Um poema de Alda Espírito Santo

 
As palavras do nosso dia

são palavras simples

claras como a água do regato,

jorrando das encostas ferruginosas

na manhã clara do dia-a-dia.

 
É assim que eu te falo,

meu irmão contratado numa roça de café

meu irmão que deixas teu sangue numa ponte

ou navegas no mar, num pedaço de ti mesmo em luta

[com o gandu

 
Minha irmã, lavando, lavando

p’lo pão dos seus filhos,

minha irmã vendendo caroço

na loja mais próxima

p’lo luto dos seus mortos,

minha irmã conformada

vendendo-se por uma vida mais serena,

aumentando afinal as suas penas…

É para vós, irmãos, companheiros da estrada

o meu grito de esperança

convosco eu me sinto dançando

nas noites de tuna

em qualquer fundão, onde a gente se junta,

convosco, irmãos, na safra do cacau,

convosco ainda na feira,

onde o izaquente e a galinha vão render dinheiro.

Convosco, impelindo a canoa p’la praia

juntando-me convosco

em redor do voador panhá

juntando-me na gamela

vadô tlebessá

a dez tostões.

 
Mas as nossas mãos milenárias

separam-se na areia imensa

desta praia de S. João

porque eu sei, irmão meu, tisnado como eu p’la vida,

tu pensas irmão da canoa

que nós os dois, carne da mesma carne

batidos p’los vendavais do tornado

não estamos do mesmo lado da canoa.

 
Escureceu de repente.

Lá longe no outro lado da Praia

na ponta de S. Marçal

há luzes, muitas luzes

nos quixipás5 sombrios…

O pito dóxi6 arrepiante, em sinais misteriosos

convida à unção desta noite feiticeira…

Aqui só os iniciados

no ritmo frenético dum batuque de encomendação

aqui os irmão do Santu

requebrando loucamente suas cadeiras

soltando gritos desgarrados,

palavras, gestos,

na loucura dum rito secular.

 
Neste lado da canoa, eu também estou irmão,

na tua voz agonizante, encomendando preces, juras,

[ Maldições.

 
Estou aqui, sim, irmão

nos nozados7 sem tréguas

onde a gente joga

a vida dos nossos filhos.

Estou aqui, sim, meu irmão

no mesmo lado da canoa.

 
Mas nós queremos ainda uma coisa mais bela.

Queremos unir as nossas mãos milenárias,

das docas dos guindastes

das roças, das praias

numa liga grande, comprida

dum pólo a outro da terra

p’los sonhos dos nossos filhos

para nos situarmos todos do mesmo lado da canoa.

 
E a tarde desce…

A canoa desliza serena,

rumo à Praia Maravilhosa

onde se juntam os nossos braços

e nos sentamos todos, lado a lado,

na canoa das nossas praias.

 
(in «É nosso o solo sagrado da terra»)

 
Desenho e poema tirados daqui.