
Tenho colaborado neste blogue com inúmeros testemunhos sobre os crimes cometidos pela PIDE/DGS. O tempo passa, escrevemos, falamos, e não se esgotam as más memórias. Foi exactamente no lugar onde agora se ergue este condomínio de luxo – indecorosamente (provocatoriamente) designado por “Paço do Duque” – que, durante décadas, se concentraram as forças “nacionais” da tenebrosa polícia política do regime de Salazar e Caetano. Era ali que, diariamente, 24 horas em 24, interrogavam, ameaçavam, espancavam, torturavam cidadãos que iam buscar a todo o país, acusando-os das suas ideias democráticas ou da prática de uma outra religião diferente da católica (como foi com as “testemunhas de Jeová de Almada”, em 1968). Pela noite dentro, chegavam carrinhas com homens, mulheres e, quantas vezes, crianças que os acompanhavam (tive na minha cela de prisão uma companheira que esteve sempre, meses, com um filho de 2 anos). Os directores, os inspectores, agentes e informadores agitavam-se num vaivém sem fim, de subidas e descidas, de entradas e saídas de carros, de mudanças de turno e de interrogatórios.
A sua sanha criminosa foi levada até ao fim e, por isso, ali caíram fuzilados quatro jovens, nossos irmãos na esperança da Democracia. A placa removida pela empresa de gestão imobiliária GEF é um modestíssimo testemunho da nossa memória.
Foram muitos milhares os portugueses que ali permaneceram noites e noites, submetidos à tortura do sono – às vezes, impedidos de se sentarem – e alguns deles ainda se emocionam quando passam naquele local. Estou entre esses. Não evoco o meu passado de resistente anti-fascista para reclamar a reposição imediata desse pequeno rectângulo em lugar condigno, ou para reclamar a edificação de um memorial. Mas lembro-me daqueles que já partiram e penso que a sua memória o exige. E exige respeito. Respeito que passa, também, pelo recato, pela discrição: a empresa imobiliária do “Paço do Duque” devia ter tido o bom senso do recato na publicidade que faz dos apartamentos de luxo. Não teve. Devia, ao menos, respeitar o compromisso assumido com o NAM e colocar a placa em sítio visível. Esperemos.
Não se queira trazer para o imaginário lisboeta uma história de sonhos, apagando uma história nacional de pesadelos. O meu pesadelo acabou no dia 25 de Abril, o destes senhores pode não ter ainda começado. Tenho setenta anos e muito respeito pelo Estado democrático, mas “com a história como horizonte” (tal como refere o site de publicidade do condomínio) olho aquelas reluzentes paredes exteriores e vejo o encarnado dos pingos de sangue que manchavam as paredes das salas de interrogatório.
Quarta-feira, 30.Dez.2009 at 12:12:01
[…] Exmos senhores: Acabo de deixar no endereço que abaixo refiro uma carta aberta que vos é dirigida, de que extraio apenas algumas poucas palavras que vos envio neste mail. Escrevi-a com indignação pelo acontecido, sob a vossa responsabilidade, num espaço simbólico da memória recente do nosso País. Sendo embora pesada a sua história, deve ser recordada. O Paço do Duque foi erguido sobre escombros da ditadura. Os quatro jovens mencionados na placa nunca chegaram a saber o que era viver em Democracia. Foram muitos milhares os portugueses que ali foram interrogados e torturados, que permaneceram noites e noites submetidos a espancamentos e a torturas. Alguns deles ainda se emocionam quando passam naquele local. Estou entre esses. Não evoco o meu passado de resistente anti-fascista para reclamar a reposição imediata da placa em lugar condigno, ou para reclamar a edificação de um memorial. Mas lembro-me daqueles que já partiram e penso que a sua memória assim o exige. E exige respeito. Respeito que passa, também, pelo recato, pela discrição: a empresa imobiliária do “Paço do Duque” devia ter tido o bom senso do recato na publicidade que faz dos apartamentos de luxo. Não teve. Devia, ao menos, respeitar o compromisso assumido com o NAM e colocar a placa em sítio visível. Vamos esperar. P.S. O endereço referido é este […]
Sexta-feira, 01.Jan.2010 at 09:01:56
Mas a PIDE/DGS existiu? Não é isso que os revolucionários de 25ABR pretendem? Até Salazar qualquer dia passa a guarda-portão do Palácio de S. Bento.