trabalhista e cunhada de Arthur Koestler, o autor de O Zero e o Infinito (Darkness at Noon, de 1940), organizou em 1949 em Inglaterra um ciclo de conferências sobre o estalinismo e dirigiu-se a Orwell – na altura internado num sanatório e a dez meses apenas da morte – pedindo-lhe alguns nomes de pessoas que poderiam participar. Este respondeu-lhe com uma lista de figuras que lhe parecia não valer a pena convidar, pois dadas as suas relações com os soviéticos, e a possibilidade de alguns deles serem até agentes seus, jamais aceitariam. Foi esta relação – divulgada em 1982 na biografia do escritor britânico da autoria de Bernard Crick – que os caluniadores passaram a considerar «prova de delação». A perseguição a Orwell, essa vem muito de trás, pelo menos desde os anos da Guerra Civil de Espanha e da escrita de Homage to Catalonia (1938), quando a sua crítica do comunismo soviético e a denúncia militante do terror estalinista começaram, sob influência de algumas das alegações dos anarquistas e dos trotskistas, a ganhar forma. A derradeira gota de água seria a distopia projectada em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1949). Este caso da lista apenas serviu de pretexto para desenterrar um velho ódio.

Leituras diferentes aqui e aqui.
Uma abordagem parcial mas útil das posições políticas de Orwell aqui.

A. H.

No final da década de 1990, Ian Kershaw publicou uma biografia monumental de Hitler distribuída por dois volumes e 2.000 páginas. O primeiro acompanhava as origens remotas do «Führer do povo e do Reich alemão», a composição das suas certezas, o aperfeiçoamento gradual e premeditado da imagem pública, o caminho para a tomada do poder e o esforço de militarização da sociedade alemã indispensável para a afirmação dos seus objectivos. O segundo volume seguia-o nos anos do apogeu e da queda do regime nazi: os da mobilização para a guerra total, da apoteose do poder e da expansão da Grande Alemanha, mas também os da Solução Final, do recuo estratégico e da morte antecipada do «Reich de Mil Anos». Logo aclamada como obra de referência, devido sobretudo à quantidade de informação oferecida e à novidade de muitas das fontes de arquivo utilizadas, acabou por ser reeditada em 2008 num volume único e condensado, mais acessível ao leitor comum. É esta versão que as Edições 70 agora editaram. A estrutura da obra original mantém-se, embora as notas tenham desaparecido, a bibliografia final sido reduzida e o texto aparado de algum material do qual o autor aceitou prescindir.

É um estudo sobre a força acumulada e aplicada pelo líder nazi, nele se procurando mostrar como foi possível a um indivíduo aparentemente inepto ter-se apropriado do poder num país desenvolvido como a Alemanha, e, depois de o obter, como foi ele capaz de o conservar e de o alargar da forma que conhecemos. Ensaia também a compreensão dos motivos pelos quais uma sociedade moderna, culta e com alguma tradição democrática pôde mergulhar rapidamente na mais brutal e devastadora das barbáries. Nesta direcção, Kershaw, preocupa-se menos com a definição psicológica do biografado, o seu trajecto individual, gostos, vida familiar e amizades – praticamente invisíveis no livro –, do que com as condições que permitiram a sua irresistível ascensão. Considera mesmo o seu estudo como biografia de uma «não-pessoa», de alguém que, de facto, não parecia ter vida fora das organizações e dos acontecimentos nos quais se foi sucessivamente envolvendo. Assegura até que fora da esfera da política Hitler «teria permanecido indubitavelmente como um zé-ninguém», tendo sido apenas ela a potenciar as suas capacidades, a sua vontade e o seu trajecto como «autoridade carismática» – seguindo o conceito de Weber – capaz de apresentar aos olhos de um crescente séquito de seguidores, com recurso a uma imagem laboriosamente construída, capacidades únicas, extraordinárias e providenciais. Um oportunista soberbo e um péssimo estratego, «demagogo de cervejaria com poucas qualificações académicas», obcecado consigo próprio mas com inteligência suficiente para se adaptar às expectativas e às condições do seu tempo, que estava convencido de ter sido talhado para cumprir o destino histórico da Alemanha. Mais do que sobre Adolf Hitler, é pois sobre a época e as circunstâncias que permitiram a sua ascensão que o historiador britânico faz incidir o seu relato.

Publicado na revista LER de Janeiro

Ian Kershaw, Hitler. Uma Biografia. Trad. de Lídia Geer. Edições 70, 38 + 850 págs.

No latim clássico tolerare significava «suportar», «aguentar», e para Voltaire era sinónimo de «indulgência» ou de «paciência». A tolerância impõe sempre alguma condescendência perante aquilo que se afigura deploravelmente diverso mas com o qual temos de conviver. Já a intolerância exclui esta possibilidade mínima, remetendo para a censura e a exclusão do que se rejeita. Anselmo Borges fala, no prefácio a Dança dos Demónios, da transformação desta repulsa em algo de poderoso e persistente quando se sistematiza a construção social do outro «como ameaça, bode expiatório, encarnação do mal e o inimigo a menosprezar, marginalizar, humilhar, e, no limite, abater e eliminar». Trata-se de um volume colectivo que promove um esforço pioneiro de explanação dos mais persistentes processos de intolerância perante grupos sociais, etnias, religiões, géneros e classes que têm materializado, na sociedade portuguesa, esse padrão excludente, fracturando-a ao longo do seu percurso histórico.

O esforço proposto é bastante completo, alargado a uma dezena de correntes excludentes que têm por objecto do seu rancor os judeus, os muçulmanos, a Igreja católica, os protestantes, os jesuítas, a maçonaria, o feminismo, o pensamento liberal, o comunismo e a influência americana. A diversidade temática foi entretanto alargada às escolhas metodológicas, resultando do facto trabalhos muito diferentes. Assim, enquanto a maioria deles se apoia no reconhecimento do conflito que se propõe abordar estudado em contexto nacional, outros apresentam uma perspectiva mais generalista na qual a especificidade portuguesa é observada de forma sumária. Alguns autores escolheram uma leitura essencialmente erudita, visando basicamente um público académico, mas uma parte significativa optou pelo esforço de integração da informação sólida e original num discurso vocacionado para um universo mais dilatado.

O leitor interessado na História de Portugal encontra em todos os artigos informação sistematizada e muitos motivos de atenção, embora para quem se preocupe mais com os factores de intolerância que persistem na actualidade os mais estimulantes possam ser os de Esther Mucznick (sobre um anti-semitismo com fundas raízes), de Ana Vicente (dedicado a um recorrente antifeminismo), de Miguel Real (tratando as formas agressivas de anticomunismo) e de Viriato Soromenho Marques (a propósito de um antiamericanismo menos reconhecido). Já o estudo de Faranaz Keshavjee sobre o anti-islamismo passa um pouco ao lado desse esforço, uma vez que se ocupa mais com a defesa da legitimidade do excluído do que com o entendimento das correntes que o marginalizam. Os restantes trabalhos, da autoria de Luís Machado de Abreu, João Francisco Marques, José Eduardo Franco, Rui Ramos e Ernesto Castro Leal, asseguram um volume de grande qualidade, imprescindível para quem pretenda compreender os factores de intolerância que têm atravessado a sociedade portuguesa nos últimos séculos.

Dança dos Demónios. Intolerância em Portugal. Coord. de António Marujo e José Eduardo Franco. Temas e Debates – Círculo de Leitores, 632 págs. [Publicado na revista LER de Dezembro de 2009]

Franco ponderou e preparou uma participação espanhola na Segunda Guerra Mundial ao lado da Alemanha e da Itália. O historiador Manuel Ros Agudo interessou-se há alguns anos pelo tema, tendo chegado a algumas conclusões originais, com impacto no conhecimento renovado da nossa história recente. Desde logo porque as provas que reuniu deitam completamente por terra o mito franquista de uma neutralidade não-beligerante que supostamente teria salvo o país de se ver envolvido numa nova guerra. A verdade, como documenta A Grande Tentação de maneira exaustiva e com recurso a informação inédita, é no entanto completamente diversa, pois Franco procurou entrar no grupo de potências agressoras do Eixo determinando, com esse objectivo em mente, a minuciosa planificação de quatro operações militares que levariam Madrid a ter um papel activo no conflito. Estas visariam um ataque, praticamente simultâneo e de surpresa, a lançar sobre Gibraltar, o Marrocos Francês, o Sudeste da França e Portugal. Os objectivos políticos da aventura parecem claros ao historiador: ela destinava-se a transformar a Espanha no terceiro parceiro dos alemães e dos italianos, conferindo-lhe «um peso e uma capacidade de decisão sem precedentes na Nova Ordem euro-africana que se preparava», para além de uma dimensão territorial consideravelmente alargada.

Esta tradução comporta um subtítulo – «Os Planos de Franco para Invadir Portugal» – que não consta do original castelhano mas realça o vector desse projecto belicista que nos dizia mais directamente respeito e que também mais nos pode perturbar, habituados de longa data a dar um grande crédito ao «Pacto de Amizade e Não-Agressão» luso-espanhol assinado em Março de 1939 e reforçado no ano seguinte com um protocolo adicional. Mas a verdade é que, por essa mesma altura, corria já a preparação da operação militar-relâmpago que deveria ter lugar nos primeiros meses de 1941 e envolveria só na fase inicial cerca de 250.000 homens. A sua justificação formal integrava a invasão de Portugal num conjunto de movimentações de natureza táctica destinadas a isolar e a enfraquecer o poderio militar britânico, mas assentava num profundo menosprezo pela capacidade militar dos portugueses, passando uma esponja sobre o apoio de Salazar aos insurrectos franquistas durante a Guerra Civil e visando uma mais do que provável reunificação ibérica. Em conversa com Ribbentrop, o ministro alemão das Relações Exteriores, o ministro franquista Serrano Suñer terá mesmo afirmado que «geograficamente falando, Portugal na realidade não tinha o direito de existir.»

Conta-se afinal uma história do que não aconteceu. Sem as contrapartidas diplomáticas e territoriais que esperava dos alemães, o Caudilho viria a desistir dos seus desígnios hostis, convertendo essa «grande tentação» expansionista, que durante alguns anos o animou, numa «grande frustração», praticamente limitada ao controlo político de Tânger. O conhecimento destes planos permite-nos entretanto aferir melhor da verdadeira natureza do regime franquista e das intenções do seu mentor. Num exercício de história virtual, podemos também conjecturar sobre o que seríamos hoje se as coisas tivessem seguido o caminho previsto.

Manuel Ros Agudo, A Grande Tentação Os planos de Franco para invadir Portugal. Tradução de Jorge Fallorca. Casa das Letras, 372 págs. [Publicado na revista LER de Dezembro de 2009]

Tundra

Artigo publicado na revista LER de Novembro

«Uma simples folha de papel de escrever / Parecia um milagre /
Caindo do céu sobre a floresta negra» (V. Shalamov)

Georgi Vladimov (1931-2003) escreveu The Faithful Ruslan (New York, 1979), O Fiel Ruslam, na época do Degelo, quando Kruschev suavizou um pouco o peso da censura. Mas duas décadas depois o pequeno romance-alegoria ainda só circulava no circuito samizdat. O narrador é um cão que cumprira com sinistra devoção o seu trabalho de guarda num campo de trabalho. Fechado o campo, os donos humanos partiram para uma nova vida, mas Ruslan encontrou uma última missão: numa atitude de fidelidade para com o mundo que servira, passou a seguir por todo o lado um antigo prisioneiro. No final juntar-se-á a uma matilha para despedaçá-lo, tal como a um grupo de operários da fábrica que sucedra aos antigos pavilhões carcerários, num festim de morte e zelo iniciado quando lhe pareceu que estes violavam as regras rígidas que fora treinado para fazer cumprir. Boa parte da memória escrita dos sobreviventes dos campos de concentração recupera sempre esta dimensão de irreversibilidade do passado: aqueles que os habitaram na condição de prisioneiros, e viveram para contar a experiência, jamais abandonaram de todo as rotinas e os condicionamentos impostos por anos de uma vida sem lugar para a transgressão ou para a esperança.

Quando entramos nos relatos daqueles que conseguiram sobreviver aos Lagern nazis e ao Gulag percebe-se, porém, que a caracterização do encarceramento concentracionário, «a experiência do século» como lhe chamou Heinrich Böll, diverge entre eles num aspecto crucial. Nos grandes campos alemães, o detido era-o num tempo que antecedia a previsível inevitabilidade do fim. E sabia-o, uma vez que pertencia, em regra, a um grupo destinado a ser erradicado de forma mecânica e implacável. Uma inflexibilidade revelada até na impiedade nazi diante das crianças, rara nos campos soviéticos. A norma nos redutos do Holocausto era a da luta mais extrema do prisioneiro, permanentemente imerso no medo, no horror, na disciplina, no tormento mais intolerável e na antevisão da morte, por um estreitíssimo limiar de sobrevivência. Apenas mais uma noite, só mais uma hora, um minuto, um breve instante. É o que evocam os relatos memorialistas de Élie Wiesel ou de Primo Levi quando enfatizam dramaticamente a ausência de limites na mais brutal luta pela vida. Em Se isto é um homem (Lisboa, 1988), Levi recorda como logo pelo segundo dia em Auschwitz os homens do seu grupo se olhavam já como fantasmas: «não há espelhos para nos vermos mas o nosso aspecto está diante de nós, reflectido em cem rostos lívidos, em cem fantoches miseráveis e sórdidos.» Um pequeno mundo, o único mundo possível, onde em pouco tempo o combate pela sobrevivência transformará cada um no chacal do seu próximo.

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World War II

A Segunda Guerra Mundial deve ser o acontecimento do século XX sobre o qual um maior número de títulos se encontra publicado. O septuagésimo aniversário da invasão alemã da Polónia veio ampliar ainda mais esta realidade, justificando a reedição deste livro de Martin Gilbert, publicado pela primeira vez em 1989. Vinte anos entretanto transcorridos não lhe diminuíram o interesse, ajudando até a colocá-la numa dimensão peculiar que na altura não poderia ter. Desde logo porque nos anos oitenta os ecos sobreviventes da crítica historiográfica da «história-batalha» faziam com que a dimensão bélica do passado fosse ainda desvalorizada como excessivamente dependente de uma metodologia escrava dos factos. Mas também porque, por essa época, os impulsos revisionistas e negacionistas que têm procurado atenuar a dimensão apocalíptica da devastação material da guerra e do Holocausto ainda não se mostravam tão patentes nem tinham o impacto público que ultimamente têm colhido.

Ambos os aspectos podem agora ser observados de forma mais completa recorrendo precisamente a esta obra. Com efeito, em mais de 1000 páginas, ela projecta uma perspectiva única de uma história mil vezes contada. Trata-se de um exemplo acabado de história narrativa, que nos relata os acontecimentos, dia após dia, por vezes hora a hora, num esforço impressionante para produzir uma descrição que não deixe escapar episódio algum, a menor operação militar, que tivesse sido relevante para a eclosão, a continuação ou o desenlace da Guerra. Mas ao mesmo tempo fá-lo recorrendo à intrusão na narrativa de pequenos acontecimentos, de palavras e de gestos individuais, que ajudam a dar do conjunto uma visão vívida e constantemente humanizada.

A ausência de processos claramente contextualizantes e interpretativos pode, naturalmente, ser questionada. Foi essa a escolha de Gilbert, um historiador profissional, politicamente conservador, que em regra prefere que os factos falem por si. Ela destaca a componente descritiva, parecendo evitar o facciosismo. Mas não o consegue justamente porque, como qualquer historiador, Gilbert introduz opções que traduzem parcialidade. Por um lado, a denúncia dos crimes do nazismo é uma constante, o que certas vezes o leva a omitir o reconhecimento dos excessos cometidos, ainda que noutra escala, pelas forças aliadas. Por outro, ao recusar relevância aos acontecimentos ocorridos dentro do próprio território alemão – se exceptuarmos a descrição detalhada da «Operação Valquíria» e as informações sobre os espaços concentracionários do Holocausto – e ao ignorar praticamente o contributo da Itália fascista para o desafio agressivo do Eixo, acaba por olhar de um ângulo ainda algo limitado uma história que se pretende completa. No entanto, nada que fira de morte o trabalho monumental levado a cabo e a grande valia documental de uma obra como esta. Imprescindível para impedir que a Segunda Guerra Mundial se transforme, com tanto lugar-comum a seu respeito que tem sido publicado por estes dias, num episódio irrelevante ou passível de ser facilmente manipulado.

Martin Gilbert, A Segunda Guerra Mundial. Trad. de Ana Luísa Faria e Miguel Serras Pereira. D. Quixote, 1012 págs. [Publicado na LER de Novembro]

Chu En-Lai e Mao Tsé-Tung

Enquanto aguardamos pela tradução do diário secreto do antigo primeiro-ministro chinês Zao Zyiang – afastado em 1989 em consequência da posição moderada que assumiu durante o episódio de Tien An Men –, Chu En-Lai. O Último Revolucionário Perfeito abre caminho para um conhecimento mais completo dos intrincados meandros pelos quais têm passado, na história recente da China, os equilíbrios e os desequilíbrios do poder. Mas não se trata de uma biografia no formato clássico, uma vez que o biografado raramente é olhado na complexidade da vida pessoal ou dos fundamentos que determinaram a sua acção pública, sendo visto apenas na medida, e nos actos, em que o seu trajecto se cruzou, sempre numa relação proximidade e de dependência com o de Mao Tsé-Tung, com a luta pelo poder na China comunista. A esta característica não é alheio o facto do autor, Gao Wenqian, ter sido ao longo da década de 1980 o biógrafo oficial de Chu junto do Gabinete Central de Investigação e Documentação do Partido Comunista Chinês. O método aplicado pela historiografia oficial num regime como o chinês exclui, de facto, uma abordagem individualizada do trajecto intelectual e vivencial do biografado, confinado obrigatoriamente à projecção aceitável da sua imagem pública. O material utilizado cerceou também a possibilidade de uma outra observação, uma vez que o livro foi escrito quase exclusivamente a partir da documentação que Gao reuniu e das entrevistas que fez enquanto trabalhou naquele gabinete, antes ainda de emigrar em 1993 para os Estados Unidos.

A figura de Chu conserva um lugar especial no percurso da China contemporânea. Ao contrário da quase totalidade dos principais líderes do passado do PCC, que passaram por momentos de rápida ascensão e de abrupta queda, sobreviveu às depurações e manteve uma posição de contínuo destaque, apenas comparável à do próprio Mao. O que pode parecer estranho, sabendo-se, e Gao enfatiza este aspecto, como a relação entre ambos foi sempre difícil, e de que modo Mao – que concebia Chu como alguém que um dia poderia cumprir um papel idêntico àquele que Kruchtchev desempenhara na condenação post-mortem de Estaline – sempre desprezou os seus modos afáveis, tão diferentes dos seus, tendo esperado durante anos pelo momento exacto para o fazer cair, como o fez com o antigo presidente Li Chao-Chi no início da Revolução Cultural ou com o marechal Lin Piao. A explicação deste casamento de conveniência encontra-a Wenqian em três características de Chu que o tornaram incontornável: a sua capacidade para sobreviver aos conflitos através de um diplomático calculismo, o tom de moderação pública associado a um inusitado vigor aplicado à gestão do partido e do governo que lhe granjeou a fama de insubstituível, e a profunda convicção de comunista que manteve sempre e lhe forneceu, na actividade partidária como nas tarefas de primeiro-ministro, uma imagem de rectidão e um enorme prestígio público. Nos derradeiros dias, quando entrava na sala de operações da qual sabia que não sairia vivo ou capaz – pois Mao havia-o metodicamente impedido de receber a tempo o tratamento adequado –, as últimas palavras que pronunciou foram: «Sou leal ao Partido Comunista, leal ao povo!»

Gao Wenqian, Chu En-Lai. O Último Revolucionário Perfeito – Uma Biografia. Tradução de Ana Barradas. Pedra da Lua, 328 págs. [Publicado na LER de Outubro]

Shmiel, Ester e a filha Bronia

As circunstâncias que determinaram Daniel Mendelshon a escrever Os Desaparecidos são relatadas: a sua parecença física com Shmiel Jäger, um tio-avô assassinado pelos alemães, juntamente com a mulher e as quatro filhas, na cidade polaca, hoje ucraniana, de Bolechow, provocava de imediato a consternação dos familiares mais velhos sempre que em criança lhes surgia à frente. Foi essa memória incómoda que o levou a procurar esclarecer o que acontecera. Descreve então os trabalhos e os dias na complexa perseguição desse objectivo. Conforme avançava na leitura, e como se de obra de ficção se tratasse, fui-me deixando levar por uma trama policial, comovi-me com os encontros e os desencontros, exasperei-me com certos desvios de percurso e algumas resistências. Mas vi-me também perante uma proposta de releitura circunstanciada da memória do Holocausto. Na realidade, esta obra é muito mais do que uma história dramática de família, representando uma meditação pessoal sobre o modo como o passado se esconde para vir subitamente ao nosso encontro.

Vencedor do National Book Critics Circle Award, escrito num registo intimista e sedutor, Os Desaparecidos revelam um autor envolvido numa sucessão de acasos e de circunstâncias que o impelem a ir cada vez mais longe. O trabalho de casa foi feito muito cedo – percorrendo bibliotecas e arquivos, consultando milhares de sítios na Internet, recuperando objectos e papéis preservados pela família – mas o objectivo foi materializado no terreno, percorrendo o planeta para entrevistar os sobreviventes que o ajudaram a recuperar a sua história. Estranhamente, estes foram bem mais do que seria de prever, e, apesar da passagem do tempo, quase todos pareciam conservar uma recordação vívida do mundo que haviam conhecido mais de seis décadas antes. Esta lembrança intensa introduziu um factor paradoxal: se é verdade que ela parece ampliar desmedidamente o volume de informação, evidencia também um dos problemas característicos da história oral, que se traduz na intromissão de uma nostalgia intensamente ficcional capaz de sobrepor a imprecisão à materialidade dos factos. Parte do trabalho de Mendelsohn consistiu, pois, na depuração de factores óbvios de fantasia e embelezamento do passado, arbitrando a inevitável tensão verificada entre o registo histórico e a evocação pessoal. No termo, como um investigador policial, o único na posse de todos os elementos do puzzle e com capacidade para separar o falso do verdadeiro, é no seu trabalho de interpretação e relato que reside a chave da trama que procurou.

Destaca-se ainda uma percepção impressionante: a de sermos lembrados ao longo da leitura, quando confrontados com os vestígios materiais do passado reencontrado – os papéis, as casas, as ruas, objectos, roupas –, de que o nosso presente é também feito de uma redução compassada ao silêncio dos milhões de pessoas que, como Shmiel e a sua família, foram privados para sempre de um futuro. «Não conseguimos tirar isso da nossa cabeça», escreve Mendelsohn. Por isso, e como uma redenção, se foi tornando cada vez mais importante para ele, não tanto o modo terrível como aquelas pessoas morreram – era esse o seu objectivo inicial – mas a forma como tinham vivido o tempo que lhes estivera destinado.

Daniel Mendelsohn, Os Desaparecidos. À procura de seis em seis milhões. Trad. de Margarida Santiago. D. Quixote, 552 págs. [Publicado na LER de Outubro]

A caminho do Gulag

No Público de 13 de Novembro de 2009.

Tal como tem acontecido com a tentativa de reexame do Holocausto, decorrem processos de revisionismo histórico da experiência do Gulag que tendem a reduzir o seu papel na edificação da sociedade soviética ou a requalificá-la como opção politicamente válida. Emergem em parte da historiografia e do actual sistema educativo do Estado russo, determinados a justificar perante as novas gerações o uso da violência na construção de uma política centralista e imperial «eficaz». Em The Future of Nostalgia, Svetlana Boym fala de incentivos a uma «megalomania da imaginação» que na Rússia actual se tem servido das dificuldades diárias vividas pelas pessoas comuns para estimular uma revisão heróica e gratificante do passado. Mas estas releituras provêem também dos sectores políticos, próximos ainda da matriz leninista, que conservam uma atracção reverente pelo antigo «país do futuro radioso». Há cerca de uma década, o debate público em torno do controverso Livro Negro do Comunismo terá contribuído para estimular esta via branqueadora e justificativa da violência totalitária.

Entre nós, muito mais relevantes do que o caso recente da jovem deputada do PCP que declarou não ter ideias sobre o assunto, ou das afirmações de militantes que dizem ou escrevem aquilo que o instinto gregário e a ignorância determinam, são as declarações de pessoas com reais responsabilidades políticas que se esforçam por limpar da memória ou por desculpabilizar os horrores praticados no sistema concentracionário do «socialismo real». O texto de opinião de António Vilarigues que saiu no Público de 30 de Outubro serve de indicador. Ele contesta os números excessivos apresentados por muitos historiadores para contabilizarem as vítimas do Gulag, o que merece alguma atenção. Mas toca o inaceitável quando se permite comparar o número das pessoas «reprimidas» na antiga União Soviética (as significativas aspas são da sua responsabilidade) com o volume de detidos de delito comum actualmente nas prisões americanas, comparando aquilo que não pode ser comparado e criminalizando quem foi deportado e perseguido apenas por motivos políticos ou étnicos.

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Varlam ShalamovNascido em 1907 na cidade russa de Vologda, durante a juventude o escritor, poeta e jornalista Varlam Shalamov participou das actividades do grupo literário esquerdista LEF. Em Fevereiro de 1929, quando era estudante da Universidade de Moscovo, foi detido pela primeira vez sob a acusação de difundir o «testamento político» de Lenine. Tratava-se de uma das últimas cartas do dirigente bolchevique, na qual este apontava a necessidade de afastar Estaline do cargo de secretário-geral do Partido Comunista. Nos anos trinta, a difusão do documento, considerado apócrifo pelas autoridades, iria custar a vida a diversas pessoas. O escritor passou então cerca de três anos em campos de concentração nos Urais. Em 1937 foi novamente detido e enviado para a Sibéria Oriental, para Kolima, um dos mais mortais campos do Gulag. Primeiro como prisioneiro e depois como deportado, ali permaneceu até 1953. Seria completamente reabilitado em 1956, após o XX Congresso do PCUS. Os Contos de Kolima, de um dos quais se transcreve aqui um fragmento, foram escritos entre 1954 e 1973 com um cunho acentuadamente autobiográfico, mas só começaram a ser publicados em revistas e jornais literários nos anos da perestroika. Durante a vida, Shalamov apenas conseguiu publicar cinco colectâneas de poesia, tendo morrido sozinho, cego, surdo e sem meios pessoais em 1982.


Os homens surgiram do nada, uns atrás dos outros. À noite, um homem desconhecido deitava-se na minha tarim­ba, encostava-se ao meu ombro ossudo, transmitindo-me o seu calor – gotas de calor – recebendo o meu em troca. Havia noites em que nem sequer uma gota de calor chegava até mim através dos farrapos de um casaco, de um jaquetão acolchoado. E, de manhã, olhava para o vizinho como para um cadáver e ficava admirado quando via que o cadáver estava vivo, se levantava ao som dos gritos, se vestia e cum­pria obedientemente as ordens. Eu tinha muito pouco calor. Nos meus ossos restava muito pouca carne. Bastava apenas para ter raiva, o último dos sentimentos humanos. O último dos sentimentos humanos, o mais próximo dos ossos, não é a indiferença mas a raiva. O homem, que aparecia do nada, desaparecia de dia: na mina de carvão havia muitos sectores, e desaparecia para sempre. Não conheço as pessoas que dormiram ao meu lado. Nunca lhes fiz perguntas, não porque seguisse o provérbio árabe: não perguntes para que não te mintam. Era-me indiferente que me mentissem ou não, eu estava para além da verdade, para além da mentira. Sobre isto os criminosos têm um ditado severo, claro e gros­seiro, cheio de um desdém profundo para quem faz a per­gunta: se não acreditas, pensa que é um conto de fadas. Eu não perguntava e por isso não ouvia contos.

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Vítimas do genocídio cambojano

Definir uma gradação para o horror perpetrado pela perversão totalitária é tarefa difícil e um pouco sórdida. Afinal, onde poderemos colocar os limites do razoável quando falamos da imposição pela força de uma ordem que se supõe acima do indivíduo? Ainda assim, os processos de repressão aplicados sob as experiências do «socialismo de Estado», quando comparados, acusam diferenças que não são meras nuances. Em From the Gulag to the Killing Fields, um livro tão necessário quanto terrível e sombrio, Paul Hollander compilou relatos de experiências pessoais da violência política sob os regimes «socialistas» de partido único que o mostram com clareza. De todas as experiências, porém, a mais extrema e absurda foi a vivida no Camboja entre Abril de 1975 e Janeiro de 1979, quando os Khmers Vermelhos procuraram impor, de um momento para o outro, uma experiência de engenharia social que passava pelo aniquilamento instantâneo de todos os vestígios materiais e humanos da ordem «capitalista», e pela instalação, sem quaisquer cedências, de um comunismo ruralista e integral. O resultado foi a destruição sistemática do país – da administração pública, da economia, da saúde, da cultura, da educação, e da própria vida urbana –, mas igualmente a morte de mais de um quinto da população, cerca de 2 milhões de seres humanos, maioritariamente aniquilados pela fome, pela doença, pela tortura ou pela exaustão.

Denise Affonço, filha de mãe vietnamita e pai francês de ascendência portuguesa, residente em Phnom Penh na altura da vitória dos guerrilheiros, poderia ter abandonado a cidade e o país mas escolheu ficar com o marido, um comunista que interpretava a tomada do poder pelos Khmers Vermelhos como um passo para a construção da utopia de igualdade na qual acreditava. De origem chinesa, seria por isso mesmo rapidamente executado, enquanto Denise, com dois filhos menores a seu cargo, se via envolvida numa descida ao inferno da deportação em massa, do trabalho escravo em regiões remotas, e do castigo sistemático, gratuito e cruel, determinados apenas, tal como aconteceu com milhões de cambojanos, pelo facto de ser arbitrariamente considerada uma «representante da velha sociedade», um vestígio vivo dos «demónios do passado» que era necessário matar. Foi longa a sua via-sacra: lugares cada vez mais inóspitos, regimes de trabalho cada vez mais inflexíveis, guardas cada vez mais brutais e discricionários, concentrada apenas na sobrevivência elementar. Mas também na resistência psicológica, particularmente difícil num quadro legal de desumanidade dentro do qual se declarava formalmente ser «proibido exprimir sentimentos de alegria ou de tristeza», queixar-se do quer que fosse, ou afirmar um qualquer traço de individualidade e diferença.

Apesar do tudo aquilo por que passou ao longo de quase quatro anos, e de lá onde se encontrava ter por diversas vezes tocado a frágil linha que parecia separar a vida da morte, Denise sobreviveu para nos oferecer este testemunho perturbante. Redigido com uma capacidade pictórica e uma intensidade dramática apenas possíveis em quem viajou de facto até onde a existência é regida pelo mal mais absoluto, pela barbárie extrema, que de tão inimaginável mais parece retirada do pior dos pesadelos.

Denise Affonço, No Inferno dos Khmer Vermelhos. Testemunho de uma sobrevivente. Tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira. Pedra da Lua, 184 págs. [Publicado na LER de Setembro]

Waldsiedlung Wandlitz

Quando se observa a esta distância o mundo perdido do «socialismo real» e a forma como as suas elites dirigentes passaram de inflexíveis e autoritárias a autistas e paranóides – não se apercebendo, para o final, das rápidas mutações produzidas quando foi removido o aparelho protector oferecido pela União Soviética –, um dos exemplos que sobressai é o da estranha microcidade de Waldsiedlung Wandlitz. Situada a cerca de 30 quilómetros a norte da zona leste de Berlim, foi aí que, entre 1960 e 1989, fixaram residência oficial os membros do topo da classe dirigente da ex-República Democrática Alemã. Existem numerosas descrições do aspecto e da «vida» daquele bairro, o «Gueto dos Deuses» como lhe chamavam as pessoas comuns, completamente fechado por um forte cordão de segurança e habitado por homens idosos e as suas taciturnas esposas. Pessoas que se temiam e se vigiavam constantemente, que sabiam que tinham microfones da Stasi encaixados nas paredes e no soalho, que eram vizinhos quase sem falarem uns com os outros fora das funções oficiais, que gozavam de privilégios mas não conseguiam fruir da mais elementar liberdade pessoal.

Seguiam quotidianos rigorosamente idênticos, vestiam-se todos sensivelmente da mesma forma, circulavam no mesmo modelo da Volvo com motorista, guarda-costas e sinais intermitentes ligados, tinham casas beijes de dois pisos de concepção inalterável e mobiladas de forma previsível. Quando se encontravam dentro do bairro era necessariamente no único restaurante sempre com os mesmos pratos, no único cinema com uma única sessão diária, na única lavandaria, no único infantário, na única clínica veterinária, nas poucas lojas que vendiam produtos ocidentais aos quais mais ninguém tinha acesso. Vivendo, como conta em O Mundo Perdido do Comunismo, de Peter Molloy, a actriz e encenadora Vera Oelschlegel, que ali morou por ter sido casada com um dos moradores oficiais, num universo sempre silencioso e sem alegria, segundo o «estilo de vida da classe média baixa muito bem comportada, com um naperon em cima do televisor Vertico e que regava as plantas envasadas no jardim». E o pior é que esse era o único mundo conheciam, uma vez que há muitos anos, alguns deles havia décadas, tinham deixado de ter empregos normais, de frequentar livremente as ruas e as praças que observavam a partir das janelas fechadas dos carros oficiais, de entrar sem comitiva nas casas simples dos concidadãos que governavam. Decidiam sobre os destinos de milhões de pessoas a partir de um aquário. Como poderiam assim as coisas ter deixado de acontecer como aconteceram?

Soldados israelitas, anos 50

A tarefa de escrever a turbulenta História do Estado de Israel afigurava-se complicada para Martin Gilbert, o biógrafo de Winston Churchill que é também um notável historiador do Holocausto. Desde logo porque uma boa parte do tema remete inevitavelmente para o terreno movediço que a história do presente sempre envolve porque vive sujeita à revisão dos sobreviventes e se mantém próxima dos episódios aos quais se refere. Mas também porque a existência política do Estado de Israel passou a convocar, principalmente a partir da sua independência formal, paixões quase sempre inimigas do rigor histórico e da equidade. Gilbert resolveu ambos os problemas da forma aparentemente mais segura, cingindo-se aos factos e limitando-se à enunciação dos pontos de vista presentes no terreno. Desta maneira, e tanto quanto lhe foi possível, optou por contornar leituras mais assumidamente interpretativas.

Podemos decompor cronologicamente a narrativa proposta. Num primeiro tempo percorrem-se as origens novecentistas do movimento sionista e traça-se o processo de retorno e de fixação dos judeus na Palestina, passando pela Declaração de Balfour sobre o seu direito a um lar, pelas vicissitudes do mandato administrativo britânico, pelos primórdios da resistência árabe, fechando-se a sequência com a declaração formal da existência do Estado israelita, a 14 de Maio de 1948. Aborda-se de seguida o processo de construção de Israel num contexto de conflitos praticamente contínuos, envolvendo a Guerra da Independência, a Campanha do Sinai, a Guerra dos Seis Dias ou a Guerra do Yom Kippur. Por último, de modo menos extenso mas não menos relevante, tratam-se as novas condições de sobrevivência do Estado no contexto, pós-Intifada, da busca de processos de paz viáveis e da reorganização da resistência do campo árabe, em íntima relação com a renovação de uma classe política, originalmente orientada à esquerda, que foi dando lugar a actores essencialmente pragmáticos e pouco vocacionados para um diálogo com o «inimigo».

No geral, a obra propõe uma leitura bastante aliciante e muito informada, que tem, desde logo, sobre algumas obras politicamente mais empenhadas, a vantagem de ajudar a demolir um conjunto de ideias estabelecidas, quase sempre resultantes de importante dose de ignorância ou da leitura apressada dos factos, que tendem a transformar Israel, tout court, num covil de demónios ou em pátria de heróis. Destaca também o papel decisivo, e não apenas simbólico, de actores e pioneiros – como Theodor Herzel, David Ben-Gurion, Chaim Weizmann, Yigael Yadin, Yitzhak Rabin, Golda Meir, Abba Eban ou Shimon Peres – cujos trajectos de vida foram decisivos na fundação e na definição dos caminhos tomados pelo Estado judaico. Não deixa, porém, de acusar uma lacuna cuja persistência toca o centro dos problemas que ainda perduram na região: escamoteia o valor da dimensão multiétnica do território da Palestina, colocando os árabes palestinianos como figurantes, presentes-ausentes, habitando um limiar longínquo do processo histórico. E aqui termina a imparcialidade de Gilbert.

Martin Gilbert, História de Israel. Trad. de Patrícia Xavier. Edições 70, 824 págs. [Na LER de Setembro]

A testemunha

«Se pudesse viver outra vez faria as mesmas opções? Durante cerca de dois minutos e meio o senhor Lin ficou à minha frente, a olhar para o tecto, com um esgar de dor. Não o pressionei para que me respondesse.»

O entendimento que tenho procurado dos caminhos dramáticos e contraditórios da China contemporânea tem sido municiado por alguns textos facilmente disponíveis. Como Cisnes Selvagens, de Jung Chang, uma obra autobiográfica que demanda a memória vívida de três gerações de mulheres resistentes, O Dragão e os Diabos Estrangeiros, de Harry G. Gelber, colando a história do «Império do Meio» à perspectiva que os seus naturais foram tendo do mundo exterior, ou ainda as biografias de Mao, por Chang e Jon Halliday, e de Chu-En-Lai, por Gao Wenqian. The Prisoner of the State, o «diário secreto» de Zhao Zyiang, está aqui ao lado para ler em breve, mas já percebi que dilatará a perspectiva. Neste Primeiro de Outubro em que se completam, com a pompa militar e o espectáculo mediático da ordem, os sessenta anos sobre a proclamação da República Popular da China, quero no entanto sugerir uma leitura especial.

Testemunhos da China. Vozes de uma geração silenciosa, da jornalista Xinran (ed. Bertrand), é um livro intenso, emocionante, que lança um olhar particular sobre o passado anterior a 1949, os caminhos sinuosos da revolução comunista, e o presente de acelerada mudança de um país que nos habituámos a povoar de exotismo mas também a temer. Fá-lo de uma forma particular, através de 20 entrevistas calorosas e comoventes, feitas a pessoas com mais de setenta anos – a mais velha tinha noventa e sete quando conversou com a autora – que tiveram percursos únicos mas relativamente anónimos, mostrando a energia de caminhos cujo vigor e humanidade foi sempre capaz de transcender o sofrimento, a miséria e a injustiça. Mostrando ao mesmo tempo que, sob sucessivas foras de opressão, a atitude optimista e o heroísmo de seres especiais jamais deixaram que se perdesse o sentido da esperança.

A riqueza deste livro está pois nas pessoas, comuns mas realmente extraordinárias, que por ele desfilam – como Yao Popo, a mulher ervanária descoberta casualmente num mercado, professores aposentados, condutores de táxi, a lendária «Mulher das Duas Armas», antigos Guardas Vermelhos, alguns operários, um acrobata, um oficial da marinha, um mestre-sapateiro, o senhor Huadeng, fabricante de lanternas, entre outros – mas também no método adoptado pela autora. Xinran não quis «fazer história» através destas vozes singulares, nem procurar «a verdade» por detrás da propaganda, mas antes entrever e registar as reacções emocionais assumidas por cada uma delas às mudanças rápidas, por vezes radicais, que a China conheceu ao longo da segunda metade do século passado. Aquelas que este Primeiro de Outubro sinaliza à escala do planeta.

Vasco Pulido Valente

Ainda não desapareceu totalmente a desconfiança perante uma História assumidamente narrativa que dominou a historiografia portuguesa entre os finais da Segunda Grande Guerra e os inícios dos anos oitenta. Por isso, e apesar desta tendência ter vindo a recuar no contexto de uma prática recente mais assumidamente polifónica, a obra de Vasco Pulido Valente permanece entre os da sua geração como um caso raro de opção por aquele modelo. Foi todavia esta preferência que lhe permitiu transformar-se num raro caso de mérito académico associado a aptidão para uma abertura, sem preconceitos, a um público alargado e não-especialista de amantes da História. A Pulido Valente se deve, por isso, a disponibilização a um arco alargado de leitores – sem concessões de maior ao rigor e de um modo simultaneamente atraente e romanesco – de uma abordagem crítica dos últimos dois séculos de vida dos portugueses e de alguns dos seus principais intérpretes. O que não significa uma obra historiográfica metodologicamente incontroversa, por vezes vinculada a interpretações francamente polémicas.

Portugal – Ensaios de História e de Política é uma colectânea de artigos dispersos, publicados entre 1983 e 2006 em revistas e jornais, que confirma esta tendência, disponibilizando um conjunto de viagens literárias através das quais podemos tomar contacto com momentos e ambientes nucleares para um reconhecimento do nosso trajecto comum nestes últimos dois séculos. Sobressaem três estudos mais extensos: um sobre as vicissitudes do liberalismo português no período que antecedeu a Regeneração, um outro sobre as circunstâncias, as voltas e os desvios da «República Velha», desde 1910 até ascensão meteórica mas fugaz de Sidónio Pais, e um terceiro, já antes parcialmente publicado em livro, sobre a vida e o trajecto político de Marcello Caetano. Os restantes textos têm um carácter mais avulso, atravessando a biografia e a autobiografia. Em todos eles, um lugar destacado atribuído a personalidades reconhecidamente nucleares do século XX português: Afonso Costa, Sidónio, Salazar, Marcello, Spínola e Cunhal. Apenas Mário Soares – que surge recorrentemente em artigos e crónicas do autor de um modo tão fugaz quanto Hitchcock nos seus filmes – permanece aqui numa imerecida penumbra.

Como comum marca de água, o tom por vezes irónico, outras vezes quase impiedoso, reconhecido no autor também da sua actividade como cronista, que pode suscitar de imediato a contradição, ou desagradar aos resistentes adeptos de uma história supostamente «neutra», mas que sugere sempre interpretações incapazes de nos deixarem indiferentes. O artigo sobre o «25 de Abril», divulgado aquando do trigésimo aniversário da revolução, e provocatoriamente provido de aspas, é disso claro exemplo. A História que Vasco Pulido Valente nos vai oferecendo não deixa ninguém indiferente.

Vasco Pulido Valente, Portugal – Ensaios de História e de Política. Alêtheia Editores, 336 págs. [Publicado originalmente na revista LER de Julho-Agosto]

Stasiland

Estátua erguida junto dos antigos arquivos da STASI, em Berlim

Há já umas algumas décadas que a revista L’Histoire vem dedicando artigos e números especiais à divulgação de estudos sobre o colaboracionismo, acabando de ser publicado um novo dossiê no número de Setembro. O interesse dos franceses pelo tema prende-se directamente com o rasto ainda razoavelmente fresco deixado pelas actividades de República de Vichy (1940-1944), pela capitulação de alguns sectores da sociedade francesa perante a ocupação nazi, e pela existência de um corpo notável de denunciantes e de colaboradores. O trabalho de pesquisa histórica projectado neste campo é particularmente difícil e delicado, uma vez que a afirmação da «verdade dos vencedores» transformou em perversas e criminosas as pessoas responsabilizadas por esse tipo de atitude, e tantos as sobreviventes quanto os seus familiares mostram natural relutância sempre que alguém pretende tocar no assunto. A denúncia como instrumento de política constitui uma prática antiga e universal que nem sequer é privilégio dos Estados totalitários. Na Atenas clássica, a delação era mesmo considerada um acto cívico, destinado a proteger a comunidade de determinados comportamentos desviantes, tendo provavelmente sido aí que se iniciou também a sua perversão em larga escala, uma vez que o denunciante tinha direito a parte dos bens confiscados ao denunciado.

Foi todavia sob regimes fortemente autoritários que a atitude passou a ser sistematicamente enaltecida, sendo os traidores e os delatores promovidos frequentes vezes a heróis, destinatários de honras, medalhas e benefícios oferecidos por um poder que se pretendia incontestado. As benesses destinadas, no tempo da Inquisição portuguesa, aos «familiares do Santo Ofício», que funcionavam basicamente como testemunhantes e informadores, eram dessa natureza. A guilhotina revolucionária do período do Terror foi largamente provida por esta sorte de gente. E na União Soviética ficou sobejamente conhecido o caso do «glorioso mártir» Pavel «Pavlik» Morozov, o rapaz «pioneiro» que aos doze anos denunciou ao NKVD o pai por este vender alimentos sem autorização. O desfecho seria trágico: o pai de Morozov foi deportado para um campo de concentração e os avós, tios e primos, para evitarem a continuação da delação, acabaram por matar a criança, transformada por Estaline num «herói soviético» modelar. Na Polónia, durante a Segunda Guerra Mundial, ficou também amplamente registado o papel de muitos cidadãos polacos na identificação e denúncia dos judeus, responsabilizando-se esta atitude por ser aquele o único Estado europeu no qual o «problema judaico» terá sido efectivamente solucionado. A STASI leste-alemã tinha, por sua vez, um dos mais amplos e perfeitos corpos de denunciantes, tal como se encontra hoje bem documentado.

Em Portugal – os vizinhos espanhóis, ao invés, já começaram há algum tempo este tipo de trabalho – não existe ainda um esforço sistemático e criterioso de reconhecimento das actividades de denúncia e de traição perpetradas por aqueles que, da aldeia do interior à grande cidade, em espaços públicos e privados, graciosamente ou a contar com benefícios, trataram de delatar os opositores que conheciam ou os meros gestos de desagrado ou de chacota em relação ao regime do Estado Novo aos quais assistiam. Não me refiro aos agentes da PIDE identificados, mas antes àquelas pessoas que ofereciam espontaneamente informações às autoridades, ou então que se transferiam de campo, colaborando formal ou informalmente com a repressão salazarista e actuando como traidores das causas e dos movimentos de oposição com os quais ocasionalmente se haviam cruzado. Um trabalho por fazer, à espera de quem por ele se possa interessar. Um trabalho difícil, sem dúvida, mas a História faz-se também revirando soalhos e revelando episódios infamantes. Para que possa servir de exemplo e de alimento da democracia.

On the idea of Communism

Organizado pelo Birkbeck Institute for the Humanities, da Universidade de Londres, decorreu em Março passado o colóquio On the idea of Communism. A identidade dos participantes anunciados – Alain Badiou, Slavoj Žižek, Michael Hardt, Toni Negri, Jacques Rancière, Gianno Vattimo, Terry Eagleton, entre outros – apontava para um encontro inédito entre superstars do pensamento contemporâneo interessadas no comunismo não tanto como núcleo programático mas como território da utopia e da experiência da mudança. E fazia também prever debates ardentes. A verdade, porém, é que os ecos foram chegando muito ténues e pouco existe na Internet sobre o acontecimento. Acaba no entanto de sair, no número de Julho-Agosto da revista Philosophie Magazine, uma reportagem crítica do evento, «Communista Social Club», da autoria de Jan Sowa, um jovem intelectual militante da esquerda radical polaca.

Sowa apoia-se particularmente nas intervenções de Badiou, Žižek, Rancière e Negri para afirmar que o conjunto não trouxe nada de novo em relação ao que se sabia já do pensamento de cada um dos autores presentes – o que não seria nada de inesperado, pois as fracturas não se produzem em intervenções de trinta minutos voltadas para um público militante de investigadores e estudantes –, estranhando igualmente o facto delas se apresentarem como monólogos, algo cerradas em raciocínios e apriorismos balizados, dos quais ninguém se parece ter esforçado muito por sair. O essencial da sua crítica centra-se porém em algo de muito concreto. Condicionado pela sua própria experiência de filho do «socialismo real», Sowa anota que «a maior insuficiência deste colóquio foi a ausência de uma análise aprofundada do comunismo enquanto regime que existiu realmente». Como se nada de verdadeiramente importante se tivesse passado, diz, entre a revolução de Outubro de 1917 e o triunfo do capitalismo neoliberal nos anos oitenta. Tem sido este, realmente, um dos limites da intervenção da esquerda anticapitalista não subsidiária do esclerosado modelo leninista-estalinista: um excessivo pragmatismo e uma dificuldade em repensar-se a partir de uma abordagem crítica do seu próprio lastro histórico, projectando novas possibilidades através de um processo psicanalítico de diálogo com as origens, as experiências e principalmente os erros.

Mas isto não significa que o colóquio de Londres se tenha transformado num pântano de vaidades académicas e de vontades dispersas a laborarem, cada uma delas, nas suas utopias pessoais. No final foram avançadas duas conclusões positivas que permaneceram transversais às intervenções de todos os participantes: «primo, o capitalismo não se encontra desprovido de uma alternativa, e secondo, o projecto comunista não é utópico no sentido negativo do termo, isto é, impossível». Porém, e contrariamente à leitura corrente de Marx, a sua afirmação não resulta de uma inevitabilidade histórica, mas sim de uma escolha que as sociedades podem e devem fazer em toda a liberdade. Será este o princípio, fundamental para uma conciliação da vida democrática com a afirmação cíclica de políticas de ruptura, sobre o qual a esquerda deverá continuar o seu trabalho. Combinando uma arqueologia descomplexada com a intervenção diária no processo de edificação de um mundo possivelmente melhor e mais solidário.

Comboio da Memória

Depois de em 2005 ter publicado Pós-Guerra, Tony Judt passou a ser um dos historiadores do mundo contemporâneo mais conhecidos fora dos circuitos universitários. Mas O Século XX Esquecido, editado posteriormente, aproxima-se mais de The Burden of Responsability, lançado em 1998, um livro sobre a tradição intelectual francesa do período inaugurado com a vitória dos aliados que se inscreve num dos interesses estáveis de investigação de Judt. A edição portuguesa omite a palavra que se destaca no título original – Reappraisals, reavaliações – e é pena que o tenha feito, pois o volume, agrupando 23 ensaios escritos entre 1994 e 2006, propõe justamente uma série de olhares bastante originais, apoiados por uma excelente capacidade de argumentação e apresentados sob a forma de regressos, de releituras, a realidades relativamente recentes que a vertigem da «era do esquecimento» se tem encarregado de suprimir.

Do conjunto emergem duas preocupações maiores de Judt. A primeira enfrenta o «desaparecimento do intelectual» como instrumento de uma consciência crítica do seu tempo, cuja herança não está garantido que sobreviva às mudanças actualmente em curso. A outra diz respeito à aceleração dos processos de esquecimento do passado e de instrumentalização da memória. Ambas atravessam as quatro partes nas quais os ensaios escolhidos foram arrumados. A inaugural apresenta um conjunto de viagens ao «coração das trevas», olhando de perto a trajectória de intelectuais que de diferentes maneiras se confrontaram com a experiência totalitária: Arthur Koestler, Primo Levi, Hannah Arendt e o agora quase esquecido Manès Sperber, inequivocamente observados com um respeito enorme pela dificuldade extrema das suas escolhas e do seu trabalho solitário. Já a segunda parte, ocupando-se do «compromisso intelectual», regressa de uma forma crítica e bastante original à obra de Albert Camus, Leszek Kolakowski, Edward Said, Eric Hobsbawm, Louis Althusser e Karol Wojtyla, os dois últimos glosados de um modo particularmente cáustico.

Nas terceira e quarta partes intervêm outros interesses de Judt, que vão da história política e cultural da Europa a partir do pós-Segunda Grande Guerra, narrada ponderando a relação das diferentes experiências nacionais com os seus diversos «lugares da memória» – apropriando-se aqui do conhecido conceito lançado por Pierre Nora – à evolução da sociedade americana desde os tempos duros da Guerra Fria aos anos de George W. Bush e da vertigem neocon. Pelo meio dois importantes artigos relativos à história de Israel – onde Judt, de ascendência judaica, viveu parte de uma juventude militante e idealista envolvida na experiência inicial dos kibutzim – , contendo a crítica de uma arrogância belicista que não parou de crescer a partir da Guerra dos Seis Dias (1967), bem como a defesa de um «Estado binacional». Posições que lhe valeram o ódio e actos de vindicta por parte de organizações judaicas, em particular algumas das sediadas nos Estados Unidos. Quase sem momentos fracos, O Século XX Esquecido é um livro soberbo, cuja leitura nos pode ajudar bastante a decifrar o presente que nos cabe viver.

Tony Judt, O Século XX Esquecido. Lugares e Memórias. Tradução de Marcelo Felix. Edições 70, 464 págs. [Publicado originalmente na revista LER de Junho]

Nostalgia

Paul Hollander é um sociólogo americano que deixou a Hungria natal após o esmagamento da revolução antiestalinista de 1956, tendo sido responsável, em conjunto com a jornalista Anne Applebaum, pela edição recente de From the Gulag to the Killing Fields, uma perturbante compilação de testemunhos de ex-prisioneiros políticos dos regimes do «socialismo real» que nos dá um retrato vertiginoso dos patamares desse mundo inferior para o qual estes foram empurrados. Neste O Fim do Compromisso o objectivo é outro, apontando para uma revisitação, apoiada no conjunto alargado de testemunhos autobiográficos, do percurso de quadros comunistas de origem intelectual que após servirem durante décadas os regimes em cujos fundamentos de justiça acreditaram, iniciaram um processo de questionamento das suas certezas iniciais. Mas olhando também aqueles que, no Ocidente, se empenharem apaixonadamente na causa comunista e depois com ela romperam.

Estes processos, individuais e quase sempre solitários, foram inevitavelmente demorados e invariavelmente dolorosos. Demorados pois implicaram uma revisão de convicções, mudanças profundas na vida de quem os viveu, e, no caso de a ruptura ocorrer nos países nos quais os comunistas detinham o poder, riscos pessoais muito elevados que requeriam bastante ponderação. Nas entrevistas feitas pelo autor, a esmagadora maioria dos testemunhos falou, por isso, muito mais da resistência ao desencanto, e das hesitações, do que do exacto momento no qual decidiu consumar a ruptura. Insistindo, recorrentemente, no modo como a teoria do «fim último» tantas vezes serviu para escamotear a desilusão e adiar o corte. Mas foram também processos dolorosos porque produziram quase sempre uma mudança muito profunda na vida de quem os viveu, o isolamento radical do seu dissídio, infamantes acusações de traição, a redução forçada ao silêncio, e, por vezes, graves complicações no que respeitava à sobrevivência material ou à segurança pessoal.

O estudo de Hollander segue em regra uma estratégia discursiva que integra informação segura, confirmada, e reflexão ponderada. Perde todavia um pouco de lucidez quando, no capítulo final, o autor baixa a guarda e mostra uma faceta profundamente anticomunista, revelando alguma incapacidade para aceitar as razões de quem, apesar de tudo, não abjurou totalmente e resistiu à completa desilusão. Eric Hobsbawm, Noam Chomsky, Edward Said e Toni Negri, entre outros, são aí invectivados por, cada uma à sua maneira, terem continuado a sugerir, após 1989, que a «convicção comunista» é algo de imperecível, localizado bem para lá das experiências nefastas do socialismo de Estado e da paralisia dos partidos ortodoxos, mantendo uma dimensão positiva e frequentes vezes atraente.

Paul Hollander, O Fim do Compromisso. Intelectuais, revolucionários e moralidade política. Tradução de Virgílio Viseu. Pedra da Lua, 480 págs. [Publicado originalmente na revista LER de Maio]

São Jorge da Mina

Não partilho das concepções, de natureza a-histórica, que partem dos problemas e das contradições do presente para estabelecerem juízos anacrónicos sobre figuras, episódios ou situações do passado. Não podemos ignorar, ou mandar arrasar, as pirâmides de Gizé ou o zigurate de Ur, apenas porque definiram no tempo da sua construção formas de imposição de um modelo social, de uma crença e de uma ordem posteriormente questionados. Ou porque foram erguidos com recurso a trabalho escravo. Como não faz sentido adoptarmos uma avaliação apenas negativista da colonização europeia dos séculos XV a XIX, que não integre as iniciativas contraditórias envolvendo heroísmo e crime, encontro e exclusão, paixão e cobiça. «Todo o documento de cultura», escreveu uma vez Benjamin, «é também um documento de barbárie». Mas também não podemos aceitar uma história asséptica, utilizada acriticamente como curiosidade, instrumento de negócio ou engodo turístico.

Parece-me pois lamentável que, independentemente do carácter lúdico e popular do concurso As 7 Maravilhas de Origem Portuguesa do Mundo, historiadores profissionais e autoridades académicas aceitem omissões graves, tendentes a embelezar publicamente o passado e a ignorar a sua dimensão contraditória e dramática, falando em abstracto de um «valor histórico e patrimonial.» Concordo por isso com os termos da petição dirigida ao governo que está a circular na Internet, relacionada com a escolha de construções como o Forte de São Jorge da Mina ou da ilha de Moçambique, entre outras. Escolha capaz de elogiar a beleza arquitectónica, o fulgor dos seus muros, o poder que simbolizavam, mas omitindo que serviram, e prolongadamente, de entreposto decisivo para a manutenção do tráfico de escravos. De lugar de desterro, sofrimento e morte. É inadmissível o disfarce da verdade e, em consequência, a redução da dimensão compreensiva, complexa e crítica que toda a História deve ter. Mesmo aquela que legitimamente se destina a alimentar a indústria do turismo ou serve de divertimento.

Por isso me parece criticável o apoio dado à iniciativa pela Presidência da República, pela Universidade de Coimbra, pelo Instituto Camões ou, por paradoxal que possa parecer, pela CPLP. Pode ler e, se concordar, assinar aqui a petição. [Nota posterior: a petição foi entretanto encerrada, pelo que o link deixou de estar disponível.]

A Nova EsquerdaPublicado originalmente na revista LER de Março

Celso Cruzeiro é reconhecido principalmente pela sua actividade como advogado e por ter sido um dos rostos principais da «crise estudantil» coimbrã de 1969. Conhece-se-lhe o activismo constante em alguns dos combates da esquerda geralmente não-alinhada, bem como o interesse por uma leitura interpretativa dos episódios de militância pelos quais passou, mas era-lhe até agora ignorado o gosto persistente e actualizado por uma reflexão teórica aprofundada sobre as circunstâncias, as coisas e as causas da esquerda. Este A Nova Esquerda retoma no título a designação utilizada para definir politicamente alguns dos movimentos radicais das décadas de 1960-1970, mas nem por isso se ocupa em excesso com uma busca retrospectiva das referências que naquele tempo moldaram o percurso do autor. Ao invés, a actualização das leituras e dos debates aos quais este se reporta conferem ao livro uma dimensão exemplar, rara entre nós, de adequação do reconhecimento da mudança do mundo ao pulsar mais contemporâneo do pensamento crítico e da intervenção política.

Esta é, no entanto, uma daquelas obras das quais é habitual dizer-se que valem pelo todo. Não é possível lê-la de forma fragmentada, pois resultaria quase indecifrável um discurso erudito que não se compraz com sublinhados ocasionais. Trata-se de facto de um texto denso, consistente, resultante de um trabalho aturado de cerca de treze anos, através do qual Celso Cruzeiro conduz o leitor por quatro inquietações com correspondência noutros tantos capítulos. A primeira delas diz respeito à busca de um sentido, no domínio da epistemologia das ciências e da reflexão filosófica, para um mundo que hoje, mais que nunca, se revela instável e desconforme os grandes sistemas explicativos da modernidade colapsados a partir do segundo pós-guerra. A segunda ensaia um trabalho de compreensão da realidade actual do capitalismo, da renovação das suas vias e métodos, das consequências da ordem injusta que materializa para a vida das pessoas comuns. A terceira inquietação prende-se com a busca de indícios que permitam entrever a construção de uma teoria revolucionária capaz de fazer frente às novas realidades, à desesperança e às carências impostas pelo actual processo de mudança histórica. E, por fim, o quarto problema conduz o autor ao vasculhar das consequências mais nefastas da presente ordem económica mundial e do aparecimento de algumas das vozes e das tendências capazes de lhe fazerem frente no terreno.

Quando, a dado momento, recorre à voz do economista e filósofo neoliberal Friedrich von Hayek onde este declara não existir actualmente «critério algum através do qual nós possamos descobrir o que é socialmente injusto», Cruzeiro aponta justamente para o inverso: para a necessidade de perceber as causas da injustiça de modo a que se torne possível combatê-la e aniquilá-la. Uma obra marcada, por isso, mais pela esperança que pelo desencanto.

Celso Cruzeiro (2008). A Nova Esquerda. Raízes teóricas e horizonte político. Porto: Campo das Letras – Âncora Editora. 250 págs.

Nuno Álvares Pereira

Originalmente em A Terceira Noite

Quando comecei o curso de História trazia ainda comigo a imagem de um Nun’Álvares paladino e devoto, campeão da independência em Aljubarrota, e, anos depois, converso a uma nova existência: a vida simples feita de oração e cilício do Beato Nuno de Santa Maria. Era essa a imagem, construída pelos finais do século XIX e que o Estado Novo reproduzira, que havia transformado o Conde de Ourém e Condestável de Portugal numa espécie de ícone simultâneo do brio indígena e da piedade cristã. Foi então que li um livro, apologista de algumas teses sobre o sentido da crise política de 1383-1385 hoje algo contestadas, contendo informações sobre a vida verdadeira de Nuno Álvares Pereira que não circulavam pelas vias até então tradicionais de acesso ao registo do nosso passado colectivo.

Fora em 1965 que o historiador António Borges Coelho publicara na Portugália esse A Revolução de 1383 que vim a conhecer na sua edição de 1977, a 3ª, consideravelmente aumentada e revista de acordo com as novas possibilidades oferecidas pela Revolução de Abril (existem ainda edições posteriores). Foi aí que vi emergir da penumbra um senhor de Cernache com um rosto menos harmonioso, como nobre feudal cioso dos seus direitos, interventor pelo fio da espada nos campos alentejanos e andaluzes, do lado de cá e de lá das marcas do reino, contra os camponeses sublevados, que não se coibiu, por vezes, de perseguir e massacrar. Porque, como contou Borges Coelho apoiado principalmente em Fernão Lopes, Nun’Álvares dizia preferir morrer combatendo «nas fraldas» do próprio rei castelhano que serem depois, ele e os seus, «apanhados de lugar em lugar como perdigotos e enforcados uns e uns pelos sobreiros». Pela acção desses miseráveis campónios que visivelmente temia e essencialmente desprezava.

Ora é esse homem, «herói» também de uma guerra suja, com acções nada abonatórias no registo individual, com sangue nas mãos que não apenas o do invasor castelhano – mas apontado como «exemplo para a sociedade actual» pelo frade carmelita «vice-postulador da causa da canonização» -, que a Igreja católica, apostólica e romana de Bento XV beatificou em 1918 e que Bento XVI vai agora transformar em santo. Tendo como fundamento mais imediato, dizem, a cura milagrosa num olho de uma sexagenária que deixara de ver por ter sido atingida «com salpicos de óleo a ferver enquanto cozinhava». Cavaco já se congratulou publicamente com o evento e pode ler-se em alguns blogues de direita que esta é uma das melhores notícias para Portugal que temos recebido nas últimas décadas. Para as pessoas comuns o facto não aquecerá nem arrefecerá as suas existências, mas será sempre de proveito e exemplo conhecer também o lado negro da História. E saber de onde chegam os esquecimentos.

Portugal Anos 50Numa tarde destas, enquanto me esforçava uma vez mais por dar algum sentido à livralhada acumulada sem grande nexo aqui em casa, reencontrei um conjunto de postais reproduzindo algumas das fotografias de Gérard Castello Lopes tiradas ao Portugal dos anos 50. Foram editadas em 1999 na companhia de dois pequenos textos de dois Antónios. «Outros tempos, outros lugares», sublinha um deles, o Tabucchi, na contracapa. O outro, o Barreto, fala de um país passado que Castello Lopes revirou e nos ofereceu contrariando uma quase crónica escassez de imagens. Mas será realmente assim? Estaremos nós a olhar aqui para um país inteiramente outro, mergulhado num sono colectivo e prolongado do qual só na década de 1960 terá sido possível despertar? Revejo as imagens e encontro em quase todas elas vestígios de um Portugal que me parece o de sempre, diverso daquele que hoje habitamos mas nem por isso imóvel, nem por isso falho do movimento que é parte da memória comum na qual continua a apoiar-se aquilo que nos aproxima, ajudando a desenhar a comunidade que imaginamos.

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Slavenka Drakulic

Versão revista de um texto publicado na LER

Como Sobrevivemos ao Comunismo Sem Perder o Sentido de Humor foi escrito durante o ano de 1991, numa altura em que o volume de estudos, de memórias e de reportagens sobre a Europa de Leste crescia muito rapidamente, com um crescente público de leitores à procura de um universo que lhe era desconhecido ou que fantasiara. Resultado da experiência pessoal, familiar e profissional da autora – Slavenka Drakulic é uma jornalista croata que antes e após o início da fragmentação da Jugoslávia teve a oportunidade rara de visitar diferentes países de ambos os lados da «Cortina de Ferro» – nele se descrevem aspectos de um quotidiano com muitas características partilhadas na generalidade dos países que viveram a experiência do «socialismo real», questionando-se ao mesmo tempo, a partir do interior, a afirmação de um modelo que se autodefinia como triunfante. Ao mesmo tempo, nos 19 ensaios aqui reunidos, fá-lo a partir de uma perspectiva feminista, singular e relevante quando se sabe que o feminismo era praticamente inexistente naquele universo, e que as vozes femininas eram ali geralmente subordinadas a um discurso colectivista que excluía a sua representação autónoma.

Drakulic assevera, a dado passo, que quem tenha crescido na Europa de Leste aprendeu desde muito novo que a política não é um conceito abstracto, mas antes uma força poderosa e omnipresente, «que influencia as pessoas na sua vida de todos os dias». Tal significa que a sua leitura dos quotidianos que relata os insere na ordem política imperante, jamais atribuindo uma grande importância à sua articulação com particularismos históricos ou culturais. Deve reconhecer-se, porém, que a sua perspectiva crítica, por vezes arrasadora, é temperada pela nostalgia de um igualitarismo, entretanto perdido, que suavizava o baixíssimo nível de vida da generalidade das populações. Fá-lo em particular no ensaio que relata o seu confronto com a miséria e o abandono com o qual, quando ali chegou pela primeira vez, veio a deparar nas ruas de Nova Iorque. Mas por outro lado, por detrás da uniformidade de comportamentos percebe-se perfeitamente, na sucessão das informações e dos testemunhos apresentados, que ocorreram cambiantes e mesmo distinções entre os diversos países comunistas e no interior da própria Jugoslávia, o que tempera uma tipificação excessiva dos métodos utilizados pelas autoridades e dos processos utilizados pelas populações para se lhes adaptarem ou os contrariarem. Quando se afirma que «foi no plano da vida quotidiana, mais do que no plano ideológico, que o comunismo realmente fracassou», insinua-se como foi principalmente uma acentuada dificuldade de relacionamento entre governantes e governados que precipitou o seu fim. Assim se escreve a uma dada altura: «se os políticos tivessem olhado, uma vez que fosse, para dentro dos nossos guarda-fatos, caves, armários e gavetas – sem ser para confiscar livros proibidos ou propaganda subversiva –, teriam visto o futuro que estava reservado aos seus magníficos planos».

Notável também é a forma poética utilizada por Drakulic no processo da escrita, transformando cada um dos capítulos deste livro numa espécie de vinheta que ilustra a condição do cidadão comum e retrata o seu quotidiano sob a realidade do comunismo. O sentido de humor evocado no título, bastante menos presente afinal do que seria de supor, é assegurado pela maneira acentuadamente sarcástica de descrever o passado e, por parte daqueles que lhe sobreviveram, por um uso irónico da memória. Um livro datado, sem dúvida, mas muito útil.

Slavenka Drakulic, Como Sobrevivemos ao Comunismo Sem Perder o Sentido de Humor. Tradução de Rui Pires Cabral. Pedra da Lua, 160 págs. ISBN: 978-989-8142-11-5.

Originalmente em A Terceira Noite

Alexandre Nevsky

O concurso sobre «o maior russo de sempre», organizado pela televisão estatal da Rússia, revela alguns pormenores nos quais vale a pena reparar. As personalidades mais votadas foram, em primeiro, Alexandre Nevsky (o príncipe de Novgorod que no século XIII dirigiu a resistência dos russos diante dos cavaleiros teutónicos, conseguindo conservar o predomínio da fé ortodoxa, teve 11,7% dos votos), em segundo Piotr Stolipin (primeiro-ministro da Rússia a partir de 1906, assassinado em 1911, responsável por reformas económicas que procuraram estimular o mercado rural e pelo acentuar da repressão sobre as forças políticas anti-czaristas, juntou 11,6% dos votantes), e em terceiro lugar, com 11,5%, José Estaline, que dispensa apresentações (e serviu de modelo ao Alexandre Nevsky filmado por Eisenstein). Lenine ficou-se pelo sexto lugar, logo após o poeta Pushkin e o czar Pedro I, o Grande, e antes mesmo de Dostoievski e do generalíssimo Suvorov. A primeira mulher a aparecer na lista – ou melhor, a única referendável – é, como seria de esperar, Catarina, a Grande.

Como já aqui escrevi quando do concurso que considerou António de Oliveira Salazar «o maior português de sempre», este tipo de certame é irrelevante enquanto «sondagem de opinião» e, a ter acontecido na Rússia algo de semelhante ao que ocorreu em Portugal – o que, admito, não posso agora provar -, a «eleição» poderá ter sido condicionada por um certo número de activistas que se desdobraram em iniciativas de apoio às diversas personalidades, perante uma larga maioria de cidadãos que olhava o episódio como mero divertimento. Não deixa, porém, de ser um sintoma sobre a existência de um caldo de cultura no qual a autoridade discricionária do Estado e o nacionalismo mais agressivo emergem com factores positivos, indicadores de uma «grandeza» que se acredita perdida mas regenerável (Medvedev e Putin não foram concorrentes, vale a pena lembrar). O episódio não terá a dimensão que os meios de comunicação, sempre desejosos de estrondo, sugerem, mas não deixa de ser um factor presente no terreno. Lá como cá, sempre um pouco preocupante.