O discurso sobre a identidade nacional acompanha-nos como uma sombra fiel, às vezes (tantas!) como uma assombração.

O tema sempre apaixonou o português mas em momentos de celebração, como este dos 100 anos da República, ganha inevitavelmente outra importância tomando de assalto a agenda política e mediática, normalmente saturadas de clichés e lugares comuns que em vez de conhecimento promovem um reiterado auto-desconhecimento.

Segundo esses lugares comuns sofremos de uma excessiva e patológica centragem sobre nós mesmos, mitificamos em excesso o passado e, consequentemente, desprezamos o presente, vivemos mais para os devaneios poéticos do que para a acção concreta, o que faz de nós um povo passivo e expectante, narcísico, megalómano, irrealista, pouco crente nas reais capacidades e muito mais confiante nos insondáveis desígnios da sorte, nos golpes imprevistos do destino.

Todos conhecemos esta vulgata sebastianista, divulgada por especialistas da ‘coisa vária’ de que encontramos ecos constantes numa cultura de massas cada vez mais ao serviço de um senso comum de que ela é, simultaneamente produtora e produto. Ou mesmo na dispersa conversa de café ou das ondas internéticas: doce e amarga, terna e corrosiva, arrogante e humilde, generosa e mesquinha. Generalista o suficiente para nele caber sempre mais uma nota de originalidade, sem que contudo se comprometa a possibilidade de o mesmo se poder dizer a respeito de qualquer outro povo ou grupo social. Suficientemente ambíguo a ponto de as maiores virtudes se transmutarem nos maiores defeitos (e vice-versa) em função do seu potencial mobilizador na conjuntura social ou política do momento.

Sabemos como as comemorações – todas elas, e estas não serão excepção – se prestam a esses aproveitamentos, e o sucesso garantido dessas versões identitárias muitas vezes de gosto popular, mas outras tantas com o selo de qualidade cultural servido por pensadores da ‘alma nacional’, da ‘essência da Nação’, da originalidade da maneira de ser português, no limite do milagre da nossa sobrevivência como povo… para lá dos acidentes de percurso.

Mas elas podem também ser oportunidades únicas para questionar essas extrapolações idealistas que nos amarram a modelos intemporais, começando por fazer as perguntas certas: Mas afinal de que falamos quando falamos de identidade nacional? Não será certamente a mesma coisa para as maiorias sociológicas ou para as minorias intelectuais, nas suas variantes mais ou menos activas, e num espectro tão amplo que vai do vanguardismo ao conservadorismo mais retrógrado. E afinal onde se encontra o ‘ser português’? nos jornais? nos compêndios de história? no cinema? na música? na literatura?

As perspectivas abertas por um lado pela nova sociologia (não a dos inquéritos do Eurobarómetro que produzem resultados para todos os gostos…) e por outro, por um renovado interesse pelos estudos culturais constituem dois grandes filões desenvolvidos a seguir à Revolução de Abril os quais, salvaguardando todas as diferenças, se reconhecem num persistente esforço de avançar num auto-conhecimento ‘menos mistificador mas mais proporcionado, menos celebratório mas mais eficaz, menos glorioso mas mais emancipador’, nas palavras de Boaventura de Sousa Santos.

Se é verdade que só comemoramos o presente, ou o que do passado interessa ao presente, o que de mais radicalmente actual encerra o ideário republicano é esse programa integral de emancipação só possível através do conhecimento. Ou da instrução, como então se dizia. Cem anos passados ele aí está como memória e projecto de uma sociedade que ainda não converteu o povoléu ou a populaça em Povo, o Zé Povinho em cidadão, as razões de estado em bem comum, a República em res pública, ou seja, de todos e (isto não é uma concessão ao politicamente correcto…) de todas. De uma sociedade que tarda em contrariar a sentença de Miguel Torga: ‘em Portugal o comum não é de nenhum!’

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