Às vezes, a minha estante traz-me descobertas: livros que me foram oferecidos e nunca houve vontade de ler, ou que – como é este caso – por ali ficaram esquecidos, à espera de leitura num intervalo de acalmia da torrente “tsunamiana” dos anos da Revolução. Peguei agora no “Caxias: últimos dias do fascismo” de Orlando Gonçalves e já não voltei ao trabalho urgente que tinha entre mãos. O prazer manifesto com que o autor procura as palavras certas e joga com elas lembrou-me, de repente, que além de excelente jornalista tinha sido um amante das Letras. Mas quis, sobretudo, trazer aqui o testemunho de um companheiro da luta anti-fascista que saiu em liberdade em 26 de Abril de 74. Em minha opinião, um extraordinário testemunho. Uma escrita lenta, pormenorizada, à dimensão do tempo na cadeia, e mais ainda daquele que era vivido em regime de isolamento. A repetição dos gestos, evidenciada na repetição propositada da descrição desses gestos, reflecte bem a monotonia do quotidiano numa cela. O texto dá-nos a dimensão desse tempo – que se queria “estender ou encurtar” – e a importância dos gestos com que se preenchia esse tempo. O que mais me impressiona é a simplicidade com que nos transmite (ou recorda) o profundo significado do isolamento (a revolução começara muitas horas antes e Orlando Gonçalves divaga acerca do sal e da pimenta que a companheira lhe levara…).
A atenção a tudo que vem, não vem, ou se espera, dos companheiros das salas do rés-do-chão e do lado é qualquer coisa de comovedor para quem passou por ali. Ficamos a saber que, nesse 25 de Abril, quando os presos políticos ainda continuavam a ignorar o seu futuro, é uma voz feminina a primeira a ecoar no Forte, saudando a Democracia. Lindo! – Desculpem, não resisto ao simbolismo! – Helena Pato

 
Um texto de Orlando Gonçalves (*)

 
Mais um dia… Dias e noites sucedem-se obsessivos, sem fronteiras definidas, estupefacientes. Esta linearidade é também peça da engrenagem que nos tritura.

Amanheceu cinzenta esta quinta-feira, o céu e a terra a confundirem-se e a apertarem a esfera em que mal nos movemos. Nem sequer se distingue os contornos da Outra- Banda e o rio não é mais do que a fronteira neutra de continentes hostis.

Já cumpri a rotina matinal. Foi mais lento, desta vez, o passeio na cela. Aquela urgência inconsequente de atingir um destino deu nesta calma vulcânica que aparento. Enquanto caminho, os mais desencontrados pensamentos à velocidade do átomo. Todas as ameaças de ontem, todos os problemas que deixei suspensos, a sorte dos amigos e o destino do país, apresentam-se repartidos por um presente e futuro que sinto meus como se fossem de outrem. O cérebro é calda ignescente, só com dificuldade separo a realidade da ficção.

De novo procurei chamar a atenção do Navarro. Em vão! Por mais que batuque não vem qualquer resposta do outro lado. Que lhe terá sucedido? Tortura no reduto sul? Doença? Uma preocupação subsidiária a somar a tantas que me ocupam.

Será que os homens lá de fora compreendem a nossa situação? Suspeitarão eles, ao menos, da nossa existência entre muros? Refiro-me, em particular, aos homens que ao volante dos seus carros correm na estrada que se estende na minha frente.

Faz pouco tempo, entregaram-me outra encomenda da Luísa. Pelo rol, que confiro, sinto e sofro a sua solicitude. Pequenos nadas de que não se esquece: sal, pimenta, uma espátula de madeira…Um livro que mandou não me chegou às mãos.

Ontem ao meio-dia (hora legal), entreguei o requerimento a pedir autorização para receber livros e revistas. Foi-me devolvido, à noite, por carência de data. “É preciso fazer outro”, disse o guarda. Fazer outro? Bem que podia aproveitar papel, apor a data imprescindível, mas lá isso era contrário às regras daquele jogo. Rasgar, repetir, fazer outro, esse era o único remédio. Já fiz outro. Voltarei a entregá-lo na hora exacta e no cumprimento das boas normas.

Entrou o carcereiro conferente, na sua hora, e logo após foi a do almoço, que prolonguei em requintes. Dentadinhas miúdas, breves golos de água, abusos de limpezas digitais, subtilezas presidiárias para estender o tempo, ou encurtá-lo. Acabei, logo vieram tirar a louça. No decurso desta operação mecânica e quotidiana, com pasmo meu, ocorreu um pormenor antológico a figurar em processo para a reabilitação do homem: “O senhor está a comer pouco!…”, diz-me o guarda a meia voz. “Falta de apetite”, grunhido breve a decepar conversas. E vai ele, como que embaraçado, tossicando e levando a mão às faces: “O senhor já compra o jornal?” Respondi negativamente e inquiri se podia fazê-lo. “Pode, claro que pode! O senhor pede autorização e aguarda o deferimento. Não costuma levar muitos dias…”

Será hoje o dia dos fenómenos?! Ainda há poucos minutos vi um praça da GNR colher, de entre a relva, um minúsculo malmequer, cheirá-lo, passear-se com ele pelo talude.

Vão agora começar as mais longas horas deste dia. Um dia estuporado em que nada acontece: nem ao menos as canções de firmeza das salas do rés-do-chão, cujo silêncio insólito me perturba.

Mais outro acontecimento inusitado: um helicóptero sobrevoa rasante este presídio-degredo. Corro à janela e sigo-lhe a trajectória, vejo-o perder-se para as bandas das traseiras. E fico-me à janela, à espera do seu regresso.

Afinal, cogito, será que tenha acontecido qualquer coisa? Vejo surgir no talude, ocupar a torre de vigia, quase toda a guarnição da Guarda Republicana, homens armados até aos dentes, cartucheiras a tiracolo e capacetes de aço. Exercício ou prevenção?

Agora é uma fragata da marinha de guerra que desce o Tejo, que embica na direcção do forte, que curva graciosamente e ruma para jusante. A vigilância da guarda republicana continua pelo resto da tarde. Curioso, a princípio, o enfado entra depois comigo. Tudo aquilo está para além do meu entendimento, a modos como se olhasse o frenesim de um formigueiro ou como se do Olimpo, sendo Deus, abarcasse a azáfama deste mundo de homens. Cada um dos gestos me surge inconsequente, o conjunto das manobras vazio de significado. Recolho ao interior e quedo a meditar. Encostado à pedra da bancada deixo-me adormecer.

O cochilo foi de pouca dura. Estico-me, vou até à janela. O panorama não sofreu alterações. Reentro, dirijo-me à retrete. E nisto “um claxon” longínquo prende a minha atenção: aquele matraquear intermitente tem algo de familiar. Apuro o ouvido e surge a revelação: do espaço chega-nos uma mensagem. Corro pelo papel, pela esferográfica, debruço-me na bancada, conto as batidas, anoto: ILITAR VITORIOSO… E aqui baralho tudo, o resto sai uma mixórdia. No entanto, julgo destrinçar de toda a salganhada: DEPOSTO CAETANO…É uma tremura que me percorre e abala: sonho ou realidade? Perscruto o exterior e o dia que afronto é o mesmo de antes, nada que corrobore a minha exaltação. Sem querer, levo as mãos à cabeça: terá sido uma alucinação? Do lado esquerdo, a voz do Sérgio Ribeiro restitui-me o equilíbrio: “Orlando, ouviste?” Não fora pesadelo, a mensagem estava certa.

Por todo o forte nem um suspiro a quebrar o marasmo. Até ao anoitecer tudo correu em águas mornas! Mas, à hora habitual, o jantar não foi distribuído. Só muito para o tarde vem o carcereiro entregar os tachos. O serviço é feito como em todos os dias, mecânico, sem palavras.

Comi e agora fumo encostado às grades. Fumo e escrevo. Queimo cigarros seguidos aperreado por esta incerteza. Que pensar de tudo isto? Em boa verdade, a história do golpe militar não oferece grandes margens para júbilo!

Chove. As patrulhas permanecem vigilantes, amplas capas de oleado sobre os pesados arreios. As salas dos comunicáveis, mudas o dia inteiro, voltam a dar sinais de vida. Sempre é uma luz nas trevas: obrigado, camaradas!

Sento-me voltado à janela, escuto, e as grades, em fundo negro, sugerem mira técnica de descomunal televisor. E a comunicação principia. A “sala quatro” informa não terem sido chamados a tribunal, sem que vejam explicação, dois companheiros com julgamento marcado para esse dia. Aventam-se hipóteses, comenta-se o acontecimento invulgar. Desta vez andavam atrasados, a mensagem não chegara até eles! E a “sala um” dá o palpite: a causa residirá em acontecimentos anormais ocorridos em Lisboa. De muito longe, uma voz espremida esforça-se por atirar a notícia da revolta. Tarefa ingrata. Grita, repete, volta a gritar, até que por fim a “sala um” apanha o texto integral, que logo difunde por todo este sector: GOLPE MILITAR VITORIOSO DEPÔS GOVERNO MARCELO CAETANO – CORAGEM.

A válvula saltou, um bramido potente eleva-se de todo o forte, acorda ecos na noite morrinhenta. Do lado esquerdo, uma voz feminina sobrepõe-se ao vozear: “Viva a democracia!” De algures, deitam água na fervura: cedo ainda para tirar conclusões, desconhece-se a tendência dos golpistas!

Pela noite adiante há carros que chegam, outros que partem. Ninguém pensa na contagem, os funcionários sumiram-se. Era noite velha quando apagaram as luzes.

Deito-me. Quero dormir para abreviar a madrugada. Qual quê, revolvo-me no colchão, estico-me e encolho-me, as molas soltam rangidos irritantes! Levanto-me, vou espiar o exterior. Focos de luz varrem o terreno palmo a palmo. Os vigilantes não dormem, localizo os seus vultos sob o capuz da noite. E é assim, da janela para a cama e da cama para a janela, que venço os temores da noite em esperanças reacendidas.
(*) Em “Caxias: últimos dias do fascismo” (edição n.a. ORION), pode ler-se que “Orlando Gonçalves nasceu em Lisboa em 1921. O 28 de Maio apanhou-o na primeira infância. Fascismo foi o ar que respirou até ao 25 de Abril. A “Resistência” bebeu-a no meio operário em que se formou, permanentemente integrado num mundo de abstinência, privações dolorosas, constantes humilhações. Publicou três romances.”

Entre 1963 e 1994, ano da sua morte, dirigiu o Notícias da Amadora – jornal que foi um baluarte da voz livre da Resistência. Foi o primeiro presidente da Comissão Administrativa do Concelho de Oeiras (1974/1977); membro da Assembleia Municipal de Oeiras (1977/1979) e membro da Assembleia Municipal da Amadora (1994). Agraciado com a medalha de ouro da cidade da Amadora, o seu nome foi dado a uma escola básica (Amadora), a uma rua na Buraca (Amadora) e a outra na Ajuda (Lisboa).

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