Recebemos da ASOCIACIÓN PARA LA RECUPERACIÓN DE LA MEMORIA HISTÓRICA DE EXTREMADURA o seguinte texto, com sugestão de publicação.


Trata-se da apresentação feita por
Dulce Simões durante o evento “Lisboa Porto de Saída”, organizado pelo Instituto Cervantes de Lisboa, nos passados dias 24 e 25 de Março. (Já publicado no blogue ARMHEX daquela Associação.)

 
O governo regional da Estremadura espanhola atribuiu ao município de Barrancos o seu máximo galardão, a Medalha da Estremadura de 2008, como símbolo de reconhecimento e gratidão pela solidariedade e acolhimento a todos os estremenhos forçados a fugir do seu País em virtude de conflitos sociais e políticos. Ao longo do processo histórico a fronteira de Barrancos ligou e separou em função de contextos históricos específicos, pautados pela política dos Estados ibéricos e simultaneamente pela acção dos indivíduos, porque apesar de poder ser olhada como uma barreira, a fronteira foi sempre transcendida pelas redes sociais que servem de sustentação às culturas raianas. O reconhecimento institucional resultou de um movimento social iniciado em Fevereiro de 2009 no Facebook, na sequência da projecção do documentário “Los refugiados de Barrancos”, em Cáceres, por iniciativa de cidadãos espanhóis socialmente comprometidos com o movimento de recuperação da memória histórica da II Republica e do franquismo. O caso dos refugiados republicanos acolhidos em Barrancos, que permaneceu silenciado da história de ambos os países durante as ditaduras ibéricas, representando uma “memória colectiva” circunscrita à vida dos seus protagonistas e testemunhas, emerge assim como “objecto histórico” graças à sua mediatização. Neste caso a mediatização permitiu inscrever a memória do acontecimento na história contemporânea, numa versão legitimadora do presente, demonstrando como a memória representa simbolicamente um instrumento de poder. Como afirmou Jacques Le Goff, uma das grandes preocupações das classes e dos grupos que dominam as sociedades com História é tornarem-se senhores da memória e do esquecimento, e “os esquecimentos e os silêncios da História são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória colectiva”.

A guerra civil de Espanha provocou a mais importante “emigração forçada” ao longo da história de Espanha e a crise humanitária decorrente do deslocamento de milhares de pessoas exigiu a intervenção do governo republicano com a criação do Comité Nacional de Refugiados. Na fronteira portuguesa a sua entrada foi constante desde Caminha a Vila Real de Santo António, com maior incidência entre Agosto e Novembro de 1936. Javier Rubio identifica a existência de três momentos de exílios massivos de refugiados espanhóis para território português. O primeiro, na última semana de Julho de 1936, de centenas de carabineiros e milicianos que haviam resistido às forças nacionalistas, a sul da província de Pontevedra e de Orense. O segundo momento ocorre em Agosto quando os habitantes de Encinasola procuram refúgio em Barrancos receando os confrontos entre os carabineiros fiéis ao golpe militar e as milicias republicanas provenientes de Riotinto. Este grupo, constituído principalmente por mulheres, crianças e idosos foi acolhido por várias famílias barranquenhas, com as quais mantinham relações de amizade e de parentesco. O terceiro momento resulta do êxodo republicano provocado pela tomada de Badajoz e a consequente ocupação das localidades estremenhas fronteiriças, pelos nacionalistas. Entre Agosto e Setembro milhares de pessoas procuram refúgio em Portugal, activando as redes de relações sociais com portugueses e compatriotas republicanos. Destes milhares de refugiados algumas centenas de militares e representantes do poder local e regional foram detidos em presídios pela PVDE, enquanto centenas de civis concentrados em Campo Maior e Elvas foram entregues aos nacionalistas na fronteira do Caia.

Entre a chegada dos primeiros refugiados e Outubro de 1936 foram registadas diversas entregas aos nacionalistas, sem contudo ser possível precisar o seu número exacto. Esta actuação sistemática das autoridades portuguesas obrigou o Governo republicano a apresentar ao Comité de Não Intervenção de Londres uma acusação contra Portugal, denunciando a entrega de refugiados às forças nacionalistas para fuzilamentos sumários em Badajoz. Neste contexto de atrocidades e violação dos direitos humanos, os campos de refugiados improvisados na Herdade da Coitadinha e na Herdade das Russianas representaram uma excepção, permitindo a sobrevivência de cerca de 1.020 pessoas. O historiador César Oliveira avançou com uma previsão sobre o número de refugiados republicanos, considerando os entregues e os que foram acolhidos em Portugal, “num valor superior a 2.000 pessoas, podendo mesmo ter ultrapassado as 3.000”. Por outro lado, Javier Rubio fala-nos de 5.000 a 6.000 exilados republicanos em Portugal.