Continuamos a publicação de cópias que nos foram enviadas, de algumas mensagens endereçadas à GEF, empresa imobiliária responsável pelo prédio da R.António Maria Cardoso. Escreva também para gef[arroba]gef.pt e envie-nos cópia para o email deste blogue: caminhosdamemoria[arroba]gmail.com.

  
À Administração da GEF
Ex.mos Senhores

Não aprecio excessivamente as placas comemorativas, mas aprecio muito menos as construções imobiliárias, por mais belas e confortávies que sejam, destinadas a uns quantos, nos sítios mais significativos das cidades, onde todos os que fazem essas cidades, se quisessem, poderiam viver, mas não podem.

Acho que a memória se constrói e destrói todos os dias de forma digamos que «natural», mas que há formas de a destruir ou reduzir) prepotentemente, o que só podem fazer aqueles que têm ou julgam ter poder, em nome de um futuro fabricado para esses mesmos «uns quantos» que poderão viver, se quiserem, nas zonas a que só uns podem ter acesso, e não todos, como o dia indicado na placa em questão parecia apontar  – e apontava mesmo.

Por isso me indigno quando acontece que, para uns quantos terem lucros que não consigo avaliar, e uns quantos (os mesmos ou outros) terem vidas que julgam melhores (e que não o serão necessariamente), isso se faça à custa do esquecimento (ou desvalorização) de coisas que houve (e não foram inventadas), bem diferentes das lembranças obrigatórias das dívidas aos bancos e ao fisco, mais ou menos necessárias para habitar nos lugares melhores.

Ou seja, que, neste caso, se passe um risco fácil sobre mortes (retirando ou deslocalizando uma placa), mortes que não aconteceram por acaso. Mortes de gente que queria que a História desse um salto e, com a morte, deixou de o poder querer. Mortes com autor, feitas por gente que não queria mudar a direcção da História passada, que era indubitavelmente a da opressão, do silêncio, do martírio, da pobreza.
De que parecia termo-nos vistos livres. Mas que, com gestos «ligeiros» como este, parece tentar regressar.

Será que os lucros (de quem vive disso) diminuem necessariamente só porque se «alivia» a via pública, mudando de lugar uns nomes e uns factos, que para muitos outros (que não vivem dos lucros) são determinantes do que vivem há mais de 30 anos e do que outros (mais novos) começaram (com dificuldades várias) a viver?
Eduarda Dionísio

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