Um dos acontecimentos mais importantes da actividade da Junta Central [da Acção Católica]- e uma das maiores fontes de conflitos – foi a participação portuguesa no III Congresso Mundial para o Apostolado dos Leigos, subordinado ao tema O Povo de Deus no itinerário dos homens, que se realizou, em Roma, de 11 a 18 de Outubro de 1967. Propositadamente, a data do seu início coincidiu com o quinto aniversário da abertura do Concílio Vaticano II.
Por ter a meu cargo o pelouro das Relações Exteriores, estive especialmente envolvida neste evento desde a sua preparação. Esta consistiu, fundamentalmente, no lançamento e apuramento de resultados, em Portugal, de um Inquérito de âmbito mundial sobre «as primeiras experiências feitas do estudo e da aplicação dos ensinamentos do II Concílio ecuménico do Vaticano». Nada poderia corresponder melhor às aspirações dos que vinham lutando pelo aggiornamento da Igreja como força motriz do progresso dos homens. Em Portugal, houve uma larga adesão a este Inquérito por parte da Acção Católica e de outras organizações e até do público em geral, já que foi publicada na imprensa uma versão simplificada do conjunto de perguntas, incentivando­‑se a que fossem enviadas respostas individuais.             
Foi um novo alento quando se ia já instalando uma certa descrença, não só em Portugal mas no mundo em geral, quanto às esperanças depositadas no Concílio que, recorde-se, tinha terminado dois anos antes, em 1965.            
A delegação portuguesa ao Congresso foi composta por trinta delegados e cinco peritos, da Acção Católica e de outras organizações de leigos [1]
As sessões decorreram em Roma, com grande entusiasmo e participação. Porque uma inesperada crise de apendicite atacou Sidónio Paes, coube­­‑me representar Portugal na recepção oficial de abertura do Congresso, oferecida pelo Papa aos presidentes das delegações nacionais. Eu fazia anos nesse dia e nunca tive um aniversário festejado com tanta pompa e circunstância, nos salões do Vaticano – quase que exemplar único do sexo feminino, embora rodeada por muitas saias, episcopais e cardinalícias.

Os projectos apresentados no Congresso eram muito ousados para a época e os próprios termos em que estavam redigidos poucos vestígios guardavam do estilo clerical ainda corrente dentro da Igreja. Refiram­‑se, a título de exemplo, alguns dos temas abordados:

    – Condenação das práticas racistas e da discriminação racial e religiosa.
    – Defesa dos direitos das minorias, com menção concreta de solução justa para o problema dos refugiados da Palestina.
    – Prática de políticas realistas relativas à expansão demográfica.
    – Importância dos meios de comunicação social e seu compromisso com os oprimidos e desfavorecidos.
    – Plena igualdade de direitos do homem e da mulher na Igreja, e estudo do acesso das mulheres às ordens sacramentais.
    – Pedido no sentido de a doutrinação da Igreja sobre regulação da natalidade reconhecer aos pais a responsabilidade pela escolha dos métodos técnicos adequados.
    – Participação de leigos na eleição dos Bispos.

Se foi grande o entusiasmo com que os congressistas viveram este acontecimento, não foi menor o verdadeiro alarme que ele provocou nos meios mais tradicionalistas da Igreja. E se isto aconteceu nos corredores do Vaticano e um pouco por todo o mundo, não será difícil imaginar o que se passou em Portugal! Recorde-se que se estava em Outubro de 1967, que os leigos – e também cada vez mais padres – se dividiam entre os que invocavam o Concílio, João XXIII e os primeiros tempos de Paulo VI para, aberta ou veladamente, condenarem o governo português e a cumplicidade que as autoridades religiosas com ele mantinham e aqueles que, pelo contrário, mais aberta do que veladamente, continuavam a defender, acima de tudo, os valores da tradição, da estabilidade e da disciplina.
Nos últimos meses de 1967, quando começaram a espalhar-se os ecos do Congresso, os que tinham sido delegados a Roma foram convidados para múltiplas sessões de informação e de esclarecimento, nas mais variadas instituições, desde muitos organismos da própria Acção Católica até à Pragma.
Com alguma lentidão na reacção, já em 1968, o jornal Novidades e o Pe.Videira Pires, responsável por programas religiosos na Emissora Nacional e na RTP, foram os arautos das posições anti­‑Congresso.
 No dia 9 de Fevereiro, o Novidades publicou um artigo de um seu correspondente no Vaticano, muito crítico, que afirmava entre outras coisas:

«Este Congresso revelou várias surpresas a respeito “da disciplina católica dos fiéis em relação ao Magistério da Igreja”. Pareceu, por vezes, que era a ele que competia “formular directrizes” segundo o ponto de vista mais cómodo dos leigos. […] Não é despropósito afirmar que neste Congresso quem aproveitou foi o Maligno; mas as forças do inferno não prevalecerão contra a Igreja.» [2]

Quanto ao Pe.Videira Pires, foi uma luta terrível. Em dois programas da Emissora Nacional, em 18 e 25 de Fevereiro de 1968, criticou duramente não só o Congresso mas também os dirigentes da Junta Central, acusando­‑os de não estarem a corresponder à confiança neles depositada pelos bispos. Quanto ao Congresso, afirmou:

«Quando, em Outubro passado, se realizou, em Roma, o III Congresso Mundial para o Apostolado dos Leigos, alguns ruidosos progressistas portugueses acusaram a nossa imprensa de ter desfigurado a sua face, propalando actos de rebeldia dentro dele manifestados e que não teriam passado de invencionices jornalísticas. Entretanto, principiaram a divulgar uma face beatífica, que estava em contradição com o que os filmes e as fitas magnéticas nos revelavam. […] Já não vivemos no reino da Acção, mas no da confusão.» [3]

Recusar­‑se­‑ia depois a ler esclarecimentos enviados, ao abrigo do direito de resposta.
Eu fui entrevistada por ele sobre o Congresso, nos estúdios da RTP, mas a entrevista nunca foi emitida.
A campanha contra a Junta Central e o Congresso prosseguiu na imprensa, na rádio e na televisão.


[1] Composição da Delegação Portuguesa: Delegados: Sidónio da Freitas Branco Paes, Fernando Abreu, Maria Joana de Menezes Lopes, José Manuel Galvão Teles, Maria Vitória Pinheiro, Maria Cristina Rocha, Luís Rocha, Maria Regina Silveira e Sousa, Maria Fernanda de Freitas Morna, Lídia do Carmo Sousa, José João Campos Rodrigues, Eduardo da Silva Pereira, Maria Palmira Lopes, Maria Madalena Bensaúde, Filipe Bensaúde, Maria Helena Nabais dos Santos, António Nabais dos Santos, José Mendes Ferrão, Maria Isabel Meireles, Maria de Lurdes Valadares Tavares, Maria da Conceição Pizarro de Mello, Maria Teresa Santa Clara Gomes, António Quadros Ferro, Maria Joana Veloso, Maria Luísa Pardal Monteiro, Padre Orlando Leitão, Padre José Serrazina, Padre Agostinho Jardim Gonçalves, Cónego Maurílio de Gouveia, Padre Armindo Duarte. Peritos: Eduardo Veloso, Maria Berta Peixoto da Costa, Maria de Lourdes Belchior, Rogério Martins, Teresa Martins de Carvalho. (Para além da Acção Católica, encontravam­‑se, entre os delegados, representantes dos seguintes movimentos: Apostolado da Oração, Cursos de Cristandade, Cursos de Preparação para o Matrimónio, Equipas de Nossa Senhora, Graal, Noelismo, Obra de Protecção à Rapariga e Sociedade de S. Vicente de Paula.)

[2] Emilio Marini, Novidades, 9/2/1968. Este artigo foi mais tarde publicado no Boletim da Acção Católica Portuguesa, nº 389, Fevereiro – Abril, 1968, pp. 44-45. O sublinhado é meu. Nas pp. 46-47, encontramos o texto do protesto enviado pela Junta Central ao jornal Novidades, que este publicou em 11 de Fevereiro, e, nas pp. 48-63, um longo artigo que Sidónio Paes escreveu, ainda sobre o Congresso, e que aquele jornal publicou mais tarde.

[3] O texto desta intervenção radiofónica foi fornecido pelo autor e publicado no mesmo número do Boletim da Acção Católica Portuguesa, pp. 71-73.

 
Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória, Âmbar, 2007, pp.102-106.

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