Um texto de Isidoro de Machede (*)

Quando gaiato, entre as diversas brincadeiras que praticávamos, havia um clímax de inesperado arroubo que era despoletado por um grito: cu à parede! A loucura era nem mais nem menos que uma desregrada peleja de todos contra todos a pontapear o parceiro mais a jeito nas nádegas. Daí o famigerado berro que um dos moços subitamente bradava, avisando assim do modo de acautelar ser chutado no traseiro. Tal como bruscamente começava a desordem total, igualmente parava de uma forma súbita, com a rapaziada completamente embezerrada por mou da caótica e violenta peleja. Os aleijões nunca eram de monta e desapareciam por encanto com uma forte risota geral.
Hoje, um arrebatamento semelhante, seria certamente apelidado de bullying grupal. Coisa que deixaria os circunspectos psicólogos a debitar teses da treta sobre comportamentos desviantes devido ao indevido blá, blá, blá, blá…
Actualmente nada disto acontece, apenas porque os putos já não brincam na rua. Nem sozinhos nem em grupo. Esta salutar fogosidade infantil foi, aos poucos e poucos, substituída por uma violência realmente maligna na formação do carácter, subtilmente transmitida solitariamente pelos écrans dos computadores e televisores superlotados de Rambos virtuais.

Agora, sarcasticamente, o berro de «cu à parede» entre a criançada, apenas continuaria a fazer sentido com o avizinhar dos pastores terrenos do Divino Mestre!

(Publicado no blogue Alentejanando)

(*) Biografia de Isidoro de Machede