Um texto de Isidoro de Machede (*)

O Bairro do Poço Entre as Vinhas era um lugar de habitações clandestinas construídas, tijolo a tijolo, por aqueles que demandavam a cidade grande em busca de uma vida de pão mais assegurado. A grande maioria, desterrados do campo pela mecanização da agricultura que, paulatinamente, os foi empurrando da sua terra pela ausência de jorna. Vivi neste meu Bairro dos momentos mais felizes da minha vida. Foi para mim a academia da sociabilidade solidária entre a infância e a adolescência. A seguir a Nossa Senhora de Machede era, na prática, a minha segunda aldeia, só que colada à cidade grande.

Por si só o nome do Bairro era um livro aberto sobre o local. Um poço entre vinhedos cuja água teria servido para dessedentar os trabalhadores da dita cultura agrícola. Por volta da década de sessenta um qualquer sacripanta, contumaz da beatitude, resolveu renomear o Bairro de Senhora da Saúde. O velhíssimo poço, com a boca em granito trabalhado, ainda lá mora completamente abandonado e ostracizado da história do local.

Tinha o Bairro a particularidade de ter as fronteiras de nascente e poente demarcadas por duas linhas ferroviárias. A nascente, a linha Évora-Estremoz. A poente, a linha Évora-Mora. A Sul do Bairro, na estrada que conduzia a Beja e Reguengos, junto da passagem de nível, bifurcava-se da linha para Estremoz o ramal de Évora-Reguendos de Monsaraz, distanciando-se em direcção a Este.

Daí sempre ter tratado os comboios tu cá tu lá. Ainda as locomotivas eram movidas a vapor. Só depois vieram as modernaças a diesel.
Ver passar aquelas enormes composições com carruagens de passageiros e uma infinidade de vagões de mercadorias, era o rotineiro filme diário. Parávamos as futeboladas e ficávamos ali de dedo espetado a contar o tamanho da serpente com cabeça de ferro.

O êxtase absoluto era viajar nos ditos com toda a gente a balançar certinho, de um lado para o outro, como se fossemos o pêndulo do relógio da avó. E a paisagem a correr vertiginosamente cortada regularmente pelos postes do telefone ferroviário.

Quando recordo o facto do Bairro do Poço Entre Vinhas ser quase uma península rodeada por todos os lados menos por um de linhas ferroviárias, há três coisas que ainda me deixam a remoer inquietudes e aprendizagens da infância. Ter aprendido de que lado estava o vento pela nitidez do apito da locomotiva. O comboio ter um lado fatal, dado ser o principal instrumento de suicídio das gentes das redondezas. E outra coisa que me produzia uma impressão que nunca consegui descortinar. Ainda hoje me aflige a sua nebulosidade. O facto das composições que exclusivamente transportavam militares, fardados de caqui amarelado, do quartel de Estremoz directamente para os barcos atracados em Alcântara e daí para a guerra colonial. A estranheza de os ver passar, com meio corpo fora das janelas, a acenar e a gritar uma alegria que não o era certamente.

O ramal de Mora, é hoje a ecopista da cidade. Faleceu vai para um ror de tempo. O ramal de Reguengos de Monsaraz foi pelo mesmo caminho. O ramal de Estremoz ainda existe, mas o seu uso é quase nulo. Daí que a estação de Évora é, a bem dizer, o final da linha. Entre as poucas composições que lhe dão uso, há seis ligações diárias de e para Lisboa realizadas pelo Intercidades. É uma composição rápida, confortável e a um preço módico. Mais barato que as dos autocarros expresso. Ultimamente tem surgido o rumor que a CP se prepara para encerrar a linha.
Decididamente não entendo a política de transportes deste país. Se é que há alguma coisa para entender?

(Publicado no blogue Alentejanando)

(*) Biografia de Isidoro de Machede