Em qualquer outro, quem não se sentiria honrado de viver numa rua histórica, uma rua em que, nesse “dia inicial, inteiro e limpo” de que falava Sophia (*), houve pessoas que deram a vida, pessoas que foram feridas, para exigir o fim da polícia política?
Quem não gostaria de ter, na sua rua, uma placa que dissesse o nome desses lutadores pela Liberdade, que lembrasse que ali – tão perto e tão longe da polícia política portuguesa, na Embaixada do Brasil – esteve asilado o General Sem Medo que se propunha, se eleito Presidene da República, demitir Oliveira Salazar? Quem não se bateria por as ter, bem à vista, no local que habita?
Em Portugal, no entanto, essas memórias, longe de orgulharem, envergonham. Jovens mortos pela Liberdade, militares refugiados para continuarem a luta contra o poder autoritário, em vez de inspirarem, incomodam. E vá de, sornesmente, escamoteá-los, evitando ou escondendo as placas que os recordam. Sem perceber que, ao fazê-lo, escolhem para a sua publicidade o campo pouco glamouroso dos vencidos.
Um cínico diria: “O problema já não é político, mas de marketing!”
Alguém poderia tentar explicar isso à imobiliária?

 
(*) «Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitámos a substância do tempo.»

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