Um texto de Helena Cabeçadas (*)

As greves e o movimento estudantil de 1962 despertaram-me para a política e para a luta anti-fascista. Nessa altura eu tinha 14 anos e estava no Liceu D. Filipa de Lencastre, em Lisboa, mas a minha irmã mais velha já estava no 1º ano do Técnico e participava com entusiasmo no movimento estudantil de contestação ao regime. Eu e algumas das minhas amigas, da mesma idade, fugíamos do Liceu para ir assistir aos plenários, na Cidade Universitária. Não estávamos integradas no movimento associativo liceal e tínhamos imensa pena de não estar ainda na Universidade. Tentávamos disfarçar que vínhamos do Liceu, as batas enroladas dentro das pastas, com receio que os universitários nos mandassem embora. E ficávamos quase em êxtase a ouvir os dirigentes associativos de então, os seus discursos inflamados, tanto mais apreciados quanto mais radicais.

Foi, pois, com grande entusiasmo que, no ano lectivo seguinte (1962/63), já no Liceu Rainha D. Leonor, aderi à Comissão Pró-Associação dos Liceus. Vivia-se, nessa altura, uma certa euforia, apesar das expulsões decorrentes das greves estudantis de 62. Abriam-se brechas fundas no regime – com a guerra colonial nas suas diferentes frentes de luta, o movimento estudantil cada vez mais radicalizado, a grande jornada de luta que fora o 1º de Maio de 1962… tudo isto nos dava a esperança de um fim próximo da ditadura.

Pouco depois, com 15 anos, aderi ao Partido Comunista, a única força política antifascista organizada na altura. Tenho a noção, hoje, de que teria aderido a qualquer outro partido ou grupo organizado antifascista que me tivesse surgido, fosse socialista, comunista ou anarquista, tal era o meu desejo de me empenhar na luta pela liberdade e pela democracia. Claro que, para nós, adolescentes, era uma aventura excitante estar numa organização clandestina, ter um pseudónimo e actividades secretas tendo, ainda por cima, um objectivo último exaltante: a construção de uma sociedade mais justa, mais livre e mais fraterna. Sentíamo-nos heroínas de filme ou de romance (falo no feminino porque a minha experiência directa se passava, de facto, num universo adolescente feminino). O anticomunismo violento do regime salazarista ainda mais exacerbava a atracção que a actividade clandestina do PCP exercia sobre nós.

Claro que ler Marx era uma tarefa difícil e maçadora e Lenine ainda pior, mas também não nos eram exigidas tais leituras que, aliás, não estavam disponíveis porque eram proibidas. Recebíamos o jornal do partido, o “Avante” e tínhamos que o distribuir, às escondidas, nas caixas do correio ou em locais que não dessem muito nas vistas. Era uma tarefa divertida porque tinha os seus riscos, fazíamo-la aos pares e, quando surgia alguém nas escadas do prédio, fingíamos, para disfarçar, que estávamos a namorar.

Recrutar novos militantes era outra das tarefas que nos era exigida: às tantas, já quase todas as nossas amigas estavam no PCP, pelo menos aquelas que nos inspiravam confiança e que sabíamos serem antifascistas. Na minha célula do Liceu, a mais velha, a “controleira”, tinha 16 anos, eu tinha 15 e as outras duas militantes tinham 14 e 13 anos…

Trabalhar no movimento estudantil e, no nosso caso concreto, na Comissão Pró Associação dos Liceus, que não era legalmente reconhecida, era outra tarefa importante, que nos permitia defender os ideais democráticos e alargar a luta contra o regime numa perspectiva unitária.

Éramos demasiado garotas para não cometer inconfidências. Tínhamos uma linguagem codificada para podermos falar entre nós sem que os outros nos entendessem. Procurávamos adivinhar, entre os rapazes, quais eram do PCP (os “laranjas”), quais os sociais democratas (os “maçãs”), embora não soubéssemos bem o que isso significava, e aos PIDES chamávamos “melões”. Fazíamos-lhes a cabeça em água, inclusive aos nossos namorados e fartávamo-nos de rir, nas turbulentas tertúlias que frequentávamos nos cafés da Avenida de Roma, sobretudo no “Branco e Negro”, mas também na “Suprema” (o único que subsiste) e no “Roma”.

A certa altura, neste ambiente divertido e de aventura, começaram as prisões. O funcionário clandestino do PCP que controlava o sector estudantil foi preso e passou-se para a PIDE, denunciando praticamente todos os militantes. Isto não era suposto acontecer, que o responsável de todo um sector de uma organização clandestina com a experiência de luta do PCP conhecesse todos, ou quase todos, os nomes dos militantes, mas assim aconteceu. Seguiu-se uma vaga de repressão feroz. Sucederam-se as prisões, as torturas… Já não se tratava de um romance de aventuras, era a vida real, os nossos amigos, namorados, colegas da nossa idade (ou mesmo mais novas, uma delas só tinha 13 anos), eram presos, submetidos à tortura e, pior que tudo, na sua maioria, falavam na prisão. De repente, todos, ou quase todos, aqueles que estimávamos e admirávamos, falhavam na altura crucial. Não falar na PIDE, sob tortura, era a prova real para um revolucionário. Falar na PIDE era a vergonha, o falhanço total, a traição.

A ética do PCP era dura, neste aspecto. E percebe-se que assim fosse, era uma questão de sobrevivência. Isso lhe permitiu manter-se como organização de resistência activa ao longo da ditadura. Falar, nem que fosse só para confirmar o que a PIDE já sabia, era considerado traição. E quem falava era afastado e desprezado pelos seus camaradas de luta e de partido. Sempre achei, no entanto, que quem não tinha passado por essa experiência extrema (da tortura) não tinha autoridade moral para condenar quem falasse, mas também compreendia que esta posição inflexível do PCP era essencial para fazer face a uma polícia política implacável como era a PIDE.

Eu tive sorte, a minha”controleira” foi das poucas que se manteve firme, não abriu a boca. Escapei assim àquela vaga repressiva. Recordo que, durante as semanas (ou meses?) que se seguiram a esta vaga repressiva, eu e minha irmã Graça acordávamos sempre de madrugada, à hora em que a PIDE costumava aparecer, à espera que isso acontecesse. O nosso pai estava internado no Hospital, na sequência de um grave ataque cardíaco, os nossos namorados tinham ido para a clandestinidade, os nossos amigos estavam quase todos presos. Foi um período sombrio. Líamos obsessivamente o “se fores preso, camarada” e o tremendo livro de Henri Alleg “La question” que, num estilo seco e despojado, descrevia a tortura brutal a que o autor fora submetido na Argélia e à qual conseguira resistir. Era o nosso herói (1).

Estava-se num período muito difícil da actividade política clandestina. À porta da minha casa estavam dois PIDES em permanência. Quando saíamos, éramos sempre seguidas, eu e a minha irmã Graça. Qualquer encontro clandestino exigia uma preparação prévia de despistagem complicada e que, se fosse à noite, ainda era mais difícil, pois processava-se a diferentes níveis: tínhamos que sair às escondidas dos meus pais, saltando por uma janela, e às escondidas dos PIDES. Não sei como conseguíamos fazê-lo, ajudávamo-nos uma à outra nesta tarefa quase impossível. Mas lá conseguíamos e, vencida essa etapa doméstica, restava a mais perigosa, que era despistar os PIDEs, o que exigia tomar vários táxis…ainda por cima com o muito restrito dinheiro que tínhamos. Enfim, era uma tarefa quase suicida, e nós tínhamos a noção disso. O que nos valia era que os PIDES (pelo menos “os nossos”, que deviam ser um bocado ranhosos) também não deviam ter dinheiro para táxis pois, tínhamo-lo constatado, só nos conseguiam seguir a pé ou de autocarro.

O trabalho semi-legal na Pró-Associação dos liceus também atravessava um período de refluxo. A vaga repressiva que atingira o sector estudantil do PCP fora demasiado forte, o medo instalara-se sub-reptício, os militantes sobreviventes, escassos e muito vigiados, tinham pouca margem de manobra. Os que não estavam presos tinham sido expulsos, descido à clandestinidade ou sido enviados para a colónia penal de Penamacor, onde cumpriam o serviço militar sendo, posteriormente, enviados para a guerra colonial e restando-lhes como opção única a deserção e o exílio.

A questão da guerra colonial, transversal a toda a sociedade portuguesa, agudizava todos os conflitos. Cada vez se falava mais da necessidade de enveredar pela luta armada contra a ditadura. A FAP (Frente de Acção Popular), na sequência do conflito sino-soviético, começava a afirmar-se no panorama político da época, inclusive nos liceus.

Uns meses depois fui presa na cantina universitária, juntamente com várias dezenas de estudantes que aí se encontravam. Fui levada para Caxias. Fiquei na mesma cela da minha “controleira” do PCP, não sei se por acaso se com intenção deliberada. Aí, o ambiente era de cortar à faca: como ela era a única que não tinha falado na PIDE, não falava com as outras companheiras de cela. Eu, como ainda não fora submetida a interrogatórios, podia falar com uma e outras, embora ela quisesse, naturalmente, que eu só falasse com ela. Isto numa cela fechada, 24 horas sobre 24, pode-se imaginar a asfixia. Quando me levaram para a sede da PIDE, na António Maria Cardoso, dois dias depois, julguei que ia para os interrogatórios. Atravessei corredores infindáveis dentro daquele sinistro local. Por fim, abriu-se uma última porta e era a rua, o ar livre, o céu azul de Lisboa, o Chiado fervilhante de vida. Abri e fechei os olhos várias vezes, para ver se não estava a sonhar. Não conseguia acreditar! Desci do Chiado até ao Rossio. Cheguei à paragem de autocarro, verifiquei se tinha dinheiro suficiente para o bilhete, e tomei o 9, que me levou a casa.

Na sequência desta prisão fui expulsa de todas as escolas do país por um período, na altura, indeterminado. Os meus pais perceberam que o meu futuro em Portugal, mais cedo ou mais tarde, seria a prisão e apoiaram o meu projecto de prosseguir os estudos numa universidade estrangeira. Foi assim que, em Agosto de 1965, aos 17 anos, parti da estação de Santa Apolónia, no Sud-Express. Saí ainda legalmente embora, claro, com receio de ser presa na fronteira. Sentia-me dominada por sentimentos contraditórios: apreensiva perante os exames de admissão que ia fazer, já em Setembro, à Universidade Livre de Bruxelas, e para os quais só tinha muito pouco tempo para me preparar, excitada e entusiasmada com a perspectiva de conhecer e viver “na Europa” (como se dizia então) e também culpabilizada, com a sensação de que abandonava a luta e os meus companheiros. Ainda não tinha decidido, aliás, se iria ficar mesmo na Bélgica ou se regressaria para a clandestinidade, passo que eu considerava demasiado grave para ser dado com ligeireza. Concedia-me a mim mesma três meses de reflexão, fora de Portugal. Depois se veria.

(1) – Em Maio de 2009 passou na TV francesa um filme sobre Henri Alleg, realizado por Kantcheff e intitulado “L’homme de la question”, deixando em estado de choque os franceses, que não faziam ideia que o seu glorioso exército tivesse sido capaz de praticar a tortura de modo tão brutal…tal como os deixou em estado de choque na altura da publicação do livro, em 1958.

(*) Biografia de Helena Cabeçadas