Como nos lembrou o excelente título do filme de Beth Formaggini, a melhor forma de honrar a memória é não a atraiçoar no dia a dia.

Por isso, em vésperas do tradicional jantar de aniversário da crise académica de 62, aqui trago uma notícia sobre o Dia do Estudante, 48 anos depois.

 
Assunto: 24 de Março, Dia do Estudante

Boa noite,

Venho por este meio informar que no próximo dia 24 de Março, Dia do Estudante, haverá uma manifestação em Lisboa que juntará estudantes dos distritos de Lisboa e Setúbal. Esta, organizada pela Delegação Nacional de Associações de Estudantes do Ensino Secundário e Básico, tem início marcado para as 10h na praça do Saldanha, devendo estar pronta para partir por volta das 11h00, e percorrerá a Av. da República até à Av. 5 de Outubro, onde se concentrará à frente do Ministério da Educação.

Já lá, alguns estudantes e Associações de Estudantes de várias escolas organizarão um protesto teatral simbolizando a falta de possibilidade de participação democrática nas escolas. Pretende também apelar aos alunos conscientes em todo o país que se organizem na luta pelos seus direitos. A ideia geral desta acção é montar uma sala da aula em frente ao Ministério, os seus pormenores só poderão ser conhecidos na altura.

As razões para estes protestos são várias, mas podem resumir-se ao combate aos ataques que têm sido feitos a um ensino que queremos que seja realmente público, gratuito e democrático:

O actual estatuto do aluno apresenta uma visão redutora e preconceituosa da juventude actual; o novo regime de gestão das escolas  é retrógrado e anti-democrático, afastando os estudantes dos órgãos de gestão da escola e centrando o poder na figura do director; um pouco por todo Portugal há ataques à liberdade e à representatividade dos estudantes, desde atropelos às Associações de Estudantes a ofensivas ao direito de manifestação e reunião, perante os quais o Ministério nada faz, mesmo quando avisado; a privatização dos serviços escolares prejudica imenso os alunos, principalmente aqueles com menos condições económicas; é necessário um real investimento na Educação, nomeadamente na melhoria das condições humanas das escolas – a falta de funcionários atinge níveis preocupantes em várias escolas.

Foram, obviamente, enviadas cartas ao Ministério pedindo uma reunião dia 24 para discutir as questões supra referidas.

Agradecia se pudesse contar com a devida divulgação e difusão destes protestos e desta mensagem. Muitas vezes os estudantes têm aparecido a nível da comunicação social como sendo todos inconscientes relativamente aos problemas do ensino. Se por um lado é verdade que é frequente haver alunos assim nas manifestações, por outro, na generalidade dos casos, a maioria dos estudantes presentes sabe e sente estes problemas no dia a dia. É preciso mostrarmos a realidade destes problemas e a realidade das várias Associações de Estudantes que lutam conscientemente contra estes. Em alturas como esta, em que está em causa a possibilidade da melhoria (ou degradação) do ensino é necessário deixar de passar uma imagem preconceituosa e redutora do movimento estudantil, mostrando os activistas que, por obra do Ministério, não conseguem aumentar a democracia nas suas escolas. Pedimos que seja tido em conta que os alunos elegeram democraticamente representantes para falar por eles (a partir do Encontro Nacional de Associações de Estudantes que aconteceu no passado dia 20 de Fevereiro, e no qual participaram dezenas de AEs).

Obrigado pela atenção,
Esperamos que nos possamos encontrar no dia 24 ou até antes,

Pedro Feijó,
pela Associação de Estudantes da Escola Secundária de Camões
http://xcamoes.blogspot.com/
Co-representante distrital da Delegação Nacional de Associações de Estudantes do Ensino Secundário e Básico

PS: Gostaria de fazer notar que, pela primeira vez em vários anos, o movimento nacional de estudantes não defende a abolição de Exames Nacionais, embora considere necessário mudanças neste sistema de avaliação.

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E, a (des)propósito, ocorre-me este poema de Jorge de Sena, escrito por alturas de uma outra crise estudantil em Portugal, então em plena  guerra colonial, embora referido aos Estados Unidos, a outra crise, a outra guerra.

Cadastrado

Uma vez, aos sete anos,
Partiu à pedrada a lanterna da porta da igreja.
Dez anos depois, conduzindo um carro,
Não parou num cruzamento de rua
Onde havia um sinal de stop.
Dois anos depois, teve uma briga
Num bar, e partiu a cabeça a um amigo
Com uma garrafa de cerveja.
Quando se recusou a combater no Viet-Nam,
O seu cadastro provava como desde a infância,
Sempre manifestara sentimentos
Nitidamente de traidor à pátria.

12/Agosto/1969
Jorge de Sena