Este post foi publicado originalmente no blogue do Centro Nacional de Cultura, em 19/1/2009.

   
«Lusitania, Quo Vadis?». Foi este o título de um ciclo de conferências organizado pelo Centro Nacional de Cultura em Março de 1969. Nenhuma pergunta poderia exprimir tão bem o que nos perguntávamos a nós próprios no final dos anos 60.

O Centro Nacional de Cultura era um das peças de um complicado puzzle que constituía então a oposição ao salazarismo e, em 1968-1969, foi dirigido por um grupo de pessoas a que pertenci. Mais concretamente, em 27 de Novembro de 1968, realizaram­­-se eleições para os corpos gerentes e, para além de José Manuel Galvão Teles (presidente) e de mim própria (vice-presidente), passaram a fazer parte da Direcção: Teresa Amado, Manuel Moita, Sebastião José de Carvalho, António Reis e Nuno Portas. Éramos todos muito jovens, católicos ou já ex­‑católicos. À Mesa da Assembleia Geral presidiu Henrique Martins de Carvalho, tendo com vogais Gonçalo Ribeiro Teles e Augusto Ferreira do Amaral e o Conselho Fiscal ficou constituído por José Ribeiro dos Santos, Francisco de Sousa Tavares e Francisco Lino Neto. A Direcção reflectia uma renovação total, a continuidade era assegurada nos outros corpos gerentes.

A nova Direcção começou imediatamente a organizar debates e reuniões na sede do Centro e procurou angariar fundos e novos sócios.

Entretanto, a oposição pensava já nas eleições legislativas do ano seguinte. Em 20 de Janeiro de 1969, foi criada a Comissão Promotora de Voto, por carta enviada ao Presidente do Conselho e, entre os quarenta e três subscritores, seis eram membros dos corpos gerentes do Centro Nacional de Cultura.

Era importante tirar partido de todas as ocasiões de debate, tão alargado quanto os condicionalismos o fossem permitindo. O Centro planeou então uma iniciativa de grande vulto, consubstanciada em três sessões a serem realizadas em Março de 1969, sob o tal nome genérico de «Lusitania, Quo Vadis?». Política Económica, Acção Cultural e Perspectivas Políticas foram os grandes temas escolhidos, a sede da Sociedade Nacional de Belas Artes o local conseguido para a realização.

Embora se previsse uma grande afluência de participantes – o que, de facto, aconteceu –, foi decidido evitar o modelo clássico, e já explorado até à exaustão, de «conferência, seguida de debate» e adoptar um formato relativamente informal: para cada uma das sessões, foi previsto um painel com duas pessoas encarregadas de formular perguntas e três que tinham a missão de lhes responder. Foi elaborado e divulgado o seguinte programa, recheado de nomes sonantes:

  • Política Económica – 5 de Março de 1969
    • Perguntas:
      • João Martins Pereira
      • Luís Salgado Matos
    • Respostas:
      • Francisco Pereira de Moura
      • Sérgio Ribeiro
      • Vasco Vieira de Almeida
  • Acção Cultural – 12 de Março
    • Perguntas:
      • Alfredo Canana
      • Eduardo Veloso
    • Respostas:
      • António Paulouro
      • Mário Castrim
      • Rui Grácio
  • Perspectivas Políticas – 19 de Março
    • Perguntas:
      • José Lopes de Almeida
      • Mário Brochado Coelho
    • Respostas:
      • Jorge Sampaio
      • Mário Soares
      • Mário Sottomayor Cardia

As duas primeiras sessões realizaram­‑se com muito sucesso e sem grandes sobressaltos. As atenções viraram­‑se todas para a terceira sessão, marcada para 19 de Março.

Na véspera, o Ministério da Educação comunicou oficiosamente à Sociedade Nacional de Belas Artes que deveria recusar a cedência da sala, sob pena de encerramento (a pretexto «oficial» de um pretensa irregularidade burocrática no seu funcionamento, sem qualquer ligação com a cedência em questão).
Restava muito pouco tempo para encontrar um outro local onde coubessem centenas de pessoas. Seguiram­‑se horas vertiginosas e inesquecíveis para José Manuel Galvão Teles e para mim. Tentámos tudo: clubes recreativos, associações de bombeiros, hotéis, escolas, a Sociedade de Geografia. Chegámos até a pensar­ alugar um cacilheiro. De madrugada, foi no Porão da Nau que procurámos convencer Vasco Morgado a ceder ou alugar um teatro. Foram feitas dezoito tentativas – em vão.
À hora marcada, fomos à Sociedade Nacional de Belas Artes comunicar o sucedido à multidão que aguardava perto das portas fechadas, exibindo a lista dos dezoito esforços infrutíferos. Deu­­‑se então o inesperado: alguém, que nenhum dos responsáveis conhecia, veio dizer que era dono de uma fábrica de papel situada na Av. do Brasil e que a punha à disposição. Temeu­‑se que fosse uma cilada da PIDE mas, felizmente, houve quem o reconhecesse. Foi rápida a migração da Barata Salgueiro para a Av. do Brasil, onde surgiria novo problema: a dita fábrica situava­‑se num primeiro andar e o espaço, embora grande, estava parcialmente ocupado com pesadíssimos rolos de papel. Havia que limitar as entradas porque se temia que o chão não aguentasse, o que não foi pacífico. Ficaram muitas pessoas na rua e, entre elas, dirigentes estudantis de extrema­‑esquerda, muito aguerridos, que iam gritando palavras de ordem e cantando: «É sempre a mesma melodia, Mário Soares e a social-democracia!» Exigiam entrar e tentaram mesmo derrubar a porta, avançando sobre ela com rolos de papel. Os membros da Direcção do Centro, das janelas, tentavam acalmar os ânimos e avaliar os riscos.
O colóquio ia decorrendo com todos os membros previstos para o painel. Os participantes – em pé, sentados no chão ou empoleirados em rolos de papel de diferentes alturas – formavam um estranho quadro cénico que, infelizmente, não foi filmado nem sequer fotografado.

A PSP tentava restabelecer o trânsito, praticamente interrompido pela aglomeração de pessoas junto da porta do nº 56 da Av. do Brasil. Estariam, segundo dados da própria polícia, cerca de 350 pessoas dentro da sala e de 600 na rua. Temíamos uma intervenção porque o tempo avançava e era imperioso terminar antes da meia-noite. Foi então decidido correr o risco de sobrecarga por alguns minutos e abriu­­‑se a porta para que mais pessoas pudessem entrar: os referidos dirigentes estudantis da extrema­‑esquerda, que garantiram conseguir uma sala para que fosse possível repetir a sessão, no dia seguinte, com espaço suficiente para todos.

Ficou portanto marcado novo encontro para as 21h30 do dia 20 de Março, uma vez mais junto das instalações da Sociedade Nacional de Belas Artes. Cumprido o compromisso, verificou­­­‑se que se mantinha o impasse: não havia sala. A polícia esperou pouco para dispersar os presentes – desta vez energicamente, à bastonada. Houve correrias, palavras de ordem gritadas, pelo menos um braço partido de uma correspondente de imprensa estrangeira.

Com o serão livre, alguns fomos correndo para o cinema S. Jorge, onde ainda chegámos a tempo de ver Steve McQueen e Faye Dunaway em O grande mestre do crime. Isto diz muito do que era a nossa forma de estar na vida naquele fim da década de 60 – resistência, sim, mas também lazer a que nunca renunciámos…

Alguns dos factos que aqui resumi foram relembrados lendo, no processo organizado pela PIDE e que encontra na Torre do Tombo, os relatórios – pelo menos quatro – que aquela polícia e a PSP elaboraram a propósito desta terceira sessão do «Lusitania, Quo Vadis?». Fiquei a saber também que na Av. do Brasil «a polícia não deveria intervir, a menos que os assistentes se manifestassem na via pública ou de qualquer outro modo alterassem a ordem» e que «embora a maioria das pessoas fossem jovens (rapazes e raparigas), notou-se a presença de muitos homens de boa aparência e porte social». Nada se diz sobre as mulheres…
Num outro relatório mais completo, que teve o cuidado de incluir nos nossos processos individuais como membros dos Corpos Dirigentes do Centro, a PIDE concluiu que o ciclo de conferências tinha servido,
«[…] para muitos dos inimigos do regime, como Mário Soares, Jorge Sampaio,    Mário Sottomayor Cardia e outros, fazerem a propaganda e apologia dos seus  ideais demolidores da ordem e do progresso […], onde não foi até poupada a linha do Governo relativamente à sua política ultramarina».

Mas o «Lusitania, Quo Vadis?» tinha­‑se realizado.
Talvez ninguém se lembre hoje do que foi dito ou não nessa noite de 19 de Março. Mas todos guardaram na memória o filme dos acontecimentos. E a satisfação de terem participado em mais uma finta ao regime.

Após um ano de exercício, a Direcção que tomara posse em Novembro de 1968 não viu o seu mandato renovado. O Centro foi um dos palcos privilegiados das divergências entre a CDE e a CEUD, no período que antecedeu as eleições legislativas de 1969. A Direcção encabeçada por José Manuel Galvão Teles era claramente afecta à CDE, mas havia muitos «pesos pesados» na CEUD com grande influência no Centro – Mário Soares, Salgado Zenha e Francisco de Sousa Tavares, entre outros. A disputa concretizou­­­‑se em eleições renhidíssimas que se saldaram por uma vitória da lista liderada por Sousa Tavares que assim retomou a presidência da Direcção do Centro

E a vida continuou.

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