(Marcelo Caetano, na varanda da Reitoria)

A propósito da recente comemoração de mais um Dia do Estudante de 1962, venho aqui trazer alguns aspectos menos conhecidos. A história deste dia é, de uma maneira geral, conhecida: a invasão da cidade universitária, as cargas policiais, os plenários, a atitude do reitor, etc. Embora, aqui e acolá, com alguns pormenores menos correctos, mas que não tiram a verdade aos factos. O que é menos conhecido, às vezes mesmo completamente desconhecido, é o seu relato humorado feito em verso. É o caso do aproveitamento dos Lusíadas para relatar uma parte do sucedido.

I
As moças e os rapazes espancados
Que da Universidade Lusitana
Por transes nunca dantes passados
Quasi que perderam a tramomtana (1)
Por ministros e policias escorraçados
Mais do que permitia a estupidez humana
Cantando espalharei esta toada
Enquanto não vier a coronhada

II
Calem-se de Wengoróvias e de Eurico
A fama dos discursos que botaram
Não se fala mais do ilustre génio
Que capitão da polícia nomearam
Que eu canto o espólio vasto e rico
De castanha que as gentes apanharam
E tudo o que a musa antiga trama
Que muita malta ainda está de cama

(1)   No exemplar em meu poder está transmontana, mas é evidente que é um lapso cometido, talvez, por um arreigado regionalista.

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Naquela madrugada de 21 de Janeiro de 1965, não sei exactamente que horas eram, talvez umas 7 da manhã, bateram à porta de casa. Era a casa de meus pais.

Tinha-me deitado tarde, depois de uma reunião da minha célula para, entre outrtas coisas, fazer um ponto de situação depois das prisões, em Dezembro, do funcionário do partido (PCP) que controlava o sector universitário e do seu contacto. O funcionário dava pelo nome de Nuno Álvares Pereira. Exactamente, é isso mesmo, o nome do Condestável. Funcionário que eu conhecia perfeitamente pois estivera escondido em minha casa, ainda a dos meus pais, apesar de eu dever ignorar a sua identidade e função pois estava uns furos abaixo dele na organização. Nessa reunião recebera a última edição de O Militante. Chegado a casa, coloquei-o na gaveta da mesa de cabeceira, por baixo dos lenços e das meias.

Naquela madrugada, bateram à porta uma primeira vez. Não para minha casa, mas para o rés-do-chão, one habitava a senhoria, uma senhora de ar severo e de poucos amigos. A senhora sabia perfeitamente quem morava no primeiro andar, isto é, sabia que eram pessoas que não eram afectas ao regime. Foi à janela e quando lhe disseram que era para o primeiro andar, apercebeu-se de quem era, recusou-se a abrir a porta e disse para tocarem para cima. A porta da rua destrancava-se à noite e só se abria por dentro ou com chave, por fora. Algum alvoroço na escada do prédio, a senhora avisa a minha mãe, que entretanto fora à janela saber quem batera. Vem para dentro, vai ao meu quarto e avisa-me. Levanto-me e enquanto a minha mãe desce as escadas, vou ao escritório do meu Pai e retiro alguns livros incrimanatórios que meto dentro da cama. Volto-me a deitar e, logo a seguir, entra a PIDE pela porta dentro. Identificam-me e dizem para me levantar porque tinha de os acompanhar. Um passa revista à casa nos locais do costume, autoclismo, cimo dos móveis, debaixo das camas, escritório, etc. Sinto-me feliz e seguro por os livros estarem a recato. Enganei-os, penso. Levanto-me afastando a roupa da cama com o à-vontade suficiente para não provocar desconfiança, mas com o cuidado necessário para não desvendar o esconderijo. A felicidade durou muito pouco tempo, pois o outro PIDE que ficara no quarto fora direito à mesa de cabeceira. Só quando ele diz qualquer coisa como “Pois é, pois é, isto é uma chatice” é que caí em mim e vi que me tinha esquecido da peça mais incriminatória que se podia ter. É que com o Avante, podia-se ser só simpatizante e até dar a “explicação” que tinha sido posto na caixa do correio. Mas com O Militante não havia volta a dar, pois só era distribuido a quem pertencia ao Partido. E lá fui, de táxi, para a António Maria Cardoso, na altura já “condomínio privado”. Da PIDE. Formalidades da identificação, barulho constante de abrir e fechar de portas, movimento pelos corredores. Terão prendido mais alguém, interrogo-me. Julgo que ao fim da manhã, sou levado por uma porta das traseiras, em frente à entrada do Hospital da Ordem Terceira, para uma das tristemente famosas carrinhas Mercedes azul escuro que me levaria ao Aljube. Despojam-me de tudo, relógio, cinto, atacadores, óculos, etc. e depositam-me num “curro”. Onde permaneci por mais 44 dias, em total isolamento.

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“Falta-lhe a liberdade.
Só essa dor lhe dói.
Mas só por ela há-de
Não ser o ser que foi.”
Do poema “Canção” escrito a 30 de Dezembro de 1939 na Cadeia do Aljube
(in Diário – I , 4ª edição revista – Coimbra 1957)

Entre muitos outros intelectuais que passaram pela cadeia do Aljube durante o regime do Estado Novo, encontra-se Miguel Torga aí encarcerado no início de Dezembro de 1939, por tres meses.

Do livro “Miguel Torga – Fotobiografia” de Clara Rocha
“1939 …
Edita “O Quarto Dia” d’ A Criação do Mundo, um dos poucos testemunhos sobre a Guerra Civil de Espanha que em Portugal foram produzidos a partir de uma vivência in loco e publicados durante o conflito. A descrição crua de uma Espanha devastada pela luta fratricida e dominada pleo franquismo, e também uma Itália arrebatada pelos discursos de Mussolini, leva Miguel Torga às cadeias de Salazar. O livro é imediatamente apreendido, e o autor é preso em Leiria, e depois levado para o Aljube.(sublinhado nosso)
… É também na cadeia do Aljube que compõe, a 1 de Janeiro de 1940, um dos seus mais conhecidos poemas de resistência, “Ariane”. “
Fim de citação

Exactamente um mês depois, a 1 de Fevereiro, escreve “Claridade”. Mas já antes escrevera “Exortação”, ainda na cadeia de Leiria, e, também no Aljube, “Lembrança”, Pietà” e “Canção”, em datas anteriores aos já citados.

Lisboa, Cadeia do Aljube, 1 de Fevereiro (1940)

CLARIDADE

Clareou.
Vieram pombas e sol,
e, de mistura com Sonho,
pousou tudo num telhado…
(Eu, destas grades, a ver,
desconfiado.)

Depois,
uma rapariga loira,
(era loira)
num mirante,
estendeu roupa num cordel:
Roupa branca, remendada,
que se via
que era de gente lavada,
e só por isso aquecia…
(in Diário – I , 4ª edição revista – Coimbra 1957)

Para quem esteve na cadeia do Aljube, este poema tem um significado muito especial, pois Torga mais do que nos dar uma ideia da visão que se tinha através das grades, transmite-nos uma ideia precisa do que é o tempo dos presos com pequenos gestos do dia-a-dia a serem motivo de uma apreciação cuidada e a terem um significado e uma representação inusitadas ao nível dos sentimentos: “…Roupa branca, remendada, que se via que era de gente lavada, e só por isso aquecia…”

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Segredo e coragem, a alma da conspiração

A vida dos que, de algum modo, não abdicaram nunca de lutar contra a opressão imposta pelo regime ditatorial foi sempre de perigos diversos, uns maiores, outros nem tanto, mas todos susceptíveis de levarem à prisão ou, em casos extremos, à clandestinidade e à fuga, ao exílio. Quantas vezes com sacrifício dos que nos eram mais próximos e queridos. Vão já uns trinta e tal anos, talvez quarenta, um companheiro meu viu-se envolvido num episódio que demonstra bem este tipo de situação.

Andando a sentir que era seguido, decidiu abrigar-se em casa de uns amigos na Beira Alta e aguardar por melhores dias. Como vivia com os pais avisou-os do que se passava. Volvidas umas semanas regressou a Lisboa.

Mas em má hora o fez já que, alguns dias depois, foramm presos dois companheiros que peretenciam à sua célula. Sabendo que a sua prisão poderia estar eminente, decidiu preparar a fuga para Paris. Dado o carácter perigoso da situação decidiu nada contar aos pais, até para os salvaguardar na hipótese de interrogados pela polícia. Começou por pedir a uns amigos em Lisboa, pessoas insuspeitas perante a PIDE, que o abrigassem por uns dias até que lhe fosse garantida a passagem da fronteira. Naturalmente que isto implicava, em princípio, ou a passagem a ”salto” por montes e vales, ou a passagem pela fronteira com um passaporte falso. Às vezes ambas.

Estranhando a ausência do filho, os pais foram indagar aos hospitais e junto de colegas mais próximos, mas não se atreveram a ir a nenhuma das polícias. Até que decidiram ir pedir conselho a uns amigos, ele um quadro superior num ministério e ela professora liceal. Relataram as suas preocupações, a mãe sempre muito chorosa temendo o pior, e os amigos lá os acalmaram como puderam tendo-lhes prometido que através dos seus conhecimentos iam tentar saber alguma coisa. Os dias passaram e os pais continuaram sem nada saber do filho, até porque o amigo também não tinha conseguido obter qualquer informação.

Até que, volvidos uns dez dias, os senhores recebem uma carta com remetente de Paris. Exultaram de alegria, eram notícias do seu filho. Nessa mesma noite foram a casa dos amigos levar a boa nova e compartilhar com eles a sua alegria. E qual não foi o seu espanto quando ficaram a saber que o seu filho, no próprio dia em que lá estiveram a pedir auxílio, estava escondido no andar de cima, onde morava o filho deles com a mulher, dali saindo directamente para o exílio. Graças à coragem dos amigos em manter segredo, não cedendo à comoção da amizade, o seu filho estava agora fora de perigo.

homem com mala

Nota: O episódio que se segue, embora possa parecer inacreditável, foi-me contado por duas fontes diferentes, ambas credíveis, e em tempos diferentes.

 
A cortesã amiga

Em tempos de resistência não se limpam armas e há que deitar mão a todas as possibilidades para se escapar à prisão ou, pelo menos, para esconder à polícia o maior número de provas possível.

Todos os que andaram nestas andanças conhecem muitos dos truques que se engendra-vam para esconder documentos comprometedores: do autoclismo ao colchão, do interior de um livro colocado por trás de outros numa prateleira da estante à arca no sótão, às vezes na casa de um amigo insuspeito ou de um parente na província. Se a imaginação dos resistentes tinha que ser muita, a da polícia não lhe ficava atrás e, de um modo geral, acabava por ir direitinha aos esconderijos. Mas, nem sempre.

Estamos em meados dos anos sessenta, talvez 1964, quando este episódio, a roçar o inacreditável, se passa. Um companheiro que morava ali para as avenidas novas, começou a desconfiar que a sua casa estava a ser vigiada. Como, semanas antes, havia sido preso um outro com quem ele mantinha ligações conspirativas, receou que ele tivesse falado na polícia. A situação adensa-se qundo recebe a informação de que o melhor era limpar a casa e preparar-se para o pior, ou seja, a prisão. Dirige-se para casa e verifica que a vigilância tinha sido reforçada. A prisão está eminente. Sobe no elevador, entra em casa e mete a papelada conspirativa e alguns livros numa pequena mala de viagem, tendo tido o bom senso de não queimar nada na sanita: os restos queimados ficam sempre à tona. Mas sabe que não pode sair com a mala.

No andar de baixo morava uma senhora de idade balsaquiana, com muito boa presença e simpática, com quem ele já se cruzara por várias vezes. Como se dizia então, a senhora «recebia», embora sempre com a maior discrição. Era uma cortesã. O nosso amigo, com a polícia à perna e não vendo outra alternativa, corre o risco de bater à porta da senhora, contar-lhe o que se passava e pedir-lhe para guardar a mala. A senhora manda-o entrar, fecha a porta e, espante-se, diz que ali é que ela ficaria bem guardada, que a  punha debaixo da cama. Ainda mal refeito da surpresa da sorte, regressa a casa. Passados alguns minutos a PIDE esta lá, passa revista e leva-o preso. A prisão não durou mais do que uma semana. A PIDE não tinha grandes provas até porque o companheiro anteriormente preso não falara nele. Foi o que se chamava «andar à pesca».

Regressado a casa, aguardou uns dias até ganhar coragem para ir bater à porta da senhora. Quando o viu, a nossa boa dama diz-lhe «Entre, entre, a sua malinha continua aqui, debaixo da cama». Quando ele se debruça para puxar a mala, remata ela «Aqui é que ela estava mesmo bem guardada», e em voz mais baixa quase sussurante, «porque um dos que vem cá a casa é da PIDE!»

O episódio termina aqui, o resto da história não, mas também não é para aqui chamado.

Carteiros de fósforos - CDE 1969

Colecção de carteiras de fósforos, que penso terem sido feitas para a campanha eleitoral das legislativas de 1969.

julgamento
 

No Julgamento do Golpe da Sé 

A 11 de Março de 1959 está-se na véspera da eclosão do que ficará conhecido como o Golpe da Sé, assim chamado por ser aí que reuniam os conspiradores civis. Como sempre sucedera em acções anteriores, a impreparação e o facilitismo dos revoltosos levaram á sua prisão. Houve mesmo alguns aspectos caricatos como o de um Major conspirador que não fazendo parte de uma determinada unidade, nela compareceu fardado, nessa noite, para se encontrar com um outro oficial, também integrante dos revoltosos. É evidente que causou estranheza a sua presença, em particular ao oficial de dia. Mas isto não passa de um «fait-divers» do que quero contar.

Todos os conspiradores, civis e militares, foram julgados no Tribunal Militar de Santa Clara, em Julho e Agosto de 1960. Naturalmente que os seus defensores eram a nata dos advogados da Oposição, todos com grande tarimba destes julgamentos. Entre outros, eram cerca de uma dúzia, estavam Eduardo Figueiredo, Acácio Gouveia, Olinto Figueiredo, Catanho de Menezes, Cunha Leal, Duarte Vidal, Salgado Zenha, etc, já todos desaparecidos. E estava também Mário Soares, que penso ser o único advogado sobrevivente, pelo menos deste julgamento.

Os militares revoltosos eram todos oficiais e encontravam-se detidos no presídio militar da Trafaria. De entre estes sobressaía a figura de um velho capitão que participara no 28 de Maio mas que repudiaria a orientação política entretanto seguida. Afastado do Exército, participa em tudo o que é intentona. Era um homem de boa compleição, entroncado, e de equivalente coragem física. Um dia, já perto dos 80 anos, à porta do café Londres, arrumou a murro e a pontapé dois pides que o interpelaram. Homem frontal, falava sempre com uma voz que se impunha. Tinha 70 anos à data do julgamento.

As janelas da sala do tribunal estão abertas de par em par, pois o calor é muito e não há ventilação. Algumas senhoras abanam-se com os leques, os homens que ainda usam chapéu fazem o mesmo.

(Um parentesis para contar que quando Cunha Leal, com a sua voz de trovão, fazia as alegações, o Juíz Ptresidente pediu-lhe para falar mais baixo, pois ouvia-se tudo na rua. Ao que ele respondeu: «Era o que mais faltava sr. dr. juíz! Deus deu-me esta voz é com ela que falo e é com ela que hei-de morrer! Mande o senhor fechar as janelas, se quiser!»)

Os detidos estão sentados logo à frente da primeira fila da assistência onde se sentam os familiares, apenas separados por uma balaustrada em madeira. O ambiente é pesado e rigoroso, ou não fosse um tribunal militar, as portas guardadas por elementos da Polícia Militar. Após um curto intervalo, quando a sessão retoma, a mulher do nosso bravo capitão debruça-se na balaustrada e sussurra-lhe «Carlos, tens a braguilha aberta!» ao que ele responde prontamente, «Ó filha, isto é pássaro que já não sai da gaiola».

Ignora-se, ainda hoje, se foi esta a razão, ou qualquer outra mais elaborada e complexa, que levou o tribunal a concluir por sentenças benevolentes.