Em Abril de 61 tinha 13 anos.

Nascida em Angola, seguia com inquietação as notícias que dali chegavam, acompanhadas de fotografias de cadáveres decepados, mulheres fugindo com crianças nos braços. Uma ideia terrível: podia ter sido eu, podia ter sido a minha mãe ou o meu pai, a minha irmã, uma das minhas maiores amigas. Outra ainda: não tenho direito à terra em que nasci. E a tentativa de encontrar explicações, de compreender uma violência à partida incompreensível. Recordações de outras violências, comentários, exemplos. E a evidente perturbação dos adultos a aumentar a minha, a tornar difícil qualquer pergunta, qualquer resposta.

Angola, os acontecimentos no Congo, a prisão e depois a morte de Lumumba, a violência, a dúvida, a insinuarem-se entre as aulas, os livros escolares, as conversas à mesa, as próprias brincadeiras no quintal.

E, de repente, Gagarine. O primeiro homem no espaço.

“Um rosto extraordinariamente jovem e simpático, sob o capacete de couro maleável dos aviadores soviéticos”, assim o descrevia a notícia do Diário de Lisboa, e continuava: “Tem olhar vivo e inteligente, nariz direito, ligeiramente grosso, junto à testa, como o dos pugilistas, lábios carnudos e bem desenhados. Gagarine tem uma covazinha quase imperceptível no queixo.”

Essa covazinha no queixo aproximava-nos, tornava-mo quase familiar. E o primeiro homem a viajar no espaço, o filho de um carpinteiro, a quem a invasão alemã interrompera os primeiros estudos, devolvia a alegria e o sentido a um mundo perturbado. Já não olhava para a terra lembrando-me da minha, manchada de sangue, mas o céu, esse céu onde Gagarine dera a volta à Terra em “exactamente 108 minutos” (volto a citar o DL). A minha cadela, cúmplice de todos os minutos, já há algum tempo era, de quando em vez, rebaptizada de Laika. E eu, eu, por esses dias, adoptei um nome especial, que me permitia recriar com ela, no quintal, fantásticos passeios pelo espaço: Yuri Gagarine, pois claro.

Então eu era o herói e a minha cadela só falava russo…

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