Melhor documentário Festival do Rio 2007 pelo júri popular e do pelo júri da ABDec. Direção: Beth Formaggini Produção 4Ventos / GTNM-RJ
Exibido e apresentado pela realizadora, em Lisboa, no passado dia 6 de Março, durante o seminário «Que fazer com estas memórias?»

 
Um texto de Edu Passos, membro do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ

 
É preciso dizer da alegria de assistirmos o filme Memória para uso diário. O GTNM tem agora um filme que documenta a sua luta, que dá a imagem de seu movimento. O cine documentário talvez seja mesmo o meio apropriado para acompanhar e expressar a militância de um movimento social. Por quê? Porque o cinema é imagem-movimento – um estranho movimento, é verdade, já que é produzido por fotogramas, por uma série de quadros que postos lado a lado em um certo ritmo dão a sensação do movimento: um falso movimento? Do ponto de vista da experiência subjetiva não há diferença entre movimento real e falso movimento. O que assistimos na tela experimentamos como movimento. Vivemos como um movimento.

Por isso o cinema pode ser tão diferente da fotografia: a foto muito frequentemente quer registrar, quer dar testemunho de uma realidade vivida no passado, deixada no passado. Dessa realidade passada, a foto pode ser como um monumento que aponta para trás, que indica o que já era (um álbum de fotografia tem sempre um aspecto nostálgico, triste, até mesmo melancólico). O cinema, por outro lado, mesmo quando é documentário, porque é imagem-movimento editada, cria aquilo de que trata, sendo menos um retrato do que uma versão do passado. É o caso do documentário Memória para uso diário que vai ao passado sem olhar para trás (tal como Orfeu), recuperando imagens de uma história só vivida e não narrada (grande mérito do trabalho de pesquisa das imagens de arquivo). O filme faz o gesto da abertura dos arquivos, nos indicando que não basta abri-los, sendo ainda preciso completar a tarefa contando uma outra história. O filme faz o gesto e registra o gesto como este movimento tão delicado das mãos de Lola e Cléa ao folhear o passado. Só o cinema pode ter a realidade do gesto, acompanhando-o ao mesmo tempo em que o reinventando. Neste sentido, o cine documentário não está no tempo passado, não tem a nostalgia do vivido. Ele está neste tempo da invenção que é o tempo do porvir, do que poderá ser, não do que já era, mas do que já é. Do que já é como potencialidade, como abertura para outras realidades possíveis. No documentário filmamos o futuro, ou melhor, filmamos no horizonte do futuro.

Como pode ser um filme sobre a memória? O que este filme quer nos dizer quando afirma ser um documentário sobre a memória? O seu título nos dá uma pista: Memória para uso diário. Fala-se de memória enquanto uso. Está se indicando que há um sentido pragmático da memória. Daí as perguntas: para quê serve a memória? Para quem serve esta memória? O GTNM desde 1985 tem feito estas perguntas, indicando que há uma luta a ser travada no campo da memória. Há uma história oficial contada, há uma versão hegemônica acerca das lutas, sejam as lutas de resistência ao terrorismo de Estado durante os 20 anos da ditadura militar no Brasil, sejam as lutas atuais, tão cotidianas, que transferem a tecnologia da violência daqueles tempos para as periferias pobres da cidade. Dar uma outra versão para os eventos vividos é não só buscar reparação aos atingidos pela violência do Estado, é não só denunciar e levar ao julgamento os responsáveis pela violação dos direitos humanos, é, sobretudo, poder ser protagonista na narrativa da história, é poder também dar a sua versão, é poder dar um outro sentido para o passado, apostando em outros mundos possíveis, apostando no futuro. Uma memória que aponta para o futuro.

O filme Memória para uso diário foi editado como uma trança (parabéns às editoras Márcia Medeiros e Litza Godoy). Vários fios da vida foram sendo tecidos: o fio insistente da vida de Ivanilda buscando informações sobre seu marido por 31 anos; os fios tão delicados das vidas de Cléa e Lola; os fios elétricos das vidas de Cecília e Flora; os fios de aço das vidas de Rosilene e Maria Dalva; o fio da solidariedade daqueles que como Ana ajudaram a construir o projeto do filme – tantos fios de vida ligados por um plano comum que é tanto o plano da edição do filme, quanto o plano do movimento Tortura Nunca Mais. Compor este plano comum, dar consistência a ele é um trabalho de militância. Nossa militância é a da aposta no comum, é a luta pelo comum. Temos, portanto, neste filme as imagens-movimento de uma aposta política, sabendo agora que há muitas maneiras de militar e que Beth Formaggini afirmou conosco a sua.

MEMÓRIA PARA USO DIÁRIO é um filme que documenta a luta do Grupo Tortura Nunca Mais do RJ e dá a imagem de seu movimento. Como pode ser um filme sobre a memória? O título nos dá uma pista. Memória para uso diário fala da memória enquanto uso, criando um sentido pragmático para ela. Daí as perguntas: para que serve a memória? Para quem serve esta memória? Há uma disputa a ser travada aqui. Há uma história oficial contada, uma versão hegemônica das lutas, sejam as lutas de resistência ao terrorismo de Estado durante os 20 anos da ditadura militar no Brasil, sejam as atuais, tão cotidianas, que transferem a tecnologia da violência daqueles tempos para as periferias pobres da cidade. Para nossos personagens, conferir outros sentidos ao passado não é só buscar reparação aos atingidos pela violência do Estado, não é apenas denunciar e levar ao julgamento os responsáveis pela violação dos direitos humanos. É, sobretudo, passarem a ser protagonistas na narrativa da história, apostando em outros mundos possíveis. Uma memória que aponta para o futuro

MEMÓRIA PARA USO DIÁRIO envolve porque acompanha pessoas comuns que, apesar das lembranças traumáticas que carregam, fazem questão de lembrar e de fazer com que suas histórias não sejam esquecidas. Ivanilda, cuja história acompanhamos ao longo de todo o filme, busca evidências que provem que seu marido, desaparecido desde 1975, foi preso pelo governo brasileiro. Suas idas e vindas se misturam às ações de militantes e parentes das vítimas da ditadura, que reconstroem suas histórias pelas ruas e cemitérios clandestinos do Rio de Janeiro, num esforço grupal situado entre esquecimento e memória. A obra se constrói como uma trança e, assim, vários fios da vida foram sendo tecidos: o fio insistente da vida de Ivanilda; os fios tão delicados das vidas de Cléa e Lola; os fios elétricos das vidas de Cecília e Flora; os fios de aço das vidas de Rosilene e Maria Dalva. Tantos fios de vida ligados por um plano comum.

 
Os fios da trama

IVANILDA é o fio condutor . Militante do Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM-RJ), busca evidências que provem que seu marido Itair José Veloso, operário e dirigente  do PCB e  desaparecido desde 1975, foi preso pelo governo brasileiro. Percorre os arquivos da cidade do Rio de Janeiro para tentar encontrar algum indício de sua passagem pelas prisões da ditadura. No Arquivo Nacional não consegue localizar nada, então segue sua busca no Arquivo Publico do Estado do RJ. O Estado exige um documento  da prisão de Itair para que ela possa receber uma reparação no valor de de 20 mil reais. Mas o mesmo Estado que exige estas provas não as fornece.  Ivanilda teve seu processo indeferido por falta de provas. Acompanhamos esta mulher pequena e decidida neste périplo entre os arquivos e a Comissão de Reparação do Estado do RJ. Suas idas e vindas se trançam com as ações de outros militantes e parentes das vitimas da ditadura do GTNM-RJ, que vão desvelando um novelo de fios pelas ruas e cemitérios clandestinos do RJ, num esforço grupal entre o esquecimento e a  memória:

MARIA DOLORES PEREZ GONZALEZ (Lola), com avançada arteriosclerose, e Cléa Lopes de Moraes, portadora do mal de Alzeimer, se encontram depois de muito tempo e remexem em velhos recortes de jornal. Em fluxos de memória e esquecimento, vão lembrando das ações que fizeram no Grupo Tortura Nunca Mais-RJ. Elas foram fundadoras e lutaram durante os últimos 21 anos para esclarecer a morte e o desaparecimento de presos políticos durante a ditadura militar. Uma delas, Sônia, filha de Cléa, foi barbaramente assassinada com a introdução de um cassetete da polícia em seus órgãos genitais..

CECÍLIA COIMBRA e Flora Abreu conversam sobre sua militância política. Falam da fundação do GTNM e de suas ações nestes 21 anos. Falam de suas experiências: a fuga de Flora para o exílio e a prisão de Cecília, estuprada nas dependências do DOI-CODI..

ROMILDO MARANHÃO DO VALE e Cecília Coimbra visitam o Cemitério de Ricardo de Albuquerque no subúrbio do Rio. Ali encontram uma vala clandestina com 13 corpos de desaparecidos políticos. Relembram o longo processo de buscas para a localização desta vala, e  rememoram as historias dos companheiros desaparecidos, um deles, Ramirez Maranhão do Vale, irmão de Romildo.

ELIZABETH SILVEIRA E SILVA , presidente do GTNM, conta a historia do seu irmão desaparecido político na Guerrilha do Araguaia. Ressalta a importância da abertura dos arquivos militares para o esclarecimento da morte dos militantes desaparecidos.

CARMEN LÚCIA LAPOENTE DA SILVEIRA e seu marido, Sebastião Alves da Silveira, relembram a morte violenta do seu filho, o Cabo Márcio Lapoente, assassinado sob maus tratos na Academia Militar de Agulhas Negras, durante um exercício militar.

ANA MIRANDA, militante do Grupo Tático Armado da Vanguarda Revolucionária Palmares (VPR) conta como ela e sua família foi presa e torturada. Mostra as marcas da violência policial no seu corpo, cortado por uma cirurgia de retirada de rim, realizada  enquanto estava presa. Ela e  Gilberto Molina, irmão do desaparecido Flavio Molina, acompanham um grupo de militantes do GTNM para visitar as ruas que tem os nomes de seus entes queridos, para que nunca mais eles sejam esquecidos: Eduardo, Ângela, Sonia e Maria Helena Benevides, irmão e irmãs do militante assassinado Luiz Alberto Sá e Benevides; Victória Grabois, filha de Mauricio Grabois, assassinado e desaparecido junto com seu filho e seu genro no Araguaia e Leda Nonato Fonseca, mãe de Marcus Nonato Fonseca.

VERA VITAL BRASIL, psicóloga da Equipe Clínico Grupal, fala sobre sua vinda do exílio e sua decisão de tornar-se psicóloga. Fala do trabalho pioneiro da Equipe Clinico-Grupal do GTNM_RJ, que dá atendimento aos sobreviventes da Tortura de ontem e de hoje, que sofreram ou sofrem ainda violência do Estado.

TÂNIA e Tatiana Roque perderam o ex-marido e o pai Lincon Bicalho Roque e são pacientes da Equipe Clínica do GTNM-RJ. Elas vão visitar a Escola Lincon Bicalho Roque na Zona Oeste do RJ, onde respondem `as dúvidas dos alunos sobre este período da história desconhecido das novas gerações. Imagens de Tânia e Lincon nos anos sessenta filmadas por Caca Diegues no filme 8 Universitários nos transportam para as idéias revolucionarias dos dois militantes.

UMA longa pesquisa de imagens revela reportagens sobre a Escola das Américas e os militares brasileiros que ali estudaram praticas de tortura. Mostra também os documentos queimados na Base aérea de Salvador, os corpos exumados em Perus/SP e Ricardo de Albuquerque/RJ, os camponeses que testemunharam a Guerrilha do Araguaia auxiliando familiares das vítimas as na busca dos corpos dos parentes desaparecidos.

MÃES choram ainda hoje por seus filhos assassinados pela polícia nas favelas: Rosilene Ramos da Silva, da Maré, atendida pelo projeto clínico grupal do GTNM-RJ  e Maria Dalva da Costa Correia da Silva, do Borel, integrante do Grupo “Posso me Identificar”, relembram o assassinato de seus filhos pela polícia do Rio de Janeiro ocorrido recentemente. Falam da luta em que estão envolvidas para que o Estado reconheça os crimes e puna os responsáveis. Rosi leva a equipe para o local do crime, um parque de diversões no Complexo da Maré, onde seu filho Wallace, de 17 anos, foi baleado enquanto passeava de bicicleta, `as 10h da manhã.

MEMÓRIA para uso diário é um filme sobre a tortura que ainda hoje continua atingindo as famílias que não tiveram a chance de enterrar seus entes queridos. É também um filme sobre as vítimas das chacinas que diariamente ocorrem nos bairros populares. Nossos personagens interagem entre a lembrança traumática e  o esquecimento, num trabalho de trazer à tona a memória de fatos recentes e de construir uma memória política, revelando a “seletividade” da história oficial. Pensam o passado recente e remoto para que  possam libertar o futuro dos fantasmas que ainda os perseguem no presente.