Search Results for 'João Maria de freitas Branco'


É filósofo, autor, professor e investigador universitário, com trabalho nas áreas da filosofia do conhecimento e da epistemologia, da história da ciência, bem como da filosofia social e política. Investigador científico do Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa (CICTSUL), responsável pelo projecto “Social Comunication of Science”.
Trabalhou como investigador na Humboldt Universität de Berlim. Foi membro da Comissão Instaladora da Universidade Atlântica, integrando posteriormente o seu Conselho Científico e desempenhando funções de docência e coordenação de áreas científicas. Pertenceu ao Conselho Científico do IPAM onde também trabalhou como docente coordenador de uma área científica.
Conferencista em várias universidades e centros de investigação nacionais e estrangeiros, bem como em muitas instituições de natureza cultural.
Entre outros cargos que desempenha, é presidente do Ginásio Ópera e membro da direcção da Sociedade dos Amigos da Razão, de que foi um dos fundadores. Foi, além disso, membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Filosofia e  presidente da Associação de Antigos Alunos e Amigos do Liceu Nacional de Oeiras.
Deputado autárquico. Integrou a direcção política da Plataforma de Esquerda. Ocupou o lugar de Vice-Presidente da Assembléia geral da CIVITAS de Oeiras no período em que o presidente foi Almeida Santos. Pertenceu à primeira direcção eleita do Liceu Nacional de Oeiras.

Membro da Sociedad Española de Historia de lãs Ciências y de las Técnicas.
É cooperador da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).
Colaborador da LUSA para a área da cultura. Foi correspondente do JL-Jornal de Letras na Alemanha.

È também autor de programas de rádio e de televisão, sendo colaborador do canal rádiofónico Antena 2. “Filosofia na Ópera” e “Música e Idéias” foram dois dos programas radiofónicos de sua autoria na Antena 2..
Sempre esteve ligado ao mundo das artes, tendo desenvolvido ao longo de toda a sua vida actividades relacionadas com a produção de espectáculos (teatro, música, cinema) assim como outras realizações artísticas (exposições, projecções, debates, encontros, etc. ) Neste âmbito, encenou alguns espectáculos de onde se destaca a ópera Der Kaiser von Atlantis no CCB e no Convento dos Capuchos. Nos últimos anos foi dinamizador cultural do Espaço dos Sentidos (Oeiras), onde coordenou os ciclos “Cinema Clássico” e “Ópera com Chá”. Dirige há vários anos o ciclo “Ópera Vídeo”.
É crítico de ópera.

Autor de vários livros e ensaios. Tem uma grande quantidade de artigos publicados em revistas e jornais, portugueses e estrangeiros, assim como em blogs e sites da Internet. É autor do blog “ wwwrazão”.

JMFB é filho do musicólogo João de Freitas Branco e neto do compositor Luís de Freitas Branco e do ensaísta e crítico literário Pedro do Nascimento.

 
Alguns livros e ensaios de que é autor

(lista muito incompleta incluindo apenas textos editados em língua portuguesa)

– Problemática da materialidade na filosofia de Ravaisson, Editorial Inquérito, 1988.
– Dialéctica, ciência e natureza, Editorial Caminho, 1990.
– Pensar a democracia, Inquérito, 1994.
– O músico-filósofo, JMP, 2005.
– Agostinho da Silva: Um perfil filosófico – do sergismo ao pensamento à solta, Zéfiro, 2006.
Música e transformação, Nova Síntese, 2008.
– Darwin-Marx, Vértice, 2009.

(para uma informação mais completa consultar o Facebook)

Organizou, prefaciou e anotou, em 1995, a nova edição da História da Música Portuguesa da autoria de seu pai, João de Freitas Branco.

 
Um texto de João Maria de Freitas Branco (*)

 
Um repensar do passado com os olhos postos no presente

O ter eu vivido na cidade murada interessantíssima experiência político-cognitiva, observando in loco o que foi o socialismo real germânico (a República Democrática Alemã – RDA ou DDR, no uso da sigla correspondente ao nome alemão do extinto país), essa experiência, fez-me estar ainda mais atento aos discursos do 20ºaniversário da queda do Muro de Berlim. Em particular aos proferidos por gente lusa com responsabilidade de mando. O que li e ouvi pôs-me na alma uma curiosa mistura de satisfação com perplexidade. Mescla de sentimentos agora motivadora deste breve prosar indagador – puro gesto de reflexão problematizante, de pensamento crítico.

O que se passou na cidade agora capital de uma única Alemanha nessa já recuada noite de 9 de Novembro de 1989 é indiscutível motivo de alegria para qualquer pessoa de bem; tem a dimensão simbólica do fim de uma forma de regime totalitário: realidade política ética e moralmente inadmissível. Aquela RDA, fossem quais fossem os seus méritos sociais, tinha que acabar. Sempre o tenho afirmado. Ver agora todos os representantes da nossa direita parlamentar saudar com genuíno regozijo esse histórico acontecimento é algo que me causa natural satisfação. Porque vivi tempos em que a direita prevalecente fazia a apologia da ditadura, cultivava a ideia de desigualdade, enaltecia desavergonhadamente a falta de liberdade, enxovalhando e troçando da democracia com alarvado escárnio salazarento. Para o bem, Abril parece ter sepultado essa direita, fazendo germinar uma nova. Chamo a isso progresso ideológico – renovação de mentalidades. Como homem de esquerda que me preso de ser, sinto-me bem nesta convergência de sentires com a direita de um Paulo Portas ou de um Durão Barroso. Coisa que os eternos amantes do simplismo não deixaram, nem irão deixar de condenar com viva suspeição.

Ver depois o mesmo Barroso ou o socialista José Sócrates, com o peso da responsabilidade conferida pelos altos cargos que exercem, colocar sinal de igualdade entre o nosso Estado Novo fascista e o socialismo real da extinta RDA causa-me aguda perplexidade. Afigura-se-me ser ajuizar intelectualmente pouco honesto que não favorece a imagem de quem o exiba. Esse discurso dominante, e até oficial, procura estabelecer uma evidência que mente…, evidentemente. É assim que somos a todo o momento inundados de meias verdades ou mentiras instituidoras de evidências dominantes e dominadoras, de pseudo-verdades oficiais. Afogam-nos em opiniões estereotipadas que se supõe serem portadoras de verdade evidente. Um óbvio instituído. Semeia-se ilusão ideologicamente conveniente. Ora vejamos: quais são os maiores problemas que afectam (atormentam) a nossa sociedade democrática real? A democracia capitalista real? Penso que na resposta a estas interrogativas irei re-convergir com a nossa direita parlamentar sem deixar de me manter fiel à velha denúncia anti-capitalista das esquerdas revolucionárias, na precisa medida em que a resposta é demasiado consensual para que possa haver discordância significativa entre gente civilizada, bem intencionada e séria das nossas direitas e esquerdas parlamentares. Dou-a sem hierarquizar as dificuldades: Desemprego, pobreza/miséria, insegurança, crescente desigualdade social (fosso obsceno entre ricos e pobres).

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Nos passados dias 12 e 13 Setembro 2008, realizaram-se, no convento dos Capuchos, que comemorou então os seus 450 anos, duas récitas da ópera Der Kaiser von Atlantis oder die Tod Verweigerung («O Imperador da Atlântida ou a abdicação da Morte»), composta, em 1943, por Vicktor Ullmann, com libretto de Peter Kien, no campo de concentração de Theresienstadt (Terezin, a norte da actual República Checa). Estreada na sua totalidade pela primeira vez em Portugal, com organização da Câmara Municipal de Almada e da Associação Ginásio Opera (1), a ópera foi concebida pelos dois artistas durante o cativeiro em Theresienstadt, para apresentação no campo de concentração. Devido à sua temática pacifista e anti-hitleriana, o espectáculo jamais seria levado à cena dado que, nos ensaios realizados em Outubro de 1944, o comando local das SS proibiram a sua apresentação. Pouco tempo depois, Ullmann, Kien e todo o cast foram enviados para Auschwitz, onde acabariam por morrer nas câmaras de gás. Apenas em Dezembro de 1975, trinta anos depois da sua criação, a ópera teria a sua estreia mundial no Bellevue Center de Amesterdão.

Dada a perplexidade que pode haver com o facto de ter sido composta uma ópera – não foi aliás caso único em Theresienstadt – num campo de concentração nazi, convém dar algumas explicações sobre a forma como ele foi concebido pelos nazis, como instrumento de propaganda para esconder os seus crimes, a par aliás com a destruição das câmaras de gás e as transferências dos deportados dos campos do extermínio, nas «marchas da morte», no final da guerra. Lembre-se que, questionado sobre as atrocidades cometidas, o próprio chefe das SS, Heinrich Himmler disse a um deportado estar convicto que ninguém iria acreditar na magnitude do crime do extermínio e que ainda hoje os negacionistas do Holocausto utilizam o exemplo de Theresienstad.

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Para além da Redacção, este blogue conta com um grupo de Colaboradores regulares (ainda em construção) e procurará recorrer a um vasto leque de contributos pontuais, alguns dos quais estão já assegurados.

Redacção
Artur Pinto
Diana Andringa
Helena Pato
João Tunes
Joana Lopes
Maria Manuela Cruzeiro
Miguel Cardina
Raimundo Narciso
Rui Bebiano

Colaboração regular
Ana Vicente
Eduardo Graça
José Luís Saldanha Sanches
José Medeiros Ferreira
José Vera Jardim
Nuno Brederode Santos

Colaboração pontual
Adriana Bebiano
Alexandre Santos Castanheira
Cecília Cunha
Cláudia Santos Silva
Daniel Lacerda
Daniel Ricardo
Edmundo Pedro
Fernanda Paraíso
Helena Cabeçadas
Isidoro de Machede
João Bernardo
João Maria de Freitas Branco
João Miguel Almeida
Jorge Martins
Jorge Pires da Conceição
José Augusto Rocha
José Hipólito dos Santos
José Manuel Pureza
José Pedro Barreto
Luís Januário
Luísa Ezaguy
Luísa Tiago de Oliveira
Manuel António Pina
Maria João M. Pires
Miguel Teotónio Pereira
Nuno Teotónio Pereira
Paulo Pinto
Pedro Tamen
Pedro Vieira
Tiago Neves

Uma selecção de alguns dos posts editados neste blogue.

 
ENSAIOS

  • Pela História Oral (Maria Manuela Cruzeiro)
  • Que Fazer Com Tanto Passado? (Rui Bebiano)
  • Vocês o que estão para aí a dizer sobre o feminismo? (Ana Vicente)
  • Pior do que uma voz que cala é um silêncio que fala (Maria Manuela Cruzeiro)
  • 25 de Abril: Revolução ou Revolta? (Maria Manuela Cruzeiro)
  • 25 de Abril: Ruptura ou Continuidade? (Maria Manuela Cruzeiro)
  • 25 de Abril: Amnésia ou Mentira? (Maria Manuela Cruzeiro)
  • 25 de Abril: Euforia e Resignação (Maria Manuela Cruzeiro)
  • «Falar» na polícia (Diana Andringa)
  • 25 de Abril – O triunfo do imaginário (Maria Manuela Cruzeiro)
  • MFA – Herói colectivo (Maria Manuela Cruzeiro)
  • António de Spínola – O Herói Supletivo (Maria Manuela Cruzeiro)
  • Vasco e Otelo – A atracção dos opostos (Maria Manuela Cruzeiro)
  • Cunhal e Soares – Os «inimigos íntimos» (Maria Manuela Cruzeiro)
  • O combate pela dignidade na memória do Gulag (Rui Bebiano)
  • Costa Gomes – O Mal Amado (Maria Manuela Cruzeiro)
  • No Reino dos Falsos Avestruzes – Um Regresso Inadiável (Maria Manuela Cruzeiro): parte 1parte 2parte 3
  • Rever e desculpabilizar o Gulag (Rui Bebiano)
  • RDA ajuda a encontrar o rumo? (João Maria de Freitas Branco)
  • Vinte anos depois do muro (Miguel Cardina)
  • O vampirismo franquista (João Tunes)
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    HISTÓRIA

  • O massacre judaico de Lisboa em 1506 (Jorge Martins)
  • O aparelho torcionário da PIDE/DGS (Irene Pimentel): parte 1parte 2
  • A situação das mulheres no século XX em Portugal (Irene Pimentel): parte 1parte 2
  • Breve tratado sobre relações de vizinhança (Paulo Pinto)
  • A cooperativa Pragma: uma bela história (Joana Lopes)
  • 18 de Janeiro de 1934 (Irene Pimentel)
  • 18 de Janeiro de 1934 em Coimbra (Irene Pimentel)
  • A vigília na Capela do Rato (João Miguel Almeida)
  • Há quarenta anos, uma vigília contra a guerra colonial (Joana Lopes)
  • PIDE, 25 de Abril de 1974, 21:00: o som (Joana Lopes)
  • Tarrafal – 29 de Outubro de 1936 (José Augusto Rocha)
  • In Memoriam Palma Inácio (José Augusto Rocha)
  • A propósito do 5 de Outubro: memórias de um dos seus heróis (Helena Cabeçadas)
  • Melo Antunes – A minha Homenagem (Maria Manuela Cruzeiro)
  • A questão mais incómoda da Guerra Colonial (João Tunes)
  • Conversas sobre Amílcar (Diana Andringa)
  • Para a memória dos crimes da PIDE: o crime das escutas, um julgamento que não se fez! (José Augusto Rocha)
  • «Lusitânia Quo Vadis?» (Joana Lopes)
  • Contributo para a história do sindicalismo docente (Helena Pato): parte 1parte 2parte 3
  •  
    ENTREVISTAS / TESTEMUNHOS

  • Entrevista a Francisco Martins Rodrigues (Miguel Cardina): parte 1parte 2parte 3
  • Memória aos 80: conversa com Edmundo Pedro e Nuno Teotónio Pereira (Joana Lopes): parte 1parte 2parte 3
  • O regresso do Tarrafal (Edmundo Pedro)
  • CITAC ou a regra da excepção [entrevista a Ricardo Seiça] (Miguel Cardina)
  • O «Grupo dos 16» (Joana Lopes)
  • Viagem ao centro do mundo da Maria José e do Zé Luís (entrevista de Maria José Margado e José Luís Saldanha Sanches a Anabela Mota Ribeiro, Pública)
  • Uma lição de João; Uma lição de João (adenda) [sobre João Martins Pereira] (Rui Bebiano)
  • Brancos em Caxias, Pretos para o Tarrafal (Diana Andringa)
  • Um Natal na prisão de Caxias (José Hipólito dos Santos)
  • Prisão e Tortura – Dois Casos (Raimundo Narciso)
  • Do outro lado do Muro – Berlim / Praga 1967 (Helena Cabeçadas)
  • 27 de Janeiro de 1970 – relato de uma prisão atípica (Diana Andringa)
  • Naquela madrugada de 21 de Janeiro de 1965 (Artur Pinto)
  • Vinda de Humberto Delgado para dirigir o movimento de Beja (J. Hipólito dos Santos)
  • Guiné, 1969/71, do norte para o sul, com passagem pelo Comando-Chefe (João Tunes)
  • Memória Breve da História da Guiné (José Augusto Rocha)
  • O diabo à solta nas margens do Nango (José Pedro Barreto)
  • O «Paço do Duque» (Joana Lopes)
  • Quando sentei Delgado ao lado de Sandokan (João Tunes)
  • O enquadramento do fotógrafo cheio de piedade social (João Tunes)
  • Política e pertença (João Tunes)
  • Um bife na Brasileira do Chiado (Helena Pato)
  • Um, dois, três… vamos lá, outra vez! (Helena Pato)
  • Para umas formalidades no Paço do Duque (Helena Pato)
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    QUE FORÇA É ESSA? (SOBRE MULHERES RESISTENTES)

  • Que Força é essa? [apresentação] (Maria Manuela Cruzeiro)
  • Maria Eugénia Varela Gomes (Maria Manuela Cruzeiro)
  • Maria Ângela Vidal Campos (Irene Pimentel)
  • Maria Natália Teotónio Pereira (Joana Lopes)
  • Fernanda Paiva Tomás (Diana Andringa)
  • Sofia de Oliveira Ferreira (Irene Pimentel)
  • Judith Cortesão (Manuel António Pina)
  • Aida Magro (Maria Manuela Cruzeiro)
  • Julieta Gandra (Diana Andringa)
  •  
    MEMÓRIA HISTÓRICA EM ESPANHA (POLÉMICA)

  • O historiador e o justiceiro (Rui Bebiano)
  • História e justiça (Irene Pimentel)
  • Memória e cidadania (Joana Lopes)
  • Garzón e o rosto dos vencidos (Miguel Cardina)
  •  
    CONTRIBUTO PARA A HISTÓRIA DO MES (por EDUARDO GRAÇA)

  • I Congresso do MES – algumas reflexões tardias
  • Criação e Extinção do MES – algumas reflexões tardias (II)
  • MES – Os dirigentes fundadores (I)
  • MES – Os dirigentes fundadores (II)
  • MES – O documento da ruptura do grupo de Jorge Sampaio no I Congresso (III)
  • MES – Os dirigentes eleitos no I Congresso (IV)
  • O discurso do MES silenciado no 1.º de Maio de 1974 – António Santos Júnior
  • MES – O II Congresso de Fevereiro de 1976 (I)
  • MES – Os dirigentes eleitos no II Congresso (II)
  • MES – Resolução da 8.ª reunião plenária do Comité Central
  • Breve resenha histórica da imprensa do MES (I)
  • Breve resenha histórica da imprensa do MES – o jornal «Esquerda Socialista» (II)
  • Breve resenha histórica da imprensa do MES – o jornal «Poder Popular» (III)
  •  
    DOSSIER «ELEIÇÕES 69»

  • As «eleições» e a guerra (João Tunes)
  • A extrema-esquerda e as eleições de 69 (Miguel Cardina)
  • Entrevista com José Tengarrinha (à Seara Nova) (Helena Pato)
  • Onde é que estavas a 26 de Outubro de 1969? (depoimentos dos redactores)
  • Evocação da CDE de Coimbra nas eleições legislativas de 1969
  • Vestígios da CDE (Artur Pinto)
  • Um dos acontecimentos mais importantes da actividade da Junta Central [da Acção Católica]- e uma das maiores fontes de conflitos – foi a participação portuguesa no III Congresso Mundial para o Apostolado dos Leigos, subordinado ao tema O Povo de Deus no itinerário dos homens, que se realizou, em Roma, de 11 a 18 de Outubro de 1967. Propositadamente, a data do seu início coincidiu com o quinto aniversário da abertura do Concílio Vaticano II.
    Por ter a meu cargo o pelouro das Relações Exteriores, estive especialmente envolvida neste evento desde a sua preparação. Esta consistiu, fundamentalmente, no lançamento e apuramento de resultados, em Portugal, de um Inquérito de âmbito mundial sobre «as primeiras experiências feitas do estudo e da aplicação dos ensinamentos do II Concílio ecuménico do Vaticano». Nada poderia corresponder melhor às aspirações dos que vinham lutando pelo aggiornamento da Igreja como força motriz do progresso dos homens. Em Portugal, houve uma larga adesão a este Inquérito por parte da Acção Católica e de outras organizações e até do público em geral, já que foi publicada na imprensa uma versão simplificada do conjunto de perguntas, incentivando­‑se a que fossem enviadas respostas individuais.             
    Foi um novo alento quando se ia já instalando uma certa descrença, não só em Portugal mas no mundo em geral, quanto às esperanças depositadas no Concílio que, recorde-se, tinha terminado dois anos antes, em 1965.            
    A delegação portuguesa ao Congresso foi composta por trinta delegados e cinco peritos, da Acção Católica e de outras organizações de leigos [1]
    As sessões decorreram em Roma, com grande entusiasmo e participação. Porque uma inesperada crise de apendicite atacou Sidónio Paes, coube­­‑me representar Portugal na recepção oficial de abertura do Congresso, oferecida pelo Papa aos presidentes das delegações nacionais. Eu fazia anos nesse dia e nunca tive um aniversário festejado com tanta pompa e circunstância, nos salões do Vaticano – quase que exemplar único do sexo feminino, embora rodeada por muitas saias, episcopais e cardinalícias.

    Os projectos apresentados no Congresso eram muito ousados para a época e os próprios termos em que estavam redigidos poucos vestígios guardavam do estilo clerical ainda corrente dentro da Igreja. Refiram­‑se, a título de exemplo, alguns dos temas abordados:

      – Condenação das práticas racistas e da discriminação racial e religiosa.
      – Defesa dos direitos das minorias, com menção concreta de solução justa para o problema dos refugiados da Palestina.
      – Prática de políticas realistas relativas à expansão demográfica.
      – Importância dos meios de comunicação social e seu compromisso com os oprimidos e desfavorecidos.
      – Plena igualdade de direitos do homem e da mulher na Igreja, e estudo do acesso das mulheres às ordens sacramentais.
      – Pedido no sentido de a doutrinação da Igreja sobre regulação da natalidade reconhecer aos pais a responsabilidade pela escolha dos métodos técnicos adequados.
      – Participação de leigos na eleição dos Bispos.

    Se foi grande o entusiasmo com que os congressistas viveram este acontecimento, não foi menor o verdadeiro alarme que ele provocou nos meios mais tradicionalistas da Igreja. E se isto aconteceu nos corredores do Vaticano e um pouco por todo o mundo, não será difícil imaginar o que se passou em Portugal! Recorde-se que se estava em Outubro de 1967, que os leigos – e também cada vez mais padres – se dividiam entre os que invocavam o Concílio, João XXIII e os primeiros tempos de Paulo VI para, aberta ou veladamente, condenarem o governo português e a cumplicidade que as autoridades religiosas com ele mantinham e aqueles que, pelo contrário, mais aberta do que veladamente, continuavam a defender, acima de tudo, os valores da tradição, da estabilidade e da disciplina.
    Nos últimos meses de 1967, quando começaram a espalhar-se os ecos do Congresso, os que tinham sido delegados a Roma foram convidados para múltiplas sessões de informação e de esclarecimento, nas mais variadas instituições, desde muitos organismos da própria Acção Católica até à Pragma.
    Com alguma lentidão na reacção, já em 1968, o jornal Novidades e o Pe.Videira Pires, responsável por programas religiosos na Emissora Nacional e na RTP, foram os arautos das posições anti­‑Congresso.
     No dia 9 de Fevereiro, o Novidades publicou um artigo de um seu correspondente no Vaticano, muito crítico, que afirmava entre outras coisas:

    «Este Congresso revelou várias surpresas a respeito “da disciplina católica dos fiéis em relação ao Magistério da Igreja”. Pareceu, por vezes, que era a ele que competia “formular directrizes” segundo o ponto de vista mais cómodo dos leigos. […] Não é despropósito afirmar que neste Congresso quem aproveitou foi o Maligno; mas as forças do inferno não prevalecerão contra a Igreja.» [2]

    Quanto ao Pe.Videira Pires, foi uma luta terrível. Em dois programas da Emissora Nacional, em 18 e 25 de Fevereiro de 1968, criticou duramente não só o Congresso mas também os dirigentes da Junta Central, acusando­‑os de não estarem a corresponder à confiança neles depositada pelos bispos. Quanto ao Congresso, afirmou:

    «Quando, em Outubro passado, se realizou, em Roma, o III Congresso Mundial para o Apostolado dos Leigos, alguns ruidosos progressistas portugueses acusaram a nossa imprensa de ter desfigurado a sua face, propalando actos de rebeldia dentro dele manifestados e que não teriam passado de invencionices jornalísticas. Entretanto, principiaram a divulgar uma face beatífica, que estava em contradição com o que os filmes e as fitas magnéticas nos revelavam. […] Já não vivemos no reino da Acção, mas no da confusão.» [3]

    Recusar­‑se­‑ia depois a ler esclarecimentos enviados, ao abrigo do direito de resposta.
    Eu fui entrevistada por ele sobre o Congresso, nos estúdios da RTP, mas a entrevista nunca foi emitida.
    A campanha contra a Junta Central e o Congresso prosseguiu na imprensa, na rádio e na televisão.


    [1] Composição da Delegação Portuguesa: Delegados: Sidónio da Freitas Branco Paes, Fernando Abreu, Maria Joana de Menezes Lopes, José Manuel Galvão Teles, Maria Vitória Pinheiro, Maria Cristina Rocha, Luís Rocha, Maria Regina Silveira e Sousa, Maria Fernanda de Freitas Morna, Lídia do Carmo Sousa, José João Campos Rodrigues, Eduardo da Silva Pereira, Maria Palmira Lopes, Maria Madalena Bensaúde, Filipe Bensaúde, Maria Helena Nabais dos Santos, António Nabais dos Santos, José Mendes Ferrão, Maria Isabel Meireles, Maria de Lurdes Valadares Tavares, Maria da Conceição Pizarro de Mello, Maria Teresa Santa Clara Gomes, António Quadros Ferro, Maria Joana Veloso, Maria Luísa Pardal Monteiro, Padre Orlando Leitão, Padre José Serrazina, Padre Agostinho Jardim Gonçalves, Cónego Maurílio de Gouveia, Padre Armindo Duarte. Peritos: Eduardo Veloso, Maria Berta Peixoto da Costa, Maria de Lourdes Belchior, Rogério Martins, Teresa Martins de Carvalho. (Para além da Acção Católica, encontravam­‑se, entre os delegados, representantes dos seguintes movimentos: Apostolado da Oração, Cursos de Cristandade, Cursos de Preparação para o Matrimónio, Equipas de Nossa Senhora, Graal, Noelismo, Obra de Protecção à Rapariga e Sociedade de S. Vicente de Paula.)

    [2] Emilio Marini, Novidades, 9/2/1968. Este artigo foi mais tarde publicado no Boletim da Acção Católica Portuguesa, nº 389, Fevereiro – Abril, 1968, pp. 44-45. O sublinhado é meu. Nas pp. 46-47, encontramos o texto do protesto enviado pela Junta Central ao jornal Novidades, que este publicou em 11 de Fevereiro, e, nas pp. 48-63, um longo artigo que Sidónio Paes escreveu, ainda sobre o Congresso, e que aquele jornal publicou mais tarde.

    [3] O texto desta intervenção radiofónica foi fornecido pelo autor e publicado no mesmo número do Boletim da Acção Católica Portuguesa, pp. 71-73.

     
    Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória, Âmbar, 2007, pp.102-106.