Um texto de Helena Cabeçadas (*)

A carta escrita pela Helena Pato, quando criança, e publicada aqui recentemente, fez-me recordar, de forma viva e crua, imagens das escolas primárias que eu frequentei, entre 1953 e 1957, em contextos geográficos e culturais diferentes. São recordações duras, desprovidas da alegria infantil que seria de esperar em escolas de e para crianças.

1-A minha primeira escola, num bairro periférico de Lisboa, que frequentei entre os seis e os oito anos,  funcionava num palacete meio podre, em que as escadas e as paredes se esboroavam, o vento e o frio penetravam por todos os lados. Havia as “meninas do Bairro” (da Madre de Deus), limpinhas e de bata branca, entre as quais me incluía, e as “miúdas das latas”, sujas e esfarrapadas, que vinham dos bairros de lata que o circundavam. Embora estivéssemos lado a lado, inclusive na mesma carteira, não nos dávamos entre nós. Havia uma tensão latente entre os dois grupos e que, por vezes, explodia em lutas verbais, muitas vezes cruéis. As casas de banho eram lá fora, imundas. Não havia recreio coberto. Se chovia, paciência, ou ficávamos na sala de aula ou íamos apanhar chuva. Recordo que um dos nossos principais divertimentos quando chovia, e esse era comum aos dois grupos, era ver quem matava mais piolhos dos que saltitavam nas carteiras…

Eu tinha sorte, a minha professora, a D. Cândida, uma senhora elegante e meiga, era “boazinha”; nunca a vi bater em nenhuma criança. Em contrapartida, na sala ao lado, reinava o terror. A Directora, a D. Alzira, era uma verdadeira megera: as bofetadas, as reguadas, os castigos violentos, eram o pão nosso de cada dia. Nós ouvíamos os gritos e os choros das nossas infelizes coleguinhas e chorávamos com pena. Uma das garotas morreu, segundo constou, na sequência do lançamento de um apagador atirado com fúria assassina. Como a vítima pertencia ao grupo das “miúdas das latas” não houve problema, o caso foi abafado. Aluna que fosse levada ao exame de admissão ao liceu pela Sr.ª Directora tinha sempre a classificação máxima; daí a sua reputação como “excelente professora”. Só que poucas eram as eleitas e claro que as suas alunas dos bairros de lata desistiam logo na 1ª ou na 2ª classe…

Nunca, nesta escola, houve uma festinha, por pequena que fosse, ou um passeio. Era um local triste, um espaço duro, de violência manifesta e latente.
Quando, na 3ª classe, aos oito anos, fui para Moçambique, o ambiente da escola mudou radicalmente. Em Lourenço Marques (actual Maputo) a Escola era ampla, moderna, luminosa, com recreios interiores e exteriores, onde podíamos correr e brincar à vontade. Eram só meninas brancas, todas do mesmo estrato social, filhas da burguesia colonial. Não me lembro de ver uma única menina negra ou mesmo mulata. Na altura não me questionava sobre isso, achava normal.

A ideologia fascista era, no entanto, pesada. Todas as manhãs, antes do início das aulas, tínhamos que ir “para a forma” e cantar o hino da Mocidade Portuguesa, fazendo a saudação fascista. A minha professora, uma senhora grande e forte, fazia-nos prelecções terríveis, em louvor de Salazar e contra os comunistas e os “maçons” que, segundo ela, praticavam os mais hediondos crimes. Mostrava-nos o mapa da Europa, assinalava a Rússia, imensa e ameaçadora, face ao pequeno país que era Portugal. Excitava-se, enquanto gritava, e ficava muito vermelha, cheia de urticária. Nós ficávamos aterradas, as lágrimas corriam-nos perante as descrições de tamanhas crueldades e ameaças. Depois rezávamos para que a Rússia comunista acabasse e o adorado chefe Salazar vencesse todos os seus inimigos.

Era estranho, mas quando acalmava, e começava a ensinar-nos, esta senhora tornava-se uma pessoa normal. Era mesmo uma excelente professora, apaixonada pela sua profissão, cuidadosa e atenta às dificuldades das alunas, incutindo-lhes confiança nas suas capacidades. Curiosamente, embora eu gostasse muito dela como professora e como pessoa, a sua ideologia extremista e absurda não exerceu em mim qualquer influência. Dois anos mais tarde, em Lisboa, já eu apoiava entusiasticamente as candidaturas do General Delgado e até de Arlindo Vicente…Em contrapartida, a sua atenção e o seu carinho foram para mim um apoio fundamental numa fase dolorosa da minha vida familiar, da doença e morte da minha irmã. Ainda hoje recordo esta professora, D. Sara Pinto Coelho, com muita amizade e gratidão. O facto é que, para além das matérias escolares, ela me ensinou algo que considero importante: que o mundo não é a preto e branco, que não podemos ter uma visão maniqueísta das pessoas, que os “bons” e os “maus” não se definem só pelas suas ideologias, há outras dimensões significativas, e que a natureza humana é complexa.

2 – O ambiente do Liceu Salazar, em Lourenço Marques (actual Maputo), era informal e simpático. Ouvia-se música, organizavam-se festas com as alunas, as professoras eram jovens, afáveis e não eram mesquinhas com as notas, davam um 20 se merecido. Claro que continuava a não haver raparigas negras no Liceu, nem mulatas, que me lembre. Nesse aspecto, Moçambique era muito mais racista do que Angola, a influência da África do Sul e do apartheid era muito forte. Recordo ser frequente deparar-me com cartazes a avisar: “Entrada proibida a pretos e a cães”…os negros não podiam andar na rua a partir de certa hora a não ser com autorização escrita do patrão. As senhoras brancas mandavam com frequência açoitar os seus criados na administração, por motivos fúteis, e falavam disso com a maior das naturalidades enquanto tomavam chá com as amigas. Eu era garota e ficava indignada, talvez porque os meus pais também ficavam, caso contrário, se calhar, também acharia normal…

De qualquer modo, como disse, o ambiente no Liceu era alegre, descontraído. Eu tinha notas excelentes. Quando regressei a Lisboa, no decorrer do ano lectivo de 1956/7, foi um choque terrível: o Liceu D. Filipa de Lencastre, conhecido como “o poço das víboras” fazia honras à sua alcunha. Exibia um conjunto de professoras secas e duras, quase todas solteironas, um ambiente repressivo sufocante. Era, de facto, o fascismo vivido no quotidiano. Para tudo havia regras muito precisas: a altura das saias das batas, o sítio onde se punha o cinto, a cor e o local do emblema (que definia o ano em que estávamos)…bastava ter o cinto descaído ou o emblema fora do lugar e apanhávamos logo uma falta de castigo. O mesmo acontecia se nos apanhavam a correr nos corredores. Eu ia sempre a correr, nos intervalos, para ver se apanhava uma mesa de ping-pong, eram poucas, se não me despachasse não conseguia, e zás! Volta e meia era apanhada pela terrível Virgínia Paraíso (!!), a chefe da Mocidade Portuguesa, que me obrigava a ficar fechada toda o resto da manhã no seu gabinete, de castigo, sem poder ir às aulas, no meio dos seus periquitos… (ainda hoje me irritam estes bichos!). Por tudo e por nada éramos chamadas à reitora, uma mulher pequena, quase anã, de olhar frio, gélida…e isso era uma sensação terrível, nunca sabíamos o que nos iria acontecer, ou antes, sabíamos que era sempre algo de muito mau. O pai da minha amiga Miracel foi lá chamado porque ela tinha sido vista a beijar um rapaz perto do Liceu…afinal, apurou-se que era o irmão! O meu pai era chamado à reitora porque me deixava ler escritores “impróprios para a minha idade” (Sartre, Camus, Steinbeck, Dostoiewsky..) e aos quais me referia, por vezes, nas redacções que escrevia e que eram sublinhadas pela professora de português (a temida Judite Aranha) com grandes pontos de exclamação indignados. Os testes de História consistiam numa sucessão de datas, à frente das quais tínhamos que pôr o acontecimento que nessa data exacta tinha tido lugar. Eu, que adorava ler livros históricos e sobre História, odiava aquela disciplina. Conseguiram fazer-me detestar a literatura portuguesa, pelo menos a que era dada no Liceu (Camões, Gil Vicente, Garret…), eu que adorava ler e devorava a literatura russa, americana, francesa e até mesmo brasileira (porque felizmente não era dada nas aulas de português…)

Podíamos ter um teste todo certo e a nota máxima era um 14; alguma professora que se mostrasse mais generosa era olhada com desconfiança pelas outras. As minhas excelentes notas, consideradas escandalosas, desceram logo por ali abaixo.

Só podíamos ter acesso às actividades “circum-escolares”, como eram designadas as actividades desportivas, se pertencêssemos à Mocidade Portuguesa (organização para-fascista de enquadramento dos jovens). Como eu não pertencia, lá se foi a possibilidade de fazer equitação, que eu tanto gostava de fazer em Lourenço Marques, ou qualquer  outro desporto.

Não me lembro de nenhuma festa ou passeio dado nesta escola. Só de uma sessão de cinema, em que o filme passado era a “Sissi”, e em que a cena final do beijo foi devidamente cortada.

Claro que também nos divertíamos, à nossa maneira, furando as múltiplas regras e pregando partidas às professoras, actividades em que me tornei exímia. É o que acaba por acontecer, inevitavelmente, nos ambientes muito repressivos, sobretudo com adolescentes.
O Liceu Rainha D. Leonor, em Alvalade, onde fiz o 6º e 7º anos, era uma escola mais normal, com professoras normais, onde já se podia respirar melhor. Aí envolvi-me nas actividades da Comissão Pró-Associação dos Liceus, considerada ilegal pelo regime, o que me valeu ser expulsa da sala onde realizava o exame da última disciplina que me faltava para concluir o 7º ano (o último do secundário), seguida da expulsão das escolas portuguesas por tempo indeterminado, o que  provocou a minha partida para o exílio, aos dezassete anos. Na sequência do processo disciplinar que me foi instaurado, foi afixado à porta do Liceu (o inefável Filipa, sempre) um cartaz com o meu nome, no estilo “Procura-se”, como se de uma temível criminosa se tratasse; ora que era sabido que eu me encontrava já a residir em Bruxelas. Foi preciso ir o meu pai ao Liceu protestar e exigir que o cartaz fosse retirado, pois colocava a minha irmã mais nova, que frequentava o mesmo Liceu, numa situação difícil, sujeita a ouvir os comentários mais díspares.

Quando regressei a Portugal, dez anos depois, logo a seguir ao 25 de Abril, passei pelo Liceu Filipa. As portas estavam abertas e eu entrei, curiosa. Estava tudo de pernas para o ar, as salas tinham nomes de revolucionários, escritas à mão, pelas alunas: sala Che Guevara, sala Lenine, sala Trotsky, sala Karl Marx, sala Mao Tse Toung e até mesmo sala Bakunine!… Achei graça, compreendi perfeitamente a zanga das adolescentes do 25 de Abril. Só tive pena que a revolução não tivesse acontecido quando eu lá estava, no meu tempo de liceal. O gozo que me teria dado participar naquela fúria justiceira e libertadora…

(*) Biografia de Helena Cabeçadas