Conheci um grande artista quando ainda estava circunscrito a um cubículo comercial que lhe aperreava o talento. Refiro-me a um dos grandes fotógrafos portugueses tardiamente revelado e que, ainda depois, derramou talento como camara man no cinema e na televisão: Augusto Cabrita (1923-1993).

Quando miúdo, vivendo no Barreiro, volta e meia tinha de ir tirar as tais fotografias tipo passe. Não tinha escolha de fotógrafo. A família toda era “obrigada” a recorrer a um que tinha estabelecimento montado, um pequeno estúdio fotográfico, junto à Sociedade Os Penicheiros. Questões velhas de amizades entre famílias com afinidades. Eu lá ia, tinha que ser, por obrigação e sem qualquer gosto, molhando constantemente a mão e passando-a pelo remoinho no alto do meu cabelo rebelde para ficar o menos mal possível no retrato de obrigação. O fotógrafo era o Senhor Cabrita. Ele tratava-me simpaticamente e procurava pôr-me à vontade, trocando impressões cúmplices sobre como iam as coisas no nosso Barreirense, então a jogar na primeira divisão. Era um homem de riso aberto e com um olhar que se via que estava para além do pequeno estabelecimento onde ele ganhava a vida e que fora montado pelo seu pai. Enquanto vivi no Barreiro, nunca recorri a outro fotógrafo que não fosse o Senhor Cabrita. Soube depois que, enquanto artista, ele exercitava, em privado, outros talentos ligados à música, sobretudo tocando piano, inclinação que partilhava com a sua irmã Dulce que vim a conhecer mais tarde, uma economista, bibliotecária e Mezzo-Soprano (tendo ilustrado, magnificamente, com a sua espantosa voz, obras de Lopes Graça), casada com o jornalista e escritor Dinis Machado.

Mas o Senhor Cabrita, melhor dizendo – Augusto Cabrita, galgou espaços para além da sua “lojeca” barreirense e do mundo das fotografias tipo passe e de casamentos e baptizados, desatou a fotografar por aí fora, tornou-se reconhecido, começou a recolher prémios e a tornar-se famoso. Fez nome no cinema (foi o responsável pela imagem do Belarmino de Fernando Lopes) e na televisão, através de inúmeras reportagens, sobretudo as associadas à guerra colonial. De “fotógrafo” passou a Artista. Foi um dos melhores fotógrafos portugueses de todos os tempos e terminou a sua carreira com direito ao tratamento reverencial de Mestre Augusto Cabrita. Tinha, sobretudo, um enorme talento a captar rostos e enquadramentos paisagísticos e sociais. Sem as fotografias dele sobre o “velho” Barreiro, dificilmente a memória da urbe e suas pessoas que enquadraram a maior concentração industrial portuguesa de todos os tempos teria sobrevivido, incluindo a transição de uma aldeia ribeirinha de moleiros, pescadores e fragateiros para a via da modernidade e da industrialização, pelos caminhos de ferro, pela indústria corticeira e, finalmente, pelo gigante industrial que foi a CUF e que foram transformando o Barreiro na maior vila operária portuguesa.

Demorou mas chegou o tempo da minha vaidade juvenil de apregoar aos quatro ventos, para me pôr em bicos de pés face aos do meu tamanho e igualha, quando Augusto Cabrita começou a alastrar a sua fama, de informar as minhas tribos escolares que aquele senhor, agora Mestre, era quem me tirava os retratos para os bilhetes de identidade e cadernetas onde me registavam as gazetas às aulas.

 
Imagem: Uma das fotografias de Augusto Cabrita. Regista o tempo do advento da televisão, em meados dos anos 50 do século XX, um bem escasso que se via sobretudo nos cafés e que, em momentos especiais, provocava ajuntamentos urbanos.

 
(Texto publicado no blogue Água Lisa)

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