(Marcelo Caetano, na varanda da Reitoria)

A propósito da recente comemoração de mais um Dia do Estudante de 1962, venho aqui trazer alguns aspectos menos conhecidos. A história deste dia é, de uma maneira geral, conhecida: a invasão da cidade universitária, as cargas policiais, os plenários, a atitude do reitor, etc. Embora, aqui e acolá, com alguns pormenores menos correctos, mas que não tiram a verdade aos factos. O que é menos conhecido, às vezes mesmo completamente desconhecido, é o seu relato humorado feito em verso. É o caso do aproveitamento dos Lusíadas para relatar uma parte do sucedido.

I
As moças e os rapazes espancados
Que da Universidade Lusitana
Por transes nunca dantes passados
Quasi que perderam a tramomtana (1)
Por ministros e policias escorraçados
Mais do que permitia a estupidez humana
Cantando espalharei esta toada
Enquanto não vier a coronhada

II
Calem-se de Wengoróvias e de Eurico
A fama dos discursos que botaram
Não se fala mais do ilustre génio
Que capitão da polícia nomearam
Que eu canto o espólio vasto e rico
De castanha que as gentes apanharam
E tudo o que a musa antiga trama
Que muita malta ainda está de cama

(1)   No exemplar em meu poder está transmontana, mas é evidente que é um lapso cometido, talvez, por um arreigado regionalista.

E como este há outros exemplos. Para mim, o mais completo é o Fado do Dia do Estudante, com música do chamado fado triplicado. Reza assim:

I
Certo Dia do Estudante
Deu-se um caso interessante,
Ao mandado do ministro:
Mandou fechar a cantina
Com polícia em cada esquina
Sem o reitor saber disto

II
Reuniu-se a malta então
Numa grande confusão
À porta das faculdades;
A polícia então chegou
E toda a malta gozou
As muitas autoridades

III
Malta despreocupada
Que não sabia de nada
Chegou e ouviu discursos;
Ficou parada a olhar,
Sem saber o que pensar,
Gente de todos os cursos

IV
E na hora do almoço
Deu-se um caso interessante,
A polícia retirou;
O que é que havia de ser
Foram à cantina ver
Se alguma coisa sobrou

V
Houve jogos nessa tarde
No estádio da faculdade;
E entre grande animação
A polícia entusiasmada
Desatou à bordoada
E entrou na competição

VI
Convidados p’r’a jantar
Num salão do Lumiar
Lá fomos todos contentes;
Mas logo no Campo Grande
Houve porrada da grande
Só jantaram os doentes

VII
Chegou o terceiro dia
Num luto sem alegria
À espera da decisão;
Ela chegou radiante
Há o Dia do estudante
Quem quer vai, quem não quer não.

Visto à distância de quase 50 anos continua a ser um relato completo e fidedigno daquele fim-de-semana: dos factos, do ambiente e das expectativas.  Mesmo os que não os presenciaram podem ter uma noção muito próxima do que se passou. Até o aspecto inesperado da proibição e do espanto de muitos perante os plenários que se sucediam em frente à reitoria, novidade absoluta numa universidade pacata, está bem caracterizado nas estrofes II,  “reuniu-se a malta então, numa grande confusão…” e III “malta despreocupada, que não sabia de nada…”.

Esta irreverência manteve-se não só ao longo de toda a Crise de 62, mas ainda nos anos seguintes com o reitor Paulo Cunha, que substituíra Marcelo Caetano, a fornecer uma boa parte da inspiração.