Um texto de José Augusto Rocha (*)

Com a partida de Saldanha Sanches para as longínquas paragens do além, desaparece um cidadão que foi um grande exemplo de coragem, de dignidade e de lucidez e que soube libertar, desde a juventude, o coração de toda a inércia da indiferença. Desaparece alguém que soube dizer sim à fraternidade e ao amor e que na memória dos amigos nasce todos os dias, manhã cedo.

Foi vasta, dura e persistente a luta política de Saldanha Sanches e quando chegou a alvorada do 25 de Abril, estava preso e ia ser julgado no Tribunal Plenário, no seguimento de um despacho de pronúncia, de 1 de Fevereiro de 1974, subscrito pelo Juiz, Serafim das Neves. Militava então no MRPP, organização que o despacho de pronúncia descrevia como “uma organização embrionária do futuro Partido Revolucionário do Proletariado Português e rege-se, quer na sua linha política, quer nos seus métodos organizativos, pelas doutrinas e teorias do marxismo leninismo, adaptando na sua actuação prática os princípios básicos dos processos revolucionários de Lenine e Mao-Tsé-Tung.”

A acusação, para fazer o enquadramento dos crimes contra a segurança do Estado, prosseguia, dizendo: “ sendo portanto uma organização de índole comunista do tipo marxista-leninista-maoista e que preconiza a luta armada, adaptando ainda métodos anarquistas na prossecução da sua actividade e visa como seu principal objectivo, conseguir por meios violentos, quer pela insurreição armada, quer por táctica de guerrilha, o derrube do regime vigente com a consequente alteração da Constituição Política.

Igualmente vem exercendo actividade de captação para os seus propósitos, nos meios militar e juvenil. Pretende assim lograr a instauração de um sistema político da ditadura do proletariado.”

O despacho de pronúncia, acusava nomeadamente Saldanha Sanches de, “a partir de 18 de Dezembro de 1971, após restituição à liberdade, cumprida a pena em que havia sido condenado em outro processo político, retomar a sua actividade em prol do pensamento político que perfilha, integrado no Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado- M.R.P.P.”

Após várias imputações de factos, a acusação continuava a descrever a sua actividade política e esclarecia que “na qualidade de membro da referida organização, desenvolveu então intensa actividade partidária, especialmente no sector estudantil, designadamente na Faculdade de Direito de Lisboa, incitando os estudantes a insurgirem-se contra as instituições políticas actualmente vigentes.”

Flui desta acusação um grande respeito que a PIDE tinha pela sua personalidade de lutador, expressa em passagens como esta:”…pela sua devoção à causa da organização que serve, o citado réu assumia nela importantes funções directivas e como dirigente com ampla esfera de acção e iniciativa, orientava e dirigia muitos dos elementos da aludida organização.”

Uma das facetas da sua corajosa intervenção cívica e política, está bem expressa no empenho que punha na denúncia das violências que eram vítimas anónimos cidadãos e que lhe valeram graves incómodos, como aconteceu no processo que correu os seus termos no 10º Juízo Correccional de Lisboa.

Na última vez que vi Saldanha Sanches, quis dar-lhe este processo, que tenho no meu arquivo, mas disse-me que não valia a pena.

Em homenagem à memória de Saldanha Sanches, gostaria de lhe dedicar este poema de Carlos Ary dos Santos:

Retrato do Herói

Herói é quem num muro branco inscreve

o fogo da palavra que o liberta

sangue do homem novo que diz povo

e morre devagar de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve

lhe ser o nome próprio traz aberta

a alma à fome fechado o corpo ao breve

instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado

não é santo nem mártir nem soldado

mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombado apavorado

dá o sangue ao futuro e fica ileso

pois lutando apagado morre aceso.

(*) Biografia de José Augusto Rocha