Este texto foi escrito a partir do rascunho da minha primeira carta dirigida ao Ministério da Educação (1947)! Protestativa, dorida, mas cordata. Na Europa ainda havia cheiro a mortos do holocausto, Portugal reclamava ter tido uma posição neutral na guerra, nas escolas fazia-se a saudação nazi, os meus pais viviam num clima de medo por serem ambos funcionários públicos. Pertencíamos a uma família de ideias e de tradições democráticas –  o meu avô tinha sabido do fim da guerra fechado no Forte de Caxias, pelos gritos de “vitória!”.
A “heroína” desta história é a minha Mãe. Tem 94 anos, chama-se Maria Augusta, conversa sobre política como sobre tudo o que faz parte do presente. Acha que foi a melhor professora primária do mundo (e se calhar foi…) e comove-se sempre que recorda este episódio. H.P.

 
Senhor Inspector:

Eu tenho oito anos e ando na terceira classe e isto aconteceu na primeira semana de aulas. Eu vim para esta escola agora pela primeira vez e ela é a escola do bairro onde eu vivo em Lisboa. Eu andava muito contente porque a minha professora tinha-me sentado na mesma carteira com uma menina que é minha amiga e se chama Nina, e que mora ao pé de mim ali logo abaixo da minha casa. É que eu não conhecia ninguém aqui nesta escola porque eu andava na segunda classe na Promotora de Alcântara, que a minha Mãe era lá professora e eu ia com ela todos os dias de camioneta e num eléctrico. Mas então foi que a meio do ano passado ela ficou doente e eu pensava que era pouco doente, só assim com uma doença sem febre que ia passar, e então eu continuei a ir para aquela escola mas sozinha. Por isso e por ainda ter poucos anos mudei para aqui agora na terceira classe para esta escola do Bairro. Senhor inspector eu ainda estava cá há poucos dias mas gostava muito da minha professora e um dia entrou pela nossa sala adentro uma senhora muito alta e muito forte cá da escola que eu nunca tinha visto e as meninas levantaram-se e a minha professora disse que era para ficarmos de pé até essa senhora nos dizer podem-se sentar, porque ela era a senhora directora. Então a senhora directora disse zangada que também era para estendermos assim o braço quando nos púnhamos de pé e era para dizermos Bom dia senhora directora e eu nunca tinha aprendido isso do braço na minha escola de Alcântara mas fiz como as minhas colegas. Quando aquilo acabou sentámo-nos e a senhora directora perguntou Quem é uma menina que tem a mãe tuberculosa?

As minhas colegas ficaram todas caladas e eu também porque eu não sabia o que era isso e só depois nesse dia é que eu soube porque era que a minha mãe não ia dar aulas ao alunos dela que o disse a senhora directora e pensei logo que se calhar ela ia morrer. Então a senhora directora falou muito alto É aquela menina não é? E virou-se para mim com o dedo apontado e estava com uma cara muito má e eu já estava quase a chorar e vai ela foi ao pé de mim agarrou-me no braço com toda a força levou-me e sentou-me sozinha no fundo da sala longe das minha colegas e disse que era para eu não lhes pegar e avisou a minha professora que também era para eu não ir ao recreio e eu sempre a pensar que eu não sabia que eu estava doente, e então se a minha mãe fosse morrer?

E depois quando se ia embora a minha professora disse assim Vamos meninas levantem-se outra vez e digam Bom dia senhora directora e façam o que a senhora directora vos ensinou a sauda…a saudassão. Fizemos todas e depois eu esperei pela hora do recreio e fugi para casa e ia a correr muito e a chorar, só queria que me dissessem se era verdade se a minha mãe ia morrer que parecia que a directora tinha dito isso.

Ao outro dia ao intervalo eu estava aqui na sala a comer o meu lanche cheia de pena por não ir lá para fora com as outras meninas mas era para não lhes pegar e eu vi a minha mãe vir cá falar com a minha professora com um papel que acho que dizia que o que ela tinha não se pegava, mas ela estava era muito furiosa com a senhora directora por causa disso da saudass…da saudação. E então depois das meninas virem do recreio a minha professora Dona Lurdes voltou a pôr-me ao pé da minha amiga que se chama Nina e no dia a seguir eu já fui ao recreio e nós as duas e mais umas minhas colegas nunca mais fizemos essa palavra que eu não sei dizer, quando alguém entrava. Porque a professora disse que isso só faziam as que queriam porque acho que ela gostou do que a minha mãe disse. Foi assim e depois na outra semana a minha professora já não veio e agora eu estou a escrever esta carta porque andam a dizer que a Dona Lurdes está de castigo por causa de mim e eu queria dizer ao senhor inspector que as meninas daqui nós todas gostamos muito dela e que temos muitas saudades dela e que ela ensinava muito bem. E também quero dizer que ninguém me mandou escrever esta carta eu é que pedi à senhora professora nova Dona Luísa que nos veio dar as aulas se ela me deixava e ela é muito boazinha.

Obrigada senhora professora Dona Luísa
Adeus senhor inspector

Lisboa, 30 de Outubro de 1947
Maria Helena Pato

 
Adaptação de um texto publicado in Saudações, Flausinas, Moedas e Simones, Campo das Letras, 2006