«Se alguém num campo de batalha levantasse o grito inconsiderado: Salve-se quem puder! era imediatamente derrubado como um miserável, se porventura se atalhasse o efeito contagioso dessa alucinação de covardia. E contudo é frequente o ouvir-se todos os dias no meio do conflito dos interesses modernos, das novas ideias, e de um outro estado da consciência humana que se afirma esta terrível frase – Fujam da Política. Aqui o egoísmo é um resultado da ininteligência, porque se confunde o facto natural e legítimo de todo o cidadão tomar conhecimento do modo como se exercem os serviços públicos, para os quais paga, e que lhe servem de garantia individual, com esse desenfreamento das ambições partidárias que conspiram e deblateram para assaltarem o poder. O fugir da política, deixando ao capricho da autoridade o exercer o poder segundo o seu interesse partidário, é uma covardia análoga ao Salve-se quem puder, quando da concorrência de todas as forças é que provém a mais segura defesa. O que entregar os seus bens e a própria responsabilidade jurídica a um procurador, sem lhe tomar contas, sem inspeccionar os seus actos, vai fatalmente cair na miséria e com certeza na criminalidade; isto acontece na sociedade, em que os governos separam sistematicamente o cidadão do conhecimento da gerência pública, viciando-lhes as magistraturas electivas com a intervenção do arbítrio administrativo, centralizando todas as energias locais em um poder que deriva a sua acção da atrasada razão de estado, pervertendo-lhe a manifestação da vontade nacional por meio das candidaturas oficiais.»

Teófilo Braga, História das Ideias Republicanas em Portugal, col. Documenta Histórica, Ed Vega, 1983.