Os “Caminhos” deram o devido destaque de lembrança, embora com a inevitabilidade da insuficiência face á riqueza política e histórica da importância crucial dessa ruptura na fábrica de elites da ditadura, à resposta da juventude estudantil à repressão ao Dia do Estudante de 1962, empurrando para a luta antifascista muitos dos destinados a serem quadros de garantia do regime e integrarem as suas elites (e só por isso e para isso acediam à Universidade).

Os depoimentos de José Augusto Rocha, Isabel do Carmo, Jorge Sampaio e Helena Cabeçadas, são indispensáveis e esclarecedoras visitas de memória a acontecimentos que marcaram o despertar político com vontade de combate para tantos que, depois, não interromperam as tarefas de enfrentar a ditadura até à sua queda, com disponibilidade política ainda suficientemente viçosa em 1974 para serem “quadros destacados” da revolução e da construção democrática, muitas vezes repartidos em diferentes e conflituantes trincheiras, de que uma parte sobreviva e restante ainda hoje é renitente a calçar as pantufas da pré-reforma na intervenção cívica. O que, só por si, é demonstração da profundidade do erro do salazarismo quando, em Março de 1962, respondeu com a pulsão da brutalidade cega e estúpida à tentativa de se comemorar o Dia do Estudante em 24 de Março de 1962. Se é verdade que, numa qualquer luta, a maioria dos sucessos se devem a erros crassos cometidos pelo adversário, então a luta antifascista depois de 1962, a revolução de Abril e a construção e sustentação da democracia portuguesa, “muito devem” a Salazar, à polícia de choque e à PIDE. Sem a repressão fascista de 1962 que desencadeou uma generalizada e típica indignação juvenil, generosa e radical, obviamente com as proporções possíveis na sociedade portuguesa da época, muitos dos jovens estudantes de então nem sequer se iriam politizar quanto mais enveredarem, como aconteceu a tantos, pela luta revolucionária e clandestina contra a ditadura. É verdade que alguns dos “estudantes em luta” em 1962 se acomodaram ao refluxo que se seguiu, normalmente com a ajuda das pressões das famílias, tratando dos seus cursos e carreiras mais que da militância cívica, embora irreversivelmente “perdidos ideologicamente para o regime” e “marcados para sempre” pela vivência do Dia do Estudante, enquanto outros seguiram os caminhos do exílio, mais ou menos comprometido politicamente com a aversão à ditadura. Mas muitos foram os “estudantes de 1962” que foram rechear a militância clandestina do PCP (então a única força organizada com capacidade de ancorar o desejo de muitos jovens em passarem a formas “superiores de acção” contra a ditadura), carecendo a nossa bibliografia histórica e política de análises aos efeitos quantitativos e qualitativos deste grande influxo estudantil nos quadros e militantes do PCP (o que mudou, e muito, a repartição das origens sociais dos militantes do PCP – “partido da classe operária” – e intelectualizando-o), além daqueles que, depois fardados e mandados para as guerras coloniais, corroeram a unidade ideológica nacionalista da “frente militar colonial” e contaminaram politicamente, com a demonstração do absurdo criminoso daquelas guerras, os oficiais profissionais (e sem se ter em conta esta contaminação, não é possível entender o MFA).

Mas permita-se-me que realce o importante, terno (integrando-o na “boa” nostalgia histórica) e despido de tabus, depoimento de Helena Cabeçadas. Não só pela riqueza da escrita narrativa, como pela sinceridade, mas sobretudo porque coloca em protagonismos do olhar aqueles que, então, “ainda espreitavam para o palco” (o da luta contra um regime iníquo). Ou seja, ouvindo Jorge Sampaio (então um veterano académico e já em transição para a actividade profissional) e lendo Helena Cabeçadas (então uma miúda liceal), o quadro fica mais completo, fazendo a inclusão dos que maturaram politicamente em corolário da aprendizagem académica da luta e dos que fizeram uma maturação paralela, enquanto ainda cresciam como pessoas a saírem da adolescência e quando a ida para a Universidade era um simples projecto. Talvez por, na altura da “crise de 1962”, eu ser ainda um estudante de uma escola industrial, longe portanto da vivência universitária, portanto dos contornos específicos do conflito, nomeadamente quanto aos efeitos particulares das indignidades do famigerado e badalado decreto 40900, percebo bem e encaixo a narrativa de Helena Cabeçadas sobre o efeito de contaminação e adesão vinda daquela gesta de confronto entre os estudantes universitários e a repressão salazarista de 1962. Uma contaminação de despertar para o activismo político antifascista que, funcionando em círculos de pedrada no charco, gerou processos de imitação nos mais jovens e pré-universitários ou não-universitários que, depois e nas condições terríveis de refluxo 63-69, sujeitos a um feroz e demolidora repressão da PIDE (sobretudo a que se deveu á traição ou infiltração de Nuno Álvares Pereira, um quadro do PCP que controlava e conhecia toda a organização comunista estudantil), alimentaram a continuidade da contestação estudantil, embora sem semelhança de dimensão e envolvimento com o pico espectacular de 1962 que só replicaria em 1969, em Coimbra. Mas a geração “do refluxo”, a de 63-69, recebendo o testemunho e motivada pelo exemplo exaltante e idealizado dos “de 62”, embora sem feitos comparáveis de mobilização da massa estudantil, foi fundamental não só a “aguentar” a contestação ao regime, como a politizá-la, sobretudo dando maior protagonismo à frente da denúncia e luta contra a guerra colonial, finalmente criando condições para o novo pico de 1969, uma ameaça maior para o regime que a verificada em 1962 e de que Caetano, até à sua queda, não mais recuperaria da erosão provocada pela academia coimbrã.

Helena Cabeçadas dá, ainda, uma nota importante (porque modera uma eventual tendência de sobrevalorização isolacionista e excepcional dos acontecimentos estudantis de 1962, como se estes tivessem brotado de terreno não semeado), a do contexto de luta contra a ditadura e que era mais extenso que o da valente luta estudantil, lembrando a importância da maior celebração do 1º de Maio durante o fascismo, a ocorrida no mesmo ano de 1962, incluindo os confrontos de carácter pré-insurrecional verificados nas ruas da baixa de Lisboa e na margem sul. Apetecendo-me lembrar ainda que, após o refluxo que se seguiu às eleições de 1958 (em que Delgado ameaçou seriamente o regime de Salazar), o regime era já fortemente corroído no imediato período pré-crise académica de 1962 (e que fez o caldo político de desconforto regimental que explica a aptidão para a luta dos estudantes universitários em 1962 e que “saltaram” quando provocados pela brutalidade policial no “Dia do Estudante”):

  • Janeiro de 1960 – Fuga de Peniche de altos dirigentes do PCP;
  • Janeiro de 1961 – Tomada do “Santa Maria” comandada por Henrique Galvão;
  • Fevereiro de 1961 – Insurreição anticolonialista em Luanda;
  • Março de 1961 – Início das guerras de libertação (Angola);
  • Abril de 1961 – Tentativa falhada de golpe contra Salazar, dirigida pelo General Botelho Moniz, então Ministro da Defesa;
  • Dezembro de 1961 – Fuga da prisão de Caxias de destacados militantes do PCP;
  • Dezembro de 1961 – Golpe de Beja, dirigido por Humberto Delgado, Manuel Serra, Edmundo Pedro e Varela Gomes.

Ou seja, quando se dá, em Março de 1962, o início de uma crise académica aguda, o regime fascista, com Salazar a entrar na sua fase de senilidade física e política, entrara já na fase de acosso, sofrendo golpes após golpes, uns mais duros que outros mas todos ferindo a pax salazarista, desferidos pelo antifascismo e outros vindos do interior do próprio regime, a que a entrada da luta dos povos submetidos ao colonialismo português conferiu a eminência do drama do fim da ditadura. Os lutadores estudantis de 1962, na hora de mostrarem as suas velhas e honradas medalhas de luta, não podem esquecer que enfrentaram uma ditadura com valentia mas já ferida por outros combates e combatentes.