Em 1964, com o fascismo no seu pleno, eu tinha 25 anos, ia a caminho de me tornar uma marxista-leninista convicta e já lutava fervorosamente nas fileiras do PCP. Para mim, era sagrada a frase “um terço dos países do mundo e dois terços da humanidade vivem em regimes socialistas” e lembro-me que sonhava com a oportunidade de, no futuro, poder conhecer de perto o mais avançado desses países, a “pátria-mãe” das sociedades sem classes – não havia de morrer sem ver o socialismo com os meus próprios olhos.

O dia em que me comunicaram que iria integrar a delegação portuguesa ao Fórum da Juventude, em Moscovo, foi um dos dias mais felizes da minha vida. À partida, éramos 10 – apenas duas raparigas – e nem todos militantes do partido. Saímos de Portugal, a conta-gotas, para Paris. Foi aí que se planeou cuidadosamente essa viagem à União Soviética e foi também aí que ficou um dos companheiros, desistente – o risco de se ser preso no regresso a Portugal era grande.

A 13 de Setembro, ainda Verão na Europa, voei sozinha para Moscovo, trajada tão primaveril quanto me pedia a minha alma. (Hoje, quer-me parecer que, de facto, não tinha ninguém assisado por perto…)

Quando desci a escada do avião, nevava, e não exagero se disser que a temperatura rondava os 15 graus negativos. Atravessei a pista em sandálias e casaquinho de malha, debaixo de uma aba de um opulento casaco de pele de raposa, pertencente à camarada russa destacada para me ir receber. Poucos minutos depois, essa simpática acompanhante recusava, em tom firme do poder, a entrega do meu passaporte à polícia, facultando-lhe uma folha à parte, dobrada em quatro, destinada a ser carimbada conforme o que fora combinado com a Embaixada Soviética, em Paris. (Carimbo de entrada num país socialista dava prisão pela PIDE, seguramente).

Os enormes prédios e a ampla avenida que percorremos após a saída do aeroporto (dezenas e dezenas de quilómetros) deixavam-nos embasbacados: porque, provincianos, nunca viramos nada assim, mas também porque o nosso olhar estava particularmente desperto para admirar as glórias do socialismo.

Porém, a intervenção divina apenas desceu sobre mim assim que subi ao 28º andar do hotel Ucrânia, junto ao rio gelado. O ambiente era quente, de extremo conforto, eu via a prosperidade soviética estampada no luxo daqueles mármores e no esplendor dos candeeiros; e a velhota gorda com lenço de flores coloridas na cabeça – que parecia viver sentada por trás da secretária do piso – tinha um sorriso derretido, de avó de aldeia, sempre que me oferecia chá e trocávamos gestos de simpatia. Não seria solidariedade internacionalista, mas era assim que o sentia. Todas as palavras que eu compreendia ou não, todas as expressões, todos os sorrisos, vindos de quem se cruzava comigo nos espaços imensos do hotel, eram, inquestionavelmente, sinais da fraternidade comunista.

Pouco tempo depois, fui visitada no quarto pelo G., o funcionário do partido responsável pela nossa instalação – um grande amigo com quem não me encontrava há anos – que me informou que os restantes portugueses chegariam no dia seguinte. Timidamente, queixei-me de não vir preparada para o frio. Roupas quentes e uns sapatos? Não era fácil resolver, mas talvez a S. (que iria aterrar em Moscovo com malas e bagagens, já preparada para mergulhar na clandestinidade) pudesse emprestar-me. Assim foi. Roupa, tudo bem, mas os seus sapatos eram dois números abaixo. Como, à conta do plano quinquenal – (verifiquei-o por mim e enchi-me de compreensão, claro…) – não tinha qualquer hipótese de adquirir calçado moscovita, andei uma semana – só visto! – com os meus pés, habituados ao 39, enfiados num 37 da S., sempre que era preciso sair do hotel. Nem por isso deixei de me fascinar com os quilómetros subterrâneos, apalaçados, do metro, e com a Praça Vermelha, aonde fui sem companhia, calcorreando as ruas da cidade. Nem por isso perdi pitada do espectáculo de glória, na abertura do Fórum: danças e cantares de todas as repúblicas soviéticas, inebriantes pela cor e perfeição, milhares de jovens de todo o mundo, beijos de milhares de crianças vestidas de branco, milhares de laçarotes em tranças loiras, milhares de pombas esvoaçando sobre gigantescos panos que gritavam em todas as línguas: “Paz!”. E eu, ali parada, numa emoção inigualável, tocando o sobrenatural, certa de estar perante uma antevisão do futuro da humanidade. Nunca imaginando que o melhor da viagem ainda estava para vir: o milagre iria acontecer e não podia ser maior.

Quando, pela manhã, fui acordada com um telefonema do G. – “Desce, logo que estejas pronta!” – julguei que seria para me juntar aos dois amigos que ainda aguardávamos de Portugal. Mais precisamente, de Coimbra. Enganei-me. “Surpresa, surpresa, amiga!”: o G. deu-me o braço e, em silêncio, conduziu-me ao elevador.

Subimos a um andar do topo do Hotel. A meio de um corredor do tamanho da minha rua, o camarada tocou, e a porta abriu-se pela mão de alguém que afavelmente me mandou entrar: Álvaro Cunhal, esculpido em beleza e serenidade. Sentados à mesa, conversámos uma boa hora – eu, em êxtase, e ele, sôfrego de notícias frescas. Pretendia sondar-me sobre a eventualidade de passar a tomar o pequeno-almoço com a nossa delegação: “Será que os amigos que não são do partido verão a minha presença com bons olhos?”. Combinou-se: todos os dias iria ter connosco.

“Dás-me um cigarro?”, perguntou, enquanto me respondia acerca da sua fuga de Peniche, três anos antes. Depois, veio a confissão que eu ouvi enternecida: “Sabes, camarada? É que fumas o mesmo que eu fumava em Portugal!” Foi uma espécie de senha, o cartão de entrada para um estádio superior de felicidade: no dia seguinte, quando nos sentámos à mesa do pequeno-almoço (coberta dos extraordinários manjares de sempre), ofereci-lhe todos os maços de cigarros que levara e passei a fumar tabaco russo, horroroso, adocicado. Entretanto, os meus companheiros cochichavam entre si, meio estremunhados (às 7 da manhã), mas cheios de orgulho: “Vejam lá se a “Passionária”, que também está neste hotel, vem, um dia que seja, tomar o pequeno-almoço com a delegação espanhola! O “nosso” é outra coisa!”. Aquelas refeições com o Cunhal e o Chico Miguel eram momentos de bom humor, de histórias, de novidades, nunca de conversas ideológicas.

Terminado o Fórum, a delegação portuguesa partiu de visita a Leninegrado, mas eu e o M., por obrigação de ofício, isto é, porque o partido nos pedia mais, ficámos em Moscovo para participarmos numa conferência de solidariedade com os povos de Portugal e Espanha. Tínhamos preparado a intervenção em linhas gerais, íamos para a mesa da presidência os quatro (a S., o G., eu e o M.), mas era o M. quem usava da palavra. A poesia e a voz pertenciam-lhe: ninguém como ele para tocar corações, para marcar pela emoção o testemunho do sofrimento do nosso povo. Habitualmente, bastava uma palavra sua e fazia-se silêncio.

Não senhor. Deixou-me sozinha a improvisar, naquela sala repleta de gente. Correu bem, mas teria sido outra coisa se ele tivesse chegado a horas, se na véspera se tivesses deitado mais cedo, se lhe ocorresse comportar-se de acordo com a moral comunista que religiosamente nos orientava, que discutíamos, que víamos e revíamos nas reuniões. Não senhor. Assim não foi: atravessou-se-lhe pela noite dentro uma camarada internacionalista, mais persuasiva do que seria desejável, e eu fiquei a rogar-lhe pragas durante horas.

Frescuras da juventude.

Recordações de uma viagem que não interessam rigorosamente a ninguém, senão ao então “controleiro” do M. que jamais soube das razões do atraso. Ou, hoje, talvez interesse ao próprio – em maré de memórias muito distantes. Quem sabe?