Janeiro 2010


Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

  
À Administração da GEF
Ex.mos Senhores

Não aprecio excessivamente as placas comemorativas, mas aprecio muito menos as construções imobiliárias, por mais belas e confortávies que sejam, destinadas a uns quantos, nos sítios mais significativos das cidades, onde todos os que fazem essas cidades, se quisessem, poderiam viver, mas não podem.

Acho que a memória se constrói e destrói todos os dias de forma digamos que «natural», mas que há formas de a destruir ou reduzir) prepotentemente, o que só podem fazer aqueles que têm ou julgam ter poder, em nome de um futuro fabricado para esses mesmos «uns quantos» que poderão viver, se quiserem, nas zonas a que só uns podem ter acesso, e não todos, como o dia indicado na placa em questão parecia apontar  – e apontava mesmo.

Por isso me indigno quando acontece que, para uns quantos terem lucros que não consigo avaliar, e uns quantos (os mesmos ou outros) terem vidas que julgam melhores (e que não o serão necessariamente), isso se faça à custa do esquecimento (ou desvalorização) de coisas que houve (e não foram inventadas), bem diferentes das lembranças obrigatórias das dívidas aos bancos e ao fisco, mais ou menos necessárias para habitar nos lugares melhores.

Ou seja, que, neste caso, se passe um risco fácil sobre mortes (retirando ou deslocalizando uma placa), mortes que não aconteceram por acaso. Mortes de gente que queria que a História desse um salto e, com a morte, deixou de o poder querer. Mortes com autor, feitas por gente que não queria mudar a direcção da História passada, que era indubitavelmente a da opressão, do silêncio, do martírio, da pobreza.
De que parecia termo-nos vistos livres. Mas que, com gestos «ligeiros» como este, parece tentar regressar.

Será que os lucros (de quem vive disso) diminuem necessariamente só porque se «alivia» a via pública, mudando de lugar uns nomes e uns factos, que para muitos outros (que não vivem dos lucros) são determinantes do que vivem há mais de 30 anos e do que outros (mais novos) começaram (com dificuldades várias) a viver?
Eduarda Dionísio

Comunicado do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!

Sobre a placa evocativa das últimas vítimas da ex-PIDE/DGS no edifício onde se situava a sua sede, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa.

Lisboa, 7 de Janeiro de 2010

Em conversa havida hoje, por telefone, com o Dr. Fernando Gomes do GEF – Gestão de Investimentos Imobiliários, reiteramos a  posição da direcção do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! de que a placa evocativa das últimas vítimas da ex-PIDE/DGS deveria voltar a ser afixada no mesmo lugar de onde fora retirada antes do início das obras.

O  Dr. Fernando Gomes disse compreender a posição do NAM, mas que não podiam ser obrigados a pôr a placa onde entendêssemos e que se fosse colocada num local visível em nada estariam a desrespeitar a memória, indo nesse sentido, aliás – afirmou – muitos dos mails que o GEF (gef@gef.pt) tinha  recebido.

Solicitou, por fim, que a posição do NAM lhe fosse transmitida por escrito, após o que dariam uma resposta.

Pel’A Direcção do NAM

Raimundo Narciso

  
Um texto de Jorge Martins (*)

O primeiro post desta série pode ser lido aqui e o segundo aqui.

 
O Estatuto profissional dos réus

O estatuto profissional dos réus dos 143 processos da Inquisição referentes ao actual concelho do Sabugal não é conhecido para cerca de metade deles. Com efeito, 72 processos identificam a actividade profissional dos réus e 71 não identificam. Sublinhe-se que estamos a falar apenas das descrições divulgadas pela Torre do Tombo, situação que pode alterar-se após a consulta detalhada dos processos. Contudo, já temos dados suficientes para caracterizar as profissões dos réus acusados de judaísmo, que é a questão mais importante para o presente estudo.

Dos 72 processos com identificação das actividades profissionais dos réus, 69 referem-se a homens e apenas 3 a mulheres. Estas últimas estavam todas acusadas de práticas judaicas e uma era tendeira, outra vendedora e a última sem ofício. Quanto ao estatuto social dos réus desses 72 processos, 51 (70,8%) eram cristãos-novos, 9 (12,5%) eram cristãos-velhos e 12 (16,7%) eram de estatuto desconhecido. Dos réus com estatuto profissional conhecido, 56 (78%) estavam acusados de judaísmo. Estes valores permitem-nos ter uma ideia aproximada das profissões dos réus sabugalenses acusados de práticas judaicas. É disso que trataremos de seguida.

Das actividades profissionais destaca-se a de mercador com 18 réus (25%), seguida da de tendeiro com 5 réus, das de clérigo e lavrador com 4 cada e da de almocreve com 3. Todas as restantes profissões têm apenas 1 ou 2 réus a exercê-las.

A primeira conclusão que pode tirar é que se confirma aqui a actividade mais praticada pelos judeus. Se agruparmos algumas actividades similares dos acusados de judaísmo teremos uma perspectiva mais detalhada da sua realidade profissional: 31 dedicavam-se a actividades comerciais e 6 a actividades artesanais.

Ainda assim, temos quatro lavradores, actividade pouco habitual nos judeus, por imposição legal desde a Idade Média. Quanto a profissões socialmente mais conceituadas temos: estudante de leis, farmacêutico, feitor de alfândega, juiz de órfãos, mordomo, ourives, e rendeiro. Repare-se no facto de haver um único ourives, uma profissão associada ao estigma do judeu rico e poderoso.

Se tivermos em conta que os réus acusados de judaísmo têm habitualmente um elevado grau de probabilidade de se tratar, de facto, de praticantes da religião judaica (apesar de todos os perigos que isso implicava), através dos dados já obtidos, podemos definir o perfil do judeu sabugalense vítima da Inquisição: era um homem ou uma mulher, com 37 anos de idade, estatuto social de cristão-novo e estatuto profissional de comerciante.

(*) Biografia de Jorge Martins

(Publicado originalmente em Capeia Arraiana)

Um texto de José Medeiros Ferreira no seu novo blogue «Córtex Frontal»

 
Conheci um grande artista quando ainda estava circunscrito a um cubículo comercial que lhe aperreava o talento. Refiro-me a um dos grandes fotógrafos portugueses tardiamente revelado e que, ainda depois, derramou talento como camara man no cinema e na televisão: Augusto Cabrita (1923-1993).

Quando miúdo, vivendo no Barreiro, volta e meia tinha de ir tirar as tais fotografias tipo passe. Não tinha escolha de fotógrafo. A família toda era “obrigada” a recorrer a um que tinha estabelecimento montado, um pequeno estúdio fotográfico, junto à Sociedade Os Penicheiros. Questões velhas de amizades entre famílias com afinidades. Eu lá ia, tinha que ser, por obrigação e sem qualquer gosto, molhando constantemente a mão e passando-a pelo remoinho no alto do meu cabelo rebelde para ficar o menos mal possível no retrato de obrigação. O fotógrafo era o Senhor Cabrita. Ele tratava-me simpaticamente e procurava pôr-me à vontade, trocando impressões cúmplices sobre como iam as coisas no nosso Barreirense, então a jogar na primeira divisão. Era um homem de riso aberto e com um olhar que se via que estava para além do pequeno estabelecimento onde ele ganhava a vida e que fora montado pelo seu pai. Enquanto vivi no Barreiro, nunca recorri a outro fotógrafo que não fosse o Senhor Cabrita. Soube depois que, enquanto artista, ele exercitava, em privado, outros talentos ligados à música, sobretudo tocando piano, inclinação que partilhava com a sua irmã Dulce que vim a conhecer mais tarde, uma economista, bibliotecária e Mezzo-Soprano (tendo ilustrado, magnificamente, com a sua espantosa voz, obras de Lopes Graça), casada com o jornalista e escritor Dinis Machado.

Mas o Senhor Cabrita, melhor dizendo – Augusto Cabrita, galgou espaços para além da sua “lojeca” barreirense e do mundo das fotografias tipo passe e de casamentos e baptizados, desatou a fotografar por aí fora, tornou-se reconhecido, começou a recolher prémios e a tornar-se famoso. Fez nome no cinema (foi o responsável pela imagem do Belarmino de Fernando Lopes) e na televisão, através de inúmeras reportagens, sobretudo as associadas à guerra colonial. De “fotógrafo” passou a Artista. Foi um dos melhores fotógrafos portugueses de todos os tempos e terminou a sua carreira com direito ao tratamento reverencial de Mestre Augusto Cabrita. Tinha, sobretudo, um enorme talento a captar rostos e enquadramentos paisagísticos e sociais. Sem as fotografias dele sobre o “velho” Barreiro, dificilmente a memória da urbe e suas pessoas que enquadraram a maior concentração industrial portuguesa de todos os tempos teria sobrevivido, incluindo a transição de uma aldeia ribeirinha de moleiros, pescadores e fragateiros para a via da modernidade e da industrialização, pelos caminhos de ferro, pela indústria corticeira e, finalmente, pelo gigante industrial que foi a CUF e que foram transformando o Barreiro na maior vila operária portuguesa.

Demorou mas chegou o tempo da minha vaidade juvenil de apregoar aos quatro ventos, para me pôr em bicos de pés face aos do meu tamanho e igualha, quando Augusto Cabrita começou a alastrar a sua fama, de informar as minhas tribos escolares que aquele senhor, agora Mestre, era quem me tirava os retratos para os bilhetes de identidade e cadernetas onde me registavam as gazetas às aulas.

 
Imagem: Uma das fotografias de Augusto Cabrita. Regista o tempo do advento da televisão, em meados dos anos 50 do século XX, um bem escasso que se via sobretudo nos cafés e que, em momentos especiais, provocava ajuntamentos urbanos.

 
(Texto publicado no blogue Água Lisa)

 
Um texto de Jorge Martins (*)

Na sequência das crónicas que tenho publicado sobre o Núcleo Museológico do Posto de Comando do MFA e considerando que aquele espaço de memória está subaproveitado, pois continua a fazer as mesmas coisas desde que foi criado há 8 anos, a saber: visita de estudo com passagem pela exposição e visionamento do mesmo excerto do filme da SIC “A Hora da Liberdade”, resolvi, entre outras propostas organizativas, programáticas e dinamizadoras, elaborar um conjunto de fichas de trabalho, destinadas aos professores (principalmente os de História).

Este tipo de projectos sempre esteve na mente da direcção da Associação «Não Apaguem a Memória», pelo que é sob os seus auspícios que são lançadas no «Caminhos da Memória», que passa a disponibilizar um modelo de ficha para o 4º,  6º, 9º e 12º anos, em PDF, que se pode descarregar livremente e ser aplicada aos alunos desses anos curriculares em que o 25 de Abril é estudado nas escolas.

As fichas foram concebidas para que cada aluno faça o seu próprio estudo da importância do Posto de Comando no 25 de Abril e conheça factos e personalidades decisivas para o sucesso da revolução. Procurou-se aumentar o grau de dificuldade, à medida que a ficha se destinava aos níveis curriculares mais elevados. Mas, somo os alunos, as turmas e as escolas não são todos iguais, qualquer professor pode usar questões das fichas previstas para os outros anos, retirar ou acrescentar perguntas. Obviamente, os alunos também podem descarregar as fichas e usá-las autonomamente, assim como qualquer visitante.

Estas são as primeiras fichas, pois já estão a ser concebidas outras fichas complementares, com sugestões de trabalho de pesquisa individual (designadamente na Internet) e trabalhos de grupo (por exemplo, apresentações em PowerPoint). Os anos curriculares estão identificados do seguinte modo: 1- 4º ano; 2- 6º ano; 3- 9º ano; 4- 12º ano.

Sugestões e críticas são bem-vindas.

 
(*) Biografia de Jorge Martins

Brasil - Exposição «Direito à Memória»

CES-Lisboa/CIUL
Picoas Plaza, Rua do Viriato, nº 13 (estação de metro Picoas)
3 de Dezembro de 2009 a 31 de Janeiro de 2010, das 10:00 às 20:00.

 
Apresentação

O CES acolhe, nas suas instalações em Lisboa, a exposição fotográfica “Direito à Memória e à Verdade”, organizada pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República do Brasil.

A exposição, concebida originalmente para comemorar os 27 anos da promulgação da Lei da Amnistia do Brasil, foi aberta ao público, pela primeira vez, em Agosto de 2006, na Câmara dos Deputados em Brasília.

Segundo o Ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República do Brasil, Paulo de Tarso Vannuchi, “a exposição traz uma ambientação sonora e visual que conduz o público numa ‘Viagem no Tempo’ […] até aos anos da ditadura no Brasil. A exposição é mais uma forma de conhecer o que aconteceu nesse lamentável período da vida republicana brasileira. Só de posse desse conhecimento o Brasil saberá construir instrumentos eficazes para garantir que as violações dos direitos humanos, ocorridas durante a ditadura, não se repitam nunca mais”.

 
Um texto de José Augusto Rocha (*)

Deixo aqui exarado o meu testemunho breve de algumas circunstâncias que experienciei ligadas ao desmantelamento da PIDE/DGS e ao frustrado julgamento dos seus crimes, no caso, o das escutas telefónicas. Esta memória ganha actualidade pela dupla razão da ocorrência de duas circunstâncias actuais. Por um lado, a tentativa da eliminação da lápide que lembra os crimes da Pide e procura o apagamento da memória desta polícia política. Por outro lado, porque num momento em que a vida dos portugueses conhece, de novo, escutas ilícitas que ferem elementares princípios constitucionais de protecção da vida íntima e privada dos cidadãos, e em que parte da opinião pública, açulada pela fúria punidora de oportunistas políticos travestidos de novas Erínias, pressiona pela publicidade das conversas privadas, é oportuno lembrar o passado negro e o crime sem castigo da afronta aos direitos humanos e dos direitos fundamentais das escutas telefónicas da PIDE e reflectir um pouco sobre o hodierno tempo incerto e problemático do direito à intimidade da vida privada e do direito à confidencialidade das comunicações.

Um dos crimes sistematicamente cometidos pela PIDE e que ficou sem julgamento, foi o das escutas telefónicas. Logo após o 25 de Abril, reuniu-se a Assembleia Plenária dos advogados portugueses, no sentido de colaborar no desmantelamento do aparelho repressivo do Estado Novo e, em especial, da polícia política, e contribuir para a investigação dos crimes por ela praticados. Uma das deliberações tomadas foi a eleição de quarenta e sete advogados que vieram a distribuir-se por três secções: a de coordenação, a de análise de documentos e a de investigação. Mais tarde, quando foi criada a “Secção de Justiça” da Comissão de Extinção da PIDE/DGS, foram escolhidos dez dentre eles para fazerem parte da “Comissão Consultiva” dessa Secção, que integrei. Em 18 de Maio de 1974, recebi um ofício do Senhor Bastonário Ângelo de Almeida Ribeiro a “… solicitar a comparência do Colega no edifício que foi sede da extinta DGS, na Rua António Maria Cardoso, pelas 15 horas do próximo dia 21, para uma primeira sessão de trabalhos”. Resolvi fazer uma acta dessa reunião, bem assim das subsequentes, que guardo nos meus arquivos. Tive, então, a oportunidade de conhecer os arquivos das escutas telefónicas na sede da Rua António Maria Cardoso e tomar consciência da extensão dos crimes de escuta cometidos por aquela polícia.

(mais…)

Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

&nbp;
À Administração da GEF

Não me abono de outra condição, para além da de ter sido um dos dez milhões de portugueses a quem a ditadura salazarista pretendeu calar a vocação para a liberdade e a emancipação, para reclamar o direito à indignação e a concluir que:
a) – os que hoje temem confrontar-se com a memória daquilo que foi quase meio século de obscurantismo salazarista, são os herdeiros históricos dos que constituíram a sustentação social activa desse tempo de ignomínia;
b) – como inimigo de hoje, não me merecem outro respeito para além daquele que é devido ao inimigo;
c) – por mais placas que ocultem, jamais serão capazes, como não o foram os seus ascendentes, de tapar a placa que nasce todos os dias na consciência de cada homem, como sinal da sua vocação para a liberdade, e de tudo aquilo que o conceito, no seu sentido mais terreno, também encerra: direito e obrigação de participar na actividade do colectivo humano através do instrumento de que se encontra dotado – a capacidade de trabalho – e a usufruir dos bens, para o corpo e para o espírito, em condições de igualdade com os demais, que a sua actividade produz.
nelson anjos

 
Exmos, Senhores,

É profundamente lamentável a ocultação da placa da PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso. Por um lado, denota a insensibilidade cultural do tecido empresarial e, por outro, desrespeita a memória dos portugueses e a sua História. Se o argumento economicista-comercial é o do receio que a referência afaste compradores ou inquilinos, então é ainda mais triste este atentado contra o património etnológico português, reflexo de um provincianismo serôdio da nossa cultura empresarial que persiste em resistir à elevação e insiste numa tradicional postura de ocultação, símbolo do medo que não queremos esquecer, enquanto povo, pela manipulação cruel que dele se fez no passado e que recusamos reeditar. Não se pode ocultar a História nem a verdade senão para efeitos imediatos de rentabilização de uma reserva mental que elimina a cultura a troco de um lucro que também a História dará a conhecer.
Esperamos, apesar deste infeliz episódio, que vença a elevação de uma cultura empresarial que o Centro Histórico de Lisboa merece e que a sociedade portuguesa justifica. Devolvam à cidade a sua memória e recoloquem dignamente na Rua António Maria Cardoso o testemunho de reconhecimento nacional por um sofrimento que não queremos, nunca mais!, ver repetido!
Com os melhores cumprimentos,
Ana Paula Fitas


  (Fundação Mário Soares)

 
Bem a propósito do 48º aniversário do Golpe de Beja (ontem), este texto de JHS e os excertos do documento agora divulgados.

 
Um texto de José Hipólito dos Santos (*)

 
Há dias, remexendo em velhos papéis guardados no fundo dum armário, saltou aos meus olhos um conjunto de folhas agrafadas tendo como título “Viagem Secreta a Portugal”. Era um texto de que não mais me lembrara, ou que tinha considerado definitivamente perdido, que me fora dado por Arajaryr Campos a secretária/companheira do General Humberto Delgado.

Um dia, em Julho de 1964, em Argel, recebi um recado do General Delgado convidando-me a ir tomar um refresco na sua vivenda, no interior do Palais du Peuple, residência oficial do Presidente da Argélia Ben Bella.

Eu fora um dos cinco promotores da sua ida para Argel, além de ser o presidente da JAPPA – Junta de Acção Patriótica dos Portugueses da Argélia, mas pretendia sobretudo conversar comigo como participante no Movimento de Beja.

Falámos um pouco sobre as tensões na Oposição portuguesa na Argélia e das dificuldades dos portugueses exilados. Nenhum de nós estava interessado, então, em aprofundar a natureza dessas tensões que viriam, algumas semanas depois, a transformar-se em rupturas graves.

O que se passara com o assalto ao quartel de Beja, que fazia parte dum projecto seu de carácter insurreccional com militares e civis que adeririam em cascata, continuava a estar no centro das suas reflexões.

Interessou-se particularmente pela maneira como eu tinha estabelecido a ligação entre os civis de Manuel Serra e os militares de Varela Gomes, ligação essa que constituía a base de todos os seus projectos.

Mas o General, sem esconder a grande decepção com o falhanço daquela tentativa revolucionária, atrasando o seu desejo de libertar Portugal da ditadura, pôs-se a contar como entrara em Portugal, para dirigir o Movimento de Beja, como se escondera, depois de constatar que tudo estava perdido, e como finalmente saíra de Portugal, rompendo as malhas duma repressão sem precedentes, em todo o país. Arajaryr tinha sempre um complemento na evocação desses episódios e um comentário picante contra a PIDE que se deixara ludibriar várias vezes. O General teatralizava alguns episódios, como quando fora obrigado a sair do comboio, em Barca d’Alva, para mostrar o passaporte ao PIDE. Fingindo sofrer de perturbações nervosas que lhe provocavam esgares fisionómicos e algum descontrole de mãos e braços, postou-se face ao agente da PIDE que não tinha coragem para o encarar e carimbou o passaporte com a maior rapidez!

Relatavam tudo isso com uma certa satisfação, por vezes, dando umas gargalhadas e consideravam que a PIDE era menos competente do que se pensava, nomeadamente os activistas políticos da Oposição.

A festa do reencontro do General e de Arajaryr, que viajara por Vilar-Formoso, fez-se em Madrid, sancionado por uma fotografia que depois exibiram publicamente.

Entretanto, Arajaryr levantara-se para ir buscar um documento, escrito por si, que intitulou VIAGEM SECRETA A PORTUGAL, o tal documento que reencontrei.

O que a seguir se transcreve são trechos desse texto, que traz elementos de reflexão sobre a personalidade do General e sobre erros cometidos, de que viria a pagar uma pesada factura. Mas a responsabilidade da Oposição, toda ela, foi muito grande no pagamento dessa factura.

(mais…)

« Página anterior