Público, 12.12.2008, Vasco Pulido Valente

Não reconheci, ou só reconheci muito parcial e vagamente, o António Alçada Baptista que a imprensa por aí descreveu: o “boémio cultural”, o “homem do afecto”, o pensador, o romancista. Verdade que ele foi também essa personagem, que era sem dúvida genuína e que a partir de certa altura o consolou e lhe deu no mundo um lugar agradável e possível. Mas não me parece que ele especialmente gostasse do papel que lhe atribuíam. Tinha ambicionado um alto destino, de que a sorte e, no fundo, a sua própria natureza o desviaram. Na meia-idade e na velhice houve sempre nele uma tristeza essencial. Intimamente, suponho que não se conseguia ver como funcionário do Ministério da Cultura, ornamento de uma “inteligência” espúria e colunista de uma revista “feminina”. Quando o encontrei, em 1963, com certeza que não se imaginava assim.

Vindo da província católica, queria mudar o catolicismo e o país. Comprou uma editora e fundou O Tempo e o Modo, para renovar a Igreja em Concílio e, em última análise, para criar em Portugal um partido democrata-cristão, como os que nessa época governavam a Europa. Basta dizer que Mário Soares, Salgado Zenha, Jorge Sampaio e João Cravinho estavam no “conselho directivo” de O Tempo e o Modo, como embrião de uma futura aliança de centro-esquerda, que já existia em Itália e se esperava repetir aqui, quando a Ditadura caísse. Infelizmente, as coisas não correram bem. A Ditadura, embora abalada, resistiu. A esquerda democrática, forçada pelo PC a um radicalismo de circunstância, acabou pouco a pouco por se afastar; e a editora e O Tempo e o Modo faliram sem remédio.

Não admira que Alçada Baptista recebesse Marcelo Caetano com alvoroço e começasse a gravitar à volta dele. Julgava seriamente que a democracia-cristã talvez chegasse por um ínvio caminho. Não chegou. E ele, em 1973, cometeu o erro crasso de se prestar a ser o António Ferro do novo senhor, com um livro de pura propaganda. A oposição não o desculpou e, depois do “25 de Abril”, isolado à esquerda e à direita, Alçada resolveu ir como um hippie ou como um monge para a Tapada do Saldanha, em Sintra. Sofreu com o abandono de muita gente de quem se considerava amigo e sofreu com a existência baça que dali em diante levou. Não merecia. Pagou caro a visão de uma outra Igreja e de um outro Portugal.

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