Esta é uma não-historinha, Rogério!

 
Fico em dívida contigo, mas ainda não consigo escrever com ligeireza, saltitando nas teclas do computador, atrás de um qualquer episódio do nosso passado comum. Creio que esta “branca” se deverá apenas ao facto de, hoje, pela primeira vez, eu não poder enviar-te o email que era da praxe, na véspera de seguir um escrito meu para os Caminhos da Memória. Custa-me saber que, amanhã, não receberei o teu comentário, na volta do correio, incentivando-me a mandá-lo, a escrever memórias, a escrever, escrever enquanto por cá andasse. Por isso, historinha, adio-a para daqui a uns tempos, prometo! Há pouco, quase me saía aquela do teu gato que fez um abundante “xi-xi” em cima do processo movido pelo Ministério da Educação a cinco conselhos directivos da Escola Nuno Gonçalves, de 74 a 77. Tu, na minha frente, muito comprometido: tinhas-te apercebido da situação, olhavas o original da “acusação” que me tinha sido oficialmente dirigida, sem saberes como te desculpares. E eu, para desanuviar: “Não te incomodes, Rogério! Só mostra que é um gato com espírito crítico. Haveria resposta para isto mais merecida do que uma boa mijadela de gato?” – Contava-la, divertido, (quando eu referia a tua preciosa ajuda na minha “defesa”) a quem ainda não conhecia o acontecimento, mais o caso, mais a ocorrência. Não, esta não interessa: comove-me, mas é ridícula. Depois, qualquer dia, conto outra.

Afogamo-nos na biografia dele como resistente anti-fascista, como pedagogo, investigador, jornalista, escritor, sindicalista e político. E Pai, sim – como esquecer? – Pai. Foi tal a sua vida, que mal conseguimos compreender onde foi buscar tanta competência e tempo para tanto. O tempo dá e mata. Será talvez por isso que, na hora da morte, houve quem se esquecesse de Rogério Fernandes (ou lhe trocasse, ou lhe omitisse traços importantes do perfil). Coisa de nada para quem tinha a inteligência e a argúcia que fazia dele uma das pessoas com mais humor que conheci. Imagino-o a reagir a tais factos, de sorriso aberto, com comentários bem-humorados, entre o cândido e o levemente mordaz. Sem sobranceria nem falsa humildade, mas realmente modesto e coerente. Seguro do seu percurso de amor à Educação e ao Ensino. E, muito possivelmente, também, convicto de que tinha valido a pena dedicar uma vida a ideais trazidos da juventude. Tenho como certo que olharia até com tolerância e bonomia o silêncio de alguma memória que, na hora da partida, se fazia sentir, pesava. O Reitor da Universidade de Lisboa, o secretário-geral da Fenprof, os colegas e os amigos, esses estavam presentes. Foram muitos os jornais, muitos os blogues que falaram dele, e é tocante a notícia da sua morte, escrita por Vítor Dias no seu Tempo das Cerejas. Em Outubro passado, já fragilizado, foi candidato na sua freguesia, pela CDU – como se, simbolicamente, quisesse dizer que, até ao fim, estaria ao serviço da política com modéstia.

Pessoalmente, perdi o amigo e companheiro de décadas de combates, que conheci há cinquenta anos, a abrir-nos a porta da Seara Nova, na Rua Luciano Cordeiro, numa fase em que por lá havia reuniões regulares da Oposição. Nos últimos anos, os anos da maturidade, foi um ponderado e fraterno interlocutor para discussões e discórdias – que são o sangue arterial das famílias. Um companheiro para o riso, para a troca de ideias, para o “agora conto eu” (historinhas do passado e sobre nós). Sempre, ou quase sempre, à volta de uma mesa com sabores e afecto. Sempre, ou quase sempre, com a Graça – os dois a lembrarem, discretamente, quem com eles convivia, que pode existir um amor para toda a vida.

Que mais razões haverá para amizade e admiração?

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