Um texto de Jorge Pires da Conceição (*)

 
Acabadas as seis semanas do IAO em Santa Margarida e depois do curto período de férias de “despedida desta vida”, última oportunidade também para alguns “darem o salto” (recordo um camarada que nesses 10 dias teve tempo para dar o salto, telefonar para casa já para lá dos Pirenéus, conversar com uma familiar chorosa e regressar a Tomar, aguardando o embarque no Hotel Templários), na madrugada de 17 de Julho de 1971, entre a uma e as duas da manhã, embarcámos num longo comboio estacionado no apeadeiro de Santa Margarida.

Éramos perto de mil homens os que compunham os dois batalhões de caçadores formados no RI15 de Tomar e considerados prontos, como “carne para canhão”, para o “teatro de guerra” de Moçambique.

Essa primeira etapa da nossa viagem, que decorreu até às seis ou sete horas da manhã e que terminou junto ao cais da Estação Marítima de Alcântara-Mar foi uma das mais angustiantes de que me recordo em toda a minha vida e, julgo, não só para mim, mas para muitos de nós todos, pois era a primeira prova concreta, a certeza última, de ser verdade aquilo que nos esperava: a guerra!

Dentro do comboio ainda estacionado recebemos os nossos novos galões de alferes e as divisas de furriéis. Depois, sem paragens do comboio (não fosse alguém arrepender-se), em silêncio durante toda a madrugada, enquanto nos campos e nas povoações que ladeavam a linha férrea todos dormiam indiferentes à nossa passagem, vinha-me constantemente à lembrança aquela arrepiante viagem de comboio tão bem descrita por Gabriel García Marquez, suponho que no livro “Cem Anos de Solidão”, na qual um comboio carregado de cadáveres de revoltosos atravessava de noite silenciosamente as povoações adormecidas, fazendo de conta que nada de importante se passara…

Na Gare Marítima de Alcântara a animação voltou com a presença de centenas ou de milhares de civis que traziam um último quinhão de calor aos que tinham a sorte de ali terem familiares ou amigos. Muitos vagueavam atónitos e solitários. Um destes abeirou-se da minha mãe e, perguntando-lhe se era de Lisboa, logo inquiriu se conhecia a Maria, uma rapariga de Viana do Castelo que servia em Lisboa e que, embora ele pessoalmente não a conhecesse, lhe traria recados ou uma encomenda de seus pais que viviam no Minho…

O ambiente de pré-embarque, comum a todos eles e bem descrito por Fernando Assis Pacheco em “Walt”, com as senhoras do Movimento Nacional Feminino a surgirem-nos a bordo do “Niassa” antes de largarmos amarras e onde os soldados – porventura os que não tinham ninguém a despedir-se deles – gritavam imitando as pessoas no cais “Ai, o meu rico filho que…” e derivados mais tenebrosos…

O “Niassa”!… Simultaneamente o símbolo do prelúdio da guerra e a garantia de ela não se iniciar antes de decorridos 26 dias de viagem! Um interlúdio simultaneamente de frustração, de desespero, de conforto na (ainda) segurança, de expectativa do que iríamos enfrentar e, no meu caso pessoal, do modo como eu iria conseguir “trocar as voltas à guerra no terreno”, de modo a que a que minha contribuição para o seu sucesso, na perspectiva das NT, fosse a menor possível.

O “Niassa”, navio preparado para 22 passageiros em 1ª classe e trezentos em turística, com 132 tripulantes, perfazendo um total inicialmente estimado de 454 pessoas a bordo e transportando, na verdade cerca de 2.500 (!), resultado de terem embarcado dois batalhões de caçadores, uma companhia de paraquedistas, uma companhia de polícia militar, alguns pelotões de reconhecimento, de armas pesadas de infantaria, etc.. A 1ª classe ficou preenchida com os oficiais de patente a partir de capitão, enquanto que os oficiais subalternos, os sargentos e os furriéis ocupavam a classe turística. Os soldados e cabos, desde a primeira hora “carne para canhão”, foram metidos em andares nos insalubres porões (acabando muitos deles por preferirem dormir ao relento nos convés…).

Esta etapa da viagem, interlúdio multifacetado, com disse, entre os tempos de tropa e os tempos de guerra, foi preenchido das mais variadas maneiras, desde quem jogava (e logo ao segundo dia de viagem um ingénuo soldado da minha companhia chorava ter gasto já todo o pouco dinheiro que os seus pais custosamente lhe tinham dado para aguentar os primeiros tempos enquanto não recebesse do Exército, pois jogara na banca de “viradinho” que o Bairro Alto, outro da Companhia, montara num convés ainda o navio descia o Tejo…), a quem ficava mergulhado o dia inteiro numa tristeza saudosista, passando por uns poucos, como eu, que repisavam isoladamente ou em pequenos grupos as estratégias a adoptar para os tempos que se aproximavam.

Valeu-nos – a mim e a mais dois ou três oficiais subalternos – haver no nosso Batalhão um capitão miliciano que era um homem de esquerda, com gostos e prática culturais, que transportava consigo no camarote um gira-discos a pilhas e vários LP’s de grande qualidade, com música de intervenção nacional e francesa, poesia portuguesa e brasileira, jazz, etc.. Aí passávamos horas de cavaqueira ou apenas de muda audição.

Uma canção ali ouvida, “Johnnie”, pertencente ao LP «Le Déserteur et 13 autres chansons pacifistes», teve então para mim um significado muito especial, pois falava exactamente dum camponês ignorante e ingénuo retirado da sua terra natal para ir combater numa qualquer guerra da qual desconhecia os objectivos, tal como um grande número (a maioria?) dos que nós comandávamos.

Pergunto-me, hoje como então, quantos para além dos oficiais superiores (majores, tenente-coronéis e coronéis), seriam os que connosco navegavam e que consigo levavam o propósito propalado pelo Regime de defender o Império, o “Portugal do Minho a Timor”? Recordo-me dum comentário que me fez um alferes da minha Companhia, aquele de nós que menos contestava esta nossa participação na guerra colonial, “é absurda e ridícula esta nossa situação de sairmos de Lisboa com um único objectivo: o de regressarmos vivos e não estropiados, o de termos de ir passar dois anos da melhor maneira possível de modo a podermos voltar àquilo que nos interessa verdadeiramente. É como se suspendêssemos a nossa vida por dois anos”.

Entretanto, fomos navegando sempre sem a costa à vista (“em círculos”, disse-me o imediato, “para despistar o inimigo, cumprindo as ordens do comodoro” que chefiava as forças embarcadas…), até fazermos as habituais escalas em Luanda e em Lourenço Marques, actual Maputo – onde recebemos as armas e o equipamento pessoal – e desembarcarmos em Nacala, final da segunda etapa da viagem.

A Nacala seguiram-se três dias de comboio para percorrer os setecentos e tal quilómetros de via férrea até Vila Cabral, actual Lichinga, e capital da Província do Niassa, conhecida na gíria da tropa moçambicana pelo «estado de minas gerais»… Daqui eu ainda percorreria durante cerca de 20 horas os 60 Km que faltavam até Meponda, junto do Lago, estrada em que foram “picados” todos os palmos de terra que os rodados dos camiões haveriam de percorrer.

Mas o resto do Batalhão ainda embarcou nas LDM até Metangula (cerca de 80 km a norte) e duas companhias operacionais teriam de percorrer ainda por picadas minadas as dezenas de quilómetros que faltavam até Nova Coimbra e até ao Lunho (a do famoso cancioneiro) onde eu acabaria por ir parar dois meses depois, levando o meu pelotão em reforço dessa Companhia isolada e muito flagelada, mas a qual, em compensação era comandada pelo mesmo capitão que, no “Niassa”, nos abriu as portas do seu camarote e nos facultou a audição dos seus discos. E que ali de novo o fez!

 
Léxico: IAO – Instrução de Aperfeiçoamento Operacional; NT – Nossas tropas; LDM – Lanchas de Desembarque Médias

 
(*) Biografia de Jorge Pires da Conceição