(Fundação Mário Soares)

 
Bem a propósito do 48º aniversário do Golpe de Beja (ontem), este texto de JHS e os excertos do documento agora divulgados.

 
Um texto de José Hipólito dos Santos (*)

 
Há dias, remexendo em velhos papéis guardados no fundo dum armário, saltou aos meus olhos um conjunto de folhas agrafadas tendo como título “Viagem Secreta a Portugal”. Era um texto de que não mais me lembrara, ou que tinha considerado definitivamente perdido, que me fora dado por Arajaryr Campos a secretária/companheira do General Humberto Delgado.

Um dia, em Julho de 1964, em Argel, recebi um recado do General Delgado convidando-me a ir tomar um refresco na sua vivenda, no interior do Palais du Peuple, residência oficial do Presidente da Argélia Ben Bella.

Eu fora um dos cinco promotores da sua ida para Argel, além de ser o presidente da JAPPA – Junta de Acção Patriótica dos Portugueses da Argélia, mas pretendia sobretudo conversar comigo como participante no Movimento de Beja.

Falámos um pouco sobre as tensões na Oposição portuguesa na Argélia e das dificuldades dos portugueses exilados. Nenhum de nós estava interessado, então, em aprofundar a natureza dessas tensões que viriam, algumas semanas depois, a transformar-se em rupturas graves.

O que se passara com o assalto ao quartel de Beja, que fazia parte dum projecto seu de carácter insurreccional com militares e civis que adeririam em cascata, continuava a estar no centro das suas reflexões.

Interessou-se particularmente pela maneira como eu tinha estabelecido a ligação entre os civis de Manuel Serra e os militares de Varela Gomes, ligação essa que constituía a base de todos os seus projectos.

Mas o General, sem esconder a grande decepção com o falhanço daquela tentativa revolucionária, atrasando o seu desejo de libertar Portugal da ditadura, pôs-se a contar como entrara em Portugal, para dirigir o Movimento de Beja, como se escondera, depois de constatar que tudo estava perdido, e como finalmente saíra de Portugal, rompendo as malhas duma repressão sem precedentes, em todo o país. Arajaryr tinha sempre um complemento na evocação desses episódios e um comentário picante contra a PIDE que se deixara ludibriar várias vezes. O General teatralizava alguns episódios, como quando fora obrigado a sair do comboio, em Barca d’Alva, para mostrar o passaporte ao PIDE. Fingindo sofrer de perturbações nervosas que lhe provocavam esgares fisionómicos e algum descontrole de mãos e braços, postou-se face ao agente da PIDE que não tinha coragem para o encarar e carimbou o passaporte com a maior rapidez!

Relatavam tudo isso com uma certa satisfação, por vezes, dando umas gargalhadas e consideravam que a PIDE era menos competente do que se pensava, nomeadamente os activistas políticos da Oposição.

A festa do reencontro do General e de Arajaryr, que viajara por Vilar-Formoso, fez-se em Madrid, sancionado por uma fotografia que depois exibiram publicamente.

Entretanto, Arajaryr levantara-se para ir buscar um documento, escrito por si, que intitulou VIAGEM SECRETA A PORTUGAL, o tal documento que reencontrei.

O que a seguir se transcreve são trechos desse texto, que traz elementos de reflexão sobre a personalidade do General e sobre erros cometidos, de que viria a pagar uma pesada factura. Mas a responsabilidade da Oposição, toda ela, foi muito grande no pagamento dessa factura.

 
VIAGEM SECRETA A PORTUGAL

Por Arajaryr Campos (Secretária do Gen. Humberto Delgado)

– I –

Saí de Casablanca no dia 24/12/1961 (domingo), véspera de Natal, às 10 horas da manhã, de avião, com destino a Madrid.

O General Delgado tinha partido para Ceuta, dois dias antes, ou seja em 22/12/61. Continuei no Hotel de Casablanca até o dia 24 para despistar a polícia marroquina e também a PIDE, (…).

Parte da minha bagagem era constituída por documentos importantíssimos a respeito do plano de operações e que teriam de voltar ao Brasil. Eram e são históricos. Foi este o motivo da minha ida a Madrid. Deixei em casa de uns amigos a mala que continha tais documentos pois era arriscado entrar com eles em Portugal, e segui nessa mesma noite (24/12/61) para Sevilha, ponto de encontro com o General HD.

(…) quando nos separámos, além de termos combinado um possível hotel para encontro, cada um de nós, todos os dias estaria ao meio dia e às sete horas da noite exactas em frente à Catedral e à Giralda a ver se o outro estava.

Cheguei a Sevilha no dia 25/12/61 (dia de Natal). Fui para o hotel combinado – o Florida – e qual não foi a minha decepção: não havia lugares. Marchei para um outro que também havia sido cogitado – Hotel Don Marco, que afinal é uma pensãozita e lá fiquei hospedada aguardando indicações.

Ao meio-dia dirigi-me à Giralda. Circulei em torno da Catedral e do histórico monumento durante uns 25 minutos. Nada. Pensei: Será que o General foi agarrado? (…) voltei ao hotel à espera das sete horas da noite (…) Fiz a ronda durante uns 30 minutos. (…). Trágico momento. (…) Rumei para o hotel e afim de não pensar em coisas tristes, resolvi deitar-me. (…).

Às 21 h toca o telefone e, do outro lado, escuto a voz do General. Os olhos encheram-se de lágrimas, de alegria incontida (…)

Cabe dar um esclarecimento aqui: o General deveria ter chegado primeiro mas perdeu o barco em Ceuta por causa da fila de carros para o Natal, e teve que esperar por outro dois dias, (…).

No dia seguinte, logo pela manhã, saímos para contactar pessoas que talvez conseguiriam levar o General através da fronteira portuguesa, clandestinamente, como ele preferia. Teriam que ser comprados burros pois as pessoas não os alugam já que podem ficar em Portugal mortos pelas balas da Guarda-fiscal. Infelizmente essas pessoas não puderam fazer nada devido ao medo (…) a que ficou encarregada de arranjar 3 cavalos (…) desistiu desse intento. Perguntou-me se caso o General tivesse que partir pela fronteira aberta eu o acompanharia. Respondi que sim, fosse qual fosse a maneira. (…) Se ele desaparecesse havia uma pessoa que saberia e iria dizer ao Mundo – eu. Às 22h 30 regressamos ao hotel, já com a decisão de que marcharíamos – o General e eu – por ROSAL DE LA FRONTERA, por autocarro (onibus) às 6h da manhã do dia seguinte.

(…) Com o coração na mão, seguimos viagem para Lisboa. Que viria a acontecer como epílogo desta arrojada, para não dizer heróica, decisão do General? Realmente, se preso pela PIDE, nunca mais teria liberdade pois pagaria por todos os “crimes” (…) e até o de Santa Maria, de que tomou a responsabilidade a despeito de o navio ter vindo fazer reclame para o Brasil, em vez de ir criar uma guerra na África, conforme os planos que o General aprovou e foram modificados.

(…) chegámos a ROSAL DE LA FRONTERA. Nossos passaportes já tinham sido entregues ao condutor do onibus, (…) éramos só três passageiros: um português – o General, um espanhol e uma brasileira.

Seguimos para a fronteira portuguesa – FICALHO. (…) avistei a palavra “P O R T U G A L”. Fiquei gelada de medo, mas calma na aparência. Olhei para o meu “tio” e perguntei: o General está calmo? Estendeu a mão esquerda horizontalmente e esta não fazia o menor gesto de tremura. (…) mantinha uma calma de arrepiar. Estivemos 50 minutos parados a dez passos da PIDE – dentro do onibus espanhol – à espera que chegasse o carro português e que nossos passaportes fossem devolvidos.

Quando os passaportes nos foram entregues, (…), ainda faltava ir à Alfândega, abrir as malas. Na minha estavam vários documentos do General e a sua farda com a dúzia de medalhas (…).

Veio a ordem para mudar para o onibus português. Perguntei ao motorista se era preciso passar pela Alfândega. Respondeu-me (…) tínhamos sido dispensados.

(…) Que polícia tão ingénua que deixa escapar a presa mais cobiçada de Salazar. Cabe ao ditador dar-lhes o devido castigo. (…) Só trabalham bem à custa da denúncia. (…)

– II –

Chegámos a Lisboa às 19h e ficámos hospedados na Pensão S. Jorge. Saímos imediatamente para falar a pessoa que teria de arranjar lugar seguro (…)

Apresentei-me sozinha a essa pessoa dizendo que estava à sua espera um emissário do General. (…) A pessoa, embora Delgado estivesse a 100m e de costas, reconheceu-o (…) Que abraço lhe deu! Que satisfação! E como estava comovido!

O General dissera “EU VOLTAREI” e voltara! Cumprira a sua palavra.

Combinámos que no dia seguinte às 22h iriam buscar-nos (…) E qual não foi a surpresa nesse dia! Era a data marcada para a revolta. (O intermediário estava em curto circuito. Na véspera não sabia). O General com toda a sua virilidade e bom humor disse, com a maior calma, como se fosse cear: “Magnífico. Pois vamos ao touro e já. Até que enfim!” E assim rompemos o Ano Novo a caminho de Beja.

Rondámos a cidade durante uns 40 minutos e, para nossa admiração, estava tudo na mais perfeita calma. Pensei comigo: ainda não é desta vez. O General também começou a desconfiar. De repente a polícia mandou-nos parar. O General porém deu ordem abrupta para não pararmos. Seguimos em marcha lenta e não obedecemos ao aviso. Na primeira curva o choffer deu toda a velocidade que podia e, dentro do nervosismo, até já estávamos a caminho de Espanha! Voltámos para traz e fomo-nos esconder numa aldeia pequena. As circunstâncias obrigam-me a esquecer o nome…

Ali estivemos escondidos dois longos dias. Dormíamos num sótão e eu cozinhava para todos numa fogueira no solo ou em fogareiro de carvão. Que tragédia para quem nunca viu uma casa de aldeia portuguesa. Que triste espectáculo para quem nunca presenciou tanta miséria!

(…) Na noite do dia 2, pelas 22h 30 seguimos para o Porto numa velocidade louca (…). As 10h do dia 3 estávamos preenchendo as fichas da pensão Avis. (…) Tratei dos primeiros contactos afim de arranjar casa para o General ficar mais seguro e no dia seguinte (4/1/1962) pelas 17h 30 desci à portaria e comuniquei que deixaríamos a pensão às 17h 50.

(…) O General foi para uma casa e eu para outra (…)

Escutei os mais diversos boatos inclusive o de que o General estava vestido de peixeira no Porto e que a sua cabeça estava a prémio. Quando alguma pessoa ia à minha procura e eu não estava em casa, ficava escandalizada, tal a “minha coragem” de andar na rua – diziam-me.

No domingo, dia 7, recebo um recado do General para eu ir a Lisboa tratar de um assunto (…) parti no trem “Foguete”. Às 18h 30 desse dia já estava na Av. da Liberdade. Era a mesma que dias atrás (31/12/61) o General tinha descido e subido a pé, à noite, (…)

Tratei dos assuntos e regressei ao Porto nesse mesmo dia pelo lento trem das 22h 50. Cheguei à gare, comprei a passagem e uma revista portuguesa. De repente um homem de sobretudo e óculos escuros, encara comigo e segue-me até ao vagão de 1ª classe (…) Tive a sensação de ter sido descoberta pela PIDE. E se me revistasse? Como explicar o que trazia dentro de uma sacola? (…)

Cheguei ao Porto às 7h 30 da manhã. Rumei para casa de táxi, com os olhos fitos na retaguarda. Nada. Escapei. (…)

Ultimamente os correligionários não queriam que eu soubesse onde estava alojado o General pois achavam que eu também podia ser da PIDE… Tem seu quê de cómico e triste a Oposição Portuguesa depois de 35 anos de esmagamento. (…) Dou-lhes desculpa dada tanta traição que têm tido, da última vez com o grupo Galvão que denunciou a preparação da revolta nos jornais brasileiros, (…)

No dia 9 o General mandou chamar-me para decidir a nossa saída do país. Era arriscado sair juntos (…) Tinha entrado com o meu nome verdadeiro e era obrigação da polícia saber que eu era secretária do General, tendo um nome que deve ser único no Brasil – ARAJARYR.

Ficou resolvido que eu partiria no dia 10 para Madrid, por Vilar Formoso, de trem. Se eu estivesse sendo seguida, a PIDE pensaria logo que a sua “presa” seguiria a mesma via… O General no entanto saiu por Barca d’Alva através a mísera estrada de ferro do Douro. No dia 11 teve de passar no escritório da PIDE antes de tomar o trem (…) Duas vezes ludibriada!!!!

Apanhei a ligação para Madrid no Entroncamento, (…) Minutos depois bate na minha cabine um português – por sinal simpático. Olhava o passaporte, a minha cara, os Visas. De repente disse: eu sou da polícia portuguesa. (…) – Então é brasileira? Vem de Casablanca. E fica tão pouco tempo em Portugal? – Claro, a vida na sua terra é tão cara que não há quem aguente. – Gosto muito de conversar com as brasileiras.

(…) Cheguei a Madrid na manhã do dia 11 de Janeiro. Fui buscar os documentos confidenciais que havia deixado e hospedei-me no Hotel Florida.

Às 7h 30 da manhã do dia 12 recebo o telefonema do General Delgado. Tinha chegado e hospedara-se no mesmo hotel. (…)

Pouco depois rumámos para Casablanca, Dacar e o meu adorado Brasil.
(…).

 
(*) Biografia de José Hipólito dos Santos

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