O drama maior, sempre seguido de uma angústia seca que ia do estômago até ao pensamento e ao sentimento, de quem tinha a militância anticolonial já metida no corpo, era, para os que não optavam pela deserção e pelo exílio, como fazer “aquela guerra”. O “logo se vê” era uma forma de tentar adiar o inadiável, confiando na gestão corrente e possível da ilusão de manter as mãos limpas entre convicções entranhadas e a responsabilidade por homens carne para canhão arrancados à juventude para serem fardados, metralhando e sendo metralhados, entregues à nossa guarda e comando. O salazarismo-marcelismo jogava nesta ambiguidade dos oficiais milicianos numa guerra que sabia que muitos odiavam. E o que lhes equilibrava o balanço de análise estratégica, arriscando inclusive mandarem para as frentes de combate, comandando tropas, dirigentes e activistas veteranos e experimentados das lutas bravas estudantis contra o fascismo e o colonialismo, era saberem que pesaria, nos comportamentos e portes dos jovens oficiais milicianos, estes terem sob suas responsabilidades, em cenário de guerra, não só a sua própria vida como a de uns tantos outros – furriéis, cabos e soldados -, arrancados ao Portugal profundo e adormecido. E que a realidade da guerra, nua e crua, construiria o resto que lhes convinha: perante ideias e convicções optadas mas só espelhadas ali em fogo vindo do escuro anónimo da mata, a fraternidade de corpo da família tuga, construída em equipa desterrada e feita em cumplicidades de desfortuna partilhada, venceria a pulsão de mata antes que morras e morram os que comandas. O regime e os oficiais milicianos de consciência anticolonial jogaram, durante toda a guerra colonial, um jogo perverso, como gatos e ratos vestidos de camuflados, entre convicções e condições. Nos treze anos de guerras coloniais em África, o regime ganhou primeiro e só se rendeu, baqueando depois, quando os oficiais milicianos conseguiram partilhar a corrosão das angústias das suas ambiguidades não resolvidas não “para baixo” (para os furriéis, cabos e soldados, a maioria vinda do povo “feito para obedecer”) mas sim “para cima” (para os oficiais profissionais de baixa e média patente, quando a estes chegou o desgaste da guerra infinda e inglória).

Feito o intróito, está na hora de passar ao Major Pinheiro, um típico oficial “tarimbeiro”. Ele era do tipo de oficial pançudo que abanava o rabo a acompanhar movimentos enérgicos dos braços, no esforço inglório de tentar imitar um porte marcial. Vindo de sargento, tinha andado pela GNR, fizera uma comissão em Luanda, outras em Lourenço Marques e agora era segundo comandante no batalhão do Pelundo. Ali, era a máxima autoridade a seguir ao Tenente-Coronel Romeira. De guerras, pouco tinha aprendido. Restava-lhe a prosápia da ordem unida, dos regulamentos e do semi-bigode apensado em cima de um lábio superior vermelhusco e sempre húmido. Mas adorava os tratos de couves e demais hortaliças, num esforço fanático para conseguir a auto-suficiência no alimento das nossas tropas e eventuais proveitos nos débitos para a conta do rancho. Chegado ao Pelundo, o Major Pinheiro tomou a peito o pelouro dos melhoramentos (com a construção de uma igreja na frente das prioridades) e, como não podia deixar de ser, a implantação e conservação de uma enorme horta que vitaminasse o pessoal. Quem queria encontrar o Major Hortelão, não tinha que hesitar, ele havia de estar, pela certa, a peito descoberto no meio do batatal, ou camuflado entre os feijoeiros ou então, em última hipótese, emaranhado no meio dos ramos dos tomateiros. O Major Pinheiro era um subserviente relativamente ao Comandante e à ordem estabelecida. Fazia contas e mais contas ao pé-de-meia amealhado com os ganhos e poupanças dos soldos das comissões em África e que o levava a sonhar alto com compras de mais courelas na sua santa terrinha, lá para os lados de Águeda. Ninguém tinha em grande conta o Major Pinheiro, excepto ele próprio. Não dava duas para a caixa a conversar e não percebia nada da poda dos assuntos da guerra, quanto mais todos os outros que não metessem contas de investimentos de poupanças ou artes para rentabilizar a horta. Resumindo, era um chato, a caminho do labrego típico. Sem que isso colidisse com os seus galões de major. E, na calmaria ronceira de então no quartel do Pelundo, a tropa habituava-se à boa rotina, esperando que o tempo da comissão tivesse termo. Entretanto, iam crescendo as hortaliças do Major Pinheiro.

A calmaria de uma noite, aí pela hora de mudar de dia, foi repentinamente cortada pelo som de uma rajada de metralhadora ecoada no escuro e não longe do quartel. A tropa assustou-se por causa da falta de hábito. Os ouvidos ficaram atentos à espera de réplicas. Mas não, a rajada não teve irmãs a incomodarem a noite. Como se previa, o militar mais assustado era o Tenente-Coronel Romeira. Apareceu nervoso, vestido de camuflado, ordenando a formação das tropas. Fez o seu discurso: os cabrões dos pretos estão a atacar-nos, vamos retaliar, viva Portugal”. Chamou os oficiais de parte, ordenou ao Alferes Frederico apronte o seu pelotão de atiradores e avance para revistar todas as palhotas da aldeia africana e, pelo caminho, vá dando umas boas coronhadas na pretalhada para eles aprenderem a não albergarem turras e, se encontrar suspeitos, traga-os vivos ou mortos”. Era um discurso despropositadamente ridículo, a merecer gargalhada, não fosse o poder de mando que o homem tinha. O Alferes Frederico, homem corpulento e que tirara o curso para professor de Educação Física, ficou a olhar para o Romeira, hesitou, mas acabou por fazer continência de obediência. E abalou para pôr em acção o seu pelotão de atiradores que andava sedento de emoções depois de estar saturado de patrulhamentos inúteis. Fariam o que lhes mandassem fazer. Apercebi-me do absurdo que vinha a caminho. Representando o papel de dedicação à façanha guerreira projectada, pedi ao Tenente-Coronel licença para acompanhar os operacionais na sua missão, a fim de assegurar as boas transmissões com o posto de comando do quartel. Os olhos do Romeira brilharam de orgulho por tanto altruísmo dos seus oficiais. E respondeu com um enérgico e cúmplice “claro que está autorizado a acompanhar as forças em combate. No caminho, fomos estabelecendo, eu e o meu camarada Frederico, cavaqueira em voz baixa. Veio logo à baila, o absurdo das ordens dadas e da missão atribuída. Que aquilo deitava a perder o relacionamento com os manjacos. E a malta nunca mais ia ter condições de sair à noite e mamar uns bailaricos. Etc e tal. Entrando dentro de uma meia dúzia de palhotas, confirmou-se que os africanos e as africanas estavam mas era a dormir ferrados no sono, em descanso absoluto e longe de tentações de desfazerem a boa vizinhança com os militares. Ou então representavam admiravelmente um jogo de enganos. O Alferes Frederico não sabia o que fazer. Maltratar os africanos, não fazia sentido. Mas, ordens são ordens. Como explicar-se perante o Romeira? E depois, não era ele que ia apanhar uma porrada e bater com os costados em Guileje? Lembrei-me, então, de uma solução para sair da embrulhada e salvar a “honra do convento”, sem desmotivar o pessoal que tinha saído disponível para “combater”. A malta ia, mas era, assaltar a horta do Major Pinheiro, fazer de imediato uma ceia de tomatada crua, aguentava uns tempos, faziam-se uns disparos para o ar e depois lá se ia prestar contas ao cagarola do Romeira. Concordância obtida, obra feita e completada, tendo a tropa voltado ao quartel, contendo risos e apresentando-se ao comandante, o Alferes Frederico comunicou que “estava tudo espancado” e seguiu-se o merecido destroçar seguido de deita. No outro dia, durante o almoço, todos os oficiais discutiam o verdadeiro significado dos acontecimentos da noite anterior. Ninguém tinha explicação para o sucedido, mas o certo é que a população continuava a dar mostras de bom relacionamento, apesar da operação das NT da noite anterior. Às tantas, o Major Pinheiro pediu silêncio e transmitiu a sua interpretação solene sobre a origem da rajada nocturna: “aquilo foi acto isolado de um cabrão de um turra que me assaltou os tomates, eu já fui hoje à horta e não sobrou um para amostra”. Risada geral, incluindo o Romeira. Foi uma das festanças mais lúdicas vividas naquela terra em tempo de guerra. Com a ajuda, há que ser justo, dos tomates do Major Pinheiro. Também mostrados oportuníssimos, há que o reconhecer perante esses dóceis e vitaminados frutos vermelhos, na ajuda ao alívio de consciências de milicianos metidos em contradições.

 
(Publicado originalmente no blogue Água Lisa)