Sabemos que a preservação da memória da resistência não tem sido uma prioridade do poder político (nas suas várias composições) saído da revolução.

As estratégias de branqueamento dos seus episódios mais sombrios como que prolongam a política de silêncio e invisibilidade dos tempos da ditadura. O descuido, a desatenção e o desinteresse sistemático para com as marcas desse passado recente são tragicamente visíveis no que respeita, justamente, aos locais da repressão. Hoje lugares destruídos, desfigurados ou definitivamente transfigurados.

Se não vejamos: a cadeia da PIDE do Porto foi transformada em Museu Militar. O Reduto Norte do Forte de Caxias continua, segundo penso, prisionalmente operacional (obviamente para presos comuns). A Prisão do Aljube, já destruída no seu traçado anterior, e depois de alguns anos ocupada pelo Instituto de Reinserção Social, é actualmente propriedade da CML, para futuras instalações do reclamado Museu da Resistência. Seria a única boa notícia neste quadro desolador, mas a experiência, infelizmente, não nos autoriza o mínimo optimismo. E, mesmo fora do território nacional o tristemente célebre campo do Tarrafal, se para os portugueses com mais de 40 anos significava ‘campo da morte lenta’, para os mais jovens virou sinónimo de turismo, pesca e praia…O mesmo que, suspeito, acontecerá a prazo com o Forte de Peniche, cujo complexo e polémico processo de reconversão em pousada tem sido amplamente discutido (especialmente na NET e particularmente neste blog) mas também esporadicamente na imprensa escrita, quando, é certo, escasseiam notícias de maior impacto mediático e mais premente actualidade. Assim sendo, desconheço os últimos lances do conturbado dossiê, mas temo não se vislumbrar qualquer solução que não ceda à implacável lógica economicista, e ao rolo compressor do negócio imobiliário…para mais de luxo…

O caso da sede da PIDE na António Maria Cardoso, com mais eficácia e espírito empreendedor o testemunha e aí está, em todo o seu esplendor, um magnífico complexo habitacional, destinado a gente sem memória, que é meio caminho andado para a felicidade… ou pelo menos, sem más memórias, atendendo à promoção comercial dos apartamentos, disponível no site do empreendimento que, cirurgicamente esconde a história recente, para se fixar na história dos moradores nobres até ao séc XVII. Les bons esprits se rencontrent…

Daí que, face ao lamentável e grotesco episódio da placa, haja dois tipos de atitude e, também dois tipos de interlocutores, de acordo com as suas responsabilidades específicas: a primeira, digamos de baixa densidade, consiste em confrontar a empresa em questão com um compromisso que assumiu. É uma questão de ética… empresarial se quiserem… supondo que isso existe…

A segunda, de alta densidade, é também ética, mas agora política. E consiste em confrontar, de novo, (e tantas vezes quanto necessário) os governantes deste país (nomeadamente o Ministério da Cultura) com as suas responsabilidades na defesa e transmissão da nossa memória colectiva. Denunciando que a fuga a esse compromisso é um crime contra o passado de luta e resistência, sem o qual eles nem sequer existiam.

Daí o apelo do Miguel Cardina que subscrevo na íntegra: «Guardem alguma coisa para o que der e vier. É que alguma coisa está mal num país que aprova em 2008 uma resolução que vincula o Estado ao ‘dever da memória’ e depois convive com placas desaparecidas, antigas cadeias políticas em vias de se transformarem em pousadas de luxo, e museus e arquivos sem dinheiro para funcionarem

A defesa da memória e a indignação pelo seu apagamento não se podem encolher tanto que caibam numa simples placa.

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